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O justiçamento do guerrilheiro Márcio Leite de Toledo

O justiçamento do guerrilheiro Márcio Leite de Toledo

Foi só o ex-guerrilheiro da ALN, Carlos Eugênio Paz, contar em depoimento na novela Amor e Revolução que tinha assassinado o empresário Henry Boilesen (presidente da Ultragás que financiava a tortura no Brasil) que a extrema-direita, representada pelos blogueiros da VEJA, ficou em polvorosa. E para destruir a reputação da Esquerda Armada lembrou de um episódio polêmico ocorrido em março de 1971: o justiçamento de Márcio Leite de Toledo. O fato é verdadeiro, ele foi morto por Carlos Eugênio depois que num tribunal revolucionário os militantes da ALN decidiram executá-lo por suspeita de traição. Como esse blogue foi criado para limpar o esgoto que os militares de pijama e os neo-reaças espalham pela internet, vou postar abaixo opiniões diferentes sobre o assassinato e um vídeo com a entrevista do irmão de Márcio Toledo. Que nossos leitores tirem suas próprias conclusões.   

 

Carlos Eugênio conta como a ALN decidiu fazer o “justiçamento”

UM GRUPO-DE-FOGO sai para roubar um carro, a ação é bem-sucedida, vão trocar as placas num terreno baldio no Alto da Lapa. A entrada é numa rua de terra, estreita e fácil de guardar, um combatente, apenas, assegura rota de fuga para todos. Mário [Márcio Leite de Toledo] treinou em Cuba, atira bem, é escalado na metralhadora, os companheiros se entretêm na tarefa, seguros, não percebem a chegada dos tiras, o alarme não foi dado, a arma não disparou. Perdem o carro, escapam ilesos graças à disposição para o combate, Mário sai correndo sem atirar, abandonando-os à própria sorte.

— Vacilou pela segunda vez, não pode haver uma terceira, está fora de ação, vamos pensar o que fazer, talvez seja melhor que saia do país, assim terá condições de escolher o melhor para seu futuro.

— Eu não vacilei, foi uma escolha, era melhor não combater...

— Não se defenda, o combinado era atirar nos tiras, retendo-os, e correr para os carros, nos quais os companheiros, alertados pelos disparos, estariam prontos para dar cobertura até que entrasse e pudessem fugir. Arriscou a vida dos três, vai ficar afastado, sob o controle de Célio [José Milton Barbosa], terá tempo para pensar, fazer sua autocrítica e decidir se prefere uma reintegração progressiva ou a partida para o exterior.

Anos e anos, dogmas e drogas depois, carrego as culpas, sofro calado, sozinho, tento entender, lambo as feridas, ouço versões falsas de vivências minhas, testemunha privilegiada de uma saga, a dos que não se calaram. Dependo da seringa, dependo da brasa, da sorte, da adrenalina, do acaso que protege meu sono na praça, da coragem de uma confissão. Mário está no fim do túnel, atrás dele, a luz...

A anestesia perfeita do início perdeu espaço para a culpa e as dores de todos os portes e origens. Meu bunker,fortaleza à prova de males, assaltado pelos fantasmas, não resiste, a química é milagre tênue, a vida sempre se afirma, no prazer ou no sofrimento. Preciso de ajuda... tenho de transpor Mário, chegar à luz, sair de meu túnel, largar a seringa, apagar as brasas, deixar meu fusca e viver, ainda que seja até o próximo ponto... Encarar a violência, os erros, o que cometemos de pecaminoso e não glorioso é o dilema eterno dos que vivem, não é privilégio meu. Mário dói na consciência de todos, cada um assume do seu jeito, negação e afirmação fazem parte da mesma realidade, da mesma dinâmica, não adianta esconder. Marcar a hora da morte de alguém é um poder terrível que não deve ser concedido a ninguém, independentemente do uso.

MUITAS REUNIÕES são feitas em nossos fuscas, decisões importantes são tomadas enquanto vamos de um bairro a outro, desviando-nos das rotas e das camionetas Veraneio com uma anteninha em cima, sinal de Operação Bandeirantes. Eu [Carlos Eugênio], Tato [Paulo de Tarso Celestino] e Altino [Iuri Xavier Pereira] participamos de muitas delas, hoje coloco na mesa a questão mais importante do dia.

— Célio informou que Mário quer se desligar da Organização, nos acusa de isolá-lo por motivos políticos, diz que não reconhece o vacilo, não tem motivos para sair do país e vai procurar uma organização que o queira. Urge tomar uma decisão a respeito, o companheiro conhece esquemas, pode nos prejudicar seriamente, fugiu quando Diogo [João Câmara ferreira, o Toledo] caiu e repetiu a dose em ação. Para se desligar, deve aceitar nossas exigências e viajar, é a maneira correta. Ele nega, mas sabemos que está abalado pelas dificuldades da luta, que é bem diferente de um treinamento em Cuba. Caindo com o estado de ânimo que apresenta e sem controle direto nosso, seria uma catástrofe.

A traição de Silvério pesou, a perda de Diogo era recente, o cerco se via e se sentia, a sensação de impotência diante dos ardis do inimigo nos empurrava para o desenlace trágico.

MESMO FUSCA, agora abrigando outra reunião, com Célio, Hermes [Antônio Sérgio de Matos] e Marcela [Ana Maria Nacionovic], componentes de nossa Coordenação de São Paulo, transmito a decisão fatal:

— Vamos executar Mário... ele é um perigo para a Organização, está vacilando e não admite sair do país, escondendo suas fraquezas atrás de supostas divergências políticas. Preferimos assumir essa responsabilidade a correr o risco de vermos mais companheiros caindo e morrendo porque não fomos rígidos em nossa atuação, não levamos em conta as leis da guerra. Ë uma ação de sobrevivência, não nos trará glórias, nem conseguiremos jamais saber se foi ou não acertada, simplesmente os tempos exigem...

Hermes e Marcela apóiam a execução, Célio está de acordo, passa o ponto com Mário e pede para não participar. Um comando é designado, os componentes fazem pacto de silêncio, o ato mais polêmico da história da ALN é cometido. Assumimos publicamente, por meio de um comunicado espalhado nas ruas, não temos o que esconder, acertamos e erramos com sinceridade.

Há instantes tão decisivos que deveríamos ter a eternidade para escolher seus desenlaces...

Espero sentado em frente ao espelho, não posso mais fugi r... farto dos desvios de rota, das drogas, do silêncio, do ruído de vidros quebrando, do gosto amargo na boca. Não agüento mais, preciso de Helena [psicóloga de Carlos Eugênio no exílio] ...

— Foi terrível.., hoje não me interessa se tínhamos ou não razão, quero falar, contar... ajudara que nunca mais um agrupamento de seres humanos tenha direito a tal escolha... já posso me encarar, não importa que outros não assumam comigo, prometi a Felipe [Alex de Paula Xavier Pereira] prestar contas à História... Mário não pode passar por traidor, e os companheiros que tomaram a decisão e executaram a sentença não podem ser conhecidos como frios assassinos políticos que matavam para tomar o poder na Organização. Nossa luta não será relegada a uma aventura inconseqüente que chegou a extremos em conseqüência de esse ou aquele companheiro que fraquejou ou tomou a decisão errada. Se continuamos puros de propósitos, temos que vasculhar tudo, como Fabiano [Carlos Marighella] me recomendou, revolver a lama e o lodo, para entendermos os fatos numa dimensão histórica, não para acusar. Meu amigo Jorge, o único que olhou em meus olhos, falou preocupado... “Não devia ter contado, ninguém vai ficar do seu lado, vão cruciflcá-lo...’ mas sei que é porque não viveu Fabiano, não conheceu Felipe, nem Marcela, Altino, Rafael [Eduardo Collen Leite, o Bacuri] e todo o meu mundo, não pode entender a profundidade dos compromissos... Quando o jornalista me mostrou a reportagem com as versões equivocadas,foi um choque, voltei àqueles tempos, não pensei em ninguém mais, só meus companheiros importavam, tinha que falar a verdade. Afinal, por que não praticá-la no dia-a-dia, se a pregamos nos palanques e nas portas das fábricas? Fabiano e Diogo me ensinaram por outra cartilha, não assumirei o papel de vítima,fomos combatentes de uma causa justa... contra as armas, a opressão e a tortura, usamos a violência dos oprimidos e fomos derrotados. Cometemos nossos erros, temos que reconhecê-los e aprender com eles. Renunciar a isso é um pecado que não cometerei, estaria traindo... Hoje me estendi no terreno da política, Helena...

— Há emoção, se trata da alma...

PAZ, Carlos Eugênio. Viagem à Luta Armada: memórias romanceadas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

 

ANOS DE CHUMBO: UM 'JUSTIÇAMENTO' EQUIVOCADO – 1

Por Celso Lungaretti

Como o assunto acaba de voltar à baila, reproduzo o artigo que lancei em 26/11/2008, quando Augusto Nunes, colunista da Veja, apresentou a visão direitista de um justiçamento equivocado da ALN

ANOS DE CHUMBO: OS MORTOS CONVENIENTES... E OS OUTROS

Meu ex-colega de ECA/USP, Augusto Nunes, escreveu sobre um militante da ALN executado por seus companheiros em 1971:

Foi um erro terrível? Foi, claro. Nenhum verdadeiro revolucionário pode admitir que, mesmo durante uma luta de resistência à tirania, decisão tão extrema seja tomada enquanto perdurar a mínima dúvida sobre a culpa do acusado.

Quanto a justiçamentos em regime democrático, são simplesmente inconcebíveis e inaceitáveis. Ponto final.

Chocou-me, principalmente, saber que Márcio Leite de Toledo não teve o direito de se defender no tribunal revolucionário convocado para julgar o seu caso. Continuou cumprindo normalmente suas tarefas de militante, alheio ao que estava ocorrendo. Depois, foi emboscado e morto.

É óbvio que poderiam tê-lo convocado para o julgamento, dando-lhe a oportunidade de pronunciar-se sobre as suspeitas (não certezas) que havia contra ele. É como minha organização, a VPR, certamente procederia.

Mas, não se pode omitir, como Nunes faz, a situação catastrófica que a ALN vivia nos estertores da luta armada, tendo seus quadros dizimados dia a dia, já que a ditadura partira para o extermínio sistemático dos quadros da resistência.

A VPR não quis acreditar que o cabo Anselmo fosse espião e pagou um preço altíssimo por isto.

A ALN executou quem não era espião, mas parecia ser (acreditava-se que ele tivesse entregado à repressão Joaquim Câmara Ferreira, causando sua morte).

Trata-se de ocorrências deploráveis, mas recorrentes, nas lutas travadas em circunstâncias dramáticas, contra inimigos muito mais poderosos, como foram os casos da resistência ao nazi-fascismo na Europa e ao totalitarismo de direita no Brasil.

Márcio Leite de Toledo indubitavelmente merece as lágrimas por ele derramadas.

Mas também as merecem os revolucionários que sofreram torturas atrozes e depois foram abatidos como cães, em aparelhos clandestinos da repressão como a Casa da Morte de Petrópolis (RJ). Foi onde evaporaram meus queridos companheiros José Raimundo da Costa e Heleny Ferreira Telles Guariba.

E é repulsivo perceber que as tribunas da grande imprensa estão escancaradas para artigos como esse, mas blindadas contra os que evocam os episódios igualmente dramáticos dos companheiros que foram martirizados pelo regime militar.

A mídia anda burguesa como nunca. Recebendo, às vezes, uma pequena ajuda de esquerdistas que não tiveram coragem de pegar em armas quando esta era a única opção que restava, sob o festival de horrores do AI-5.

Continuam despeitados até hoje, por não terem ousado ir até onde fomos. E tudo fazem para desmerecer nossa luta.

 

ANOS DE CHUMBO: UM 'JUSTIÇAMENTO' EQUIVOCADO – 2

Uma visão de esquerda do mesmo episódio acaba de ser dada por Renato Martinelli, que foi companheiro de militância de Márcio Leite de Toledo na ALN e é autor do livro Um grito de coragem - memórias da luta armada. Reproduzo seu artigo naíntegra.  E, se Carlos Eugênio da Paz, por ele criticado, quiser replicar, o espaço será também concedido, evidentemente.

 

O ASSASSINATO DE MÁRCIO,

REVIVIDO APÓS 40 ANOS

 

A ALN supôs que Márcio Leite fosse culpado da

cilada contra Marighella... mas estava errada.

Márcio Leite de Toledo foi assassinado na tarde do dia 23 de março de 1971, há mais de 40 anos, quando atraído para uma cilada preparada por aqueles que até então julgava seus companheiros.

A iniquidade cometida contra o militante da ALN, ocorreu após alguns meses da traição de José da Silva Tavares, que levou à prisão, tortura e ao assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, sucessor de Carlos Marighella no comando da organização revolucionária que combatia a ditadura, instaurada pelas elites brasileiras, com o apoio dos Estados Unidos, em 1º de Abril de 1964.

Em 23 de março de 1971, Márcio compareceu ao fatídico “encontro” de peito aberto, certo de que era a oportunidade que estava aguardando para colocar na mesa e quiçá resolver as divergências até então existentes entre ele e os “companheiros do comando”; tratamento que consta em um texto recuperado, no qual Márcio expõe as suas críticas e divergências com a direção da ALN.

Marighella foi assassinado em 4 de novembro de 1969, quando atraído pela repressão para um “encontro”; Câmara Ferreira foi assassinado no dia 23 de outubro de 1970, igualmente atraído para um “encontro”.

Valorosos companheiros e companheiras foram assassinados pelos agentes do sistema de repressão organizado pela ditadura; muitos deles quando atraídos para um “encontro”.

Márcio Leite de Toledo, igualmente foi assassinado, vítima de um erro stalinista, disseram-me à época, quando compareceu a um “encontro”, só que ao invés de atraído pela repressão assassina, desta vez, o foi por um grupo de companheiros comandados por Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, então com 20 anos de idade.

O mesmo Carlos Eugênio, o “último comandante militar da ALN”, como é literalmente denominado na recente entrevista, hoje com 60 anos de idade, reitera os mesmos injustos e infundados argumentos cometidos no passado, através da declarada certeza sobre as futuras, portanto supostas atitudes do companheiro Márcio, caso não tivesse sido executado.

Eugênio, assombro-me, como que ungido da capacidade de prever o futuro, afirma textualmente em sua recente entrevista:  “Preferia que não tivéssemos precisado chegar a esse ponto, mas tenho certeza que os danos seriam maiores se houvesse hesitado”.

Afinal..., pergunto: A quais benditos futuros danos está se referindo o entrevistado na sua absurda previsão!?

Que grande lástima, que falta de respeito à vida e à memória de Márcio Leite de Toledo, um militante de primeira hora da ALN, um denodado combatente da luta do povo brasileiro contra a ditadura civil-militar, instaurada no país em 1964.

Fonte: Blog Náufrago da Utopia

 

Alfredo Sirkis (ex-guerrilheiro da VPR) contou sua opinião sobre o assassinato de Marcio Toledo no livro Os Carbonários

No Rio, por aqueles dias, caía a VAR e o PCBR. Tinha desaparecido o “Breno”, Carlos Alberto Freitas, principal dirigente da primeira. O BR, por sua vez, sofria séries de quedas misteriosas. Tínhamos perdido contato com eles. Buscávamos os sobreviventes da co-irmã para dar-lhes um dado dramático. A dupla de ex-marinheiros provocadores, que tinham derrubado a FLN do Cerveira, depois o Bacuri e outros companheiros da ALN, estava em contato com eles. Devia ser a explicação de pelo menos, algumas das suas quedas inexplicáveis.
Mas nem só de DOI-CODI morria a esquerda armada. Também o stalinismo matava, naqueles dias.
Vinha nos matutinos da véspera. Alguns quadros da ALN executaram, em pleno centro de São Paulo; um militante que queria se desligar do grupo.
MárcioToledo foi ao ponto com seus companheiros. Eles o mataram a tiros de revólver e panfletaram as imediações reivindicando o “justiçamento do desertor”.
Quando li a primeira vez, no JB, não acreditei.
— Deve ser coisa do Fleury, disse pro Ronaldo. Ele concordou, só podia mesmo ser coisa do Fleury!
Mas, logo recebemos, por canais orgânicos a confirmação. A ALN reivindicava a execução sumária, que agora provocava uma crise interna na organização. Os detalhes do caso eram patéticos.
Márcio Toledo fora um quadro de direção. Fazia pouco voltara dum treirlamento na ilha, com auréola de super-guerrilheiro, super-quadraço, fama que não deixava de cultivar. Logo, porém, começou a ser rebaixado. Da direção nacional prá regional São Paulo, depois prá simples combatente de grupo de fogo.
Nesses organogramas de minúsculas organizações, em processo de morte, a coisa mais fácil era ascender a postos de comando. Caíam umas tantas direções, por ano. Havia novos combatentesque chegavam ao comando de organizações em poucos meses.
Mas, Márcio Toledo vinha sendo rebaixado e a fama dele na ALN era a pior possível. Cagadas perigosas. Sumiço dos pontos. Tinha comprometido várias ações, inclusive a de um carro-forte da Brinks em que fugiu, logo no inícib da ação, carregando os coquetéis molotovs da cobertura.
Foi sancionado. Reuniões e mais reuniões de crítica e autocrítica. Severas advertências.
Anunciou que queria deixar a organização. Alguns responsáveis militares da ALN, em São Paulo, decidiram que não podia ser. Márcio Toledo conhecia o esquemas de treinamento em Cuba. As rotas de entrada no Brasil. Várias infras urbanas dos grupos de fogo.
Propuseram que ele saísse do país. Não quis. Não era muito procurado e achava que podia se relegalizar e até fazer um trabalho políticos noutros níveis, não ligado a organizações armadas.
Recentemente a ALN tivera um caso de um militante preso que passara a colaborar com a OBAN e fazer clarações pro regime na TV.
A suspeita de que isso se repetiria se instalou nas cucas kagebosas daqueles companheiros: deserção, logo, traição. O processo de intenção deu pena de morte na rua, sem apelação.
O estúpido crime criou uma certa comoção dentro da AL-N. A maior parte dos militantes e mesmo dos quadros de direção, sequer tinham sido consultados. Souberam pelos jornais.
— Foi uma cagada terrível, não tivemos nada com isso garantiam consternados.
Notem bem, consideravam uma cagada, não um crime.
Este era o nível médio de consciência que a esquerda tinha. Na VPR ninguém era a favor. Mesmo lvan achava um erro. Mas um erro porque um “exagero” afinal “o caso não era pra tanto”.
Poucos viam que mais do que um erro, a ser explorado pelo videolhão e pelos demais midias hostis, era também um crime. Um ato contra- revolucionário na mais pura acepção do termo.
Passados uns dias, a morte de Márcio Toledo virou folclore. A mais recente troça nas nossas sessões de humor negro:
— Tá desbundando, é? Então vamos marcar um pontinho lá em São Paulo com o tribunal da ALN (risos).

OBS: “desbundar” era como os guerrilheiros chamavam o ato de pedir para sair da lutar armada, por medo.

Sirkis, Alfredo. Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida. São Paulo: Editora Parma, 1981.

 

O ASSASSINATO DE MÁRCIO LEITE TOLEDO DA ALN

A manhã de 23 de março de 1971 encontrou o jovem advogado de 26 anos, Sérgio Moura Barbosa, escrevendo uma carta, em seu humilde quarto de pensão no bairro de Indianópolis, na capital de São Paulo. Os bigodes bem aparados e as longas suíças contrastavam com o aspecto conturbado de seu rosto, que não conseguia esconder a crise pela qual estava passando.

Três frases foram colocadas em destaque na primeira folha da carta: “A Revolução não tem prazo e nem pressa”; “Não pedimos licença a ninguém para praticar atos revolucionários”; e “Não devemos ter medo de errar. É preferível errar fazendo do que nada fazer”. Em torno de cada frase, todas de Carlos Marighela, o jovem tecia ilações próprias, tiradas de sua experiência revolucionária como ativo militante da Ação Libertadora Nacional (ALN).

Ao mesmo tempo, lembrava-se das profundas transformações que ocorreram em sua vida e em seu pensamento, desde 1967, quando era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e estudante de Sociologia Política da Universidade Mackenzie, em São Paulo. O “Pardal”, como era conhecido, pensava casar-se com Maria Inês e já estava iniciando a montagem de um apartamento na Rua da Consolação.

Naquela época, as concepções militaristas exportadas por Fidel Castro e Che Guevara empolgavam os jovens e Marighela surgia como o líder comunista que vociferava que os levaria à tomada do poder através da luta armada.

Impetuoso, desprendido e idealista, largou o PCB e integrou-se ao agrupamento de Marighela que, no início de 1968, daria origem à ALN. Naquela manhã, a carta servia como repositório de suas dúvidas:

“Faço esses comentários a propósito da situação em que nos encontramos: completa defensiva e absoluta falta de imaginação para sairmos dela. O desafio que se nos apresenta no atual momento é dos mais sérios, na medida em que está em jogo a própria confiança no método de luta que adotamos. O impasse em que nos encontramos ameaça comprometer o movimento revolucionário brasileiro, levando-o, no mínimo, à estagnação e, no máximo, à extinção.”

Esse tom pessimista estava muito longe das esperanças que depositara nos métodos revolucionários cubanos. Lembrava-se de sua prisão, em fins de julho de 1968, quando fora denunciado por estar pretendendo realizar um curso de guerrilha em Cuba. Conseguindo esconder suas ligações com a ALN, em poucos dias foi liberado. Lembrava-se, também, da sua primeira tentativa para ir a Havana, passando por Roma, quando foi detido, em 16 de agosto de 1968, no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Conduzido à Polícia do Exército, foi liberado três dias depois. Finalmente, conseguindo o seu intento, permaneceu quase dois anos em Cuba, usando o codinome de “Carlos”. Aprendeu a lidar com armamentos e explosivos, a executar sabotagens e a realizar assaltos. Em junho de 1970, voltou ao Brasil, retomando suas ligações com a ALN.

Em face de sua inteligência aguda e dos conhecimentos que trazia de Cuba, ascendeu rapidamente na hierarquia, passando a trabalhar junto à Coordenação Nacional. Foi quando, em 23 de outubro de 1970, um segundo golpe atingiu duramente a ALN, com a morte de seu então líder Joaquim Câmara Ferreira, o “Velho” ou “Toledo”, quase um ano após a morte de Marighela. Lembrava-se que, durante cerca de 40 dias, ficara sem ligações com a organização. Premido pela insegurança, não compareceu a vários pontos, sendo destituído da Coordenação. Não estava concordando com a direção empreendida à ALN e escreveu, na carta, que havia entrado “em entendimento com outros companheiros igualmente em desacordo com a condução dada ao nosso movimento.”

No início de fevereiro de 1971, foi chamado para uma discussão com a Coordenação Nacional e, na carta, assim descreveu a reunião:

“Ao tomarem conhecimento de meu contato paralelo, os companheiros do Comando chamaram-me para uma discussão, a qual transcorreu num clima pouco amistoso, inclusive com o emprego, pelas duas partes, de palavras inconvenientes para uma discussão política. Confesso que fiquei surpreso com a reação dos companheiros por não denotarem qualquer senso de autocrítica e somente entenderem a minha conduta como um simples ato de indisciplina.”

Não sabia, o jovem, que a ALN suspeitava que ele houvesse traído o “Velho”.

Com o crescimento de suas indecisões, não aceitou, de pronto, a função que lhe havia sido oferecida, a de ser o coordenador da ALN na Guanabara. Ao aceitá-la, após um período de reflexão, a proposta já fora cancelada. Foi, então, integrado a um “Grupo de Fogo” da ALN em São Paulo, no qual, até aquela manhã, participara de diversos assaltos. Seu descontentamento, entretanto, era visível:

“Fui integrado nesse grupo, esperando que, finalmente, pudesse trabalhar dentro de uma certa faixa de autonomia e aplicar meus conhecimentos e técnicas em prol do movimento. Aí permaneci por quase dois meses, e qual não foi a minha decepção ao verificar que também aí estava anulado… Tive a sensação de castração política.”

Não sabia, o jovem, que a ALN estava considerando o seu trabalho, no “Grupo de Fogo”, como desgastante e “ainda somado à vacilação diante do inimigo”, acusado de ter fugido da polícia quando estavam trocando as placas de um carro roubado.

No final da carta, Sérgio, mantendo a ilusão revolucionária, teceu comentários acerca de sua saída da ALN:

“Assim, já não há nenhuma possibilidade de continuar tolerando os erros e omissões políticas de uma direção que já teve a oportunidade de se corrigir e não o fez. Em sã consciência, jamais poderei ser acusado de arrivista, oportunista ou derrotista. Não vacilo e não tenho dúvidas quanto às minhas convicções. Continuarei trabalhando pela Revolução, pois ela é o meu único compromisso.”

Ao pé da carta, assinava “Vicente” e não “Mário”, codinome este que havia passado a usar depois de seu regresso de Cuba.

Terminada a redação, pegou o seu revólver calibre 38 e uma lata cheia de balas com um pavio à guisa de bomba caseira e saiu para “cobrir um ponto” com o militante da ALN José Milton Barbosa (“Celio”, “Castro”, “Claudio”, “Sargento”). Não sabia que seria traído. Não sabia, inclusive, que o descontentamento da ALN era tanto que ele já havia sido submetido — e condenado — por um pseudo “Tribunal Revolucionário”.

No final da tarde, procedendo às costumeiras evasivas, circulava pelas ruas do Jardim Europa, aristocrático bairro paulistano. Na altura do número 405 da Rua Caçapava, aproximou-se um Volkswagen grená, com dois ocupantes, que dispararam mais de 10 tiros de revólver .38 e pistola 9 mm. Um Gálaxie, com 3 elementos, dava cobertura à ação. Apesar da reação do jovem, que chegou a descarregar sua arma, foi atingido por 8 disparos. Morto na calçada, seus olhos abertos pareciam traduzir a surpresa de ter reconhecido seus assassinos. Da ação fizeram parte seus companheiros da direção nacional Yuri Xavier Pereira (“Joaozão”), Ana Maria Nacinovic Correia (“Marcela”, “Betty”, “Beth”) e Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz (“Clemente”, “Diogo”, “Quelê”, “Guilherme”), este último o autor dos disparos fatais.

Ao lado do corpo, foram jogados panfletos, nos quais a ALN assumia a autoria do “justiçamento”, do qual também participaram, na cobertura, Antonio Sérgio de Matos (“Hermes, “Uns e Outros”), Paulo de Tarso Celestino da Silva (“Cesar”) e José Milton Barbosa.

São sugestivos os seguintes trechos desse “Comunicado”:

“A Ação Libertadora Nacional (ALN) executou, dia 23 de março de 1971, Márcio Leite Toledo. Esta execução teve o fim de resguardar a organização… Uma organização revolucionária, em guerra declarada, não pode permitir a quem tenha uma série de informações como as que possuía, vacilações desta espécie, muito menos uma defecção deste grau em suas fileiras… Tolerância e conciliação tiveram funestas conseqüências na revolução brasileira… Ao assumir responsabilidade na organização cada quadro deve analisar sua capacidade e seu preparo. Depois disto não se permitem recuos… A revolução não admitirá recuos!”

O jovem não era “advogado” e nem se chamava “Sérgio Moura Barbosa”, “Carlos”, “Vicente”, “Mário” ou “Pardal”. Seu nome verdadeiro era Márcio Leite Toledo.

Enterrado dias depois em Bauru, seu irmão mais velho, então Deputado Federal por São Paulo, declarou saber que ele havia sido morto pelos próprios companheiros comunistas.

 

ENTREVISTA COM O IRMÃO DE MÁRCIO LEITE DE TOLEDO

 

 

 

Fonte: http://www.tvisoes.com.br/2011/03/24/marcio-leite-toledo/

 

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRA.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

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