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DESFECHO DE CASO ELBRICK IRRITOU KISSINGER
Por Natalia Viana
 
 
Para Departamento de Estado, libertação de Cláudio Torres da Silva, após 7 anos de prisão, era “leniente” com "terrorista" que participou do sequestro do embaixador americano
 
Em 1976, Cláudio Torres da Silva, ex-guerrilheiro do MR-8, foi solto após cumprir sete anos de prisão por ter sequestrado, em 1969, o embaixador americano Charles Elbrick em troca da libertação e exílio de presos políticos como os líderes estudantis Luís Travassos, José Dirceu  e Vladimir Palmeira.
 
Condenado pela justiça militar a 30 anos de prisão – após ser barbaramente torturado –, Cláudio foi libertado em setembro daquele ano por bom comportamento, após recursos de seus advogados à justiça militar. Mas a libertação irritou o Secretário de Estado americano Henry Kissinger, que escreveu um comunicado diretamente ao embaixador dos EUA no Brasil, John Crimmins, pedindo que interferisse.
 
Chamando Cláudio Torres de “terrorista”, Kissinger escreveu um despacho diplomático em 18 de novembro dizendo que, “como Torres foi condenado por um específico ato de terrorismo e não somente com base em subsersão política, estamos curiosos sobre os motivos para reduzir a sentença e sua libertação”. Assim, Kissinger instruiu a embaixada e o consulado do Rio de Janeiro a questionar as bases para a soltura.
 
A resposta demorou alguns dias, e foi insatisfatória na visão dos americanos. O assessor político da embaixada havia ligado para procurador-geral do Superior Tribunal Militar, Ruy de Lima Pessoa, “explicando que seu questionamento fora motivado pela compreensível e contínua preocupação sobre o resultado do caso Elbrick, bem como pela notória defesa dos EUA por medidas rigorosas contra atos específicos e comprovados de terrorismo internacional, como o sequestro de diplomatas”, segundo um telegrama da embaixada de 3 de dezembro. Ele usou a ocasião, diz o documento, para esclarecer que “a insistência” dos EUA na ação “firme” em casos “específicos e comprovados de terrorismo” não era “de maneira nenhuma” inconsistente com a sua “igualmente firme” defesa da adesão por todos os países às garantias e salvaguardas afirmadas na Declaração Universal dos Direitos humanos.
 
Ao telefone, Ruy Lima Pessoa explicou não ter detalhes, apenas que Torres da Silva fora posto em liberdade condicional por bom comportamento – não houve redução da sentença. “Se esse fosse o caso, ele adicionou, Torres seria sujeito a cuidadoso monitoramento pelas forças de segurança, com limitações em sua liberdade de movimento e a exigência de se reportar regularmente à polícia”, garantiu o procurador-geral.
 
A resposta não agradou. Em um despacho de 22 de dezembro, o Subsecretário de Estado para assuntos interamericanos, Charles W. Bay, e Louis Douglas Heck, da Secretaria de Combate ao Terrorismo, afirmavam: “parece que o procurador-geral não entendeu a intenção do questionamento do conselheiro político”. Para eles, a comunicação anterior fora um tanto branda. “Estamos mais do que apenas curiosos sobre a libertação de Torres da Silva”, advertiam.
 
O documento encerra com uma ordem ao embaixador Crimmins: “Nós agradeceríamos qualquer coisa que você puder fazer para deixar claro para os brasileiros que estamos preocupados pela leniência dada a este terrorista que sequestrou um embaixador americano”.
 
Fonte: apublica.org
 
 

 

Visite o Memorial online dos mortos e desaparecidos da ditadura militar

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISALOÍZIO PALMAR.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

 

 

Comunistas Vlog - Bibliografia sobre a Guerrilha no Brasil Tags: guerrilha Brasil História luta armada ditadura militar sirkis lungaretti carlos eugênio paz Lucas Figueiredo comunistas comunismo ALN PT
 
Comunistas Vlog
Bibliografia sobre a Guerrilha no Brasil
 
 
 
 
ERREI: Em 05:34 eu digo que ALN foi criada por Lamarca, mas ela foi criada por Marighella. 
(OBS: Eu não tive tempo de editar esse vídeo muito bem, desculpem pelas vezes que eu me enrolo para falar).
 
 
1) Os Carbonários: Memórias da guerrilha perdida de Alfredo Sirkis
 
Sirkis conta como sequestrou o embaixador alemão
 
Guerrilha no Brasil - O Sequestro do Embaixador Suíço
 
 
2) Viagem à luta armada - Carlos Eugênio Paz
 
O justiçamento do guerrilheiro Marcio Leite de Toledo
 
Guerrilha no Brasil - fusca modelo peneira
 
O Martírio do guerrilheiro Eduardo Colem Leite, o Bacuri
 
Guerrilheiro Carlos Eugênio: Aprendi a sobreviver, não me serve de nada, não sei viver
 
Guerrilheiro Carlos Eugênio: O ódio tem contra-indicações
 
 
3) Náufrago da Utopia: Viver ou morrer na guerrilha. Aos 18 anos. - Celso Lungaretti
 
Blog do Celso Lungaretti
 
Julio vive e morre -- A prisão do guerrilheiro Celso Lungaretti
 
 
4) Ministério do Silêncio: a história do serviço secreto brasileiro de Washington Luís a Lula - Lucas Figueiredo
 
Blog do Lucas Figueiredo
 
Deu a louca no Serviço Secreto Brasileiro
 
Entenda o que foi o Atentado do Riocentro
 
 
5) Olho por olho: os livros secretos da ditadura - Lucas Figueiredo
 
Para o Exército, PT seria incubadora de terroristas
 

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Guerrilha no Brasil - O sequestro do embaixador americano Tags: Guerrilha luta armada guerrilha urbana ditadura militar sequestro embaixador EUA Charles Burke Elbrick MR-8 ALN Gabeira Franklin Martins

 

O sequestro do embaixador americano

Casa na Rua Barão de Petrópolis que serviu de cativeiro para o embaixador Charles Burke Elbrick

 

Reproduzo hoje trecho do livro O Sequestro dia a dia de Alberto Berquó. O livro procura mostrar, através de uma narrativa detalhada, os dias em que um grupo de jovens revolucionários brasileiros conseguiu capturar e manter em cativeiro o embaixador do país mais poderoso do mundo. Em 1969 os guerrilheiros da ALN – Ação Libertadora Nacional e do MR-8 – Movimento Revolucionário 8 de Outubro capturaram o embaixador americano Charles Burke Elbrick e o trocaram por 15 prisioneiros que sofriam nos porões da ditadura.

 

QUINTA-FEIRA, 4 DE SETEMBRO

Pouco antes das 10:00h da manha, o esquema do sequestro esta montado: Rios ficou na esquina da rua Conde de Irajá com a São Clemente, com um jornal na mão; mais na frente, quase na esquina da rua Marques, ficaram Salgado e Vera Sílvia, ele no banco de trás e ela no da frente, sem ninguém no volante do Volks; mais ou menos na metade da mesma rua Marques, entre a São Clemente e a Voluntários da Pátria, estavam Cid e Franklin, ao lado do Volks que eles tinham estacionado ali; meio dispersos, mas por perto, Virgílio, Cláudio Torres, Manoel Cirilo e Paulo de Tarso. Sérgio Rubens estava esperando, com a Kombi do transbordo, na Rua Euclides Figueiredo, que é sem saída - tudo em Botafogo, no Rio.

Os deslocamentos de rotina do embaixador eram simples, como os sucessivos levantamentos haviam demonstrado, inclusive o da véspera: ele saia de sua residência oficial, na rua São Clemente, 388, na limusine dirigida pelo motorista Abel Custódio da Silva, subia a mesma rua, dobrava na rua Marques,pegava a Voluntários da Pátria e seguia para a embaixada, no Castelo. Isto, invariavelmente, entre as 13:00 h e 14:00 h. Algumas vezes, também saia pela manhã.

O grupo resolveu instalar o esquema com antecedência, temendo que naquele dia o embaixador pudesse sair mais cedo, tendo em vista as comemorações e solenidades da Semana da Pátria. Funcionaria assim: quando Rios vislumbrasse o Cadillac preto, abriria e levantaria o jornal, como se começasse a lê-lo. Imediatamente, Salgado sairia do carro. Cid e Franklin, Vendo o movimento de Salgado, tirariam seu carro da vaga e, com a aproximação do Cadillac, começariam a manobrá-lo como quem iria estacionar, bloqueando a passagem, sem alarde. Enquanto isso, Rios, que tinha dado o sinal, assumiria rapidamente o volante do Volks onde estavam Salgado e Vera Sílvia, colocando-o atrás do carro americano, com naturalidade, como fariam outros veículos que viessem por trás, Nesse meio tempo, Virgílio entraria no Cadillac pela porta traseira do lado esquerdo e Manoel Cirilo pela do lado direito, ficando o embaixador entre os dois. Cláudio Torres empurraria o motorista para o meio do banco dianteiro e assumiria o volante. Paulo de Tarso entraria pela porta direita. Feito isto, na maior tranquilidade possível para não despertar muita atenção, Cid, em vez de estacionar, iria em frente, seguido pelo Cadillac, com o outro Volks atrás, na cobertura. Os carros percorreriam um roteiro programado: da rua Marques entrariam na Voluntários da Pátria, pegariam a Capistrano de Abreu, entrariam novamente na São Clemente, continuaram pelo largo dos Leões e a rua Humaitá, entrariam na Vitorio da Costa, depois rua Eugenia, Artur Ribeiro e Caio de Mello Franco, para chegarem até Euclides Figueiredo, local do transbordo. Todos iriam armados de revolveres, a exceção de Salgado, que portaria uma metralhadora, e Vera Sílvia, que levaria cargas de dinamite acondicionadas em latas de leite Ninho.

Esse planejamento foi ensaiado, cronometrado testado, examinado em seus mínimos detalhes e não deixou duvidas de que poderia funcionar com perfeição. Cada um sabia sua função soletrada, salteada e de cor. Deveria ser executado, no máximo até as 14:0Oh.

Nesse mesmo dia, o capitão-de-mar-e-guerra Murilo Souto Maior e sua esposa, dona Elba Souto Maior, tinham anunciado nos jornais a venda de uma casa deles, um sobrado no n° 15 da rua Marques, e lá chegaram as 9:00h da manhã, a espera dos compradores. Pouco antes das 10:00h, dona Elba notou dois homens parados na calcada em frente a casa. Quando chegou na janela do Segundo andar,viu um Volks vermelho estacionar nas imediações.

Minutos depois, chegou Outro carro, um Volks azul,deixado bem mais atrás.

Na foto acima dois guerrilheiros que participaram do sequestro: Fernando Gabeira e Vera Sílvia Magalhães. Ela morreu em 2007.

Dona Elba ficou desconfiada: parados na calçada, ansiosos e preocupados, os ocupantes carros poderiam ser assaltantes de banco. Por Volta das 13:00h tomou a primeira providência, anotando as placas: dois Volkswagens, um vermelho, ES 9-63-58, outro azul, SP 40-05-61. Em seguida, procurou o número do telefone da Delegacia de Furtos de Automóveis. Demorou um pouco, pois não conseguia despregar os olhos da rua. De posse do numero, apressou-se em ligar, mas o aparelho ficava distante da janela. Isto lhe ocasionava grande transtorno, pois não queria que algo ocorresse lá fora sem que ela testemunhasse. Discou rapidamente. O telefone chamava, chamava, chamava, e ninguém atendia. Estava desgostosa com a demora, quando, do outro lado da linha, surgiu uma Voz sonolenta: “DFA, boa tarde.” Dona Elba narrou os fatos, deu os números das placas, e a voz ficou de comunicar as providências que seriam tornadas. Ela voltou à janela.

Já passa de 13:00h e o embaixador não chega. Os participantes da ação começam a dar mostras de cansaço e tensão. Ha mais de três horas estão expectantes. Alguns fazem sinais a outros, sinais que não estavam Combinados. Virgilio, o comandante, usando uma peruca escandalosa, acha que aquela sinalização pode atrair suspeitas; também faz sinais, pedindo calma. Logo em seguida, dois policiais militares Vindos da rua São Clemente entram na rua Marques, e antes que dobrem a Voluntários da Pátria surgem outros dois, fazendo o mesmo percurso. Quase imediatamente uma radiopatrulha faz o mesmo trajeto, devagar. Não demora e dois motociclistas da policia passam pela rua Marques em alta velocidade. A tensão, a angustia e o nervosismo do grupo são, a essa altura, notáveis. Virgílio esta contido, mas apreensivo. Precisa tomar uma decisão urgente. Um caminhão de choque da Policia Militar passa devagar pela rua Marques e entra na Voluntários. Virgilio vai desmobilizar a ação. Enquanto o capitão-de-mar-e-guerra Souto Maior está no térreo esperando os clientes, dona Elba não sai da janela. Reparou que na esquina das ruas Marques e Capistrano de Abreu ha um homem branco, de óculos e Camisa amarela, um tipo meio estrangeiro. Ele fazia sinais, passando a mão nos cabelos e nos ombros, Dois homens encostados num poste respondiam aos sinais, gesticulando com as mãos. Outro homem na esquina também respondia aos sinais com acenos. E viu homens parados atrás do Volks vermelho, além de outro sujeito ao lado do Volks azul. Um rapaz estava parado na calçada em frente a casa. Dona Elba achou que o homem com aparência de estrangeiro e o mandava o grupo.

Estudante Franklin Martins faz discurso numa passeata no Rio de Janeiro. Anos mais tarde ele seria um dos sequestradores do embaixador dos EUA.

Quando dona Elba termina este ultimo levantamento, toca o telefone e ela vai atender. E o policial da Delegacia de Furtos de Automóveis: nada há de suspeito em relação aqueles carros, informa. Ela se tranqüiliza e se prepara para ir almoçar em Ipanema. Mas voltaria rapidamente. Poderia ter se enganado quanto a idéia de assalto, mas tinha certeza de que alguma trama estava sendo desenvolvida ali.

Já vai passando das 14:00h e o embaixador não passa. O levantamento tinha sido minucioso e completo: os horários e trajetos de Burke Elbrick eram invariáveis. O grupo do seqüestro teria subestimado a capacidade dos serviços de informação e segurança dos Estados Unidos?

Virgilio vai discutir a desmobilização com Salgado, subcomandante da ação e chefe da cobertura. Algo havia dado errado.

Na segunda quinzena de agosto de 1969, a direção da Dissidência da Guanabara (DI, lê-se “di”) convoca alguns representantes de sua Frente de Trabalho Armado (FTA) para uma reunião extraordinária em um de seus “aparelhos”, sob recomendação de Sigilo absoluto, inclusive em relação a outros membros da própria FTA.

Numa sala, sentados em almofadas espalhadas pelo chão, Dino (João Lopes Salgado, 26 anos de idade, ex-presidente do Centro Acadêmico de Ciências Médicas, quartanista de medicina, mas afastado pela clandestinidade), Billi (Cid de Queiroz Benjamin, 20 anos, ex-vice-presidente da União Metropolitana dos Estudantes, da Faculdade de Engenharia, também na clandestinidade), Marta (Vera Silvia de Araujo Magalhães, 21 anos, ex-estudante de economia, também clandestina), Aníbal (José Sebastião Rios de Moura, 27 anos, artista gráfico) e Sergio Rubens (estudante) ouviram estupefatos – e logo entusiasmados – uma afirmação e uma pergunta do dirigente Djalma (Daniel Aarão Reis Filho, 22 anos, ex-estudante de direito, clandestino):

- A organização recebeu uma proposta de seqüestrar o embaixador dos Estados Unidos para trocá-lo pelo Wladimir. Vocês acham que a FTA tem condições militares para realizar uma ação dessa envergadura com sucesso?

Depois de um breve instante de pasmo, uma vibração de entusiasmo sacudiu os corpos e iluminou os rostos. Tinha. Claro que tinha! Essa era a ação que faltava para dar impulso à luta do povo contra a ditadura, o entusiasmo foi imenso, todos estavam de acordo e prontos para começar a preparação. Mas Dino, comandante da FTA, embora apoiando a ação, fez uma observação cautelosa: seriam necessárias medidas excepcionais de segurança, porque depois de consumada a ação, com sucesso ou não, a repressão seria mil vezes redobrada. Estava Cerro. Mas, mesmo assim, todos continuaram eufóricos com a idéia.

A partir daquele instante, começou o planejamento visando a ação militar do seqüestro e da capitalização posterior da repercussão política que ele iria proporcionar.

Terminada a reunião, cada qual tomou O seu rumo. A ruminação de tal aventura embrulhava alguns cérebros, uns mais revolucionários, outros mais racionalistas, mas todos lutando contra a ditadura e pela transformação social do país - isto também era tema de discussão constante.

Daniel Vai arcar com o peso da organização como um todo, enquanto Valdir (Franklin Martins, 21 anos, ex-eStudante de economia, clandestino) e Claudio Torres (24 anos, estudante de historia, ainda vivendo na legalidade) trabalharão na montagem e execução do seqüestro, juntamente com o pessoal da Frente de Trabalho Armado. Os três eram, na época, os principais dirigentes da organização.

A Dissidência da Guanabara era pouco conhecida da policia. Alguns quadros já tinham sido presos, mas nunca haviam feito referência à organização. A polícia tinha sobre ela algumas informações gerais, mas imaginava que era uma organização exclusivamente voltada para as lutas estudantis, embora na Verdade ela ja houvesse praticado várias ações armadas: propaganda, assaltos à bancos, roubo de armas. Mas nunca assinara seus feitos.

A idéia do seqüestro tinha partido de um militante da DI que atuava na Frente de Camadas Médias (FCM), Zé Roberto. Já fazia tempo que a DI Vinha pensando numa maneira de libertar Wladimir, um dos principais líderes estudantis de 1968 e um dos fundadores da Dissidência da Guanabara. Daniel, Franklin e Claudio - como, de resto, seus demais companheiros - consideravam que a luta revolucionária ganharia em pouco tempo uma radicalização muito grande. Embora não pesasse contra Wladimir nenhuma acusação grave, pois não tinha participado de ações armadas, temiam que ele ficasse indefinidamente na cadeia.

Cid Benjamin, um dos principais elos de ligação entre a direção-geral da DI e outras organizações armadas, chegara a fazer levantamentos no quartel da Policia Especial, no Ibirapuera, em São Paulo, e logo depois num quartel da Marinha, em Jurujuba perto de Niterói, lugares onde Wladimir estivera preso. Conclusão: era impossível qualquer ação direta de resgate.

Assim, entrou na ordem do dia o sequestro do embaixador americano no Brasil.

O levantamento dos hábitos, horários, roteiros e segurança do embaixador foi posto em marcha. As dificuldades, é claro, pareciam imensas. A tentativa de seqüestro do embaixador americano na Guatemala, John Gordon Nein, em passado recente, estava viva nas memórias interessadas, e seu trágico desfecho era um alerta: o embaixador Nein reagira e morrera. Com tal precedente, o esquema de segurança de Burke Elbrick tinha que ser formidável! E havia as histerias sobre os espetaculares feitos do FBI e da CIA, com seus agentes espalhados pelo mundo, munidos dos mais modernos e sofisticados aparelhos de visão e escura, como câmeras de televisão em miniatura, microfones camuflados em toda parte – tudo sabiam! Especialistas em infiltrações, treinadíssimos para a luta corpo-a-corpo, peritos nas armas brancas, atiradores de elite, onipotentes e oniscientes. E mais: quem não conhecia a versão de que o embaixador Lincoln Gordon, antecessor de Burke, com descomunal capacidade de articulação, tinha urdido toda a trama que resultara no golpe militar de 1° de abril de 1964?

Como, então, jovens militantes de uma organização recém-criada, sem preparação militar prolongada, sem treinamento em informação e contra-informação, poderiam ao menos seguir a distancia o automóvel do embaixador da maior potência industrial e militar do mundo ocidental e cristão, sem serem notados imediatamente pelos agentes cinematográficos do FBI e da CIA? Além do mais, a limusine do embaixador teria que ser a prova de bala, blindada, só abrindo por dentro, com sistema de alarme e rádio transmissor Tudo isto era levado em conta.

Insegura quanto a sua própria capacidade de realizar tal ação, a DI resgata uma antiga tese, a da unidade entre as organizações armadas, e passa a imaginar o seqüestro não só como um meio de libertar Wladimir, mas como um grande acontecimento político. Decide acelerar os preparativos para que a ação se realize na Semana da Pátria, tendo em vista obter um imenso impacto propagandístico: o seqüestro globalizaria o conjunto de ações armadas contra a ditadura, em curso no país, até então fragmentadas. Como nem sempre deixavam panfletos explicativos, havia muita controvérsia na opinião publica: eram mesmo ações políticas?

A DI analisava que o capitalismo estava num impasse no Brasil. As elites não dariam tão cedo oportunidade para o exercício do jogo democrático, as condições estavam muito limitadas. O país evoluiria na direção de uma ditadura cada vez mais Violenta, contra a qual a única solução seria a luta armada.

Com tal horizonte político, a direção da DI e seu grupo armado tomam a decisão já a partir do seqüestro do americano, ela efetuaria ações armadas em conjunto com outras organizações, a fim de formar uma frente comum. Colaborava para isto, também, 0 fato de os quadros da DI serem muito jovens, com pequena experiência de luta armada, o que lhes acarretava certa insegurança. O grupo se ressentia da exigüidade de quadros capacitados. Por isto, nas ações mais importantes, usava sempre os mesmos, os mais experimentados, o que os queimava. Tentando sanar esta deficiência, a direção da organização deslocara para aquela frente, ha pouco tempo, três militantes: João de Deus Paranhos e Aurimar Pereira, da Frente Estudantil, e Fernando Lopes de Almeida, da Frente de Camadas Médias. O resultado esperado não Veio e eles foram reconduzidos as suas bases de origem, pois nada acrescentavam aqui e desfalcavam ali. O problema continuava igual.

Cid Benjamin foi designado para estabelecer contatos com outras organizações e levar as propostas de unidade. Contatada em primeiro lugar a Vanguarda Armada Revolucionária, conhecida como VAR-Palmares, nada pode ser levado adiante, pois esta organização estava enveredada em intermináveis discussões internas, voltada mais para dentro de si. Desinteressada na formação de uma frente, seus quadros faltavam aos pontos de encontro, até que a DI suspendeu os contatos, sem chegar a tocar no assunto do embaixador.

Logo depois, em São Paulo, foi contatado Toledo (Joaquim Câmara Ferreira, 60 anos), o Segundo principal dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN) - o principal era Carlos Marighella -, com quem a discussão fluiu bem, decidindo-se pela participação conjunta na ação. A ALN escolheria três quadros - seriam Jonas (Virgilio Gomes da Silva, 30 anos, operário gráfico), Geraldo (Paulo de Tarso Wenceslau, 22 anos, estudante) e Antonio (Manoel Cirilo de Oliveira, 21 anos, operário) -, que chegariam ao Rio as vésperas da ação, quando tudo estivesse pronto. Toledo também viria para as discussões políticas e o encaminhamento geral.

No Rio de Janeiro, a preparação do seqüestro já estava em ritmo febril. Precisava-se preparar Uma boa infra-estrutura, melhorar os armamentos e organizar um recuo em condições muito melhores, para esconder os quadros mais procurados que certamente seriam caçados de forma implacável depois da ação. Através, basicamente, de simpatizantes de classe media, começou a procura de locais para guardar o embaixador e abrigar os militantes profissionalizados. Mas o tempo passava com rapidez. Com a enfermidade de Costa e Silva, um golpe dentro do golpe impedira a posse do vice-presidente Pedro Aleixo e garantira a ascensão de uma junta, num ambiente de crise. A Semana da Pátria aproximava. Era o momento ideal.

O tempo passava e não se conseguia montar com a rapidez desejada a infra-estrutura, tal como imaginada. A solução foi improvisar. Helena Bocayuva Khair, simpatizante da DI, tinha alugado uma mansão na rua Barão de Petrópolis, onde fora viver o jornalista Fernando Gabeira, que colaborava na edição do jornal Resistência, porta-voz da organização.

Nos planos originais da organização, a casa serviria para a montagem de uma pequena gráfica clandestina. Mas, perdendo a corrida contra o tempo, e sem querer deixar escapar a oportunidade de realizar ação em plena crise do regime militar, a direção resolveu guardar o embaixador lá mesmo. E, não encontrando uma Kornbi apropriada para trasladar o seqüestrado, resolveu usar a Verde, ate então utilizada apenas para os serviços do jornal clandestino. Fora comprada em nome de Chico Nelson, um jornalista da revista O Cruzeiro, que militava com Gabeira na Frente de Camadas Médias (FCM).

Mas havia mais a fazer, uma ação desse tipo exige outras, preparatórias. A preparação do seqüestro obrigava a FTA a um trabalho intenso para conseguir mais armas, carros, placas e um fundo financeiro significativo, porque depois teria que se retrair por algum tempo. Era ela que sustentava o aparato clandestino de toda a organização. Poderiam buscar mais recursos num banco, mas a forma heterodoxa com que o fariam poderia por em risco a ação principal. Foi quando chegou uma informação interessante.

Na cinematográfica cobertura situada na avenida Atlântica, esquina com Figueiredo Magalhães, a noite, a critica de arte da revista Realidade Vai fazer uma reportagem de quatro paginas sobre a fantástica Colégio de quadros de seu morador: Portinaris, Djaniras, Van Goghs e outros. O deputado Edgar de Carvalho tinha acertado tudo com a jornalista, já lhe havia mostrado a cobertura, os enormes salões e dormitórios, apresentando-lhe sua esposa e combinando que ele Convidaria um grupo de amigos para assistir a entrevista e participar da reportagem. Isto, acreditava, não só aumentaria seu prestigio junto ao high society como lhe aumentaria os votos na próxima campanha eleitoral. Como mantenedor de várias Casas para idosos, tinha estreitas relações com organismos internacionais, principalmente os do Reino Unido, Suécia e Dinamarca, além do Conselho Mundial das Igrejas. A revista Realidade tinha alguma distribuição nesses países, e onde ela não chegasse ele se incumbiria de fazê-la chegar. Seu nome como homem culto e de bom gosto facilitaria ainda mais suas relações internacionais.

As 21:O0h chega a equipe da Realidade. A crítica, o câmera - também ia ser filmado -, seu assistente e o fotógrafo. O iluminador entraria pela porta de serviço. O deputado os recebe, maravilhado. Leva a equipe para sua galeria de arte e vai ao salão buscar os convidados. Entre estes, havia um grande conhecedor de muitas artes, uni delegado de Policia do 13° Distrito Policial, em Copacabana.

Quando chega o iluminador, o câmera propôs começar as filmagens e coloca o grupo de amigos em frente aos quadros. O deputado e sua esposa preparam a pose. Todos a postos, o câmera se afasta e, de uma grande bolsa que levava a tiracolo, começa a tirar os aparelhos. O assombro é espantoso: estão diante de uma metralhadora e vários revolveres. Todos ficam estáticos, a exceção do deputado que, muito nervoso, começa a passar mal. Era cardíaco. Providenciam logo um Isordil, que colocam sob sua língua. Acalma-se, aos poucos. Salgado, o de rnetralhadora, com voz pausada, diz-lhe que só querem os dólares, nada mais. O pessoal da DI sabia que o deputado era um pouco heterodoxo. Por motivos, digamos assim, de comodidade, os dólares recebidos em nome dos idosos ficavam guardados em sua própria casa, em espécie.

Mas o deputado era também cardíaco e artista: - Aqui não ha dólares, meu ilustre senhor. Só temos esses quadros, que os senhores podem levar. O fotógrafo começa logo a embrulhar os quadros, mas Salgado manda que pare. O deputado, com grande esperteza, ofereceu os quadros, que valiam centenas de milhares de dólares, mas que de nada serviriam para a FTA, que necessitava de dinheiro vivo e urgente e não pensava em enfeitar seus “aparelhos” com belas pinturas. Se levassem os quadros, o delegado logo acionaria a policia, como iria fazer, e mais dia menos dia os recuperaria, pois não_tinham condições de vendê-los. O que ele não podia era mexer nos dólares, coletados nos organismos internacionais em nome das instituições que dizia representar, mas muito hem guardados em sua própria casa.

_ Senhor deputado, não queremos quadros, queremos dólares.

- Ilustre Senhor, como já disse, aqui não há dólares.

- Será que eu vou ter que dizer onde eles estão guardados? Eu sei onde estão, mas não quero passar a vergonha de eu mesmo ter de ir buscá-los.

- Aqui não ha dólares. Podem levar Os quadros?"

O debate protocolar, seguindo as normas regimentais e sem ferir o decoro, não ultrapassou uns minutos. Então, Salgado resolveu rasgar o regimento interno, e o deputado Edgar de Carvalho entregou os dólares. Com a bolsa recheada, foi-se a equipe da Realidade: Salgado, chefe da equipe; Rios, fotógrafo; Sergio Rubens, iluminador; Vera Sílvia, crítica de arte. Embaixo, fazendo a segurança, Cid e Franklin.

O levantamento da rotina do embaixador andava meio emperrado. Quem poderia resolver isso, senão Vera Silvia? No início, da apenas anotava os horários em que o embaixador entrava e saía de Casa. Depois, sofisticou seu trabalho. Começou a passear com um cachorro pela rua São Clemente, na altura do n° 388, até ser alvo de galanteios por parte de um rapaz que ali estava postado. Apesar de bastante tímida, a belíssima moça - Parecia mesmo uma crítica de arte - deu a ele meio dedo de prosa e seguiu seu caminho.

No dia seguinte, a cena Se repetiu e a conversa se alongou um pouco mais. Era mineira, recém-chegada; estava pela primeira vez no Rio de janeiro. Uma boa cordialidade se estabeleceu entre eles.

“Que casa mais bonita, é você quem mora nela?”

“Não esta é a casa do embaixador dos Estados Unidos da América, Eu sou funcionário do governo norte-americano» faço parte do esquema de Segurança do senhor embaixador. E você, já conhece o Corcovado, o Pão de Açucar?” “Não, ainda não, só de retrato. Ah, Vai conhecer, tem uma vista maravilhosa, é o cartão-postal do Rio de Janeiro... Você tem namorado? Não tem? Sua tia não gosta que você ande longe? Nem Conhece a Urca, Copacabana, Ipanema? As praias mais bonitas do mundo? Não Conhece? Só quando estiver mais ambientada tiver boa companhia é que vai conhecer tudinho? Gostaria que eu te apresentasse a meus Colegas e meu chefe?”

Não tardou muito e a linda mineirinha passou a conhecer ate o Chefe da segurança do embaixador, com o qual ficava também conversando na porta. Todos estavam loucos para mostrar-lhe as belezas da Cidade Maravilhosa, e talvez algo mais.

Vladimir Palmeira discursa no Rio de Janeiro. Ele foi um dos libertados em troca do embaixador americano.

Os demais integrantes da Frente de Trabalho Armado não acreditaram no que estavam ouvindo: o embaixador dos Estados Unidos Circulava sem esquema de segurança, apenas com o motorista, sempre no Cadillac preto, Chapa CD-3, cujas portas se abriam normalmente, por dentro e por fora, como qualquer outro; não havia nenhum sistema de alarme; seu horário e trajeto de casa a sede da embaixada, no Castelo, seguiam a mesma rotina: três vezes por semana ele dava expediente na embaixada pela manhã, ia almoçar em Casa e voltava; nos outros dois dias ele só saia de casa depois do almoço, sempre entre 13:00h e 14:00h.

Vera Silvia garantia que era assim. Seguindo o Cadillac, o pessoal da FTA Confirmou tudo. Puderam planejar a ação mais rápido do que tinham pensado, E os rapazes da rua São Clemente ficaram desolados por não poderem mostrar a bela mineirinha o Rio de Janeiro, e o algo mais, pois um imprevisto a faria voltar para sua terra natal.

Hoje, O embaixador Burke Elbrick esta atrasado porque foi posar para uma fotografia encomendada por uma revista americana em Companhia de sua esposa Elviry Elhrick, née Lindsay Johnson, e de seu cão de estimação, Tony, de raça cocker. Virgilio e Salgado, que evidentemente nada sabem sobre isso, resolvem desmobilizar a ação. Uma desmobilização parcial. Liberam os companheiros para comer algo e tomar refrigerante, deixando apenas dois observadores, Cid e Rios. Se o embaixador passasse, a ação voltaria a ser mobilizada no dia seguinte, da mesma maneira, Se não passasse, o esquema seria imediatamente reativado.

Vera, Salgado, Cirilo, Virgilio e Paulo de Tarso vão almoçar num pé-sujo ali perto, em pé. Um pé-efe restaurador. Dona Elba foi almoçar em Ipanema.

Terminados os almoços, todos voltam a seus afazeres. Dona Elba |a esta no seu posto, na janela do sobrado. O embaixador prepara-se para sair. O pessoal da FTA Volta mais descontraído. Rios confirma para Virgílio que o embaixador não passara. Remobiliza-se a ação.

Em pouco tempo, a Vigilante dona Elba volta a ver os mesmos homens nos mesmos lugares. Então, repentinamente, recomeça a gesticulação, porém agora com uma intensidade desmedida. Ela fica tensa, Com todos os sentidos alertas. Na rua, Rios avista o Cadillac preto que se aproxima. Abre e levanta o jornal. Salgado sai normalmente do carro e Cid começa a manobrar o seu. Os outros se aprestam Chegou a hora agá. Mas logo um desesperado Rios desfaz o sinal para Salgado, que desfaz para Cid, que desfaz para os outros. Era um Cadillac preto, sim, mas do embaixador de Portugal, que quase toma o lugar de seu tão aguardado colega!

Dona Elba está apreensiva, prevendo um desfecho qualquer, mas tudo Volta à normalidade. Já passa das 14:15h e o embaixador não passa. Novas sinalizações. Dona Elba está atenta. Vê grande movimentação na rua. Volta a anotar a hora, 14:25h,

Presta bastante atenção e nota que o homem parado na esquina das ruas Marques e São Clemente ficou muito agitado e fez sinais, levantando e abaixando o braço esquerdo. Um dos homens entrou no Volkswagen vermelho e ligou o motor. Foi quando um Cadillac preto entrou na rua Marques em baixa velocidade. O Volkswagen arrancou e deu uma fechada no Cadillac no meio da rua. Ela viu bem que o homem que estava parado na calçada, em frente a sua casa, atravessou a rua e ameaçou o motorista do Cadillac com um revolver. O motorista ficou muito espantado e passou para o lado direito do assento, com o homem armado sentando-se em seu lugar. Enquanto isso, dois outros homens armados de revolveres entraram no banco traseiro, um de cada lado, e mais um tomou lugar no da frente.

Ela ficou muito nervosa; tinha uma arma guardada no térreo. Por um instante, ficou sem saber como atuar, pois acreditou que não dava tempo de ir buscar a pistola e atirar nos bandidos. O melhor talvez fosse berrar, alertando que era um assalto; criar uma confusão, retardar o assalto e pegar sua arma. Gritou, gritou muito, era um assalto! O homem que estava no Volante do Cadillac olhou para ela, fez um gesto com a arma, arrancou com Velocidade e entrou na Capistrano de Abreu. Ela calculou que o homem com aparência de estrangeiro devia ter aproximadamente 1,80m de altura e podia ter 30 anos de idade. O homem que rendeu o motorista do Cadillac era forte e alto, moreno, com barba crescida, cabelos escuros e usava óculos. O que dirigia o Volkswagen vermelho era branco, com rosto delgado e bigodes. Quanto aos homens restantes, podiam ter entre 25 e 30 anos. Ela voltou a ligar para a DFA.

O Cadillac arrancou com velocidade. Claudio Torres no Volante, o motorista no meio e Paulo de Tarso do outro lado; no banco traseiro, o embaixador, entre Virgilio e Cirilo. Entrou na Capistrano de Abreu e, sem incidentes, seguiu a rota anteriormente traçada até a rua Euclides de Figueiredo - com a cobertura do Volks Vermelho a frente, com Cid e Franklin, e do azul atrás, com Rios, Salgado e Vera Silvia -, onde Sergio Rubens estava estacionado com a Kombi. Do Cadillac, todos - menos o motorista Abel Custodio, que foi liberado - se trasladaram para a Kombi com a maior naturalidade possível e se dirigiram a casa da rua Barão de Petrópolis, 1.O26. Lá, Salgado saltou do \/olks e abriu a garagem, onde a Kornbi entrou junto com ele. Virgílio e Cirilo subiram para a casa. Só então Salgado e Claudio Torres desembrulharam o embaixador, que estava enrolado num tapete. Em seguida, Cláudio também subiu para a casa, ficando o embaixador e Salgado sentados na Kornbi, esperando escurecer.

Charles Elbrick reclama de dores em todo o corpo por causa do sacolejo: fizera o trajeto embrulhado e deitado no piso da Kombi. Além disso, tinha um ferimento na testa, do lado direito, conseqüência de uma coronhada que Cirilo lhe aplicara na hora da ocupação do Cadillac, pois o embaixador esboçara um gesto, interpretado como resistência.

Assim que se viu livre, o motorista Abel Custódio bateu na porta da casa de nº 41 da rua Caio de Melo Franco, onde residia o gráfico Francisco Vaz, dali telefonando para a policia e a embaixada. Esta se comunicou imediatamente com seu governo em Washington e com as autoridades brasileiras. Informado do seqüestro pelo conselheiro Henry Kissinger, o presidente Nixon convocou o secretário de Estado, William Roger, que prontamente  enviou uma mensagem ao governo brasileiro, afirmando que tudo devia ser feito para que o embaixador Charles Burke Elbrick fosse libertado o mais rapidamente possível, são e salvo.

Enquanto isso, guiada pelo motorista Abel Custódio, a policia localiza o Cadillac estacionado na rua Euclides de Figueiredo, encontrando ali um manifesto assinado pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), com duas exigências básicas: libertação de prisioneiros políticos e divulgação do próprio manifesto, na integra, nos principais jornais, rádios e televisões do país. O governo tinha 48 horas para responder publicamente se aceitava ou rejeitava a proposta.

Berquó, Alberto. O seqüestro dia a dia – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

OS QUINZE LIBERTADOS

José Ibrahim, líder do movimento operário paulista, um dos quinze presos políticos trocados pelo embaixador americano, estava no presídio Tiradentes. Ao ouvir seu nome, sentiu felicidade e medo: se algo desse errado os quinze ficariam em perigo. Agnaldo Pacheco, da Aliança Libertadora Nacional, ALN; Flávio Tavares, jornalista gaúcho, coordenador do Movimento Nacionalista Revolucionário, MNR; Gregório Bezerra, líder sindical (morto em 1983); Ivens Marchetti, da Dissidência de Niterói (morto em 2002 de câncer); João Leonardo da Rocha, da ALN (morto pela polícia em 1974); José Dirceu, líder estudantil preso em Ibiúna; Luís Travassos, ex-presidente da UNE (morto em acidente de carro no Rio em 1982); Maria Augusta Carneiro Ribeiro, unica mulher da Dissidência Guanabara, a DI-GB, presa em Ibiúna; Mário Zanconato, fundador da corrente Revolucionária, ligada à ALN; Onofre Pinto, fundador da VPR, Vanguarda Popular Revolucionária (morto em emboscada em 1974, no Paraná); Ricardo Vilas, da DI-GB; Ricardo Zarattini, do movimento operário; Rolando Frati, comunista de São Paulo; Vladimir Palmeira, líder estudantil que comandou a Passeata dos 100.000.

 

Visite o Memorial online dos mortos e desaparecidos da ditadura militar

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRAALOÍZIO PALMAR.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

 

Marighella: Objetivos das Ações de Guerrilha Urbana Tags: Carlos Marighella Marighella guerrilha luta armada ditadura militar polêmica guerrilheiro guerrilha urbana comunistas brasileiros ALN

Marighella

Objetivos das Ações de Guerrilha Urbana

O trecho do livro que irei comentar agora é bastante polêmico. Trata-se do Mini-manual do guerrilheiro urbano de Carlos Marighella. A extrema-direita freqüentemente usa trechos deste livro para mostrar o quanto eram violentas as ações armadas dos revolucionários que lutaram contra a ditadura militar no Brasil. É claro que se analisarmos tudo fora do contexto histórico qualquer ação da guerrilha não seria bem vista. No entanto, mesmo analisando-as dentro do contexto as ações dos guerrilheiros sempre serão polêmicas. Em minha opinião, a Esquerda não deve tentar esconder seu passado violento, faz parte de sua história. É preciso lembrar que aqueles homens e mulheres que pegaram em armas viviam numa época em que não havia espaço para moderados. Eles acreditavam que a única maneira de acabar com a miséria de nosso povo era através da Revolução Socialista e, se pararmos um pouco para pensar, não estavam errados. Ora, as classes dominantes brasileiras não apoiaram o golpe militar para impedir as reformas sociais moderadas de Jango?

Como diz o ex-guerrilheiro Franklin Martins não se deve olhar para aquelas pessoas com a visão de mundo de hoje. Pois eles viviam num tempo em que mercado era onde as donas de casa faziam compras e não essa entidade que muitos dizem que tem que controlar a humanidade com sua mão invisível. E massa era o povo a caminho de se encontrar com seu destino revolucionário e não uma tentação para os que estão de dieta.

 

9.2 Objetivos das Ações de Guerrilha Urbana

Com suas técnicas desenvolvidas e estabelecidas, o guerrilheiro urbano baseia-se em modelos de ação que o conduzem a atacar e, no Brasil, com os seguintes objetivos:

a. ameaçar o triângulo no qual os sistemas de dominação do estado brasileiro e norte-americano são mantidos no Brasil, um triângulo cujos pontos são Rio, São Paulo, e Belo Horizonte e cuja base é o eixo Rio-São Paulo, onde o gigante complexo industrial, econômico, político, cultural, militar, policial que sustenta o poder decisivo do país está localizado;

b. debilitar os guardas locais ou os sistemas de segurança da ditadura, dado o fato de que estamos atacando e os militares defendendo, o qual significa capturando as forças governamentais em posições defensivas, com suas tropas imobilizadas em defesa de todo complexo de manutenção nacional, e com seu medo onipresente de um ataque em seus centros nervosos estratégicos, e sem saber onde, como, e quando virá o ataque;

c. atacar em todos lados, com muitos grupos armados diferentes, pequenos em números, cada um independente e operando por separado, para dispersar as forças do governo em sua perseguição de uma organização extremadamente fragmentada em vez de oferecer-lhes à ditadura a oportunidade de concentrar suas forças repressivas na destruição de um sistema altamente organizado e estruturado operando em todo o pais;

d. provar sua combatividade, decisão, firmeza, determinação, e persistência no ataque contra a ditadura militar para permitir que todos os inconformes sigam nosso exemplo e lutem com táticas de guerrilha urbana. Enquanto tanto, o governo, com todos os problemas, incapaz de deter as operações da guerrilha na cidade, perderam o tempo e sofreram desgastes, o que finalmente ocasionará que retirem suas tropas para poder vigiar os bancos, industrias, armarias, barracas militares, televisão, escritórios norte-americanas, tanques de armazenamento de gás, refinarias de petróleo, barcos, aviões, portos, aeroportos, hospitais, centros de saúde, bancos de sangue, lojas, garagens, embaixadas, residências de membros proeminentes do regime, tais como ministros e generais, estações de policia, e organizações oficiais, etc.

e. aumentar os distúrbios dos guerrilheiros urbanos gradualmente em ascendência interminável de tal maneira que as tropas do governo não possam deixar a área urbana para perseguir o guerrilheiro sem arriscar abandonar a cidade, e permitir que aumente a rebelião na costa como também no interior do pais;

f. para obrigar o exército e a policia, com os comandantes e seus assistentes, a mudar a acomodação e tranqüilidade relativa das barracas e seu relativo descanso, por um estado de alarme e tensão em aumento da expectativa de ataque ou a busca de pistas que se desvanecem sem deixar traço algum;

g. para evitar batalhas abertas e combate decisivo com as forças do governo, limitando a luta a ataques rápidos e breves com resultados relâmpagos;

h. para assegurar aos guerrilheiros urbanos um máximo de liberdade de ação e movimento sem ter que evitar o uso de violência armada, permanecendo firmemente orientado até o começo da guerra de guerrilha rural e apoiando a construção de um exército revolucionário para a libertação nacional.

​Muitos pensam que a guerrilha rural foi lançada somente porque o cerco repressivo da ditadura se intensificou nas cidades. No entanto, desde o início o plano era arrecadar dinheiro e armas nas cidades até que os guerrilheiros tivessem condições suficientes para lançar a guerrilha no campo onde eles imaginavam ter maiores condições de vencer o Exército e libertar o país.

 

9.3 Sobre os Tipos e Natureza de Modelos de Ação para os Guerrilheiros Urbanos

Para poder alcançar os objetivos previamente enumerados, o guerrilheiro urbano está obrigado, em sua técnica, a seguir uma ação cuja natureza seja tão diferente e diversificada como seja possível. O guerrilheiro urbano não escolhe arbitrariamente este ou aquele modelo de ação.

Algumas ações são simples, outras são complicadas. O guerrilheiro urbano sem experiência tem que ser incorporado gradualmente em ações ou operações que correm desde as mais simples até as mais complicadas. Começa com missões e trabalhos pequenos até que se converta completamente em um guerrilheiro urbano com experiência.

Antes de qualquer ação, o guerrilheiro urbano tem que pensar nos métodos e no pessoal disponível para realizar a ação. As operações e ações que demanda a preparação técnica do guerrilheiro urbano não podem ser executadas por alguém que carece de destrezas técnicas. Com estas precauções, os modelos de ação que o guerrilheiro urbano pode realizar são os seguintes:

a. assaltos

b. invasões

c. ocupações

d. emboscadas

e. táticas de rua

f. greves e interrupções de trabalho

g. deserções, desvios, tomas, expropriações de armas, munições e explosivos

h. libertação de prisioneiros

i. execuções

j. seqüestros

l. sabotagem

m. terrorismo

n. propaganda armada

o. guerra de nervos

 

Assaltos

O assalto é o ataque armado com o qual fazemos expropriações, libertamos prisioneiros, capturamos explosivos, metralhadoras, e outras armas típicas e munições.

Os assaltos podem ser realizados de noite ou de dia. O assalto de noite é usualmente o mais vantajoso às guerrilhas urbanas. A idéia é que o assalto seja executado de noite quando as condições para um ataque de surpresa são mais favoráveis e a obscuridade facilita a fuga e esconde a identidade dos participantes. O guerrilheiro urbano tem que preparar-se, no entanto, para atuar baixo qualquer condição, de noite ou de dia.

Os alvos mais vulneráveis para o assalto são os seguintes:

a. bancos e estabelecimentos de crédito

b. negócios comerciais ou industriais, incluindo a produção de armas e explosivos

c. estabelecimentos militares

d. delegacias e estações de policia

e. presídios

f. propriedade do governo

g. meios de comunicação de massa

h. escritórios e propriedades norte-americanas

i. veículos do governo, incluindo veículos militares e da polícia, caminhões, veículos armados, carregadores de dinheiro, trens, barcos, e aviões.

Antes de ser promulgado o AI-5 em Dezembro no mesmo ano, ações de guerrilha urbana começaram a ser divulgadas pela imprensa. Os órgãos de repressão política da ditadura militar, surpreendidos e confusos faziam acusações sobre quem comandava aquelas ações. Acusavam Marighella, o líder estudantil Tarzan de Castro e Edgard de Almeida Martins. O "Assalto ao Trem Pagador " é considerada a primeira ação de guerrilha urbana no Brasil. 

 
A grande imprensa reproduzia as informações divulgadas pelos órgãos de informação militares.As palavras "guerrilheiros", terroristas", "subversivos" entravam para o vocabulário dos nossos jornais. Nas redações , perseguições aos jornalistas , "caça" aos que não colaborassem publicando o que e como queriam os militares. (Fonte: midiaindependente.org)

Os assaltos em estabelecimentos são da mesma natureza porque em cada caso a propriedade e os edifícios representam um alvo fixo.

Os assaltos aos edifícios concebidos como operações de guerrilha, variam de acordo a se são bancos, negócios comerciais, indústrias, acampamentos militares, delegacias, presídios, estações de rádio, armazéns de empresas imperialistas, etc.

Os assaltos em veículos - carros blindados, trens, barcos, aviões - são de outra natureza já que envolvem um alvo em movimento. A natureza da operação varia de acordo à situação e a possibilidade - isto é, se o alvo é estacionário ou móvel.

O hoje senador Aloysio Nunes assumiu na clandestinidade o pseudônimo Mateus. Durante muito tempo foi motorista e guarda-costas de Marighella. Em outubro de 1968 participou do assalto ao carro-pagador da Massey-Ferguson interceptando o veículo na praça Benedito Calixto, no bairro paulistano de Pinheiros. (adaptado do Wikipédia)

Os carros blindados, incluindo veículos militares, não são imunes às minas. Estradas obstruídas, armadilhas, enganos, intercepção de outros veículos, bombas Molotov, atirar com armamento pesado, são métodos eficientes de assaltar veículos.

Os veículos pesados, aviões em terra, barcos ancorados, podem ser tomados e as tripulações capturadas. Os aviões em vôo podem ser desviados de seu curso pela ação guerrilheira ou por uma pessoa.

Durante a ditadura militar a guerrilha brasileira também fez sequestros de avião: Em 1º de janeiro de 1970 o jovem James Allen da Luz executou uma missão arriscadíssima. Desviou para Cuba um avião que ia de Montevidéu para o Rio, e pois a salvo seis militantes da VPR, Vanguarda Popular Revolucionária. O avião fez quatro escalas, a mais tensa foi no Peru, onde foi cercado no aeroporto por centenas de militares armados. Depois de uma longa negociação o avião levantou voo e os passageiros e guerrilheiros desembarcaram no aeroporto José Martí, em Havana. 

Outro sequestro de avião ocorreu em 1984 final do governo Figueiredo. Três jovens cearenses, militantes de Esquerda, desviaram um avião destino Fortaleza-Disneylândia para Cuba. A idéia era viver a realidade socialista e aprender táticas de guerrilha para fazer a revolução no Brasil. Veja detalhes no documentário Último pau-de-arara.

Os barcos e trens em movimento podem ser assaltados ou tomados por operações de guerrilha para poder capturar as armas e munições ou para evitar o deslocamento de tropas.

 

O Assalto a Banco como Modelo Popular

O modelo de assalto mais popular é o assalto à banco. No Brasil, a guerrilha urbana começou um tipo de assalto organizado em bancos como uma operação guerrilheira. Hoje este tipo de assalto é utilizado comumente e tem servido como um tipo de exame preliminar para o guerrilheiro urbano em seu processo de aprendizagem da guerra revolucionária.

Tem se desenvolvido inovações importantes na técnica de assalto à bancos, o qual assegura a fuga, a retirada de dinheiro, e o anonimato das pessoas envolvidas. Entre estas inovações temos atirar nos pneus dos carros para evitar que sejamos perseguidos, trancar as pessoas nos banheiros dos bancos, obrigá-los a que se sentem no chão do banheiro; imobilizar os guardas do banco e tomar seu armamento, obrigar a alguém a abrir a caixa forte; e a utilização de disfarces.

Tentativas para instalar alarmes de bancos, ou para utilizar guardas ou aparelhos de detecção eletrônicos de origem norte-americana, são de pouca utilidade quando o assalto é de tipo político e executado de acordo com as técnicas de guerrilha urbana.

Esta técnica trata de utilizar novos recursos para alcançar as mudanças táticas do inimigo, tem acesso a poder de fogo que esta em crescimento todos os dias, se faz mais astuta e audaz, e utiliza um grande número de revolucionários todas as vezes, todas para garantir o êxito das operações planejadas até o ultimo detalhe.

O assalto à banco é a expropriação típica. Mas, como é certo para qualquer tipo de expropriação armada, o revolucionário esta em desvantagem por dois competidores:

a. competição por delinqüentes;

b. competição por contra-revolucionários de direita;

O mais famoso grupo terrorista de Direita era o CCC - Comando de Caça aos Comunistas. O hoje jornalista Boris Casoy foi acusado de ter pertencido a esse grupo paramilitar. Veja mais detalhes nesse post do Blog O Rebate.

Esta competição produz confusão, o qual é refletido em incerteza da população. Depende do guerrilheiro urbano prevenir que isto aconteça, e para conseguir isto utiliza dois métodos;

a. tem que evitar a técnica de bandidos, o qual é o uso de violência desnecessária e da expropriação de mercadorias e posses da população;

b. tem que usar o assalto para propósitos de propaganda, no mesmo momento em que esta acontecendo, e depois distribuir material, papéis, e todo meio possível de explicar os objetivos e os princípios do guerrilheiro urbano como expropriador do governo, das classes governantes, e do imperialismo.

Essa tática de guerrilha era usada para conseguir dinheiro para compra de armas; pagamento de aluguéis dos aparelhos (esconderijos); e para que os guerrilheiros pudessem se manter pois, como a maioria dos deles eram procurados, não podiam ter emprego fixo. Esse tipo de ação armada é bastante polêmica por causa das vítimas que ocorreram, nos casos em que houve reação.

Numa dessas ações, Carlos Lamarca, guerrilheiro da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) ficou num bar a 50 metros vigiando um assalto que estava sendo executado por guerrilheiros novatos. Uma pessoa avisou a um guarda de trânsito o que estava ocorrendo. O guardinha, inexperiente, sacou a arma e ficou do lado da porta esperando a saída dos assaltantes. Lamarca atira daquela distância mesmo. Pensa ter errado e atira novamente. Uma bala acerta a testa e a outra a nuca do guarda. Depois joga o revólver dentro do carro e pega um fuzil; dá uma rajada para o alto que pára o trânsito e facilita a fuga dos companheiros.   

 

Batidas

As batidas são ataques rápidos em estabelecimentos localizados na vizinhança ou até no centro da cidade, tal como unidades militares pequenas, delegacias, hospitais, para causar problemas, tomar armas, castigar e aterrorizar o inimigo, tomar represálias, ou resgatar prisioneiros feridos, ou aqueles hospitalizados baixo vigilância da policia.

As batidas também são lançadas em garagens e estacionamentos para destruir veículos e danificar instalações, especialmente se são empresas e propriedades norte-americanas.

Quando tomam lugar em certas extensões de estrada ou em certas vizinhanças distantes, os ataques podem servir para obrigar o inimigo a mover grandes números de tropas, um esforço totalmente inútil já que não encontraram ninguém com quem lutar.

Quando são realizadas em certas casas, escritórios, arquivos, ou escritórios públicos, seu propósito é de capturar ou buscar papéis secretos e documentos com os quais denunciar o envolvimento, os compromissos, e a corrupção dos homens no governo, seus negócios sujos e as transações criminosas com os norte-americanos. As batidas são mais efetivas se são realizadas de noite.

 

Ocupações

As ocupações são um tipo de ataque realizado quando um guerrilheiro urbano se estaciona em estabelecimentos e localizações específicas, para uma resistência temporal contra o inimigo ou para algum propósito de propaganda.

A ocupação de fábricas e escolas durante greves ou em outros momentos é um método de protesto ou de distrair a atenção do inimigo.

A ocupação das estações de rádio é para propósitos de propaganda.

Em 15 de agosto de 1969 Marighella e outros guerrilheiros da ALN (Ação Libertadora Nacional) ocuparam a Rádio Nacional de Santo André. Marghella leu um trecho  desse Mini-manual do guerrilheiro urbano. O áudio e a encenação desse acontecimento estão no clipe da música Marighella dos Racionais Mc's.

A ocupação é um método muito efetivo para a ação mas, para prevenir perdas e danos materiais a nossas forças, é sempre uma boa idéia o contar com a possibilidade de retirada. Sempre tem que ser meticulosamente planejada e executada no momento oportuno. A ocupação sempre tem um limite de tempo e enquanto mais rápido se realize, melhor.

 

Emboscada

As emboscadas são ataques tipificados por surpresa quando o inimigo é apanhado em uma estrada ou quando faz que uma rede de policiais rodeie uma casa ou propriedade. Uma mensagem falsa pode trazer o inimigo a um lugar onde caia em uma armadilha.

O objeto principal da tática de emboscada é de capturar as armas e castigá-los com a morte.

As emboscadas para deter trens de passageiros são para propósitos de propaganda, e quando são trens de tropas, o objetivo é de eliminar o inimigo e tomar suas armas.

O franco-atirador guerrilheiro é o tipo de lutador ideal especialmente para as emboscada porque pode se esconder facilmente nas irregularidades do terreno, nos trechos dos edifícios e dos apartamentos sob construção. Desde janelas e lugares escuros pode mirar cuidadosamente a seu alvo escolhido.

As emboscadas têm efeitos devastadores no inimigo, deixando o nervoso, inseguro e cheio de temor.

 

Táticas de Rua

As táticas de rua são usadas para lutar com o inimigo nas ruas, utilizando a participação das massas contra ele.

Em 1968, os estudantes brasileiros utilizaram táticas de rua excelentes contra as tropas da polícia, tais como marchar pelas ruas contra o trânsito, e utilizar estilingues e bolas de gude contra a polícia montada.

Outras táticas de rua consistem na construção de barricadas, atirando garrafas, tijolos, e outros projéteis desde o telhado de apartamentos e edifícios de negócios contra a polícia; utilizando edifícios sob construção para sua fuga, para esconder-se, e para apoiar os ataques surpresa.

É igualmente necessário saber como responder às táticas do inimigo. Quando as tropas de policiais vêm protegidas com capacetes para defender-se de objetos lançados, nos dividimos em duas equipes; uma para atacar o inimigo de frente, ou outra para atacá-lo desde a retaguarda, retirando um à medida que o outro avança para prevenir que o primeiro se converta em um alvo dos projéteis atirados pelo segundo.

De igual forma é importante saber como responder a uma rede de polícias. Quando a policia designa uma certa área para que seus homens entrem em massa para prender a um manifestante, um grupo maior de guerrilheiros urbanos tem que rodear o grupo da polícia, desarmá-los, surrando-os e na mesma hora permitir que o prisioneiro fuja. Esta operação de guerrilha urbana se chama a rede dentro de uma rede.

Quando a rede policial se forma em um edifício de escola, uma fábrica, um lugar onde as massas se congregam, ou algum outro ponto, o guerrilheiro urbano não deve render-se ou que o tomem por surpresa. Para assegurar que sua rede funcione o inimigo se vera na obrigação de transportar a polícia em veículos e carros especiais para ocupar pontos estratégicos nas ruas para invadir edifícios ou locais selecionados.

O guerrilheiro urbano, por sua parte, nunca deve de sair de um edifício ou uma área ou entrar nela sem primeiro conhecer todas as saídas, a forma de romper o círculo, os pontos estratégicos que a policia poderia ocupar, e as estradas que inevitavelmente conduzem até a rede, e deve apoderar-se de outros pontos estratégicos desde os quais possa golpear o inimigo.

As estradas seguidas pelos veículos da polícia têm que serem minadas em pontos chaves e a pontos forçados de parada. Quando as minas explodem, os veículos voaram pelos ares. Os policiais cairão na armadilha e sofreram perdas ou serão vítimas de uma emboscada. A rede tem que ser quebrada por rotas de fuga desconhecidas para a polícia. O rigoroso plano de retirada é a melhor maneira de frustrar qualquer esforço de acercamento por parte do inimigo.

Quando não há a possibilidade do plano de fuga, a guerrilha urbana não deve esperar reunir-se, agrupar-se, ou fazer qualquer outra coisa, já que fazê-lo evitará sua possibilidade de romper a rede do inimigo, que seguramente tentará atirar a redor dele.

As táticas de rua têm revelado um novo tipo de guerrilheiro urbano, o guerrilheiro urbano que participa dos protestos em massa. Este é o tipo que designaremos como o guerrilheiro urbano manifestante, que se une à multidão e participa das marchas populares com fins específicos e definitivos.

Estes fins consistem em atirar pedras e projéteis de todo tipo, utilizando gasolina para começar incêndios, utilizando a polícia como alvo para suas armas de fogo, capturando as armas dos policiais, seqüestrando agentes do inimigo e provocadores, disparar cuidadosamente aos chefes de polícia que vem em carros especiais com placas falsas para não atrair a atenção.

O guerrilheiro urbano manifestante ensina aos grupos nas manifestações as rotas de fuga se é necessário. Coloca minas, atira bombas Molotov, prepara emboscadas e explosões.

O guerrilheiro urbano manifestante também tem que iniciar a rede dentro da rede, revistando os veículos do governo, os carros oficiais, e os veículos da polícia para ver se tem dinheiro ou armas antes de virá-los e colocá-los fogo.

Os franco-atiradores são muito bons para as manifestações em massa e, juntos com os guerrilheiros urbanos manifestantes, podem exercer um papel chave. Escondidos em pontos estratégicos, os franco-atiradores tem completo êxito, utilizando escopetas, metralhadoras, etc., cujo fogo e rebote causam perdas entre os inimigos.

 

Greves e Interrupções de Trabalho

A greve é o modelo de ação empregado pelo guerrilheiro urbano em centros de trabalho e escolas para prejudicar o inimigo por meio da detenção do trabalho e das atividades de estudo. Já que é uma das armas mas temidas pelos exploradores e opressores, o inimigo utiliza um tremendo poder ofensivo e incrível violência contra. Os grevistas são levados à prisão, sofrem golpes, e muitos terminam assassinados.

O guerrilheiro urbano tem que preparar a greve de tal forma como para não deixar indícios ou pistas que possam identificar os líderes da ação. Uma greve é bem sucedida quando é organizada por meio da ação de um grupo pequeno, se é preparado cuidadosamente em segredo e pelos métodos mais clandestinos.

As armas, munições, Molotovs, armas caseiras de destruição e ataque, tudo isto tem que ser suprido previamente para antecipar o inimigo. Para que possa causar a maior quantidade de dano possível, é uma boa idéia estudar e por em prática um plano de sabotagem.

As interrupções de trabalho e estudo, apesar de serem de breve duração, causam dano severo ao inimigo. É suficiente para eles surgir em pontos diferentes e em diferentes setores nas mesmas áreas, interrompendo a vida diária, ocorrendo, sem fim, um dia depois do outro, de forma autenticamente guerrilheira.

Em greves ou simples interrupções de trabalho, o guerrilheiro urbano tem o recurso de ocupar ou penetrar no local ou simplesmente fazer um ataque. Nesse caso, seu objetivo é o de tomar reféns, capturar prisioneiros ou capturar agentes inimigos e propor um intercâmbio de prisioneiros (para liberar os grevistas).

Em certos casos, as greves e as breves interrupções de trânsito podem oferecer uma excelente oportunidade para a preparação de emboscadas ou armadilhas cujo fim é o de destruição física da cruel e sanguinária polícia.

O fato básico é que o inimigo sofre perdas em pessoal e material e danos morais, e é debilitado pela ação.

 

Deserções, Desvios, Confiscos, Expropriações de Armas, Munições e Explosivos

Deserções e desvios de armas são ações efetuadas em campos militares, hospitais militares, etc. O soldado da guerrilha urbana, o chefe, sargento, suboficial, e o oficial devem desertar no momento mais oportuno com armas modernas e munições, para entregá-las à guerrilha.

Um dos guerrilheiros infiltrados foi Carlos Eugênio Paz, ele entrou na guerrilha ainda muito jovem. Queria fugir do serviço militar obrigatório e ir treinar guerrilha em Cuba, mas Marighella achou melhor e menos arriscado que ele usufruísse do treinamento militar que receberia do Exército brasileiro. Assim, Carlos Eugênio aprendeu táticas anti-guerrilha que depois usou para combater seus ex-colegas de farda. 

Um dos momentos mais oportunos é quando a guerrilha urbana militar é chamada para perseguir e lutar contra seus camaradas guerrilheiros fora dos quartéis militares. Em vez de seguir as ordens dos oficiais, a guerrilha urbana militar deve juntar-se aos revolucionários dando-os as armas e munições que carregam, ou o veículo militar que ele opera.

A vantagem deste método é que os revolucionários recebem as armas e munições do exército, marinha, força área, polícia, guarda civil, ou dos bombeiros sem nenhum trabalho, porque lhes chega em mãos por meio de transporte do governo.

Outras oportunidades podem ocorrer nas barracas, e a guerrilha urbana militar deve estar alerta a isso. Em caso de descuido de parte dos comandantes ou em outras condições favoráveis, assim como as atividades burocratas ou o relaxamento de disciplina por parte dos suboficiais ou outro pessoal interno, a guerrilha urbana militar não pode esperar, mas tem que tratar de avisar os guerrilheiros e desertar sós ou acompanhados, mas com uma quantidade de armas tão grande como seja possível.

Com a informação e a participação da guerrilha urbana militar, ataques em barracas e outros estabelecimentos militares com o propósito de capturar armas, podem ser organizados.

Quando não há a possibilidade de desertar com as armas e munições, a guerrilha urbana deve se engajar na sabotagem, começando com explosões e incêndios em depósitos de munições e pólvora.

Quando Lamarca desertou do quartel ele levou consigo 63 fuzis FAL. A idéia era sair com 400, mas o plano da VPR de pintar um caminhão com camuflagem militar deu errado e vários militantes foram presos. Lamarca acabou tendo que adiantar a ação, levando o que podia.  

Neste depoimento o ex-marido de Dilma confessa que expropriava banco e quartéis para conseguir dinheiro e armas.

Esta técnica de desertar com armas e munições, atacando e sabotando os centros militares, é a melhor maneira de cansar e de desmoralizar aos soldados, deixando-os confusos.

O propósito da guerrilha urbana em desarmar um inimigo individual é o de capturar suas armas. Estas armas estão usualmente nas mãos dos sentinelas e outros que estão executando a guarda ou repressão.

A captura das armas podem ser completadas por meios violentos ou pela astúcia ou armadilhas. Quando o inimigo esta desarmado, ele deve ser revistado em busca de outras armas que não sejam as que já foram retiradas. Se nos descuidamos, ele pode usar essas armas para disparar nos guerrilheiros urbanos.

O confisco de armas é um método eficaz para adquirir metralhadoras, a arma mais importante da guerrilha.

Quando executamos pequenas operações ou ações para confiscar armamentos e munições, o material capturado pode ser para uso pessoal ou armamento e abastecimento dos grupos de tiro.

A necessidade de prover um poder disparador para a guerrilha urbana é tão grande que, em ordem para começar do ponto zero as vezes temos que comprar uma arma, desviar, ou capturar uma só arma. O ponto básico é começar, e começar com um espírito de determinação e coragem. A posse de uma simples metralhadora multiplica nossas forças.

Muitas vezes o confisco da arma de um sentinela, guarda ou policial era um rito de iniciação para um guerrilheiro que, em muitos casos, deveria praticar essa ação desarmado. Tarefa bastante arriscada que exigia coragem e determinação do iniciante. 

Em um assalto a banco, devemos ser cuidadosos de confiscar as armas dos guardas. O resto das armas as encontraremos com o tesoureiro, o caixa, ou o administrador, e também devem ser confiscadas.

O outro método que podemos utilizar é a preparação de emboscadas contra a polícia e os automóveis que usam para locomover-se.

Realmente muitas vezes, nós tivemos êxito capturando armas em estações policiais, como um resultado de ataques repentinos.

Às vezes triunfamos em capturar armas em delegacias de polícia, como resultado de ataques repentinos.

A expropriação de armas, munições e explosivos é a meta da guerrilha urbana em assaltar locais comerciais, industrias e quartéis.

 

Libertação de Prisioneiros

A libertação de prisioneiros é uma operação armada designada para libertar guerrilheiros urbanos presos. Na luta diária contra o inimigo, a guerrilha urbana esta sujeita a prisões e podem ser sentenciados a ilimitados anos na cadeia. Isto não quer dizer que a batalha revolucionária acabe aqui. Para o guerrilheiro, sua experiência é aprofundada pela prisão e a luta continua igualmente até nos calabouços onde se encontram prisioneiros.

O guerrilheiro urbano encarcerado vê a prisão como um terreno que deve dominar e entender para libertar-se por meio de uma operação da guerrilha. Não há prisão, nem uma ilha, ou uma penitenciária da cidade, ou uma fazenda, que seja impregnável pela astúcia, perseverança e pelo potencial de fogo dos revolucionários.

Era na prisão que ocorria o maior desafio para um revolucionário: aguentar a tortura. As técnicas usadas pela ditadura brasileira foram ensinadas por torturadores norte-americanos que vinham dar curso no Brasil. Para se ter uma idéia de como eram essas seções de horror vejam o documentário Brazil: A Report on torture em que ex-guerrilheiros recém resgatados contam como foram torturados.

O guerrilheiro urbano que é livre vê os estabelecimentos penais do inimigo como um lugar inevitável da ação guerrilheira designada a libertar seus irmãos ideológicos que estão aprisionados.

É a combinação do guerrilheiro urbano livre e o guerrilheiro urbano aprisionado que resulta nas operações armadas a que nos referimos como a libertação de prisioneiros.

As operações de guerrilha que se podem usar para libertar os prisioneiros são as seguintes:

a. ataques a estabelecimentos penais, em colônias de correção ou ilhas, ou transportes ou barcos de prisioneiros;

b. assaltos a penitenciárias rurais ou urbanas, casas de detenção, delegacias, depósitos de prisioneiros, ou outros lugares permanentes, ocasionais ou temporários, onde se encontram os prisioneiros.

c. assaltos a transportes de prisioneiros, trens e automóveis;

d. ataques e batidas em prisões;

e. emboscadas a guardas que estão movendo prisioneiros.

 

Execuções

Execução é matar um espião norte-americano, um agente da ditadura, um torturador da policia, ou uma personalidade fascista no governo que está envolvido em crimes e perseguições contra os patriotas, ou de um "dedo duro", informante, agente policial, um provocador da policia.

Aqueles que vão à polícia por sua própria vontade fazer denúncias e acusações, aqueles que suprem a polícia com pistas e informações e apontam a gente, também devem ser executados quando são pegos pela guerrilha.

A execução é uma ação secreta na qual um número pequeno de pessoas da guerrilha se encontram envolvidos. Em muitos casos, a execução pode ser realizada por um franco-atirador, paciente, sozinho e desconhecido, e operando absolutamente secreto e a sangue-frio.

Uma das mais famosas execuções praticadas pela guerrilha no Brasil foi o assassinato de Boilesen. Henry Boilesen era um empresário dinamarquês presidente da Ultragás. Ele ficou muito visado pelos guerrilheiros porque não apenas recolhia o dinheiro de empresários para financiar os centros de tortura da OBAN (organização bandeirantes) como também gostava de assistir as torturas. No vídeo abaixo o guerrilheiro Carlos Eugênio Paz conta como o executou.

 

A guerrilha também assassinou o capitão dos Estados Unidos Charles Chandler, em 1968, sob a acusação (nunca comprovada) de que era agente da CIA.

 

Seqüestros

Seqüestrar é capturar e assegurar em um lugar secreto um agente policial, um espião norte-americano, uma personalidade política ou um notório e perigoso inimigo do movimento revolucionário.

O seqüestro é usado para trocar ou libertar camaradas revolucionários aprisionados, ou para forçar a suspensão da tortura nas cadeias de uma ditadura militar.

15 prisioneiro trocados pelo embaixador suíço

O seqüestro de personalidades que são artistas conhecidos, figuras do esporte ou que são grandiosos em algum campo, mas que não tem evidência de um interesse político, podem ser uma forma de propaganda para os princípios patrióticos e revolucionários da guerrilha urbana sendo que ocorra baixo circunstâncias especiais, e o seqüestro seja manipulado de uma maneira que o público simpatize com ele e o aceite.

O seqüestro de residentes norte-americanos ou visitantes no Brasil constitui uma forma de protesto contra a penetração e a dominação do imperialismo dos Estados Unidos em nosso país.

O sequestro mais famoso foi o do embaixador americano. A ação foi executada pela ALN e o MR-8 e libertou 15 prisioneiros políticos. Outros sequestros foram o do embaixador alemão e do embaixador suíço. Leia os links abaixo para saber um pouco mais sobre essas aventuras:

​Fatos e versões o sequestro da História

Sirkis conta como sequestrou o embaixador alemão

O sequestro do embaixador suiço

Acima é a cena do sequestro do embaixador suíço na minissérie Anos Rebeldes. Alguns diálogos dessa cena foram tiradas do livro Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida de Alfredo Sirkis.

 

Sabotagem

O sabotagem é um tipo de ataque altamente destrutivo usando somente várias pessoas e as vezes requerendo somente uma para terminar o resultado desejado. Quando a guerrilha urbana usa a sabotagem, a primeira fase é a sabotagem isolada. Então vem a fase de sabotagem dispersada ou generalizada, levando a população.

Um plano de sabotagem bem executado demanda estudo, planejamento e cuidadosa execução. Uma forma característica da sabotagem é a explosão usando dinamite, incêndio e a implantação de minas.

Um pouco de areia, uma gota de qualquer tipo de combustível, ou pouca lubrificação, um parafuso removido, um curto-circuito, peças de madeira ou ferro, podem causar danos irreparáveis.

O objetivo da sabotagem é para doer, danificar, deixar sem uso e para destruir pontos vitais do inimigo assim como os seguintes:

a. a economia de um país;

b. a produção agrícola e industrial;

c. sistemas de comunicação e transporte;

d. sistemas policiais e militares e seus estabelecimentos e depósitos;

e. o sistema repressor do sistema militar-policial;

f. empresas e propriedades norte-americanas no país.

 

A guerrilha urbana deve pôr em perigo a economia do país, particularmente seus aspectos financeiros e econômicos, assim como as redes comerciais domésticas e estrangeiras, suas mudanças nos sistemas bancários, seu sistema de coleta de impostos, e outros.

Escritórios públicos, centros de serviços do governo, armazéns do governo, são alvos fáceis para sabotagem. Não vai ser fácil prevenir a sabotagem da produção agrícola e industrial pela guerrilha urbana, com sua sabedoria completa da situação.

Trabalhadores industriais atuando como guerrilheiros urbanos são excelentes para a sabotagem industrial já que sabem, melhor que ninguém, entendem a indústria, a fábrica, a maquinária, e talvez possam destruir toda a operação, fazendo mais dano que uma pessoa mal informada.

A respeito dos sistemas de comunicações e de transportes do inimigo, começando com o tráfego ferroviário, é necessário atacá-lo sistematicamente com as armas de sabotagem.

A única precaução é a de não causar a morte ou ferimento fatal aos passageiros, especialmente aos que viajam com regularidade nestes trens suburbanos ou de longa distância.

Ataques a trens de carga, em movimento ou estacionados, parar os sistemas de comunicação e de transporte militar, são os maiores objetivo da sabotagem nesta área.

Vagões podem ser danificados e retirados, assim como os trilhos. Um túnel bloqueado depois de uma explosão, uma obstrução de um vagão descarrilado, causam tremendo dano.

O descarrilamento de um trem de carga contendo combustível é um dos maiores danos que se podem fazer ao inimigo. Assim como dinamitar pontes de vias. Num sistema onde o peso e o tamanho do equipamento rodante é enorme, leva-se meses para reparar ou reconstruir a destruição ou o dano.

As rodovias, podem ser obstruídas por árvores, veículos estacionados, valas, deslocação de barreiras por dinamite e pontes destruídas por explosões.

Os barcos podem ser danificados enquanto ancorados em portos marítimos, ou de rios, ou em estaleiros. Os aviões podem ser destruídos ou sabotados na pista.

As linhas telefônicas e telegráficas podem ser sistematicamente danificadas, suas torres serem destruídas, e suas linhas ficarem sem uso algum.

As comunicações e o transporte devem ser sabotados imediatamente, porque a guerra revolucionária já começou no Brasil e é essencial impedir o movimento de tropas e munições do inimigo.

Oleodutos, instalações de combustível, depósitos de bombas e munições, armazéns de pólvora e arsenais, campos militares e bases, devem tornar-se alvos de operações de sabotagem por excelência, enquanto que os veículos, caminhões do exército, e outros automóveis militares e policiais podem ser destruídos ao encontrá-los.

Os centros de repressão militares e policiais e seus específicos e especializados órgãos, devem também chamar a atenção do sabotador da guerrilha urbana.

As empresas e propriedades norte-americanas no país, por sua parte, devem ser alvos tão freqüentes de sabotagem que o volume das ações dirigidas sobrepasse o total de todas outras ações contra os pontos vitais do inimigo.

 

Terrorismo

O terrorismo é uma ação, usualmente envolvendo a colocação de uma bomba ou uma bomba de fogo de grande poder destrutivo, o qual é capaz de influir perdas irreparáveis ao inimigo.

O terrorismo requer que a guerrilha urbana tenha um conhecimento teórico e prático de como fazer explosivos.

O ato do terrorismo, fora a facilidade aparente na qual se pode realizar, não é diferente dos outros atos da guerrilha urbana e ações na qual o triunfo depende do plano e da determinação da organização revolucionária. É uma ação que a guerrilha urbana deve executar com muita calma, decisão e sangue frio.

Ainda que o terrorismo geralmente envolva uma explosão, há casos no qual pode ser realizado execução ou incêndio sistemático de instalações, propriedades e depósitos norte-americanos, fazendas, etc.

É essencial assinalar a importância dos incêndios e da construção de bombas incendiárias como bombas de gasolina na técnica de terrorismo revolucionário. Outra coisa importante é o material que a guerrilha urbana pode persuadir o povo a expropriar em momentos de fome e escassez, resultados dos grandes interesses comerciais.

O terrorismo é uma arma que o revolucionário não pode abandonar.

A ironia é que nós de Esquerda nos sentimos irritados quando a Direita chama os ex-guerrilheiros de terroristas, mas Carlos Marighella descrevia o terrorismo como tática e da forma mais natural possível. O termo "terrorismo" que ele utiliza serve para descrever táticas que envolvam explosões e incêndios e não o significado atual de terrorismo que é atentado contra civis inocentes.

Mesmo assim, atentados com vítimas inocentes existiram, como o Atentado no Aeroporto dos Guararapes no Recife. 

O objetivo era o general Arthur da Costa e Silva que viria a ser o próximo general-presidente. Duas pessoas morreram e treze ficaram gravemente feridas.

 

Atentado ao Consulado dos Estados Unidos

Uma bomba colocada junto à biblioteca do consulado dos EUA, em São Paulo, no dia 19 de março de 1968, auge da ditadura militar. O autor do atentado foi Diógenes Carvalho de Oliveira, do grupo Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Abaixo o depoimento de Orlando Lovecchio, vítima desse atentado.

​Esse atentado foi uma demonstração de força desnecessária da Esquerda Armada, mas segundo o ex-guerrilheiro Celso Lungaretti o próprio horário escolhido para a explosão da bomba, de madrugada, mostra que a intenção era de não ferir ninguém. Vejam mais detalhes nesse post: Jornal da Ditabranda vende o mesmo peixe podre pela 2ª vez.

 

​Atentado ao QG do II Exército

Num atentado contra o QG do II Exército. Uma Kombi carregada com uns vinte quilos de dinamite foi atirada contra o quartel-general, visando entrar portão adentro e mandar pelos ares os alojamentos de oficiais e comando. Os sentinelas perceberam e abriram fogo, ferindo o motorista que pulou antes do tempo. A perua se desviou e bateu no muro. Ficou parada e depois estourou, num estrondo que sacudiu meia São Paulo. Matou um cabo que virou herói nacional. Para mais detalhes veja o post: Mário Kosel Filho: o jovem soldado que se tornou mártir da extrema-direita brasileira

 

Propaganda Armada

A coordenação das ações da guerrilha urbana, incluindo cada ação armada, é a principal forma de fazer propaganda armada.

Estas ações, feitas com determinados e específicos objetivos, inevitavelmente se fazem material de propaganda para o sistema de comunicação das massas.

Assaltos a bancos, emboscadas, deserções, resgate de prisioneiros, execuções, seqüestros, sabotagem, terrorismo e a guerra de nervos são todos casos em ponto.

Aviões com rotas de vôo trocados pela ação revolucionária, barcos e trens em movimento assaltados e capturados por guerrilheiros, podem ser usados somente para efeitos de propaganda.

Mas a guerrilha urbana nunca deve fracassar em instalar uma imprensa clandestina e deve poder fazer cópias mimeografadas usando álcool ou pranchas elétricas ou outros aparelhos duplicadores, expropriando o que não pode comprar em ordem de produzir um jornal pequeno, panfletos, volantes e estampas para a propaganda e agitação contra a ditadura.

Em 1961, um grupo de militantes e intelectuais do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais cria a Organização Revolucionária Marxista e lança o jornal Política Operária. A POLOP, como passou a ser conhecida, diverge do PCB em questões estratégicas, como a defesa do caráter socialista da revolução brasileira.

Após o golpe, o jornal é retomado na clandestinidade como porta-voz do Partido Operário Comunista (POC), que reúne estudantes, militares e lideranças operárias em torno do debate sobre o enfrentamento armado da ditadura. Volta a circular de modo precário no início dos anos 70, quando parte do núcleo original da POLOP se separa do POC e se rearticula no Brasil e no exterior. (www.resistirepreciso.org.br)

A guerrilha urbana comprometida com a imprensa clandestinas facilita enormemente a incorporação de um grande número de gente na batalha revolucionária, abrindo um trabalho permanente para aqueles que desejam trabalhar com a propaganda revolucionária, mesmo que quando fazê-lo signifique trabalhar sozinho e arriscar sua vida como revolucionário.

Com a existência de propaganda clandestina e material agitador, o espírito inventor da guerrilha urbana expande e cria catapultas, artefatos, morteiros e outros instrumentos com os quais distribuir os panfletos anti-governo a distância.

Gravações em fita, a ocupação de estações de rádio, o uso de alto falantes, desenhos em paredes e em outros lugares inacessíveis são outras formas de propaganda. Em usá-las, a guerrilha urbana deve dar-lhes um caráter de operações armadas.

Uma propaganda consistente de cartas enviadas a endereços específicos, explicando o significado das ações armadas da guerrilha urbana, isto produz consideráveis resultados e é um método de influenciar certos segmentos da população.

Se esta influência é exercitada no coração das pessoas por todo possível mecanismo de propaganda girando em torno da atividade da guerrilha urbana, isto não indica que nossas forças têm o suporte de todos.

É suficiente ganhar o suporte de parte da população e isto pode ser feito popularizando uma frase: "Deixe que aquele que não quer fazer nada pelos revolucionários, faça nada contra."

 

Guerra de Nervos

A guerra de nervos ou guerra psicológica é uma técnica agressiva, baseada no direto ou indireto uso dos meios de comunicação de massas e notícias transmitidas oralmente com o propósito de desmoralizar o governo.

Na guerra psicológica, o governo esta sempre em desvantagem, porque impõe censura nas massas e termina numa posição defensiva por não deixar nada contrário infiltrar-se.

Neste ponto desespera-se, envolve-se em grandes contradições e perda de prestígio, perde tempo e energias num cansado esforço ao controle, qual é sujeito a romper-se em qualquer momento.

O objeto da guerra de nervos é para enganar, propagar mentiras entre as autoridades na qual todos podem participar, assim criando um ar de nervosismo, descrédito, insegurança e preocupação por parte do governo.

Os melhores métodos usados pela guerrilha urbana na guerra de nervos são os seguintes:

a. usando o telefone e o correio para anunciar falsas pistas à polícia e ao governo, incluindo informação de bombas e qualquer outro ato de terrorismo em escritórios públicos e outros lugares, planos de seqüestro e assassinato, etc, para obrigar as autoridades a cansar-se, dando seguimento à falsa informação que foi alimentada; 

O guerrilheiro Eduardo Collen Leite, o Bacuri sabia vários truques de guerra psicológica como ligar para o DOPS e denunciar anonimamente que guerrilheiros disfarçados de PMs iriam assaltar um determinado banco em uma determinada hora. Depois ligava para PM e dizia que vários homens armados iriam assaltar aquele banco naquela hora. Acabava sobrando bala para todo lado. 

​Um tipo de guerra psicológica foi feita durante o sequestro do embaixador suíço para desviar a atenção da polícia. Assim que Giovanni Enrico Bucher foi capturado. Guerrilheiros que não participaram diretamente do sequestro, mas estavam escondidos em outros "aparelhos", mandaram várias denúncias anônimas para a polícia e para o DOPS informando locais falsos em que teriam visto um homem com as descrições do embaixador. O resultado foi que a polícia fez várias blitz inúteis em vários bairros do Rio de Janeiro e os guerrilheiros da VPR tiveram caminho livre para levar o embaixador para o cativeiro.

b. permitindo que planos falsos caiam nas mãos da polícia para desviar sua atenção;

c. plantar rumores para deixar o governo nervoso;

d. explorando cada meio possível de corrupção, de erros e de falhas do governo e seus representantes, forçando-os a explicações desmoralizantes e justificações nos meios de comunicação de massas que mantém baixo censura;

e. apresentando denúncias a embaixadas estrangeiras, às Nações Unidas, a nunciatura do papa, e as comissões internacionais judiciais defensoras dos direitos humanos ou da liberdade de imprensa, expondo cada violação concreta e o uso de violência pela ditadura militar e fazendo conhecer que a guerra revolucionária irá continuar seu curso com perigos sérios para os inimigos da população.

 

9.4 Como Executar a Ação

A guerrilha urbana que corretamente passa através de seu aprendizado e seu treinamento deve dar grande importância a sua tática de executar sua ação, por isso não se deve cometer o mais pequeno erro.

Qualquer descuido na assimilação do método e seu uso, convida certo desastre, assim como a experiência nos ensina cada dia.

Os bandidos cometem erros freqüentemente por seus métodos, e esta é uma das razões pela qual a guerrilha urbana deve estar tão intensamente preocupada por seguir a técnica revolucionária e não a técnica dos bandidos.

Não há guerrilha urbana merecedora do nome que ignore a tática revolucionária de ação e fracasse em praticar rigorosamente o planejamento e a execução de suas atividades.

O gigante é conhecido por seus dedos. O mesmo pode ser dito da guerrilha urbana que é conhecida tão longe como seus métodos corretos e sua fidelidade absoluta aos princípios.

O método revolucionário de execução de uma ação é fortemente baseado no conhecimento e no uso dos seguintes elementos:

a. investigação de informação;

b. observação e vigilância;

c. reconhecimento ou exploração do terreno;

d. estudo e tempo das rotas;

e. mapas;

f. mecanização;

g. cuidadosa seleção de pessoal;

h. seleção do poder de fogo;

i. estudo e prática em êxito;

j. êxito;

l. disfarce;

m. retirada;

n. dispersão;

o. libertação e troca de prisioneiros;

p. eliminação de pistas;

q. resgate de feridos.

 

Algumas Observações nas Táticas

Quando não há informação, o ponto de saída do plano de ação deve ser investigação, observação e vigilância. Este método também dá bons resultados.

Em qualquer evento, incluindo quando há informação, é essencial fazer observações para ver se a informação esta a par com a observação ou vice-versa.

Reconhecimento ou exploração do terreno, estudo e o tempo das rotas, são tão importantes que quando omitidos seria como tentar apunhalar no escuro.

Mecanização, em geral, é um fator subestimado no método de conduzir uma ação. Freqüentemente a mecanização é deixada para o fim, antes de que se faça algo sobre isso.

Isto é um erro. A mecanização deve de ser considerada seriamente, deve ser colhida com ampla vista e de acordo com um plano cuidadoso, também baseado na informação e observação, e deve ser executado com cuidado rigoroso e precisão. O cuidado, conservação, manutenção e camuflagem dos veículos expropriados são detalhes bem importantes da mecanização.

Quando o transporte falha, a ação principal falha com sérias conseqüências morais e materiais para a atividade da guerrilha urbana.

A seleção de pessoal requer grande cuidado para evitar a inclusão de pessoas indecisas e vacilantes que presentes com perigo possam contaminar os outros participantes, uma dificuldade que deve ser evitada.

A retirada é igual ou mais importante que a operação em si, ao ponto de ter que ser planejada rigorosamente, incluindo a possibilidade de falha.

Deve-se evitar o resgate ou a transferência de prisioneiros com crianças presentes, ou qualquer coisa que atraia a atenção das pessoas em trânsito casual na área. O melhor é fazer o resgate tão natural quanto seja possível, sempre passando ao redor, ou usando estradas diferentes ou ruas estreitas que quase não permitam a passagem a pé, para evitar o encontro dos carros.

A eliminação das pistas é obrigatória e demanda grande precaução ao esconder as impressões digitais e outras classes de indícios que informem o inimigo. A falta de cuidado na eliminação dos vestígios e das pistas é um fator que aumenta o nervosismo em nossas patentes que o inimigo às vezes explora.

 

Resgate de Feridos

O problema com os feridos na guerrilha urbana merece atenção especial. Durante operações da guerrilha na zona urbana pode ocorrer que algum camarada seja ferido acidentalmente ou atingido pela policia. Quando um da guerrilha esta num grupo de atiradores tem o conhecimento de primeiros socorros e pode fazer algo pelo camarada ferido. Em nenhuma circunstância pode ser abandonado o guerrilheiro e ser deixado em mãos do inimigo.

Uma das precauções que devemos tomar é de treinar a homens e mulheres em cursos de enfermaria, nos quais guerrilheiros podem matricular-se e aprender técnicas de primeiros-socorros. O doutor da guerrilha urbana, estudante de medicina, enfermeiro, farmacêutico ou simplesmente uma pessoa treinada em primeiros-socorros, é de necessidade numa batalha revolucionária moderna.

Um pequeno manual de primeiros-socorros para a guerrilha urbana, impresso ou em mimeógrafo, pode ser compreendido por uma pessoa que tenha suficiente conhecimento.

No planejamento ou execução de uma ação armada, a guerrilha urbana não pode esquecer a organização logística médica. Isto pode ser completado por meio de uma clínica móvel ou motorizada. Você também pode estabelecer uma estação de primeiros-socorros e utilizar os conhecimentos de um camarada da guerrilha que esperará com equipamentos num lugar designado onde os feridos são trazidos.

O ideal seria ter uma clínica bem equipada, mas é bem custoso a menos que usemos materiais expropriados.

Quando tudo falha, as vezes é necessário recorrer a clínicas legais, usando a força se necessário para que os doutores atendam aos nossos feridos.

Na eventualidade que recorrermos a bancos de sangre para comprar sangue ou plasma completo, não deveremos usar endereços legais e certamente endereços onde feridos poderiam ser encontrados, porque eles estão baixo nossa proteção e cuidado.

Nem deveríamos dar endereços destes que estão envolvidos no trabalho clandestino da organização que trabalham nos hospitais e nas clínicas de onde os colhemos. Essas preocupações são indispensáveis para cobrir qualquer pista.

As casas onde os feridos ficam não pode ser conhecida por ninguém com exclusiva exceção de um pequeno grupo de camaradas que estão responsáveis pelo tratamento e transporte.

Cobertores, roupa ensangüentada, medicamentos e outros tipos de indícios de tratamento de um camarada ferido em combate com a polícia, deve ser completamente eliminado dos lugares que eles visitam para receber tratamento.

Depoimento de Carlos Augusto Marighella, filho de Carlos Marighella

 

Veja o post o assassinato de Carlos Marighella

Veja o documentário Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRAALOÍZIO PALMAR, CARLOS EUGÊNIO PAZ.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

 

Ditadura Militar - A farsa na morte de Marighella Tags: Ditadura Militar assassinato de Marighella Marighella morto guerrilha luta armada guerrilha urbana comunistas brasileiros OBAN Fleury ALN

 

A farsa na morte de Marighella

Por Alan Rodrigues

A primeira foto acima, à esquerda, correu o mundo depois da noite de 4 de novembro de 1969. Ela era vista como prova da iminente vitória do governo contra a oposição armada à ditadura militar brasileira. Carlos Marighella, 58 anos, o terrorista mais caçado do País, líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização responsável por dezenas de assaltos a bancos e explosões de bombas, estava morto. Amigo de Fidel Castro, celebrado pela Europa como principal comandante da guerra revolucionária na América do Sul, Marighella tinha levado quatro tiros numa emboscada policial na alameda Casa Branca, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Segundo a versão dos militares, o guerrilheiro fora atraído para um “ponto” com religiosos dominicanos simpatizantes da ALN e trocara tiros com os agentes que varejavam o local do encontro. Um conceituado fotógrafo da revista “Manchete”, Sérgio Vital Tafner Jorge, então com 33 anos, fez o clique da câmara rolleiflex que registrou Marighella estirado no banco traseiro do fusca dos dominicanos. Barriga à mostra, calça aberta, dois filetes de sangue escorrendo pelo rosto.

“Foi tudo uma farsa”, revela agora à ISTOÉ Sérgio Jorge, que está com 75 anos. “Eu vi os policiais colocando o Marighella no banco de trás do carro”. Naquela noite, Jorge estava no Estádio do Pacaembu à espera dos melhores ângulos de um Corinthians x Santos quando ficou sabendo da morte do guerrilheiro. Ele abandonou o estádio antes mesmo de a notícia ser confirmada pelos alto-falantes do Pacaembu e recebida com um urro de comemoração pela torcida. Acompanhado de outros quatro fotógrafos, Jorge chegou à alameda Casa Branca pouco depois das 20 horas. O que ele viu ali – e foi proibido de documentar – era diferente do que aparece na famosa foto estampada depois nas páginas da “Manchete” e em dezenas de outras publicações. Jorge está decidido a contar para a Comissão da Verdade, que o governo federal vai instalar no próximo mês, a armação que testemunhou. Já foi pensando nisso que, no mês passado, com a ajuda de um amigo que serviu de modelo e um fusquinha emprestado, Jorge procurou reproduzir numa nova foto exatamente o que presenciou no dia 4 de novembro de 1969. O resultado é a segunda cena da página anteior, à direita: o amigo de Jorge, representando Marighella, ocupa o banco da frente do carro, numa posição distinta daquela que a polícia fez questão de espalhar. Eram os anos de chumbo e havia muita coisa para ser escondida.

 

Os mais famosos retratos da ditadura começam a contar suas verdadeiras histórias. Sérgio Jorge ganhou coragem de revelar a farsa da morte de Marighella depois que o fotógrafo-perito Silvaldo Leung Vieira contou, no dia 5 de janeiro, ao jornal “Folha de S. Paulo” que sua foto do jornalista Vladimir Herzog morto nas dependências do DOI-Codi, em 1975, era – como já se sabia – uma encenação criada pelos militares. Vieira está atrás de uma indenização do Estado brasileiro, pois julga que teve prejudicada sua carreira de funcionário público. Já Sérgio Jorge quer apenas acertar contas com o passado. “Vi que tinha chegado a hora de contar. O Brasil mudou”, diz ele. Durante mais de 40 anos, Jorge remoeu os fatos daquela noite, que é capaz de reconstituir em detalhes. Ele e os outros fotógrafos, logo que chegaram à alameda Casa Branca, foram recebidos aos gritos pelo temido delegado do Dops, Sérgio Paranhos Fleury, o homem que comandou o cerco a Marighella. “Não quero ouvir um clique! Todos encostados no muro, com as máquinas no chão!”, ordenou Fleury. Ninguém ousou desobedecer. “Era uma loucura, ficamos vendo tudo aquilo acontecer sem poder registrar nada”, diz Jorge. Marighella estava no banco da frente, com uma perna para dentro do carro e outra para fora, os dois braços caídos e quase nada de sangue na roupa. Três policiais retiraram o corpo do fusca (veja reconstituição acima) e o deitaram na calçada. Abriram a calça de Marighella e revistaram seus bolsos. Tentaram, então, recolocá-lo no banco de trás. “Mas não conseguiam e foi preciso que um dos policiais desse a volta no automóvel e puxasse o corpo para dentro.” A ação durou cerca de 40 minutos até que os fotógrafos foram autorizados a fotografar. Chegando perto do carro, Sérgio Jorge pôde ver que havia uma pasta atrás do banco dianteiro e, sobre o assento de trás, uma peruca e uma capa.

Na presença de Sérgio Jorge e dos demais fotógrafos, os policiais, sem nenhum constrangimento, encenavam um número que viria a se tornar corriqueiro naqueles tempos: o teatro do confronto entre guerrilheiros urbanos e as forças da repressão. A ditadura no Brasil deixou um saldo macabro de 475 adversários mortos, 163 deles ainda desaparecidos. Foi a partir de 1969, o ano da morte de Marighella, que o regime militar ingressou em seu período mais duro e a eliminação de inimigos passou a ser regra. As execuções de militantes de esquerda, sem chance de prisão, tornaram-se tão comuns quanto os laudos fantasiosos de inquéritos policiais destinados apenas a escamotear uma política oficial de extermínio. No caso de Carlos Marighella, o esclarecimento de sua morte é especialmente problemático, pois existem pelo menos três versões conflitantes para ela. Primeiro há a versão dos militares, segundo a qual ele foi varado por uma rajada de metralhadora quando, do banco de trás do fusca dos dominicanos, reagiu a tiros a uma ordem de prisão do delegado Fleury. A perícia, entretanto, acabou concluindo que não saíra um tiro sequer da arma de Marighella. Desse modo, a tese da polícia parece não ser mais que um esforço para esconder a provável execução sumária do guerrilheiro, além de uma tentativa de driblar uma complicação extra do episódio: a suspeita de que, naquela noite, foi o fogo amigo que matou também uma jovem policial e um dentista alemão que casualmente passava pelo local no momento do tiroteio (outro delegado, um desafeto de Fleury, acabou baleado na virilha). A segunda versão é a dos dois frades dominicanos que a polícia usou como isca para Marighella. Em seu julgamento, os religiosos sustentaram que o guerrilheiro foi executado no meio da rua, longe do fusca em que eles estavam. Por fim, o Grupo Tortura Nunca Mais, em 1996, adotou as conclusões de um laudo em que legistas garantem que Marighella foi morto com um tiro no peito à queima-roupa, que seccionou-lhe a aorta, e alvejado ainda por outros três disparos.

Carlos Marighella era autor do “Manual do Guerrilheiro Urbano”, um confuso texto de 50 páginas que jovens esquerdistas de todo o mundo liam como uma bíblia. Figura principal dos cartazes amarelos que a ditadura espalhava com retratos de terroristas, vinha sendo caçado pelo Dops e monitorado pela máquina de informações dos Estados Unidos. Um ano antes de sua morte, o consulado americano em São Paulo já informara seu governo sobre as relações de Marighella com os dominicanos. Agora, o depoimento exclusivo de Sérgio Jorge à ISTOÉ – e que ele se dispõe a prestar também à Comissão da Verdade, instituída pelo governo para esclarecer as mortes ocorridas durante a ditadura – poderá jogar uma nova luz sobre os fatos, embora ainda seja difícil fazer conjecturas sobre as intenções específicas dos policiais que transferiram o corpo de Marighella para o banco de trás do carro.

Sérgio Jorge foi o primeiro fotógrafo do País a ganhar o Prêmio Esso de Jornalismo. Ele conta que, quando chegou à redação da “Manchete” com a foto do cadáver de Marighella, teve o cuidado de relatar a seu chefe a armação que tinha visto. Ouviu como resposta que a versão de Fleury seria a definitiva e, sempre avesso à política, resolveu se calar. “Todo mundo me dizia para não me meter com essas coisas que era muito perigoso”, diz ele. O caso só voltou a perturbá-lo cinco anos atrás, no momento em que começou a selecionar fotografias para um livro em seu arquivo pessoal, com mais de 60 mil imagens. As fotos de Marighella não estão com ele: foram parar num arquivo da revista “Manchete”, recentemente leiloado. “Dos fotógrafos que estavam comigo naquele dia, só eu estou vivo. Cheguei à conclusão de que não posso levar para o túmulo a história verdadeira”, diz Sérgio Jorge. “Sempre tive muito medo, mas com a Comissão da Verdade acho que chegou a hora.”

Nilmário Miranda, um dos representantes da comissão do Ministério da Justiça que, em 1996, responsabilizou o Estado brasileiro pela morte de Marighella, considera importante o depoimento de Sérgio Jorge. “Isso vai ajudar a Comissão da Verdade a regatar os fatos históricos”, diz ele. “Ao invés de suicídios, assassinatos cruéis. Ao invés de fugas da prisão, desaparecimentos forçados. Ao invés de tiroteios simulados, execuções à queima-roupa.” O advogado de presos políticos Mário Simas, que foi a primeira voz a afrontar a versão oficial da morte de Marighella, quando fazia a defesa dos frades dominicanos, espera que o depoimento de Jorge possa, finalmente, contribuir para o esclarecimento do caso. “No processo, lancei dez dúvidas sobre a versão oficial que nunca foram respondidas pelo Estado”, diz ele. Simas, que presidiu a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, não tem dúvidas sobre o modo de ação da polícia: “O delegado Fleury era um caçador sem escrúpulos, que não respeitava nada para chegar a seus objetivos.”

Aos 86 anos, a mulher de Marighella, Clara Charf, se espanta ao saber das revelações de Sérgio Jorge. Ela estranha que seu marido, que não sabia dirigir, estivesse ocupando o banco do motorista do fusca. Mas acredita que este depoimento possa enterrar de vez a versão “mentirosa” da polícia. “É um impulso muito grande para a revisão da história”, diz ela. É uma expectativa idêntica à do ex-militante Otávio Ângelo, certamente um dos últimos companheiros que viram Marighella vivo. Membro do Grupo Tático Armado da ALN, Otávio Ângelo estava no derradeiro “ponto” que Marighella cumpriu no fim da tarde do dia 4 de novembro de 1969, antes de ir para a alameda Casa Branca. Eles se encontraram no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo e, segundo Otávio Ângelo, Marighella se mostrava muito preocupado com a segurança da organização por causa da prisão de vários militantes. “Ele parecia nervoso, apreensivo”, relembra. “Falava que estávamos no cerco e que, se não conseguíssemos sair desse cerco, não sobreviveríamos.” A previsão de Marighella, como se vê, acabaria cumprida em poucas horas.

Fonte: Escrevinhador

 

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