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Marighella
Objetivos das Ações de Guerrilha Urbana

O trecho do livro que irei comentar agora é bastante polêmico. Trata-se do Mini-manual do guerrilheiro urbano de Carlos Marighella. A extrema-direita freqüentemente usa trechos deste livro para mostrar o quanto eram violentas as ações armadas dos revolucionários que lutaram contra a ditadura militar no Brasil. É claro que se analisarmos tudo fora do contexto histórico qualquer ação da guerrilha não seria bem vista. No entanto, mesmo analisando-as dentro do contexto as ações dos guerrilheiros sempre serão polêmicas. Em minha opinião, a Esquerda não deve tentar esconder seu passado violento, faz parte de sua história. É preciso lembrar que aqueles homens e mulheres que pegaram em armas viviam numa época em que não havia espaço para moderados. Eles acreditavam que a única maneira de acabar com a miséria de nosso povo era através da Revolução Socialista e, se pararmos um pouco para pensar, não estavam errados. Ora, as classes dominantes brasileiras não apoiaram o golpe militar para impedir as reformas sociais moderadas de Jango?
Como diz o ex-guerrilheiro Franklin Martins não se deve olhar para aquelas pessoas com a visão de mundo de hoje. Pois eles viviam num tempo em que mercado era onde as donas de casa faziam compras e não essa entidade que muitos dizem que tem que controlar a humanidade com sua mão invisível. E massa era o povo a caminho de se encontrar com seu destino revolucionário e não uma tentação para os que estão de dieta.
9.2 Objetivos das Ações de Guerrilha Urbana
Com suas técnicas desenvolvidas e estabelecidas, o guerrilheiro urbano baseia-se em modelos de ação que o conduzem a atacar e, no Brasil, com os seguintes objetivos:
a. ameaçar o triângulo no qual os sistemas de dominação do estado brasileiro e norte-americano são mantidos no Brasil, um triângulo cujos pontos são Rio, São Paulo, e Belo Horizonte e cuja base é o eixo Rio-São Paulo, onde o gigante complexo industrial, econômico, político, cultural, militar, policial que sustenta o poder decisivo do país está localizado;
b. debilitar os guardas locais ou os sistemas de segurança da ditadura, dado o fato de que estamos atacando e os militares defendendo, o qual significa capturando as forças governamentais em posições defensivas, com suas tropas imobilizadas em defesa de todo complexo de manutenção nacional, e com seu medo onipresente de um ataque em seus centros nervosos estratégicos, e sem saber onde, como, e quando virá o ataque;
c. atacar em todos lados, com muitos grupos armados diferentes, pequenos em números, cada um independente e operando por separado, para dispersar as forças do governo em sua perseguição de uma organização extremadamente fragmentada em vez de oferecer-lhes à ditadura a oportunidade de concentrar suas forças repressivas na destruição de um sistema altamente organizado e estruturado operando em todo o pais;
d. provar sua combatividade, decisão, firmeza, determinação, e persistência no ataque contra a ditadura militar para permitir que todos os inconformes sigam nosso exemplo e lutem com táticas de guerrilha urbana. Enquanto tanto, o governo, com todos os problemas, incapaz de deter as operações da guerrilha na cidade, perderam o tempo e sofreram desgastes, o que finalmente ocasionará que retirem suas tropas para poder vigiar os bancos, industrias, armarias, barracas militares, televisão, escritórios norte-americanas, tanques de armazenamento de gás, refinarias de petróleo, barcos, aviões, portos, aeroportos, hospitais, centros de saúde, bancos de sangue, lojas, garagens, embaixadas, residências de membros proeminentes do regime, tais como ministros e generais, estações de policia, e organizações oficiais, etc.
e. aumentar os distúrbios dos guerrilheiros urbanos gradualmente em ascendência interminável de tal maneira que as tropas do governo não possam deixar a área urbana para perseguir o guerrilheiro sem arriscar abandonar a cidade, e permitir que aumente a rebelião na costa como também no interior do pais;
f. para obrigar o exército e a policia, com os comandantes e seus assistentes, a mudar a acomodação e tranqüilidade relativa das barracas e seu relativo descanso, por um estado de alarme e tensão em aumento da expectativa de ataque ou a busca de pistas que se desvanecem sem deixar traço algum;
g. para evitar batalhas abertas e combate decisivo com as forças do governo, limitando a luta a ataques rápidos e breves com resultados relâmpagos;
h. para assegurar aos guerrilheiros urbanos um máximo de liberdade de ação e movimento sem ter que evitar o uso de violência armada, permanecendo firmemente orientado até o começo da guerra de guerrilha rural e apoiando a construção de um exército revolucionário para a libertação nacional.
Muitos pensam que a guerrilha rural foi lançada somente porque o cerco repressivo da ditadura se intensificou nas cidades. No entanto, desde o início o plano era arrecadar dinheiro e armas nas cidades até que os guerrilheiros tivessem condições suficientes para lançar a guerrilha no campo onde eles imaginavam ter maiores condições de vencer o Exército e libertar o país.
9.3 Sobre os Tipos e Natureza de Modelos de Ação para os Guerrilheiros Urbanos
Para poder alcançar os objetivos previamente enumerados, o guerrilheiro urbano está obrigado, em sua técnica, a seguir uma ação cuja natureza seja tão diferente e diversificada como seja possível. O guerrilheiro urbano não escolhe arbitrariamente este ou aquele modelo de ação.
Algumas ações são simples, outras são complicadas. O guerrilheiro urbano sem experiência tem que ser incorporado gradualmente em ações ou operações que correm desde as mais simples até as mais complicadas. Começa com missões e trabalhos pequenos até que se converta completamente em um guerrilheiro urbano com experiência.
Antes de qualquer ação, o guerrilheiro urbano tem que pensar nos métodos e no pessoal disponível para realizar a ação. As operações e ações que demanda a preparação técnica do guerrilheiro urbano não podem ser executadas por alguém que carece de destrezas técnicas. Com estas precauções, os modelos de ação que o guerrilheiro urbano pode realizar são os seguintes:
a. assaltos
b. invasões
c. ocupações
d. emboscadas
e. táticas de rua
f. greves e interrupções de trabalho
g. deserções, desvios, tomas, expropriações de armas, munições e explosivos
h. libertação de prisioneiros
i. execuções
j. seqüestros
l. sabotagem
m. terrorismo
n. propaganda armada
o. guerra de nervos
Assaltos
O assalto é o ataque armado com o qual fazemos expropriações, libertamos prisioneiros, capturamos explosivos, metralhadoras, e outras armas típicas e munições.
Os assaltos podem ser realizados de noite ou de dia. O assalto de noite é usualmente o mais vantajoso às guerrilhas urbanas. A idéia é que o assalto seja executado de noite quando as condições para um ataque de surpresa são mais favoráveis e a obscuridade facilita a fuga e esconde a identidade dos participantes. O guerrilheiro urbano tem que preparar-se, no entanto, para atuar baixo qualquer condição, de noite ou de dia.
Os alvos mais vulneráveis para o assalto são os seguintes:
a. bancos e estabelecimentos de crédito
b. negócios comerciais ou industriais, incluindo a produção de armas e explosivos
c. estabelecimentos militares
d. delegacias e estações de policia
e. presídios
f. propriedade do governo
g. meios de comunicação de massa
h. escritórios e propriedades norte-americanas
i. veículos do governo, incluindo veículos militares e da polícia, caminhões, veículos armados, carregadores de dinheiro, trens, barcos, e aviões.

Antes de ser promulgado o AI-5 em Dezembro no mesmo ano, ações de guerrilha urbana começaram a ser divulgadas pela imprensa. Os órgãos de repressão política da ditadura militar, surpreendidos e confusos faziam acusações sobre quem comandava aquelas ações. Acusavam Marighella, o líder estudantil Tarzan de Castro e Edgard de Almeida Martins. O "Assalto ao Trem Pagador " é considerada a primeira ação de guerrilha urbana no Brasil.
A grande imprensa reproduzia as informações divulgadas pelos órgãos de informação militares.As palavras "guerrilheiros", terroristas", "subversivos" entravam para o vocabulário dos nossos jornais. Nas redações , perseguições aos jornalistas , "caça" aos que não colaborassem publicando o que e como queriam os militares. (Fonte: midiaindependente.org)
Os assaltos em estabelecimentos são da mesma natureza porque em cada caso a propriedade e os edifícios representam um alvo fixo.
Os assaltos aos edifícios concebidos como operações de guerrilha, variam de acordo a se são bancos, negócios comerciais, indústrias, acampamentos militares, delegacias, presídios, estações de rádio, armazéns de empresas imperialistas, etc.
Os assaltos em veículos - carros blindados, trens, barcos, aviões - são de outra natureza já que envolvem um alvo em movimento. A natureza da operação varia de acordo à situação e a possibilidade - isto é, se o alvo é estacionário ou móvel.
O hoje senador Aloysio Nunes assumiu na clandestinidade o pseudônimo Mateus. Durante muito tempo foi motorista e guarda-costas de Marighella. Em outubro de 1968 participou do assalto ao carro-pagador da Massey-Ferguson interceptando o veículo na praça Benedito Calixto, no bairro paulistano de Pinheiros. (adaptado do Wikipédia)
Os carros blindados, incluindo veículos militares, não são imunes às minas. Estradas obstruídas, armadilhas, enganos, intercepção de outros veículos, bombas Molotov, atirar com armamento pesado, são métodos eficientes de assaltar veículos.
Os veículos pesados, aviões em terra, barcos ancorados, podem ser tomados e as tripulações capturadas. Os aviões em vôo podem ser desviados de seu curso pela ação guerrilheira ou por uma pessoa.
Durante a ditadura militar a guerrilha brasileira também fez sequestros de avião: Em 1º de janeiro de 1970 o jovem James Allen da Luz executou uma missão arriscadíssima. Desviou para Cuba um avião que ia de Montevidéu para o Rio, e pois a salvo seis militantes da VPR, Vanguarda Popular Revolucionária. O avião fez quatro escalas, a mais tensa foi no Peru, onde foi cercado no aeroporto por centenas de militares armados. Depois de uma longa negociação o avião levantou voo e os passageiros e guerrilheiros desembarcaram no aeroporto José Martí, em Havana.

Outro sequestro de avião ocorreu em 1984 final do governo Figueiredo. Três jovens cearenses, militantes de Esquerda, desviaram um avião destino Fortaleza-Disneylândia para Cuba. A idéia era viver a realidade socialista e aprender táticas de guerrilha para fazer a revolução no Brasil. Veja detalhes no documentário Último pau-de-arara.
Os barcos e trens em movimento podem ser assaltados ou tomados por operações de guerrilha para poder capturar as armas e munições ou para evitar o deslocamento de tropas.
O Assalto a Banco como Modelo Popular
O modelo de assalto mais popular é o assalto à banco. No Brasil, a guerrilha urbana começou um tipo de assalto organizado em bancos como uma operação guerrilheira. Hoje este tipo de assalto é utilizado comumente e tem servido como um tipo de exame preliminar para o guerrilheiro urbano em seu processo de aprendizagem da guerra revolucionária.
Tem se desenvolvido inovações importantes na técnica de assalto à bancos, o qual assegura a fuga, a retirada de dinheiro, e o anonimato das pessoas envolvidas. Entre estas inovações temos atirar nos pneus dos carros para evitar que sejamos perseguidos, trancar as pessoas nos banheiros dos bancos, obrigá-los a que se sentem no chão do banheiro; imobilizar os guardas do banco e tomar seu armamento, obrigar a alguém a abrir a caixa forte; e a utilização de disfarces.
Tentativas para instalar alarmes de bancos, ou para utilizar guardas ou aparelhos de detecção eletrônicos de origem norte-americana, são de pouca utilidade quando o assalto é de tipo político e executado de acordo com as técnicas de guerrilha urbana.
Esta técnica trata de utilizar novos recursos para alcançar as mudanças táticas do inimigo, tem acesso a poder de fogo que esta em crescimento todos os dias, se faz mais astuta e audaz, e utiliza um grande número de revolucionários todas as vezes, todas para garantir o êxito das operações planejadas até o ultimo detalhe.
O assalto à banco é a expropriação típica. Mas, como é certo para qualquer tipo de expropriação armada, o revolucionário esta em desvantagem por dois competidores:
a. competição por delinqüentes;
b. competição por contra-revolucionários de direita;
O mais famoso grupo terrorista de Direita era o CCC - Comando de Caça aos Comunistas. O hoje jornalista Boris Casoy foi acusado de ter pertencido a esse grupo paramilitar. Veja mais detalhes nesse post do Blog O Rebate.
Esta competição produz confusão, o qual é refletido em incerteza da população. Depende do guerrilheiro urbano prevenir que isto aconteça, e para conseguir isto utiliza dois métodos;
a. tem que evitar a técnica de bandidos, o qual é o uso de violência desnecessária e da expropriação de mercadorias e posses da população;
b. tem que usar o assalto para propósitos de propaganda, no mesmo momento em que esta acontecendo, e depois distribuir material, papéis, e todo meio possível de explicar os objetivos e os princípios do guerrilheiro urbano como expropriador do governo, das classes governantes, e do imperialismo.
Essa tática de guerrilha era usada para conseguir dinheiro para compra de armas; pagamento de aluguéis dos aparelhos (esconderijos); e para que os guerrilheiros pudessem se manter pois, como a maioria dos deles eram procurados, não podiam ter emprego fixo. Esse tipo de ação armada é bastante polêmica por causa das vítimas que ocorreram, nos casos em que houve reação.
Numa dessas ações, Carlos Lamarca, guerrilheiro da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) ficou num bar a 50 metros vigiando um assalto que estava sendo executado por guerrilheiros novatos. Uma pessoa avisou a um guarda de trânsito o que estava ocorrendo. O guardinha, inexperiente, sacou a arma e ficou do lado da porta esperando a saída dos assaltantes. Lamarca atira daquela distância mesmo. Pensa ter errado e atira novamente. Uma bala acerta a testa e a outra a nuca do guarda. Depois joga o revólver dentro do carro e pega um fuzil; dá uma rajada para o alto que pára o trânsito e facilita a fuga dos companheiros.
Batidas
As batidas são ataques rápidos em estabelecimentos localizados na vizinhança ou até no centro da cidade, tal como unidades militares pequenas, delegacias, hospitais, para causar problemas, tomar armas, castigar e aterrorizar o inimigo, tomar represálias, ou resgatar prisioneiros feridos, ou aqueles hospitalizados baixo vigilância da policia.
As batidas também são lançadas em garagens e estacionamentos para destruir veículos e danificar instalações, especialmente se são empresas e propriedades norte-americanas.
Quando tomam lugar em certas extensões de estrada ou em certas vizinhanças distantes, os ataques podem servir para obrigar o inimigo a mover grandes números de tropas, um esforço totalmente inútil já que não encontraram ninguém com quem lutar.
Quando são realizadas em certas casas, escritórios, arquivos, ou escritórios públicos, seu propósito é de capturar ou buscar papéis secretos e documentos com os quais denunciar o envolvimento, os compromissos, e a corrupção dos homens no governo, seus negócios sujos e as transações criminosas com os norte-americanos. As batidas são mais efetivas se são realizadas de noite.
Ocupações
As ocupações são um tipo de ataque realizado quando um guerrilheiro urbano se estaciona em estabelecimentos e localizações específicas, para uma resistência temporal contra o inimigo ou para algum propósito de propaganda.
A ocupação de fábricas e escolas durante greves ou em outros momentos é um método de protesto ou de distrair a atenção do inimigo.
A ocupação das estações de rádio é para propósitos de propaganda.
Em 15 de agosto de 1969 Marighella e outros guerrilheiros da ALN (Ação Libertadora Nacional) ocuparam a Rádio Nacional de Santo André. Marghella leu um trecho desse Mini-manual do guerrilheiro urbano. O áudio e a encenação desse acontecimento estão no clipe da música Marighella dos Racionais Mc's.
A ocupação é um método muito efetivo para a ação mas, para prevenir perdas e danos materiais a nossas forças, é sempre uma boa idéia o contar com a possibilidade de retirada. Sempre tem que ser meticulosamente planejada e executada no momento oportuno. A ocupação sempre tem um limite de tempo e enquanto mais rápido se realize, melhor.
Emboscada
As emboscadas são ataques tipificados por surpresa quando o inimigo é apanhado em uma estrada ou quando faz que uma rede de policiais rodeie uma casa ou propriedade. Uma mensagem falsa pode trazer o inimigo a um lugar onde caia em uma armadilha.
O objeto principal da tática de emboscada é de capturar as armas e castigá-los com a morte.
As emboscadas para deter trens de passageiros são para propósitos de propaganda, e quando são trens de tropas, o objetivo é de eliminar o inimigo e tomar suas armas.
O franco-atirador guerrilheiro é o tipo de lutador ideal especialmente para as emboscada porque pode se esconder facilmente nas irregularidades do terreno, nos trechos dos edifícios e dos apartamentos sob construção. Desde janelas e lugares escuros pode mirar cuidadosamente a seu alvo escolhido.
As emboscadas têm efeitos devastadores no inimigo, deixando o nervoso, inseguro e cheio de temor.
Táticas de Rua
As táticas de rua são usadas para lutar com o inimigo nas ruas, utilizando a participação das massas contra ele.
Em 1968, os estudantes brasileiros utilizaram táticas de rua excelentes contra as tropas da polícia, tais como marchar pelas ruas contra o trânsito, e utilizar estilingues e bolas de gude contra a polícia montada.
Outras táticas de rua consistem na construção de barricadas, atirando garrafas, tijolos, e outros projéteis desde o telhado de apartamentos e edifícios de negócios contra a polícia; utilizando edifícios sob construção para sua fuga, para esconder-se, e para apoiar os ataques surpresa.
É igualmente necessário saber como responder às táticas do inimigo. Quando as tropas de policiais vêm protegidas com capacetes para defender-se de objetos lançados, nos dividimos em duas equipes; uma para atacar o inimigo de frente, ou outra para atacá-lo desde a retaguarda, retirando um à medida que o outro avança para prevenir que o primeiro se converta em um alvo dos projéteis atirados pelo segundo.
De igual forma é importante saber como responder a uma rede de polícias. Quando a policia designa uma certa área para que seus homens entrem em massa para prender a um manifestante, um grupo maior de guerrilheiros urbanos tem que rodear o grupo da polícia, desarmá-los, surrando-os e na mesma hora permitir que o prisioneiro fuja. Esta operação de guerrilha urbana se chama a rede dentro de uma rede.
Quando a rede policial se forma em um edifício de escola, uma fábrica, um lugar onde as massas se congregam, ou algum outro ponto, o guerrilheiro urbano não deve render-se ou que o tomem por surpresa. Para assegurar que sua rede funcione o inimigo se vera na obrigação de transportar a polícia em veículos e carros especiais para ocupar pontos estratégicos nas ruas para invadir edifícios ou locais selecionados.
O guerrilheiro urbano, por sua parte, nunca deve de sair de um edifício ou uma área ou entrar nela sem primeiro conhecer todas as saídas, a forma de romper o círculo, os pontos estratégicos que a policia poderia ocupar, e as estradas que inevitavelmente conduzem até a rede, e deve apoderar-se de outros pontos estratégicos desde os quais possa golpear o inimigo.
As estradas seguidas pelos veículos da polícia têm que serem minadas em pontos chaves e a pontos forçados de parada. Quando as minas explodem, os veículos voaram pelos ares. Os policiais cairão na armadilha e sofreram perdas ou serão vítimas de uma emboscada. A rede tem que ser quebrada por rotas de fuga desconhecidas para a polícia. O rigoroso plano de retirada é a melhor maneira de frustrar qualquer esforço de acercamento por parte do inimigo.
Quando não há a possibilidade do plano de fuga, a guerrilha urbana não deve esperar reunir-se, agrupar-se, ou fazer qualquer outra coisa, já que fazê-lo evitará sua possibilidade de romper a rede do inimigo, que seguramente tentará atirar a redor dele.
As táticas de rua têm revelado um novo tipo de guerrilheiro urbano, o guerrilheiro urbano que participa dos protestos em massa. Este é o tipo que designaremos como o guerrilheiro urbano manifestante, que se une à multidão e participa das marchas populares com fins específicos e definitivos.
Estes fins consistem em atirar pedras e projéteis de todo tipo, utilizando gasolina para começar incêndios, utilizando a polícia como alvo para suas armas de fogo, capturando as armas dos policiais, seqüestrando agentes do inimigo e provocadores, disparar cuidadosamente aos chefes de polícia que vem em carros especiais com placas falsas para não atrair a atenção.
O guerrilheiro urbano manifestante ensina aos grupos nas manifestações as rotas de fuga se é necessário. Coloca minas, atira bombas Molotov, prepara emboscadas e explosões.
O guerrilheiro urbano manifestante também tem que iniciar a rede dentro da rede, revistando os veículos do governo, os carros oficiais, e os veículos da polícia para ver se tem dinheiro ou armas antes de virá-los e colocá-los fogo.
Os franco-atiradores são muito bons para as manifestações em massa e, juntos com os guerrilheiros urbanos manifestantes, podem exercer um papel chave. Escondidos em pontos estratégicos, os franco-atiradores tem completo êxito, utilizando escopetas, metralhadoras, etc., cujo fogo e rebote causam perdas entre os inimigos.
Greves e Interrupções de Trabalho
A greve é o modelo de ação empregado pelo guerrilheiro urbano em centros de trabalho e escolas para prejudicar o inimigo por meio da detenção do trabalho e das atividades de estudo. Já que é uma das armas mas temidas pelos exploradores e opressores, o inimigo utiliza um tremendo poder ofensivo e incrível violência contra. Os grevistas são levados à prisão, sofrem golpes, e muitos terminam assassinados.
O guerrilheiro urbano tem que preparar a greve de tal forma como para não deixar indícios ou pistas que possam identificar os líderes da ação. Uma greve é bem sucedida quando é organizada por meio da ação de um grupo pequeno, se é preparado cuidadosamente em segredo e pelos métodos mais clandestinos.
As armas, munições, Molotovs, armas caseiras de destruição e ataque, tudo isto tem que ser suprido previamente para antecipar o inimigo. Para que possa causar a maior quantidade de dano possível, é uma boa idéia estudar e por em prática um plano de sabotagem.
As interrupções de trabalho e estudo, apesar de serem de breve duração, causam dano severo ao inimigo. É suficiente para eles surgir em pontos diferentes e em diferentes setores nas mesmas áreas, interrompendo a vida diária, ocorrendo, sem fim, um dia depois do outro, de forma autenticamente guerrilheira.
Em greves ou simples interrupções de trabalho, o guerrilheiro urbano tem o recurso de ocupar ou penetrar no local ou simplesmente fazer um ataque. Nesse caso, seu objetivo é o de tomar reféns, capturar prisioneiros ou capturar agentes inimigos e propor um intercâmbio de prisioneiros (para liberar os grevistas).
Em certos casos, as greves e as breves interrupções de trânsito podem oferecer uma excelente oportunidade para a preparação de emboscadas ou armadilhas cujo fim é o de destruição física da cruel e sanguinária polícia.
O fato básico é que o inimigo sofre perdas em pessoal e material e danos morais, e é debilitado pela ação.
Deserções, Desvios, Confiscos, Expropriações de Armas, Munições e Explosivos
Deserções e desvios de armas são ações efetuadas em campos militares, hospitais militares, etc. O soldado da guerrilha urbana, o chefe, sargento, suboficial, e o oficial devem desertar no momento mais oportuno com armas modernas e munições, para entregá-las à guerrilha.
Um dos guerrilheiros infiltrados foi Carlos Eugênio Paz, ele entrou na guerrilha ainda muito jovem. Queria fugir do serviço militar obrigatório e ir treinar guerrilha em Cuba, mas Marighella achou melhor e menos arriscado que ele usufruísse do treinamento militar que receberia do Exército brasileiro. Assim, Carlos Eugênio aprendeu táticas anti-guerrilha que depois usou para combater seus ex-colegas de farda.
Um dos momentos mais oportunos é quando a guerrilha urbana militar é chamada para perseguir e lutar contra seus camaradas guerrilheiros fora dos quartéis militares. Em vez de seguir as ordens dos oficiais, a guerrilha urbana militar deve juntar-se aos revolucionários dando-os as armas e munições que carregam, ou o veículo militar que ele opera.
A vantagem deste método é que os revolucionários recebem as armas e munições do exército, marinha, força área, polícia, guarda civil, ou dos bombeiros sem nenhum trabalho, porque lhes chega em mãos por meio de transporte do governo.
Outras oportunidades podem ocorrer nas barracas, e a guerrilha urbana militar deve estar alerta a isso. Em caso de descuido de parte dos comandantes ou em outras condições favoráveis, assim como as atividades burocratas ou o relaxamento de disciplina por parte dos suboficiais ou outro pessoal interno, a guerrilha urbana militar não pode esperar, mas tem que tratar de avisar os guerrilheiros e desertar sós ou acompanhados, mas com uma quantidade de armas tão grande como seja possível.
Com a informação e a participação da guerrilha urbana militar, ataques em barracas e outros estabelecimentos militares com o propósito de capturar armas, podem ser organizados.
Quando não há a possibilidade de desertar com as armas e munições, a guerrilha urbana deve se engajar na sabotagem, começando com explosões e incêndios em depósitos de munições e pólvora.
Quando Lamarca desertou do quartel ele levou consigo 63 fuzis FAL. A idéia era sair com 400, mas o plano da VPR de pintar um caminhão com camuflagem militar deu errado e vários militantes foram presos. Lamarca acabou tendo que adiantar a ação, levando o que podia.
Neste depoimento o ex-marido de Dilma confessa que expropriava banco e quartéis para conseguir dinheiro e armas.
Esta técnica de desertar com armas e munições, atacando e sabotando os centros militares, é a melhor maneira de cansar e de desmoralizar aos soldados, deixando-os confusos.
O propósito da guerrilha urbana em desarmar um inimigo individual é o de capturar suas armas. Estas armas estão usualmente nas mãos dos sentinelas e outros que estão executando a guarda ou repressão.
A captura das armas podem ser completadas por meios violentos ou pela astúcia ou armadilhas. Quando o inimigo esta desarmado, ele deve ser revistado em busca de outras armas que não sejam as que já foram retiradas. Se nos descuidamos, ele pode usar essas armas para disparar nos guerrilheiros urbanos.
O confisco de armas é um método eficaz para adquirir metralhadoras, a arma mais importante da guerrilha.
Quando executamos pequenas operações ou ações para confiscar armamentos e munições, o material capturado pode ser para uso pessoal ou armamento e abastecimento dos grupos de tiro.
A necessidade de prover um poder disparador para a guerrilha urbana é tão grande que, em ordem para começar do ponto zero as vezes temos que comprar uma arma, desviar, ou capturar uma só arma. O ponto básico é começar, e começar com um espírito de determinação e coragem. A posse de uma simples metralhadora multiplica nossas forças.
Muitas vezes o confisco da arma de um sentinela, guarda ou policial era um rito de iniciação para um guerrilheiro que, em muitos casos, deveria praticar essa ação desarmado. Tarefa bastante arriscada que exigia coragem e determinação do iniciante.
Em um assalto a banco, devemos ser cuidadosos de confiscar as armas dos guardas. O resto das armas as encontraremos com o tesoureiro, o caixa, ou o administrador, e também devem ser confiscadas.
O outro método que podemos utilizar é a preparação de emboscadas contra a polícia e os automóveis que usam para locomover-se.
Realmente muitas vezes, nós tivemos êxito capturando armas em estações policiais, como um resultado de ataques repentinos.
Às vezes triunfamos em capturar armas em delegacias de polícia, como resultado de ataques repentinos.
A expropriação de armas, munições e explosivos é a meta da guerrilha urbana em assaltar locais comerciais, industrias e quartéis.
Libertação de Prisioneiros
A libertação de prisioneiros é uma operação armada designada para libertar guerrilheiros urbanos presos. Na luta diária contra o inimigo, a guerrilha urbana esta sujeita a prisões e podem ser sentenciados a ilimitados anos na cadeia. Isto não quer dizer que a batalha revolucionária acabe aqui. Para o guerrilheiro, sua experiência é aprofundada pela prisão e a luta continua igualmente até nos calabouços onde se encontram prisioneiros.
O guerrilheiro urbano encarcerado vê a prisão como um terreno que deve dominar e entender para libertar-se por meio de uma operação da guerrilha. Não há prisão, nem uma ilha, ou uma penitenciária da cidade, ou uma fazenda, que seja impregnável pela astúcia, perseverança e pelo potencial de fogo dos revolucionários.

Era na prisão que ocorria o maior desafio para um revolucionário: aguentar a tortura. As técnicas usadas pela ditadura brasileira foram ensinadas por torturadores norte-americanos que vinham dar curso no Brasil. Para se ter uma idéia de como eram essas seções de horror vejam o documentário Brazil: A Report on torture em que ex-guerrilheiros recém resgatados contam como foram torturados.
O guerrilheiro urbano que é livre vê os estabelecimentos penais do inimigo como um lugar inevitável da ação guerrilheira designada a libertar seus irmãos ideológicos que estão aprisionados.
É a combinação do guerrilheiro urbano livre e o guerrilheiro urbano aprisionado que resulta nas operações armadas a que nos referimos como a libertação de prisioneiros.
As operações de guerrilha que se podem usar para libertar os prisioneiros são as seguintes:
a. ataques a estabelecimentos penais, em colônias de correção ou ilhas, ou transportes ou barcos de prisioneiros;
b. assaltos a penitenciárias rurais ou urbanas, casas de detenção, delegacias, depósitos de prisioneiros, ou outros lugares permanentes, ocasionais ou temporários, onde se encontram os prisioneiros.
c. assaltos a transportes de prisioneiros, trens e automóveis;
d. ataques e batidas em prisões;
e. emboscadas a guardas que estão movendo prisioneiros.
Execuções
Execução é matar um espião norte-americano, um agente da ditadura, um torturador da policia, ou uma personalidade fascista no governo que está envolvido em crimes e perseguições contra os patriotas, ou de um "dedo duro", informante, agente policial, um provocador da policia.
Aqueles que vão à polícia por sua própria vontade fazer denúncias e acusações, aqueles que suprem a polícia com pistas e informações e apontam a gente, também devem ser executados quando são pegos pela guerrilha.
A execução é uma ação secreta na qual um número pequeno de pessoas da guerrilha se encontram envolvidos. Em muitos casos, a execução pode ser realizada por um franco-atirador, paciente, sozinho e desconhecido, e operando absolutamente secreto e a sangue-frio.

Uma das mais famosas execuções praticadas pela guerrilha no Brasil foi o assassinato de Boilesen. Henry Boilesen era um empresário dinamarquês presidente da Ultragás. Ele ficou muito visado pelos guerrilheiros porque não apenas recolhia o dinheiro de empresários para financiar os centros de tortura da OBAN (organização bandeirantes) como também gostava de assistir as torturas. No vídeo abaixo o guerrilheiro Carlos Eugênio Paz conta como o executou.
A guerrilha também assassinou o capitão dos Estados Unidos Charles Chandler, em 1968, sob a acusação (nunca comprovada) de que era agente da CIA.
 
Seqüestros
Seqüestrar é capturar e assegurar em um lugar secreto um agente policial, um espião norte-americano, uma personalidade política ou um notório e perigoso inimigo do movimento revolucionário.
O seqüestro é usado para trocar ou libertar camaradas revolucionários aprisionados, ou para forçar a suspensão da tortura nas cadeias de uma ditadura militar.

15 prisioneiro trocados pelo embaixador suíço
O seqüestro de personalidades que são artistas conhecidos, figuras do esporte ou que são grandiosos em algum campo, mas que não tem evidência de um interesse político, podem ser uma forma de propaganda para os princípios patrióticos e revolucionários da guerrilha urbana sendo que ocorra baixo circunstâncias especiais, e o seqüestro seja manipulado de uma maneira que o público simpatize com ele e o aceite.
O seqüestro de residentes norte-americanos ou visitantes no Brasil constitui uma forma de protesto contra a penetração e a dominação do imperialismo dos Estados Unidos em nosso país.
O sequestro mais famoso foi o do embaixador americano. A ação foi executada pela ALN e o MR-8 e libertou 15 prisioneiros políticos. Outros sequestros foram o do embaixador alemão e do embaixador suíço. Leia os links abaixo para saber um pouco mais sobre essas aventuras:
Fatos e versões o sequestro da História
Sirkis conta como sequestrou o embaixador alemão
O sequestro do embaixador suiço
Acima é a cena do sequestro do embaixador suíço na minissérie Anos Rebeldes. Alguns diálogos dessa cena foram tiradas do livro Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida de Alfredo Sirkis.
Sabotagem
O sabotagem é um tipo de ataque altamente destrutivo usando somente várias pessoas e as vezes requerendo somente uma para terminar o resultado desejado. Quando a guerrilha urbana usa a sabotagem, a primeira fase é a sabotagem isolada. Então vem a fase de sabotagem dispersada ou generalizada, levando a população.
Um plano de sabotagem bem executado demanda estudo, planejamento e cuidadosa execução. Uma forma característica da sabotagem é a explosão usando dinamite, incêndio e a implantação de minas.
Um pouco de areia, uma gota de qualquer tipo de combustível, ou pouca lubrificação, um parafuso removido, um curto-circuito, peças de madeira ou ferro, podem causar danos irreparáveis.
O objetivo da sabotagem é para doer, danificar, deixar sem uso e para destruir pontos vitais do inimigo assim como os seguintes:
a. a economia de um país;
b. a produção agrícola e industrial;
c. sistemas de comunicação e transporte;
d. sistemas policiais e militares e seus estabelecimentos e depósitos;
e. o sistema repressor do sistema militar-policial;
f. empresas e propriedades norte-americanas no país.
A guerrilha urbana deve pôr em perigo a economia do país, particularmente seus aspectos financeiros e econômicos, assim como as redes comerciais domésticas e estrangeiras, suas mudanças nos sistemas bancários, seu sistema de coleta de impostos, e outros.
Escritórios públicos, centros de serviços do governo, armazéns do governo, são alvos fáceis para sabotagem. Não vai ser fácil prevenir a sabotagem da produção agrícola e industrial pela guerrilha urbana, com sua sabedoria completa da situação.
Trabalhadores industriais atuando como guerrilheiros urbanos são excelentes para a sabotagem industrial já que sabem, melhor que ninguém, entendem a indústria, a fábrica, a maquinária, e talvez possam destruir toda a operação, fazendo mais dano que uma pessoa mal informada.
A respeito dos sistemas de comunicações e de transportes do inimigo, começando com o tráfego ferroviário, é necessário atacá-lo sistematicamente com as armas de sabotagem.
A única precaução é a de não causar a morte ou ferimento fatal aos passageiros, especialmente aos que viajam com regularidade nestes trens suburbanos ou de longa distância.
Ataques a trens de carga, em movimento ou estacionados, parar os sistemas de comunicação e de transporte militar, são os maiores objetivo da sabotagem nesta área.
Vagões podem ser danificados e retirados, assim como os trilhos. Um túnel bloqueado depois de uma explosão, uma obstrução de um vagão descarrilado, causam tremendo dano.
O descarrilamento de um trem de carga contendo combustível é um dos maiores danos que se podem fazer ao inimigo. Assim como dinamitar pontes de vias. Num sistema onde o peso e o tamanho do equipamento rodante é enorme, leva-se meses para reparar ou reconstruir a destruição ou o dano.
As rodovias, podem ser obstruídas por árvores, veículos estacionados, valas, deslocação de barreiras por dinamite e pontes destruídas por explosões.
Os barcos podem ser danificados enquanto ancorados em portos marítimos, ou de rios, ou em estaleiros. Os aviões podem ser destruídos ou sabotados na pista.
As linhas telefônicas e telegráficas podem ser sistematicamente danificadas, suas torres serem destruídas, e suas linhas ficarem sem uso algum.
As comunicações e o transporte devem ser sabotados imediatamente, porque a guerra revolucionária já começou no Brasil e é essencial impedir o movimento de tropas e munições do inimigo.
Oleodutos, instalações de combustível, depósitos de bombas e munições, armazéns de pólvora e arsenais, campos militares e bases, devem tornar-se alvos de operações de sabotagem por excelência, enquanto que os veículos, caminhões do exército, e outros automóveis militares e policiais podem ser destruídos ao encontrá-los.
Os centros de repressão militares e policiais e seus específicos e especializados órgãos, devem também chamar a atenção do sabotador da guerrilha urbana.
As empresas e propriedades norte-americanas no país, por sua parte, devem ser alvos tão freqüentes de sabotagem que o volume das ações dirigidas sobrepasse o total de todas outras ações contra os pontos vitais do inimigo.
Terrorismo
O terrorismo é uma ação, usualmente envolvendo a colocação de uma bomba ou uma bomba de fogo de grande poder destrutivo, o qual é capaz de influir perdas irreparáveis ao inimigo.
O terrorismo requer que a guerrilha urbana tenha um conhecimento teórico e prático de como fazer explosivos.
O ato do terrorismo, fora a facilidade aparente na qual se pode realizar, não é diferente dos outros atos da guerrilha urbana e ações na qual o triunfo depende do plano e da determinação da organização revolucionária. É uma ação que a guerrilha urbana deve executar com muita calma, decisão e sangue frio.
Ainda que o terrorismo geralmente envolva uma explosão, há casos no qual pode ser realizado execução ou incêndio sistemático de instalações, propriedades e depósitos norte-americanos, fazendas, etc.
É essencial assinalar a importância dos incêndios e da construção de bombas incendiárias como bombas de gasolina na técnica de terrorismo revolucionário. Outra coisa importante é o material que a guerrilha urbana pode persuadir o povo a expropriar em momentos de fome e escassez, resultados dos grandes interesses comerciais.
O terrorismo é uma arma que o revolucionário não pode abandonar.
A ironia é que nós de Esquerda nos sentimos irritados quando a Direita chama os ex-guerrilheiros de terroristas, mas Carlos Marighella descrevia o terrorismo como tática e da forma mais natural possível. O termo "terrorismo" que ele utiliza serve para descrever táticas que envolvam explosões e incêndios e não o significado atual de terrorismo que é atentado contra civis inocentes.
Mesmo assim, atentados com vítimas inocentes existiram, como o Atentado no Aeroporto dos Guararapes no Recife.

O objetivo era o general Arthur da Costa e Silva que viria a ser o próximo general-presidente. Duas pessoas morreram e treze ficaram gravemente feridas.
Atentado ao Consulado dos Estados Unidos
Uma bomba colocada junto à biblioteca do consulado dos EUA, em São Paulo, no dia 19 de março de 1968, auge da ditadura militar. O autor do atentado foi Diógenes Carvalho de Oliveira, do grupo Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Abaixo o depoimento de Orlando Lovecchio, vítima desse atentado.
Esse atentado foi uma demonstração de força desnecessária da Esquerda Armada, mas segundo o ex-guerrilheiro Celso Lungaretti o próprio horário escolhido para a explosão da bomba, de madrugada, mostra que a intenção era de não ferir ninguém. Vejam mais detalhes nesse post: Jornal da Ditabranda vende o mesmo peixe podre pela 2ª vez.
Atentado ao QG do II Exército
 
Num atentado contra o QG do II Exército. Uma Kombi carregada com uns vinte quilos de dinamite foi atirada contra o quartel-general, visando entrar portão adentro e mandar pelos ares os alojamentos de oficiais e comando. Os sentinelas perceberam e abriram fogo, ferindo o motorista que pulou antes do tempo. A perua se desviou e bateu no muro. Ficou parada e depois estourou, num estrondo que sacudiu meia São Paulo. Matou um cabo que virou herói nacional. Para mais detalhes veja o post: Mário Kosel Filho: o jovem soldado que se tornou mártir da extrema-direita brasileira
Propaganda Armada
A coordenação das ações da guerrilha urbana, incluindo cada ação armada, é a principal forma de fazer propaganda armada.
Estas ações, feitas com determinados e específicos objetivos, inevitavelmente se fazem material de propaganda para o sistema de comunicação das massas.
Assaltos a bancos, emboscadas, deserções, resgate de prisioneiros, execuções, seqüestros, sabotagem, terrorismo e a guerra de nervos são todos casos em ponto.
Aviões com rotas de vôo trocados pela ação revolucionária, barcos e trens em movimento assaltados e capturados por guerrilheiros, podem ser usados somente para efeitos de propaganda.
Mas a guerrilha urbana nunca deve fracassar em instalar uma imprensa clandestina e deve poder fazer cópias mimeografadas usando álcool ou pranchas elétricas ou outros aparelhos duplicadores, expropriando o que não pode comprar em ordem de produzir um jornal pequeno, panfletos, volantes e estampas para a propaganda e agitação contra a ditadura.
Em 1961, um grupo de militantes e intelectuais do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais cria a Organização Revolucionária Marxista e lança o jornal Política Operária. A POLOP, como passou a ser conhecida, diverge do PCB em questões estratégicas, como a defesa do caráter socialista da revolução brasileira.

Após o golpe, o jornal é retomado na clandestinidade como porta-voz do Partido Operário Comunista (POC), que reúne estudantes, militares e lideranças operárias em torno do debate sobre o enfrentamento armado da ditadura. Volta a circular de modo precário no início dos anos 70, quando parte do núcleo original da POLOP se separa do POC e se rearticula no Brasil e no exterior. (www.resistirepreciso.org.br)
A guerrilha urbana comprometida com a imprensa clandestinas facilita enormemente a incorporação de um grande número de gente na batalha revolucionária, abrindo um trabalho permanente para aqueles que desejam trabalhar com a propaganda revolucionária, mesmo que quando fazê-lo signifique trabalhar sozinho e arriscar sua vida como revolucionário.
Com a existência de propaganda clandestina e material agitador, o espírito inventor da guerrilha urbana expande e cria catapultas, artefatos, morteiros e outros instrumentos com os quais distribuir os panfletos anti-governo a distância.
Gravações em fita, a ocupação de estações de rádio, o uso de alto falantes, desenhos em paredes e em outros lugares inacessíveis são outras formas de propaganda. Em usá-las, a guerrilha urbana deve dar-lhes um caráter de operações armadas.
Uma propaganda consistente de cartas enviadas a endereços específicos, explicando o significado das ações armadas da guerrilha urbana, isto produz consideráveis resultados e é um método de influenciar certos segmentos da população.
Se esta influência é exercitada no coração das pessoas por todo possível mecanismo de propaganda girando em torno da atividade da guerrilha urbana, isto não indica que nossas forças têm o suporte de todos.
É suficiente ganhar o suporte de parte da população e isto pode ser feito popularizando uma frase: "Deixe que aquele que não quer fazer nada pelos revolucionários, faça nada contra."
Guerra de Nervos
A guerra de nervos ou guerra psicológica é uma técnica agressiva, baseada no direto ou indireto uso dos meios de comunicação de massas e notícias transmitidas oralmente com o propósito de desmoralizar o governo.
Na guerra psicológica, o governo esta sempre em desvantagem, porque impõe censura nas massas e termina numa posição defensiva por não deixar nada contrário infiltrar-se.
Neste ponto desespera-se, envolve-se em grandes contradições e perda de prestígio, perde tempo e energias num cansado esforço ao controle, qual é sujeito a romper-se em qualquer momento.
O objeto da guerra de nervos é para enganar, propagar mentiras entre as autoridades na qual todos podem participar, assim criando um ar de nervosismo, descrédito, insegurança e preocupação por parte do governo.
Os melhores métodos usados pela guerrilha urbana na guerra de nervos são os seguintes:
a. usando o telefone e o correio para anunciar falsas pistas à polícia e ao governo, incluindo informação de bombas e qualquer outro ato de terrorismo em escritórios públicos e outros lugares, planos de seqüestro e assassinato, etc, para obrigar as autoridades a cansar-se, dando seguimento à falsa informação que foi alimentada;
O guerrilheiro Eduardo Collen Leite, o Bacuri sabia vários truques de guerra psicológica como ligar para o DOPS e denunciar anonimamente que guerrilheiros disfarçados de PMs iriam assaltar um determinado banco em uma determinada hora. Depois ligava para PM e dizia que vários homens armados iriam assaltar aquele banco naquela hora. Acabava sobrando bala para todo lado.
Um tipo de guerra psicológica foi feita durante o sequestro do embaixador suíço para desviar a atenção da polícia. Assim que Giovanni Enrico Bucher foi capturado. Guerrilheiros que não participaram diretamente do sequestro, mas estavam escondidos em outros "aparelhos", mandaram várias denúncias anônimas para a polícia e para o DOPS informando locais falsos em que teriam visto um homem com as descrições do embaixador. O resultado foi que a polícia fez várias blitz inúteis em vários bairros do Rio de Janeiro e os guerrilheiros da VPR tiveram caminho livre para levar o embaixador para o cativeiro.
b. permitindo que planos falsos caiam nas mãos da polícia para desviar sua atenção;
c. plantar rumores para deixar o governo nervoso;
d. explorando cada meio possível de corrupção, de erros e de falhas do governo e seus representantes, forçando-os a explicações desmoralizantes e justificações nos meios de comunicação de massas que mantém baixo censura;
e. apresentando denúncias a embaixadas estrangeiras, às Nações Unidas, a nunciatura do papa, e as comissões internacionais judiciais defensoras dos direitos humanos ou da liberdade de imprensa, expondo cada violação concreta e o uso de violência pela ditadura militar e fazendo conhecer que a guerra revolucionária irá continuar seu curso com perigos sérios para os inimigos da população.
9.4 Como Executar a Ação
A guerrilha urbana que corretamente passa através de seu aprendizado e seu treinamento deve dar grande importância a sua tática de executar sua ação, por isso não se deve cometer o mais pequeno erro.
Qualquer descuido na assimilação do método e seu uso, convida certo desastre, assim como a experiência nos ensina cada dia.
Os bandidos cometem erros freqüentemente por seus métodos, e esta é uma das razões pela qual a guerrilha urbana deve estar tão intensamente preocupada por seguir a técnica revolucionária e não a técnica dos bandidos.
Não há guerrilha urbana merecedora do nome que ignore a tática revolucionária de ação e fracasse em praticar rigorosamente o planejamento e a execução de suas atividades.
O gigante é conhecido por seus dedos. O mesmo pode ser dito da guerrilha urbana que é conhecida tão longe como seus métodos corretos e sua fidelidade absoluta aos princípios.
O método revolucionário de execução de uma ação é fortemente baseado no conhecimento e no uso dos seguintes elementos:
a. investigação de informação;
b. observação e vigilância;
c. reconhecimento ou exploração do terreno;
d. estudo e tempo das rotas;
e. mapas;
f. mecanização;
g. cuidadosa seleção de pessoal;
h. seleção do poder de fogo;
i. estudo e prática em êxito;
j. êxito;
l. disfarce;
m. retirada;
n. dispersão;
o. libertação e troca de prisioneiros;
p. eliminação de pistas;
q. resgate de feridos.
Algumas Observações nas Táticas
Quando não há informação, o ponto de saída do plano de ação deve ser investigação, observação e vigilância. Este método também dá bons resultados.
Em qualquer evento, incluindo quando há informação, é essencial fazer observações para ver se a informação esta a par com a observação ou vice-versa.
Reconhecimento ou exploração do terreno, estudo e o tempo das rotas, são tão importantes que quando omitidos seria como tentar apunhalar no escuro.
Mecanização, em geral, é um fator subestimado no método de conduzir uma ação. Freqüentemente a mecanização é deixada para o fim, antes de que se faça algo sobre isso.
Isto é um erro. A mecanização deve de ser considerada seriamente, deve ser colhida com ampla vista e de acordo com um plano cuidadoso, também baseado na informação e observação, e deve ser executado com cuidado rigoroso e precisão. O cuidado, conservação, manutenção e camuflagem dos veículos expropriados são detalhes bem importantes da mecanização.
Quando o transporte falha, a ação principal falha com sérias conseqüências morais e materiais para a atividade da guerrilha urbana.
A seleção de pessoal requer grande cuidado para evitar a inclusão de pessoas indecisas e vacilantes que presentes com perigo possam contaminar os outros participantes, uma dificuldade que deve ser evitada.
A retirada é igual ou mais importante que a operação em si, ao ponto de ter que ser planejada rigorosamente, incluindo a possibilidade de falha.
Deve-se evitar o resgate ou a transferência de prisioneiros com crianças presentes, ou qualquer coisa que atraia a atenção das pessoas em trânsito casual na área. O melhor é fazer o resgate tão natural quanto seja possível, sempre passando ao redor, ou usando estradas diferentes ou ruas estreitas que quase não permitam a passagem a pé, para evitar o encontro dos carros.
A eliminação das pistas é obrigatória e demanda grande precaução ao esconder as impressões digitais e outras classes de indícios que informem o inimigo. A falta de cuidado na eliminação dos vestígios e das pistas é um fator que aumenta o nervosismo em nossas patentes que o inimigo às vezes explora.
Resgate de Feridos
O problema com os feridos na guerrilha urbana merece atenção especial. Durante operações da guerrilha na zona urbana pode ocorrer que algum camarada seja ferido acidentalmente ou atingido pela policia. Quando um da guerrilha esta num grupo de atiradores tem o conhecimento de primeiros socorros e pode fazer algo pelo camarada ferido. Em nenhuma circunstância pode ser abandonado o guerrilheiro e ser deixado em mãos do inimigo.
Uma das precauções que devemos tomar é de treinar a homens e mulheres em cursos de enfermaria, nos quais guerrilheiros podem matricular-se e aprender técnicas de primeiros-socorros. O doutor da guerrilha urbana, estudante de medicina, enfermeiro, farmacêutico ou simplesmente uma pessoa treinada em primeiros-socorros, é de necessidade numa batalha revolucionária moderna.
Um pequeno manual de primeiros-socorros para a guerrilha urbana, impresso ou em mimeógrafo, pode ser compreendido por uma pessoa que tenha suficiente conhecimento.
No planejamento ou execução de uma ação armada, a guerrilha urbana não pode esquecer a organização logística médica. Isto pode ser completado por meio de uma clínica móvel ou motorizada. Você também pode estabelecer uma estação de primeiros-socorros e utilizar os conhecimentos de um camarada da guerrilha que esperará com equipamentos num lugar designado onde os feridos são trazidos.
O ideal seria ter uma clínica bem equipada, mas é bem custoso a menos que usemos materiais expropriados.
Quando tudo falha, as vezes é necessário recorrer a clínicas legais, usando a força se necessário para que os doutores atendam aos nossos feridos.
Na eventualidade que recorrermos a bancos de sangre para comprar sangue ou plasma completo, não deveremos usar endereços legais e certamente endereços onde feridos poderiam ser encontrados, porque eles estão baixo nossa proteção e cuidado.
Nem deveríamos dar endereços destes que estão envolvidos no trabalho clandestino da organização que trabalham nos hospitais e nas clínicas de onde os colhemos. Essas preocupações são indispensáveis para cobrir qualquer pista.
As casas onde os feridos ficam não pode ser conhecida por ninguém com exclusiva exceção de um pequeno grupo de camaradas que estão responsáveis pelo tratamento e transporte.
Cobertores, roupa ensangüentada, medicamentos e outros tipos de indícios de tratamento de um camarada ferido em combate com a polícia, deve ser completamente eliminado dos lugares que eles visitam para receber tratamento.
Depoimento de Carlos Augusto Marighella, filho de Carlos Marighella
Veja o post o assassinato de Carlos Marighella
Veja o documentário Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro
Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:
IVAN SEIXAS, CELSO LUNGARETTI, FRANKLIN MARTINS, FLÁVIO TAVARES, ÁUREA MORETI, VERA SILVIA MAGALHÃES, JACOB GORENDER, VLADIMIR PALMEIRA, AMÉLIA TELLES, CRIMÉIA ALMEIDA, CLÁUDIO TORRES, JOSÉ DIRCEU, CLARA SHARF, JOSÉ ROBERTO REZENDE, ALFREDO SIRKIS, FERNANDO GABEIRA, ALOÍZIO PALMAR, CARLOS EUGÊNIO PAZ.
Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:
Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.
Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano
Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço.
Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia
Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.
Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.
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