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Deus é brasileiro: por Douglas Prima Tags: Deus é brasileiro Brasil injustiça social fundamentalismo religioso ateísmo povos indígenas índios violência violência urbana

 

Deus é brasileiro

Por Douglas Prima

Essa afirmativa sempre me assustou. Antes mesmo de entender a verdade por trás dos panos, já tinha concluído que havia muita coisa errada com a famosa e usual frase. Em primeiro lugar, pressupondo-se que deus realmente exista – o que é cientificamente impossível afirmar dadas às circunstâncias em nos encontramos, também não convém entrar nesse ponto agora – ele deveria compartilhar sua naturalidade com povos muito mais antigos que nós. Os egípcios ou os persas, talvez. Teriam os celtas, até mesmo os maias, apesar de estes últimos me parecerem pouco prováveis. Existiriam ainda muitas pressuposições de povos muito mais antigos que habitavam o velho mundo para afirmarmos arrogantemente que o ser supostamente mais antigo do universo compartilharia nossa mesma nacionalidade.

Outro ponto a ser seriamente considerado nesse momento seria o seguinte: se deus, que sempre existiu, fosse brasileiro, então, o universo, que passou a existir depois de deus, seria... O Brasil? Ao afirmarmos que deus é brasileiro estamos compartilhando a idéia de que deus nasceu no Brasil, por isso o fato de ser brasileiro, entretanto, me confunde o seguinte: se deus sempre existiu e o Brasil, ou um simples pedaço de terra, posteriormente denominado continente americano e ainda depois chamado de Brasil, veio a ser sua terra natal, então o Brasil sempre existiu? O nosso país não foi criado? Então nossa pátria é deus? Teríamos uma ‘quadrindade’assim?

Deixando os pensamentos tortos de lado, sabendo que muitos já desistiram da empreitada de tentar ler o texto, após a sua chata introdução, contrariando o atrativo tema, falemos do que realmente importa, afinal nossas origens são a nossa menor preocupação no momento. Brasileiro gosta de ser o coitadinho. Não. Não gostamos de SER, mas gostamos de PASSAR essa imagem. É diferente e sabemos disso. Passamos uma imagem de que tudo o que vem de fora é melhor. Sapatos importados, carros importados, relógios, equipamentos eletrônicos, vídeos games e uma série de nomes estrangeiros aderidos ao nosso tão vasto vocabulário. Outro dia li em um fórum que até os cigarros americanos, da mesma marca que os daqui, porém produzidos lá, eram melhores.

Isso já é um fato. Estamos conformados que o que vem de fora é de fato melhor, não só por ser mais caro, mas por ter mais ‘glamour’. Ao afirmarmos que deus é brasileiro, corroboramos essa imagem de inferioridade. Ter deus ao nosso lado, não nos torna mais fortes, mas, pelo contrário, mais fracos. Somos ainda predominantemente católicos e, ainda que fôssemos protestantes, ainda seríamos um país cristão. Assim sendo, o tal deus reverenciado como nosso compatriota deve ser o deus cristão. Esse deus cristão, no decorrer de sua história, tem fama de fazer seu povo servir como escravo. 400 anos de escravidão egípcia não foram o bastante para o Pentateuco. Síria, Medo-Persa, Babilônia e ainda os Romanos. Os períodos de escravidão sempre terminaram em guerra e morte e com deus dando a vitória a seu povo sofrido e infiel.

Imagino que seja isso que o brasileiro esteja esperando quando afirma que deus é brasileiro. Uma reviravolta como nos filmes onde o mocinho revida depois de muito apanhar. Algo sobrenatural e romântico. Revelador e assustador. Atemorizante e tranqüilizante. Uma vitória sem esforços. Se deus é por nós, então quem será contra? Não precisamos lutar. Na hora certa, ele agirá. Ele, não nós. Conformismo.

Sabe aquela sensação de orgulho ferido quando alguém nos insulta, mas nada podemos fazer no momento, pois uma ação estaria longe de nosso poder atual? É instintivamente natural esperarmos uma retaliação suprema advinda da própria natureza. Da seleção natural ou de deus, seja ele qual for. Esperamos justiça. Pensamos em processos e vislumbramos em nossas mentes o dia de julgamento, onde aquele que nos feriu um dia terá de se justificar e pagar pelos seus erros. E, nesse dia, ele terá de reconhecer quem somos e nosso valor. Então acordamos e vemos que não é bem assim. Então voltamos a lutar nossa batalha que é a vida e com o tempo esquecemos o rancor. Um dia talvez até tenhamos nossa recompensa, mas mesmo que não, nem sentimos falta. Essa é a verdade.

Mas, a fé em um deus que compartilha nossa nacionalidade é maior do que qualquer sensação de viver o que é real. Gostamos de ser vistos como um povo pacífico e cordial, pois, temos fé que, qualquer um que se meta em nosso caminho será punido. Como somos burros!

Não conseguimos nos lembrar – e nisso a mídia tem de fato nos ajudado – da tantas guerras travadas com muita violência para que conseguíssemos a liberdade que hoje temos. (E como é limitada essa tal liberdade!) Não conseguimos ver que vivemos uma guerra atualmente. E não é bem contra o tráfico. Não conseguimos ver o quanto somos tolos? Os comerciais de cerveja que mostram o cliente como um idiota batendo palmas para malucos endinheirados dançarem? Dancem com tubarões, macacos, dancem! Rebolem os traseiros e cantem: Nananana! Sinto falta da peste. Ela matava de forma mais digna. Coqueluche, tuberculose, até a gripe matou com mais classe. Agora, esse ostracismo atual? Essa retumbante ignorância e conformismo? Preconceitos infundados, o nível educacional, os salários. Nossos professores já ganharam 17 salários mínimos, quando hoje não ganham nem 2.

Nossa nação sofre de morte cerebral. E deus é nosso guia. Como está em nosso dinheiro: louvado seja deus e dane-se o estado laico. Os maus irão pagar quando chegar sua hora. Mas, é a hora de deus. Não. Deus não é brasileiro. Nossos índios são.

No ano de 1.500, quando os portugueses chegaram por aqui, existiam cerca de 5.000.000 índios nativos e brasileiros. Ainda não existia uma nação, as a terra sim. E era deles. É deles. A população de não-índios era de 12.000. Quinhentos anos depois os não-índios passaram para a soma extraordinária de 190.000.000. Como crescemos certo? Errado. Os verdadeiramente donos da terra foram dizimados. Existem apenas 500.000. Eliminamos 1.000.000 de índios por século. Tentamos catequizá-los, escravizá-los, mas como não funcionou, tomamos a terra deles e os mandamos pastar. Pastar sem terra, caçar sem caça. Morrer sem ter terra para serem enterrados. Nem faz mais diferença, já que seus costumes há muito já foram perdidos. Sua cultura? Dane-se. Sua língua? Aquele ronco de porco? Dane-se. Sua honra? Dane-se.

E pensar que são sujeitos honrados. Preferem morrer lutando a morrerem velhos. Já nós, brasileiros com deus ao nosso lado, queremos morrer velhos e cheios de bens, com a família nos bajulando. Uma legião de filhos ricos com as bundas impregnadas de hipoglós. Não há guerra, a não ser que sejamos atingidos por uma bala ou que tenhamos um filho seqüestrado. Mas, mesmo que isso ocorra, não há com o que nos preocuparmos. Deus está ao nosso lado e fará algo. Não sabemos nem o que, nem como ou quando, mas temos que ter fé. Quando começar a chover e a sua rua inundar, ajoelhe-se e comece a orar. Se sua casa começar a cair aos seus pés, pode ser que chegou sua hora. Tenha fé e morra com honra como nossos índios. Afinal, histórico de mortes é com nosso bom e querido deus brasileiro mesmo.

Fonte: http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3236795

Direitos Humanos - Fotografias: extrema pobreza Tags: Direitos Humanos José Roberto Ripper extrema pobreza exploração miséria desigualdade social injustiça social

 

Direitos Humanos - Fotografias: extrema pobreza 

 

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O fotógrafo carioca José Roberto Ripper tem como proposta colocar a fotografia a serviço dos Direitos Humanos. Sua especialidade é a fotografia social, documental e o fotojornalismo. Com militância trabalhista e sindical e longa experiência em jornais e revistas, Ripper criou e coordenou a Imagens da Terra, nos anos 1990, entidade sem fins lucrativos especializada na fotografia documental de denúncia social. Entre os temas que permeiam o trabalho do fotógrafo estão a vida do homem do campo, o habitat indígena, a seca do Nordeste, o trabalho de carvoeiros a crianças em Mato Grosso do Sul.

O encontro de José Roberto Ripper com a fotografia aconteceu quando ele cursava a terceira série do antigo curso científico e teve as primeiras lições com o amigo e companheiro de escola Julio Cezar Pereira, à época era considerado um bom profissional.

Em 1972, aos 19 anos, Ripper ingressou na carreira de repórter-fotógrafo na Luta Democrática, de Tenório Cavalcanti. Vieram em seguida o Diário de Notícias, a Última Hora, a sucursal carioca do Estadão e O Globo, além de diversos trabalhos como freelance para vários outros jornais e revistas.

Quando deixou O Globo, participou da criação da Agência F4, do Rio; a Ágil, de Brasília; e a Angular, de São Paulo. Quando deixou a F4, Ripper criou o Projeto Imagens da Terra, em que seu olhar sobre a vida dos trabalhadores rurais consolidaria

sua visão de fotografar a serviço dos Direitos Humanos.

Em junho deste ano, abriu, na sede da Petrobras, no Rio de Janeiro, a mostra Sonhos Velados, um conjunto de fotografias produzidas por adolescentes em conflito com a lei, fruto de parceria entre a empresa e a Ação Comunitária do Brasil do Rio de Janeiro (ACB/RJ), por meio do projeto Pan Social. A exposição apresenta flashes da vida e dos sonhos de crianças e adolescentes que estão cumprindo medidas socioeducativas em duas unidades do Departamento Geral de Ações Socioeducativas

(Degase). Com imagens produzidas durante as aulas da oficina FotoOlhares, a mostra divulga, por meio de fotos introspectivas e esperançosas, uma visão humanista das ações desenvolvidas pelo Novo Degase.

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Revista Direitos Humanos. nº 2. Junho de 2009. 

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