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Leônidas ameaça um novo golpe. General, volte às pantufas! Tags: General Leônidas Pires Gonçalves extrema-direita golpe 64 ditadura militar comissão da verdade Dilma Rousseff desaparecidos luta armada

 

Leônidas ameaça um novo golpe. General, volte às pantufas!

Por Luiz Cláudio Cunha 

 

As pantufas lhe caem melhor

 

Aos 91 anos, o general Leônidas Pires Gonçalves, oficial da artilharia e ministro do Exército do Governo Sarney, recrudesceu: tirou o pijama, trocou a pantufa pelo coturno, armou o canhão, mirou a presidente Dilma Rousseff e bombardeou a Comissão da Verdade. Tudo isso numa entrevista à repórter Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo (18 de maio), que funcionou como fogo de barragem para os velhos companheiros de farda envolvidos com a repressão, a tortura e o desaparecimento de presos durante a ditadura ardorosamente defendida pelo general quase centenário. É a voz militar mais graduada a contestar a determinação presidencial de investigar a verdade e é a opinião mais desastrada no coro cada vez mais idoso de velhos radicais que ainda respiram o ar saturado da Guerra Fria.

Leônidas defendeu o Exército (“sumariamente julgado e punido”), os militares (“injustiçados”), o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim (“ele se colocava”) e atacou a presidente da República (“deveria ter a modéstia de esquecer o passado e  olhar para a frente”), a Comissão da Verdade (“uma moeda falsa, que só tem um lado”) e os que clamam pelo fim da impunidade aos torturadores (“é impossível mexer na Lei da Anistia, fruto de um acordo no passado e que foi chancelada pelo Supremo Tribunal Federal”).

A bomba mais explosiva ficou para a resposta final, em tom de ameaça: “Se quiserem fazer pressão no Supremo, o Poder Moderador tem que entrar em atuação no país”. O general não fazia, aqui, uma menção nostálgica à bonomia dos monarcas da Casa de Bragança, que ocupou no Império brasileiro a posição de árbitro entre os poderes para dar estabilidade política à nação durante 67 anos, até o advento da República.  Leônidas não clamava pelo império da moderação, mas brandia a ameaça da república da repressão, que quebrou a ordem constitucional em 1964 e impôs a anarquia ilegal da ditadura militar durante 21 anos de treva.

 

Leônidas: o "poder moderador" fechou por três vezes o Congresso Nacional a partir de 64

 

Exercício do cinismo

Um regime que teve muito poder e, como bem sabe o general Leônidas, nada teve de moderador. Fechou o Congresso três vezes, prendeu, torturou, sequestrou e matou milhares de opositores, violou a soberania da universidade e a independência dos tribunais, cassou mandatos políticos e  aposentou professores, baniu e exilou opositores, fechou sindicatos e calou sindicalistas, amordaçou a imprensa e sufocou as artes, impôs o medo e jogou o país no porão de uma longa e nada branda ditadura de duas décadas, uma das mais sangrentas do Cone Sul do continente. O nostálgico general Leônidas agora quer repetir tudo aquilo, outra vez, sob o pretexto de  ‘proteger’ o Supremo? Conta outra, general!…

A memória seletiva e precária do general esquece que a Lei da Anistia, ao contrário do que ele diz, não foi “fruto de um acordo”. Passou apertado, raspando, por apenas cinco votos (206 a 201) num Congresso dominado pelo partido da ditadura, a Arena, que mantinha sua maioria a ferro e fogo, à custa das cassações de mandatos e da violência do AI-5, para controlar o irrefreável crescimento da legenda da oposição, o MDB. A lei foi votada e formatada sob o arbítrio do general Figueiredo, em agosto de 1979, seis anos antes da queda do regime, num texto lapidado cuidadosamente pelos comandantes militares para acomodar uma esdrúxula invenção jurídica: o “crime conexo de sangue”, vil esperteza dos quartéis para equiparar torturados e torturadores com a mesma anistia — indiscriminada, desigual e injusta. Uma anistia costurada sob o molde caviloso da repressão para estender o espesso manto da impunidade sobre os crimes de quem nunca foi acusado, julgado, processado e condenado.

Com o cinismo que a idade avançada não desbotou, o general Leônidas tenta justificar os abusos de seus velhos companheiros de farda e truculência: “O soldado é um cidadão de uniforme para o exercício cívico da violência”, disse em entrevista a Geneton Moraes Neto da Globo News, sem explicar onde escavou este sofisticado raciocínio que nivela todos os exércitos pela vala comum do arbítrio. O general ignora os exemplos na História de forças armadas que se mobilizaram, em momentos cruciais, pela preservação de valores perenes da democracia e da civilização.

 

Fã clube do Reich

Um exército, esquece o cínico Leônidas, pode ser a reunião de homens fardados que lutam pelo exercício da liberdade contra o nazifascismo. Pode, por exemplo, ser a força armada que se levanta em defesa da Constituição, como fez o III Exército ao cerrar fileiras com o governador Leonel Brizola e o povo gaúcho na Campanha da Legalidade de 1961. Pode também se alçar pela afirmação da autoridade constitucional do presidente, como fez o marechal Henrique Lott para sufocar a quartelada golpista de 1955 que tentava bloquear a posse de Juscelino Kubitschek.  O general Leônidas, aparentemente, devia ser na sua tenra  juventude um cidadão fardado que se imaginava autorizado ao exercício cívico da violência contra a ordem constitucional e os direitos fundamentais da pessoa humana. Faz sentido.

O tenente Leônidas e o chefe, general Álcio Souto: matinê para admirar a blitzkrieg do Reich

Leônidas Pires Gonçalves perdeu a chance de ser um dos heróis brasileiros da luta da Força Expedicionária Brasileira contra o III Reich, na campanha na Segunda Guerra Mundial, simplesmente porque estava do lado errado. Aos 23 anos, foi alijado da FEB porque teve o azar de ser, na época, ajudante de ordens do coronel Álcio Souto, um notório simpatizante da Alemanha que o Brasil combateria, com seus pracinhas, na frente de batalha da Itália. No livro A Ditadura Derrotada, o jornalista Elio Gaspari conta que Souto, então comandante da Escola Militar do Realengo e chefe de Leônidas, costumava levar seus cadetes nos primeiros anos da guerra a um cinema do subúrbio carioca onde o adido militar da embaixada de Adolf Hitler costumava exibir filmes sobre os avanços avassaladores da blitzkrieg da Reich alemão. O filho Alvir, general reformado, negou tempos atrás estas empolgadas matinês, dizendo que o pai não era nazista: “Ele não admirava o Reich, mas sim o Exército alemão”, justificou, como se fosse possível separar uma coisa e outra.

Filinto Muller: a polícia de Getúlio faz estágio na Gestapo de Hitler e Himmler

 

Geisel e seu ídolo

O filonazismo verde-amarelo não era uma exclusividade do comandante do então tenente Leônidas, mas era extensivo aos chefes supremos do regime do Estado Novo, que se espelhava na pátria da Wehrmacht hitlerista. O major de artilharia Affonso Henrique de Miranda Corrêa, o segundo homem de Filinto Muller na chefia de polícia da ditadura de Getúlio Vargas, foi mandado à Alemanha para um estágio de um ano na Gestapo, onde acabou condecorado por seu chefe, Heinrich Himmler, o mentor da ‘solução final’ dos campos de concentração. Os dois maiores líderes militares do país, os generais Eurico Gaspar Dutra (ministro da Guerra) e Góis Monteiro (chefe do Estado Maior do Exército), não escondiam sua admiração pelo Reich.

 

Benito Mussolini e um admirador: o ex-capitão Ernesto Geisel

 

Dutra comemorou a queda de Paris sob o tacão nazista com uma festa em sua casa. Meses antes, Góis Monteiro fazia as malas para chefiar uma comitiva de oficiais que viajaria a Berlim para conhecer a “gigantesca obra de reconstrução nacional” da Alemanha quando o embarque foi abortado. As divisões Panzer de Hitler acabavam de cruzar a fronteira da Polônia, dando início à Segunda Grande Guerra. Um dos oficiais da comitiva que perdeu a instrutiva viagem foi um capitão chamado Ernesto Geisel, que se confessava um admirador do líder fascista italiano Benito Mussolini. No Brasil, a afeição de Geisel era reservada ao chefe de Leônidas, coronel Álcio Souto, que chegou ao generalato como chefe do gabinete militar do presidente Dutra, o simpatizante nazista que se rejubilou com o desfile das tropas hitleristas sob o Arco do Triunfo parisiense.


Leônidas e Herzog: “Um homem assustado faz qualquer coisa. Até se mata”

 

Susto e chocolate

Foi neste festivo entorno nacional-socialista que o futuro cidadão de uniforme Leônidas Pires Gonçalves forjou o seu cívico espírito da violência. “Na hora de dar chocolate, não se dá tiro. E, na hora de dar tiro, não se dá chocolate”, filosofou o general Leônidas na Globo News. Debochado, o ex-ministro do Exército desdenha das vítimas da repressão: “Quem começa guerra não pode lamentar morte”.  Ironiza as denúncias (“Hoje todo mundo diz que foi torturado para receber a bolsa-ditadura”) e duvida do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob torturas no DOI-CODI de São Paulo, em 1975: “Eu não tenho convicção de que Herzog tenha sido morto… um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa. Até se mata”, explicou a Geneton Moraes Neto.


Prestes, João Goulart, Leonel Brizola: “Saíram porque quiseram. São fugitivos, não exilados”

 

O Leônidas que bate em Dilma e na Comissão da Verdade com espartana disciplina desenvolveu a exótica teoria de que os maiores líderes do regime deposto — Jango, Brizola, Prestes, Arraes — não foram exilados. “Eles saíram do Brasil porque quiseram. Eram fugitivos”, zombou o general, que tem a absurda certeza dos justos no regime injusto da ditadura: “Nós nunca prendemos ninguém que não tenha feito nada. De todas as pessoas presas, ninguém era inocente. Todos eles tinham alguma coisa que estavam cometendo de errado”. Na lógica cartesiana de Leônidas, a simples prisão já era, por si só, a condenação, líquida e certa. Os ídolos nazistas dos velhos comandantes de Leônidas ficariam orgulhosos do provecto general, ainda rijo na sua pétrea subordinação ao autoritarismo.

Desafio aos desaparecidos

Durante quase três anos da fase mais turbulenta da ditadura, de abril de 1974 a fevereiro de 1977, Leônidas foi o chefe do Estado-Maior do I Exército, sediado no Rio de Janeiro. Como tal, era o comandante imediato do DOI-CODI baseado no quartel da Polícia do Exército na afamada rua Barão de Mesquita, um dos endereços mais sinistros da repressão no Brasil.

Quando o quartel general do I Exército esteve sob o comando do general linha-dura Sylvio Frota,  entre julho de 1972 e março de 1974, conforme apurou o jornal O Globo, o DOI-CODI carioca era um centro de morte. Naquele espaço de 21 meses, contou o jornal, morreram 29 presos nas suas masmorras, então sob a administração do notório major Adyr Fiuza de Castro, um dos radicais mais temidos do regime. Pois bastou que ele chegasse ali em abril de 1974, diz o general Leônidas, e a paz celestial dos anjos se instalou naquele antro de terror e violência. “Não houve tortura na minha área”, jurou ele na Globo News. Na semana passada, n’O Estado de S.Paulo, o general voltou a desafiar: “Nunca apareceu nada, nem ninguém, que tivesse alegado ter sido torturado. Eu já desafiei que alguém se apresentasse na TV e nunca apareceu nada”.

 

Joaquim Pires Cerveira, Rubens Paiva e Eduardo Collier: incinerados, desaparecidos

 

Não apareceu, talvez, porque os desaparecidos jamais reapareciam, naqueles tempos amargos em que não se dava chocolate na hora de dar tiro. De acordo com o Dossiê Ditadura — Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964-1985, publicado em 2009, a lista oficial de 138 desaparecidos políticos no país registra 31 nomes que se evaporaram no Rio de Janeiro entre 1970 e 1978. Desses, seis desapareceram justamente nos anos de 1974 e 1975, quando o DOI-CODI do Rio, que coordenava a repressão na área, estava sob o comando direto do general Leônidas. Integram a lista Armando Teixeira Frutuoso, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, Jayme Amorim Miranda, Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior, Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto e Eduardo Collier Filho, que jamais poderão desmentir o general porque estão irremediavelmente desaparecidos.

 

Morte no entorno do general

Sabe-se agora o destino final de apenas um deles: o jovem pernambucano Eduardo Collier Filho, 25 anos, foi preso pelo DOI-CODI carioca em 23 de fevereiro de 1974, dois meses antes da providencial chegada do general Leônidas ao Rio, e acabou tempos depois virando cinzas num forno de uma usina de açúcar de Campos, interior fluminense, usada pela repressão para eliminar vestígios dos desaparecidos. A confissão foi feita pelo ex-delegado do DOPS capixaba Cláudio Guerra, que acaba de lançar Memórias de Uma Guerra Suja,  um livro devastador sobreas atrocidades do regime que dava pouco chocolate e muito tiro.

Outros seis militantes da esquerda, da lista carioca de 31 desaparecidos, sumiram em 1973, um ano antes de Leônidas desembarcar no DOI-CODI do Rio.  Entre eles, Caiupy Alves de Castro, Ramires Maranhão do Vale, Umberto Albuquerque Câmara Neto, Vitorino Alves Moitinho, Honestino Monteiro Guimarães — e o ex-major do Exército Joaquim Pires Cerveira, 50 anos, sequestrado em Buenos Aires pela ‘Operação Condor’ e trazido ao Brasil clandestinamente pelo delegado Sérgio Fleury, do DOPS paulista. Cerveira foi visto no DOI-CODI da Barão de Mesquita, duramente torturado, e acabou também incinerado no forno da usina, conforme denúncia do delegado Guerra.

 

A estilista Zuzu Angel e Stuart Jones: “Se aparecer morta, será obra dos assassinos de meu filho”.

 

No ano da graça de 1971, sumiram outros 10 militantes da lista de 31 desaparecidos do Rio, incluindo o deputado Rubens Paiva e Stuart Edgar Angel Jones, 26 anos, filho da estilista Zuzu Angel. Ela passou os cinco anos seguintes denunciando ao mundo a responsabilidade direta da ditadura brasileira na tortura e morte do jovem. Fez isso, incansável, até a estranha madrugada de abril de 1976 em que o carro que dirigia, um Karmann-Ghia, capotou no túnel Dois Irmãos e despencou na ladeira da Estrada da Gávea, morrendo na hora — um acidente forjado pelo DOI-CODI carioca do achocolatado general Leônidas, conforme denúncia do ex-delegado Cláudio Guerra. Uma semana antes do acidente, Zuzu deixara na casa do compositor Chico Buarque de Holanda um documento em que escreveu:. “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.

 

A nostalgia de 1964

Quando essas coisas sinistras aconteceram, o general Leônidas era o chefe imediato da central de repressão mais ativa e bem informada do Rio de Janeiro. Mas as cenas estranhas que atormentavam a cidade e a alma brasileira pareciam não dizer respeito ao chefe do Estado-Maior a que se subordinava o DOI-CODI, que o general Leônidas garantia estar subitamente domado em sua pacífica administração. Os desaparecimentos que teimavam em acontecer nas redondezas e nos porões, aparentemente, não quebravam a imaculada mansidão de seu comando: “Desafio, desafiei lá e desafio agora alguém que tenha sido torturado, ou tenha sofrido qualquer restrição maior do que as técnicas nos prometiam, que era o isolamento”, repete Leônidas.

 

O general e a ‘Chacina da Lapa’: “Pagamos pela delação da cúpula do PCdoB”

 

O general não nega, com a vaidade previsível, a responsabilidade direta pela chamada “Chacina da Lapa”, a morte da cúpula do PCdoB numa casa do bairro paulistano onde o partido se reunia em dezembro de 1976 para avaliar a guerrilha do Araguaia. A revelação nasceu no comando de Leônidas, que admitiu ter pago R$ 150 mil à filha de um ex-dirigente da organização, Manoel Jover Telles, para delatar o dia e o local do encontro. A operação de cerco e extermínio foi planejada na central de repressão da rua Barão de Mesquita pelo coronel Freddie Perdigão, chefe da Agência Rio do SNI e braço executor (lato sensu) do DOI-CODI, conforme denuncia o ex-delegado Guerra. “Pagamos aos presos para eles delatarem os outros”, explicou-se o general Leônidas, com a convicção do soldado dedicado ao exercício cívico da violência. Ele não se arrepende do que enfrentou: “Guerra é guerra”, disse na Globo News. “Guerra não tem nada de bonito — só a vitória. E nós tivemos. A vitória foi nossa. Porque este país caiu na democracia que nós queríamos”.

Agora, assustado com a aparição da Comissão da Verdade que ameaça dissecar a ‘democracia’ e o ciclo de violência em que caiu o país que queriam os militares em 1964, o general Leônidas ameaça resistir à pressão da verdade com o surrado tacape do ‘poder moderador’. Alguém precisa avisar ao veterano golpista dos idos de 64 que a democracia brasileira já não teme cara feia, nem se assusta com fantasmas do passado.

Mais consolador ainda seria ouvir dele um educado e cabal pedido de desculpas ao país pela grosseria. Na sua idade, o velho e imoderado chefe militar não merece nada mais do que um chocolate. Por favor, general Leônidas, volte às pantufas!

* Luiz Cláudio Cunha é jornalista

[cunha.luizclaudio@gmail.com]

 

A lista dos 31 desaparecidos no Rio de Janeiro, segundo o Dossiê Ditadura — Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964-1985, publicado em 2009:

Antônio Joaquim Machado, 31 anos, desaparecido em 1971

Armando Teixeira Frutuoso, 54, desaparecido em 30/8/1975

Boanerges de Souza Massa, 34, desaparecido em 1972

Caiupy Alves de Castro, 45, desaparecido em 21/11/1973

Carlos Alberto Soares de Freitas, 32, desaparecido em 1971

Celso Gilberto de Oliveira, 25, desaparecido em 10/12/1970

Eduardo Collier Filho, 26, desaparecido em 23/2/1974

Félix Escobar Sobrinho, 47, desaparecido em agosto de 1971

Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, desaparecido em 1974

Heleny Telles Ferreira Guariba, 30, desaparecida em 1971

Honestino Monteiro Guimarães, 26, desaparecido em 1973

Ísis Dias de Oliveira, 30, desaparecida em 1972

Ivan Mota Dias, 28, desaparecido em 1971

Jayme Amorim Miranda, 48, desaparecido em 1975

Joaquim Pires Cerveira, 50, desaparecido em 1973

Joel Vasconcelos Santos, 23, desaparecido em 1971

Jorge Leal Gonçalves Pereira, 31, desaparecido em 1970

Mariano Joaquim da Silva, 41, desaparecido em 1971

Norberto Armando Habeger, 29, desaparecido em 1978

Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior, 60, desaparecido em 1975

Paulo César Botelho Massa, 26, desaparecido em 1972

Paulo Costa Ribeiro Bastos, 27, desaparecido em 1972

Paulo de Tarso Celestino da Silva, 27, desaparecido em 1971

Ramires Maranhão do Vale, 22, desaparecido em 1973

Rubens Beirodt Paiva, 41, desaparecido em 1971

Sérgio Landulfo Furtado, 21, desaparecido em 1972

Stuart Edgar Angel Jones, 26, desaparecido em 1971

Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto, 36, desaparecido em 1974

Umberto Albuquerque Câmara Neto, 26, desaparecido em 1973

Vitorino Alves Moitinho, 24, desaparecido em 1973

Walter Ribeiro Novaes, 31, desaparecido em 1971

Fonte: Sul 21

 

​Comentário Rede Social Comunistas:

O General Leônidas Pires Gonçalves, além de principal defensor dos crimes dos militares durante a ditadura, também foi o organizador do Projeto Orvil: Livro secreto do Exército descoberto em 2007. Mais detalhes no post: Para o Exército, PT seria uma incubadora de terroristas.

 

Guerrilha no Brasil: documentário Tempo de Resistência Tags: Guerrilha no Brasil ditadura militar luta armada guerrilha guerrilheiros comunistas guerrilha urbana guerrilha rural Leopoldo Paulino

 

Guerrilha no Brasil

documentário Tempo de Resistência

"Houve um momento em que nos sacrificamos por um ideal, na busca do bem da coletividade..."

Baseado no livro “Tempo de Resistência” de Leopoldo Paulino, o documentário homônimo é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

A partir do depoimento de pessoas diretamente envolvidas na resistência à ditadura, e impactantes imagens de arquivos, Tempo de Resistência revela a História deste longo e nebuloso período, que se estendeu por 21 anos, resgatando a memória do nosso país.

Embalado pelas músicas de Chico Buarque, Francis Hime e Geraldo Vandré entre outras, o filme revela todo o processo do golpe militar, desde o Comício das Reformas até o final da ditadura.

Depoimentos, entre outros, de José Dirceu, Aloysio Nunes, Franklin Martins, Leopoldo Paulino, Denize Crispim, Vanderlei Caixe, Don Angélico Bernardino, Carlos Russo, são esclarecedores para que se possa compreender aquele momento da História do Brasil.

A realização da obra foi possível graças ao apoio e patrocínio de pessoas físicas e jurídicas em atitudes daqueles que compreendem a importância de retratar a realidade brasileira e incentivar a cultura de nosso país, a extrema dedicação do diretor André Ristum e do produtor Edgard de Castro foram cruciais para a realização deste filme.

Através do Projeto Tempo de Resistência, Leopoldo Paulino tem apresentado o documentário em escolas, e realizado debates sobre o tema atingindo milhares de estudantes em todo o país.

Fonte: Tempo de Resistência

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRAALOÍZIO PALMAR.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

 

Comissão da Anistia nega reparação à agente duplo que sacrificou a mulher Tags: Soledad Soledad Barrett Viedma guerrilheira guerrilha luta armada ditadura militar Cabo Anselmo Fleury Urariano Motta comunistas brasileiros
 
​Comissão da Anistia nega reparação à agente duplo que sacrificou a mulher
Urariano Mota

Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução.

soledad cabo anselmo

Foto de Soledad, uma mulher apaixonada e que foi entregue para morrer pelo próprio marido, um agente duplo

A Comissão de Anistia teve esta semana uma sessão histórica, daquelas que fazem a gente dizer “um anúncio distante de justiça se faz na terra”. Na terça-feira, quando se negou qualquer reparação para o cabo Anselmo, os crimes do agente infiltrado voltaram à tona, e com eles também voltou o nosso livro “Soledad no Recife”, publicado pela Boitempo. Divulgo aqui uma página do livro, escrito sob uma pesquisa histórica, documental, de tal modo que difícil nele é separar o factual da imaginação literária. A página a seguir fala do horror e da surpresa de Soledad, ao descobrir entre os policiais a cara do marido, o agente duplo a quem amava:

A cara de Anselmo, no conjunto dos sinais, Soledad não via. Não tanto porque a desconfiança nunca lhe houvesse batido à percepção. Mas porque isso era tão horrível, que o seu senso estético repugnava. Uma coisa que o seu peito de justiça não queria nem podia aceitar. E recuava, no mesmo passo em que os indícios cresciam. Mas o Cartório de Registro dos Sonhos existe, ainda que fora do domínio civil de uma cidade. Ele existe ao lado dos lugares onde se bebe, come-se e se morre. Os seus documentos, se não têm efeitos legais, recuperam no real os direitos. Os sonhos, quando muito fortes, os pesadelos, quando inescapáveis, tornam-se tangíveis. Houve então um momento em Soledad, houve um espaço e lugar nas suas antevisões, em que se passou do antes para o agora, sem mediação para o horror que jamais havia se apresentado com a sua cara. Nas representações anteriores, nos indícios, não se mostrava assim tão claro.

- Por quê? Por quê?!

A pergunta que Soledad não se fizera diante das imagens que a perseguiam nos últimos meses, por quê?, qual a razão delas, agora à luz do dia em Boa Viagem, em uma butique da ensolarada praia de Boa Viagem, aonde ela foi para vender roupas, onde ela está com Pauline, ali, sob a prazenteira luz física do Brasil, a pergunta pelas razões dos sonhos e pesadelos que ela não se fizera, agora vêm com um susto, um terror, diante do real bruto. José Anselmo dos Santos se encontra entre os homens que lhe batem na cabeça com armas e punhos.

- Por quê? Por quê?

Pauline está muda e petrificada, incapaz de correr e falar. Soledad olha para os olhos do homem que pensara ser o seu companheiro, e isso, essa realidade, o pesadelo por guardar uma altura ética jamais mostrou. O pesadelo fora incapaz de exibir toda a crueza. Anselmo não sorri agora, sorrirá depois, quando lhe perguntarem

- Você dorme bem?

- Putz, tranquilamente.

Ou mais textualmente:

- Você dorme tranquilo? Nunca sentiu pesadelo durante a noite? Não tem remorso pelo que fez?

- Absolutamente (risos)….

Por enquanto, não, agora na butique em Boa Viagem ele não ri, embora a cena lhe pareça um tanto cômica.

- Por quê? Por quê?

Ele apenas assiste ao espancamento e suplício. Como uma prova de que é contra esses terroristas.

‘Eu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrotério…. em um barril estava Soledad Barret Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava também um feto’.

Quando Mércia Albuquerque declarou essas palavras, não era mais advogada de presos e perseguidos políticos. Estava em 1996, 23 anos depois do inferno. Mércia estava acostumada ao feio e ao terror, ela conhecia há muito a crueldade, porque havia sido defensora de torturados no Recife. Ainda assim, ela, que tanto vira e testemunhara, durante o depoimento na Secretaria de Justiça de Pernambuco falou entre lágrimas, com a pressão sangüínea alterada em suas artérias. Dura e endurecida pela visão de pessoas e corpos desfigurados, o pesadelo de 1973 ainda a perseguia: ‘Soledad estava com os olhos muito abertos, com uma expressão muito grande de terror’.

No depoimento da advogada não há uma descrição técnica dos corpos destruídos, derramados no necrotério. Mércia Albuquerque é uma pessoa se fraterniza e confraterniza com pessoas. ‘Eu fiquei horrorizada. Como Soledad estava em pé, com os braços ao lado do corpo, eu tirei a minha anágua e coloquei no pescoço dela’. Distante dos manuais exatos da Medicina Legal, a advogada Mércia não se refere a cadáveres, mas a gente. Chama-a pelos nomes, Pauline, Jarbas, Eudaldo, Evaldo, Manuel, Soledad. Recorda a situação vexatória em que estavam – porque eram homens e mulheres – despidos. O seu relato é como um flagrante desmontável, da morte para a vida. É como o instante de um filme, a que pudéssemos retroceder imagem por imagem, e com o retorno de cadáveres a pessoas, retornássemos à câmara de sofrimento. ‘A boca de Soledad estava entreaberta’ “.

Fonte: Pragmatismo Político

Veja também o post:

A guerrilheira Soledad Barrett Viedma

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRAALOÍZIO PALMAR.

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

 

Sirkis relembra a guerrilha perdida Tags: sirkis alfredo sirkis guerrilha ditadura militar luta armada Esquerda golpe 64 movimento estudantil repressão OBAN guerrilha urbana VPR

 

Sirkis relembra a guerrilha perdida

O livro Carbonários: memórias da guerrilha perdida de Alfredo Sirkis foi um dos melhores livros sofre a luta armada contra a ditadura que já li. Numa narrativa empolgante, Sirkis conta sua luta contra a repressão política desde o movimento estudantil, passando pelo sequestro do embaixador alemão e suíço até sua fuga para o exílio. A impressão que ficou em mim logo após a leitura do livro é que terminei de ler uma obra de ficção, ou vi um filme de ação. É difícil acreditar que aquele jovem que correu tantos perigos numa luta suicida contra o regime militar e o pacato deputado federal do PV sejam a mesma pessoa. Posto abaixo uma entrevista do blog Arquivo 68 em que ele fala sobre o livro e seu passado revolucionário.

 

Os Carbonários, ano 25.

Entrevista com Alfredo Sirkis sobre o livro Os Carbonários e os “anos de chumbo”. A vinte cinco anos de seu lançamento o best seller continua despertando interesse.

Mario Augusto Resende, pesquisador da UNICAMP.


Lisboa, 1978, iniciando Os Carbonários numa máquina Olympia, no terraço com vista para o Tejo.

Mário – Sirkis, eu queria saber qual, quais que você acha que são as influências teóricas principais da sua geração ? Marxismo? Existencialismo? Prá entrar na esquerda armada?

Sirkis – É difícil falar de influências dominantes. É uma geração literária, não é ?…Liamos muito …mas não acho que a maior parte das pessoas da minha geração que se envolveram no movimento político tenham lido Sartre, antes. A primeira instância de captação por parte das organizações eram os grupos de estudo onde se estudava marxismo. Em geral o primeiro livro a se ler era A História da Riqueza do Homem, do Leo Huberman, depois se passava para o Manifesto Comunista, Trabalho Assalariado e Capital, Salário, Preço e Lucro e logo depois, Guerra de Guerrilhas, do Che Guevara, Revolução na Revolução, do Régis Debray. Não acho que tenha havido na minha fase pré-militante alguma corrente filosófica dominante ou que o Existencialismo tenha jogado um grande papel nisso… As pessoas de uma forma geral, todos vieram a ler o Sartre e a Simone de Beauvoir depois, quando já estava na sua fase militante, no meu caso, no exílio. Em termos de leituras o marxismo era o pensamento com o qual se armou teoricamente aquela geração.

Mário – Mas é que….n’ Os Carbonários, dá a sensação que a sua entrada no movimento de esquerda foi também por uma opção existencial. Você fala que existia uma espécie de carência de amizades, necessidade de um respeito intelectual maior , que isso você foi buscar e acabou encontrando nos seus colegas do Colégio de Aplicação…

Sirkis – É verdade, mas isso não tem nada a ver com Existencialismo… De fato, eu acho que as pessoas se movem basicamente por suas razões existenciais. Ninguém se move por uma consciência teórica pura. A teoria ela chega depois, até para racionalizar as opções que são feitas. Acho que o motor História é o Desejo, não é ? As necessidades humanas de variada índole se apresentam a cada momento e, naquele momento, a maior parte das pessoas que se aproximou da militância de esquerda o fez por uma busca de companheirismo, um sentimento de revolta contra a opressão, contra a ditadura, busca de aventura … uma certa vontade de fazer grandes coisas, praticar atos heróicos, pôr a prova a si mesmo… enfim… há um coquetel psicológico que leva as pessoas a se motivarem nesse ou naquele sentido. Ele é complexo…mas eu acho ele que parte do seu íntimo, do seu desejo não de uma reflexão teórica anterior.


1970, clandestino

Mário – N’ Os Carbonários, em vários momentos, você deixa entender que essa opção por entrar na esquerda armada naquele momento parece algo como uma traição de classe ou de origem quando você…por exemplo fala das suas sessões de autocrítica na organização, até mesmo nas discussões que você tem com seus pais, nas sessões de análise – que é algo interessantíssimo : como é que alguém que está participando da esquerda, tá vivendo em aparelhos, faz análise kleiniana… Queria que você falasse um pouco sobre isso.

Sirkis – Na minha cabeça, naquela época, eu absorvia aquele pensamento, aquela base teórica que me era incutida pelo processo de formação teórica e também, pelos dos mecanismos de controle psicológico que se estabeleciam. Na nossa cabeça, naquele momento, considerávamos isso um controle ideológico, mas era, de fato, um controle psicológico. Claramente as sessões de crítica e autocrítica se integram nessa perspectiva e se a gente for olhar um pouco prá trás, percebe realmente que a esquerda tem muito em comum com a Igreja, não é? Há uma série de técnicas de doutrinação que através dos séculos foram usadas pelas Igrejas. Por outro lado, uma série de fenômenos que ocorreram nas Igrejas como as cisões, os anátemas, as lutas em torno da interpretação das Santas Escrituras tudo isso se reproduz na esquerda. Então, é claro que naquele momento, dentro de um raciocínio muito mecanicista, eu como pequeno-burguês, achava que estava de certa forma e sadiamente traindo a minha classe e optando pela classe proletária. A dificuldade é que, na verdade, a resistência à ditadura militar no Brasil foi um ato profundamente identificado com a classe média brasileira daquele momento e –salvo pequeníssimo bolsões, como os operários de Contagem e de Osasco– a classe operária foi completamente indiferente à nossa luta. A classe trabalhadora não tava nem aí pra resistência armada contra a ditadura. Então, de fato agora percebemos que uma coisa é a realidade vivida e outra coisa é como você olha as coisas num determinado momento, sobretudo num momento de extrema exaltação de paroxismo como foi aquele. Eram tempos excepcionais, sem dúvida.

"não é um tema que me fascina"

Mário – Você leu o livros dos outros memorialistas? Fernando Gabeira… Renato Tapajós… Reinaldo Guarany…?

Sirkis – Li… li o livro do Renato Tapajós, foi o primeiro que eu li, saiu antes do nosso. Li os livros todos do Fernando Gabeira. Mas, confesso que não li todos os livros sobre o tema. Não é uma literatura que particularmente me interesse… Na verdade, quando eu escrevi Os Carbonários … –isso é uma coisa que eu coloco no prefácio: eu escrevi Os Carbonários porque eu vinha contando no exílio aquelas histórias repetidas vezes e teve um momento que eu senti necessidade de botar aquilo no papel até prá não precisar mais ficar contando aquelas histórias… (Risos) Elas já estariam lá num… no livro. Por outro lado, sobretudo à medida em que o tempo foi avançando, a questão da luta armada, daquela geração, do que eu fiz ou deixei de fazer, o que nós fizemos ou deixamos de fazer não é mais um tema que me fascine ou me interesse particularmente, te confesso… É claro, havendo um livro de grande qualidade literária, eu sem dúvida, leria! E alguns livros eu li por curiosidade. Recentemente saiu um do Pedro Viegas, que até fez uma menção super gentil à minha pessoa. Fiquei muito emocionado porque não vejo o Pedro Viegas há muito tempo e …é um amigo. Li assim… meio na diagonal o do Carlos Eugênio… Olhei assim… folhei um pouco na diagonal alguns outros, mas, sinceramente, não é um assunto que do ponto de vista de leituras, me atraia muito.

Mário – Por que você acha que você e os seus pares …hã… resolveram romancear as suas memórias …ou… por quê usar a forma do romance na maioria das…?

Sirkis – Não…! Os Carbonários não é um romance. Tudo o que aconteceu lá é verdade… até onde eu me lembro… claro que a memória prega peças prá gente mas… tentei fazer um livro que contivesse a verdade. Não absolutamente toda a verdade, mas que contivesse essencialmente a verdade sob uma forma de memorialismo … O Em Câmara Lenta é um romance, sem dúvida, muito influenciado pela linguagem cinematográfica…Outros livros…o do Frei Betto, o Álvaro Caldas são livros de depoimentos também. O livro do Gabeira também é, embora com aquele estilo peculiar dele. O que eu acho que você evoca é outra coisa: são livros que muita gente lia como quem lê romance. Romances foram livros sobre a mesma temática mas escritos anteriormente por alguns escritores como o Ivan Ângelo, o próprio Antônio Calado… Romances eram esses. O que nossa geração escreveu foram depoimentos.

Mário – Ainda nessa linha… hã… quando os críticos… ou as pessoas lêem seus livros, de vocês… têm controvérsias em maior ou menor grau. No seu caso …pelo menos do que eu li sobre o assunto, é sempre apontada a questão da sua juventude na participação da luta armada, e aí alguns críticos tomam isso como uma reflexão um pouco adolescente das suas memórias… Algo pejorativo inclusive. Eh…E acentuam-se, inclusive, as críticas por conta do seu humor, que você emprega… Embora eu tenha lido uma entrevista que você fala que Os Carbonários não é um livro engraçado, muito pelo contrário… Hã… Como é que você vê essas críticas?

Sirkis – Olha, em matéria de crítica, eu não me queixo muito porque comparado com que o Gabeira sofreu eu fui muito bem tratado pela crítica literária … quase toda… só o falecido… Zé Carlos Oliveira escreveu na crítica que o livro era bom mas eu escrevia mal (Risos)… De qualquer jeito… Os Carbonários não teve o mesmo grau de polêmica que O que é isso, Companheiro? Aliás, a polêmica não nem com O que é isso, Companheiro? Foi a estória da tanga de crochê e do Gabeira ter dito que era bissexual…que criou um verdadeiro (Risos)… uma verdadeira.. um verdadeiro…

Mário – Frisson.

Sirkis – …frisson, é… uma grande rejeição por parte de um grande contingente da esquerda inclusive o Ziraldo que era o editor dele, ficou horrorizado… O mais engraçado dessa estória é que, na verdade, quem conhece o Gabeira de longa data, como eu, no caso há mais de 30 anos, sabe que não é bem assim. Quer dizer: só se sabe de estórias do Gabeira com mulher! Nenhum dos melhores amigos do Gabeira jamais soube de um caso do Gabeira com homem! (Risos) Então, se ele teve alguma experiência, foi uma coisa tão escondida, mas tão escondida que ele nem conta (Risos) Prá quem quer realmente assumir uma suposta bissexualidade, convenhamos… O que acontecia naquela época era que… estava na moda ser bissexual! Inclusive, dava prestígio entre as mulheres você dizer que era bissexual. Eu me lembro, até conto isso nesse novo prefácio dos Carbonários, que uma namorada que eu tinha lá em Paris uma vez me perguntou se eu tinha transado alguma vez com outro homem. Eu falei que não. E ela me perguntou “Mas por quê?!” Eu falei “Porra! O corpo masculino não me atrai!” Aí ela olhou prá mim, com um ar de profunda reprovação e disse: “Meu Deus do Céu…! Como você é reprimido!” (Risos).

Mário – (Risos).

Sirkis – Então o fato é o seguinte: você efetivamente tinha melhores chances prá se aproximar de algumas das mulheres mais sofisticadas se você criasse essa auréola em torno de você, entende?! (Risos) Eu nunca eu nunca tive coragem de fazer… acho que o Gabeira fez sem muito problema o que… lhe trouxe algum sucesso entre as mulheres mais sofisticadas mas criou uma verdadeira rejeição, entre o conservadorismo de esquerda. No caso dele, há um outro problema completamente diferente que eu não tive. Sou um dos pouquíssimos… sobreviventes das duas equipes de guarda dos aparelhos das ações de seqüestro, tanto do suíço quanto do alemão. O outro é o Manuel Henrique, que participou do alemão. Dxo suíço não tem mais ninguém–não sei se a Teresa Angelo, afinal, sobreviveu ou não– Enquanto que no caso da turma do MR8, que seqüestrou o embaixador americano, eles estão todos vivos… O Gabeira teve um papel secundário na operação, era um militante de importância menor dentro do MR8, nunca foi da direção e, no caso, vários foram de sucessivas direções… Então… há… um certo incômodo por parte daqueles que se acham muito mais importantes na guerrilha do que o Gabeira, mas foi ele que contou a história e ficou com a notoriedade, ficou como referência daquele geração com idéias que não correpondem às deles. No meu caso não me associei a nenhum choque comportamental …dentro do próprio prefácio dos Carbonários eu digo que “prá início de conversa eu quero ser apenas um contador de estórias” … meu objetivo ali era só contar uma estória bem contada…


Treinando, em 1969.

A questão do humor eu acho fundamental… não só porque alguma das coisas que a gente passou realmente foram engraçadas (Risos) e… depois que um livro sem humor é muito chato… Quanto a adolescente, sim.. Eu era praticamente um adolescente…Era… eu comecei como teen. Se adolescente é a mesma coisa que teenager , eu comecei com nineteen, né? Dezenove anos… então…

"Eliminei muitas gírias"

Mário – Tudo bem, mas você escreveu com 30…

Sirkis – Na época em que eu comecei a escrever, eu optei por uma narrativa extremamente simples e despojada de qualquer tipo de maneirismo estilístico. Uma coisa seca, jornalística e… e… um pouco influenciada por um tom do Pasquim… que dava o tom da escrita naquela época, com muita gíria, coisa que em edições posteriores, sobretudo nessa 13ª edição da Record eu revi. Eliminei muitas gírias. Isso foi uma coisa que depois o Otto Lara Resende, que gostava muito do livro, me deu um toque. Ele e alguns outros escritores veteranos me disseram: “Olha, tudo bem você usar gírias mas… o problema é que você tem que entender que gíria é perecível …então daqui a vinte anos …”

Mário – Ninguém vai entender. 

… as pessoas não vão entender, então acho que você devia colocar num português mais castiço”. Foi o que eu fiz, na última edição… Por que tinha aquelas gírias dos anos 60,70: “ Fulana de tal estava na fossa”… é… “A minha cuca estava cheia de idéias”… entende? Coisas que se falavam na época que hoje já não se fala mais.. Hoje são outras gírias.. Meu filho diz “Sinistro!” Aí você fica assustado com que coisa sinistra foi essa que aconteceu, mas, na verdade, sinistro é “legal”, é insólito é diferente. Se uma pessoa quer que suas obras literárias perdurem no tempo ela tem que recorrer a um português mais convencional.

Mário – Como é que foi o processo de publicar, buscar editora… Houve recusas…?

Sirkis – Houve, houve uma recusa… A primeira editora que eu publiquei foi a CODECRI. E o Ziraldo…(pausa) me esnobou! Muito tempo depois, o Ziraldo me procurou e disse que uma das coisas que ele mais se arrependia na vida era ele ter recusado o meu livro… Sem ler, só foi numa abordagem preliminar… é… ele não tinha lido. E que o livro era melhor do que o do Gabeira! (risos) Ele falou isso porque devia tá pau da vida com o Gabeira por causa da estória da tanga de crochê…

Mário – Se sentiu traído….

Sirkis – É… e … e que, na verdade (risos)… ele falou uma coisa engraçada: que ele tinha desconfiado de mim porque tinha me achado muito bonitão e um cara boa pinta desse não podia ser bom escritor! (Risos)

Mário – (Risos)

Sirkis – … Aí eu fiquei olhando prá cara do Ziraldo, não disse mais pensei: “Porra, Ziraldo! Vai tomá no cu, antes que eu me esqueça!” O que não impediu que a gente tenha sempre mantido depois relações extremamente afetuosas e cordiais, né? Acho que a forma dele ter confessado isso prá mim até revelou uma grande candura da pessoa despojada que ele é. Mas de fato aconteceu isso. Então foi publicado pela Editora Global, que era do Zé Carlos, um português de Angola que… realmente soube do livro, leu, resolveu publicar, a primeira edição saiu com muito erro e… assim de revisão mas teve uma resenha boa na Veja, do Augusto Nunes, e o livro… pau! Estourou! (…)

Mário – Foi um best-seller.

Sirkis – Foi best-seller… depois eu escrevi o Roleta Chilena que é um pouco a continuação.

Mário – Por quê que você altera a estrutura narrativa dos Carbonários pro Roleta Chilena? Quer dizer… Os Carbonários é algo linear, de 66 a 71… E no Roleta, Roleta Chilena você vai narrando o exílio, mas de maneira fragmentada, quer dizer, uma hora aparece…

Sirkis – Porque eu tava encantado com os livros do Jorge Semprún e queria fazer uma coisa parecida… E eu comecei a questionar o meu despojamento estilístico e também fiquei puto porque o José Carlos Oliveira e outras pessoas começaram a dizer que eu o livro era bom mas eu escrevia mal (risos) E eu quis mostrar que eu escrevia bem (risos)!

Mário – Tá… É… e… você acha que… pegando essa coisa do Semprún, você acha que os seus livros estariam numa linhagem… tipo Literatura de Testemunho, como o Semprún, como Primo Levi… Ou não?

Sirkis – Tenho os Carbonários e Roleta Chilena, livros memorialísticos; Corredor Polonês que é semi-memorialístico… Um romance baseado em fatos reais… conta a estória da minha mãe e do meu pai na Polônia e das minhas duas viagens à Polônia, um pouco ficcionalizado, quase nada… e também muita influência do Semprún, ainda nesse livro, que levou uma cacetada do Washington Noaves, que eu saí catando cavaco até hoje… mas hoje acho que teve toda razão na crítica dele de que realmente na última parte do livro há uma perda de substância grande…

Mário – Você tinha projeto de ser escritor ou não?

Sirkis – Tinha.. Meu primeiro livro não foi Os Carbonários mas a A Guerra da Argentina. Foi bem modificado daquela versão delirante que eu fiz em 78 em Portugal…. que parecia o porta-voz do ERP [Exército Revolucionário Do Povo] (risos) Aí passados uns anos.

Depois eu fiz uma tentativa de roman noir futurista influenciado pelo Blade Runner, que é o Silicone 21, que é o livro que foi atacado com ferocidade pela crítica de São Paulo… O falecido Leminski e o Luís Felipe Moisés fizeram duas críticas muito agressivas… na verdade, mais ataques a mim que propriamente ao livro, isso inibiu os livreiros de São Paulo de comprar, a crítica saiu quinze dias antes do livro estar disponível. Foi o caso, o caso clássico da crítica matar o livro, porque a Siciliano… desistiu de fazer a Promoção Carro-Chefe, que a editora Record costuma sempre fazer com aqueles livros que ela tem expectativa de serem best-sellers… e… me ferrei, né? Só vendi uma edição do Silicone 21…. Depois saiu uma outra pelo Círculo do Livro… mas só vendeu essas duas edições. Eu acho o livro engraçado. A grande acusação era de que era um clichê, mas o meu propósito era justamente trabalhar em cima de todos os clichês possíveis e imagináveis do roman noir futurista e um livro que o sujeito comprasse na rodoviária prá ler num ônibus.

Mário – Você tava com Burroughs na cabeça?

Sirkis – Nessa época eu tava lendo muito Burroughs, tava lendo o… [Charles] Bukowski… tava lendo o pessoal…os beat [beatniks], On the road [de Jack Kerouac]… mas na verdade eu tava mais com Blade Runner na cabeça… do que qualquer outra coisa. Blade Runner filme, não o livro.

Mário – Mas é um livro dele [de William Burroughs] também, né?

Sirkis – É do Phillip [K.] Dick, é…mas é diferente, a estrutura, tudo… Então eu imaginei o Rio de Janeiro, no ano 2019, que é o mesmo ano do Blalde Runner… e por incrível que pareça quase tudo que eu previ tá acontecendo…

Mário – Tá lá…

Sirkis – Tanto a nível geopolítico, econômico quanto de coisas, de objetos que na época não existiam e hoje existem. Mas, de qualquer jeito era uma coisa também puxando muito pelo lado do humor, e o Calife, por exemplo, que é um escritor, realmente, muito mais renomado e competente de ficção científica, fez uma crítica legal: não me lembro se foi no Globo ou no Jornal do Bra[sil]… mas ele falou justamente isso. Basicamente ele via como um livro de uma pessoa que estava trabalhando explicitamente em cima de clichês e buscando humor. Há série de alusões políticas, tem um personagem, o “Estrôncio Luz”, claramente uma coisa baseada no Newton Cruz, General Newton Cruz, que na época, era o fodão mor da Ditadura, no final do Governo Figueiredo.

Então, eu fiz esses livros…Agora, quando chegou nessa altura, meados dos anos 80 – não sei se eu já tô me adiantando às suas perguntas – mas quando chegou a essa altura, de repente foi me dando um certo cansaço… de ser escritor… de livros.


Paris, 1973

Mário – Por quê?

Sirkis – Porra! Porque…. são seis meses solitários que você passa você – na época ainda era máquina de escrever, bom, o Silicone XXI, já foi computador. ..Era máquina de escrever, depois computador, um exercício solidário, solitário – os adiantamentos que as editoras pagam são muito pequenos…. Eu consegui viver dois anos de direito autoral. Dois anos. 81 e 82. O que é uma coisa excepcional no Brasil. Você tem pouquíssimos escritores no Brasil que vivem de direitos autorais… Deve ter, sei lá… Rubem Fonseca, Patrícia Melo….deve ter uns dez, umas dez pessoas hoje no Brasil que vivem… bom (risos) Ah, tem o Paulo Coelho, evidentemente, né? Mas é difícil você ser escritor no Brasil… Por outro lado, é um exercício muito solitário e… o negócio do Silicone 21 me deixou muito amargurado. Pensei: você passa seis meses da tua vida… escrevendo um negócio, ali, fazendo… e aí, chega um sujeito, em dez minutos, demole o seu livro, influencia o mercado, você não vende e…

Bom, basicamente não tava mais dando dinheiro, os adiantamentos que eu estava conseguindo eram pequenos e, de repente, eu comecei a me encantar com negócio roteiro. Comecei a escrever roteiros prá TV Globo e para a Embrafilme, era mais legal, porque você escrevia um negócio e daqui a pouco você puxava um monte de gente prá dentro do seu barato: você tinha um diretor, aí você tinha os atores, você conversava com eles sobre os personagens, seus personagens eram mutantes, a sua estória era aperfeiçoada… então, me pareceu uma coisa muito menos solitária mas não quer dizer que eu não volte a escrever livros. Depois, eu entrei na política, fiquei sem tempo escrever livros…Escrevi um ensaio: Ecologia Urbana e Poder Local…

Mário – Saiu em 99…

Sirkis – Também publiquei uma coletânea de artigos … O Verde Carioca… mas livro, livro mesmo, como deve ser – sentar a bundinha na cadeira e passar aí seis meses, oito meses, um ano escrevendo — não tenho tempo atualmente. Não tenho condições na atual fase da minha vida, mas voltarei lá, com certeza, um dia.

"Qualquer dia desses alguém vai fazer o filme"

Mário – Em março de 82, a Veja disse que tinha um projeto… seu, com o Geraldo Sarno, de sair um filme d’ Os Carbonários. Não saiu?

Sirkis – Não, não saiu aquele…Eles compraram uma opção por dezoito meses… e ele e o falecido Nei Sroulevich não conseguiram reunir a produção, depois o Luís Carlos Barreto ficou me enrolando durante dois anos … até que eu descobri que na verdade ele tava me segurando prá não vender prá mais ninguém, para ele poder filmar O que é isso, Companheiro? sem concorrência… Os Carbonários tá aí, qualquer dia desses alguém vai fazer o filme. O que eu não me disponho é escrever o roteiro, eu quero que uma outra pessoa roteirize…. Decididamente, não quero fazer o roteiro d’ Os Carbonários.

Mário – Mas Os Carbonários serviu de base pra…Anos Dourados, da Globo, né?

Sirkis – É… pouquinha coisa. Eles realmente me pagaram US$ 5.000,00 [cinco mil dólares], na época, prá poder usar algumas passagens do meu livro, como a estória do táxi em São Paulo, como algumas outras estórias, usaram o personagem do João Alfredo, a mãe dele modista, situações próximas do livro, mas eu acho que o Gilberto Braga criou uma história dele. Gostei, achei legal, não tão bom quanto Anos Dourados… Emocionante particularmente aquela abertura com Alegria, Alegria , do Caetano Veloso. Achei legal a série.

Mário – Sirkis, de que maneira você acha que o exílio influenciou a sua maneira de narrar a tua experiência… Ou teve influência a questão exílio? Ter saído do país, vivido coisas diferentes…

Sirkis – Com certeza… Você imagina: Até os 20 anos, que é o que eu nunca tinha saído do Brasil. O fato de você morar em outros países é uma coisa te que abre a cabeça de uma forma absolutamente fabulosa… então, claro que oito anos morando fora do Brasil, tendo contato com… dezenas de países diferentes tem grande influencia. Viajei muito, culturas, línguas, pessoas, experiências…

Mário – Tinha… discussões no exílio, culturais, comportamentais…? No Roleta Chilena você chega a falar de uma coisa complicada, que é a “Campanha de Moralização do s Militantes Drogados em Paris”… Como é que foi isso?

Sirkis – É, isso foi uma conversa que eu tive com o nosso chefe do MR8,(…) que era uma pessoa muito moralista e conservadora em aspectos comportamentais. Ele achava que devia se fazer uma Campanha de Moralização da Colônia Brasileira, nos moldes que a Frente de Libertação Nacional da Argélia tinha feito com os bêbados da Casbah…Jogando batatas com gilete na cara dos bêbados.

Mário – Exatamente…

Sirkis – Combatendo o alcoolismo dos bêbados da Casbah… Mas isso nunca chegou a acontecer…! Isso foi uma conversa que eu narro no Roleta Chilena mais a título de folclore. Sei que ele depois ficou puto comigo… (risos) dizem que não me perdoa até hoje e… embora eu não tenha colocado o nome dele, coloquei então o nome de guerra dele, que era ”Miguel”…(risos).

Quem era do grupo daquela época sabe perfeitamente de quem eu estava falando e sabe perfeitamente que é a pura verdade! Mas isso foi apenas um momento da vida dele e de maneira nenhuma esse tipo de coisa foi praticado… O máximo que havia em relação ao fato das pessoas fumarem maconha era… tomarem LSD… era uma reprovação assim ideológica… (risos) O que nunca inibiu ninguém que tinha vontade de fazer, de fazer.

Mário – É…Quê que você acha que seriam as suas influências literárias para escrever esses livros? Você falou que tava com Burroughs, os beatniks, Bukowski na cabeça mas… o que mais?

Sirkis – Entre os brasileiros: Jorge Amado, claro! Érico Veríssimo, muito… É…Graciliano Ramos. Os Carbonários há… uma forte influência estilística do Graciliano…É… Entre os estrangeiros: Jorge Semprún, numa fase mais avançada, o Norman Mailler, com certeza… Vargas Llosa…

"Como é que o Graciliano escreveria isso?"

Mário – Conversa na Catedral? [livro de Mário Vargas Llosa]

Sirkis – Basicamente esses assim… Influências assim que eu teria tentado me espelhar um pouco, em algumas passagens, alguns momentos pode dizer… “Porra! Mas como é que o Graciliano escreveria isso?Como é que o Semprún faria essa transição… de época?”, “Como é que… Vargas Llosa descreveria isso? A gente sempre pensa. Qualquer escritor tá sempre povoado de outros escritores, inclusive com uma… propensão de cometer… imitações às vezes completamente inconscientes… mas eu acho que… qualquer escritor, ele tem dentro de si todos os outros escritores que ele leu, daí que é tão importante, para você escrever bem, você ler muito.

Mário – Qual que é a sua leitura dos outros memorialistas… que você… leu? Você já falou do Gabeira…

Sirkis – Eu acho que o Gabeira foi menos um memorialista, foi mais um ensaísta, de um debate… de uma narrativa de geração, de um choque de cultura. O Renato Tapajós, escreveu um livro muito bom, numa linguagem de cinema, que é o que ele faz… Alex Polari, que… durante muito tempo eu achei que poderia ser um grande escritor da nossa geração, a grande contribuição dele foi a poesia… Câmara para Prisioneiros e Inventário de Cicatrizes, são livros de poesias excepcionais! O Herbert Daniel… o Herbert era o melhor texto de todos nós, assim, em termos de estilo, de escrever bem prá cacete! Ninguém escrevia como Herbert Daniel… Mas não tinha… não fazia concessões, à estrutura narrativa nem a uma certa técnica que você tem que aplicar se você quer realmente cativar a atenção do leitor e manter ele junto com você ao longo do livro. Então, os livros do Herbert Daniel… Passagem para o próximo sonho é um livro difícil! De ler… embora maravilhosamente bem escrito, ele era o melhor de todos. Em termos de escritura… Em termos de história, eu, modéstia à parte, acho que Os Carbonários é a melhor história. Não é o melhor estilo literário, também não era a minha preocupação… Acho que nesse sentido os livros do Gabeira são melhores, Mas a minha estória é a que estabelece uma interlocução mais duradoura com a juventude de sucessivas gerações

Agora, eu não li muitos dos outros livros, realmente por falta de interesse … de continuar revisitando aquele universo… 

"O segundo momento da História é quando ela é escrita"

Mário – Você acha que essas memórias… elas seriam formas de você e os outros, se colocarem nos anos 80 com aqueles novos atores, aqueles novos movimentos sociais? Seria uma forma de autocrítica prá poder entrar na política. Entrar numa nova temporalidade?

Sirkis – Inclusive foi muito mais bem sucedida do que a tentativa anterior, né? Porque é o que eu digo, justamente, nesse prefácio d’ Os Carbonários: História acontece duas vezes, uma vez quando acontece mesmo… e aí é uma coisa fulminante, um suceder de… momentos presentes completamente caóticos e desconexos, uma história cheia de ruído e fúria, significando nada, como dizia o Shakeaspeare…

Depois, o segundo momento da História é quando ela é escrita… Então… na primeira, que fomos fragorosamente derrotados… na Segunda a gente ganhou! Ao contrário do que aconteceu em outros países da América Latina, a nossa narrativa acabou sendo socialmente predominante, sobre a narrativa dos militares. Prevaleceu a nossa…


Em Buenos Aires, 1974

Mário – O Jarbas Passarinho fala isso…

Sirkis – Prevaleceu a nossa narrativa, que é um consolo. Mas, por outro lado, isso se deve, modéstia à parte, ao tom e à abordagem, ao foco, que o Gabeira e depois, eu, adotamos nos nossos livros. Porque se o primeiro livro que tivesse saído, tivesse sido um livro absolutamente de: “Vejam como fomos… heróicos!” ” Como fomos… fantásticos!”, “Como sempre estivéramos certos!” etc. etc. … acho que não seria um sucesso.

Por outro, também se deveu ao fato que há uma diferença entre a guerrilha no Brasil e a guerrilha na Argentina onde uma boa parte da sociedade não perdoa ao ERP [Exército Revolucionário Do Povo] e aos Montoneros terem continuado com a luta armada, no momento da efêmera redemocratização do Héctor Campora. Os Montoneros, continuaram fazendo ataques aos quartéis do Exército Argentino e os Montoneros sua luta interna contra os setores mais à direita do peronismo, matando dirigentes como o que eles definiam como “La Burocrácia Sindical”. Ambos, tanto o ERP, como os Montoneros, continuaram fazendo seqüestros de executivos de multinacionais, para conseguir um tesouro de guerra. Então isso minou profundamente aquela experiência do Héctor Campora…

A palavra de ordem dos Montoneros era: “Com las urnas, al gobierno; com las armas, al poder!” Muito explícito, né? No caso do Brasil, nós nunca atuamos contra um governo eleito. Os Montoneros podem até dizer: “Nós não fazemos ações armadas CONTRA o Governo do Héctor Campora. A gente fez ações armadas DURANTE o Governo do Hector Campora” Mas evidentemente isso minou, desde o início, aquela experiência de democratização, da mesma forma… que minou o Governo do Perón. No Governo da Isabelita [Péron], a direita já se organizou em grupos para – policiais e, durante todo esse tempo, os militares se preparam e deram o golpe em 76. Depois foi um massacre 30 vezes pior que do Brasil. Aqui morreram 1.000 pessoas, nos anos de chumbo; na Argentina, foi 30.000… Então há um ressentimento muito grande na classe média argentina, contra as organizações guerrilheiras. Tanto que o Firmenich, chefe dos Montoneros, foi preso aqui no Brasil, extraditado, passou um tempão na cadeia e ninguém nem deu bola prá ele. Fora o pessoal mais ligado aos Montoneros, ninguém fez campanha pela Anistia do [nome incompreendido pela transcrição] As pessoas tinham horror deles. Depois eles tinham uma característica muito extremista bem mais acentuada em alguns aspectos, embora aqui também tenha havido episódios escabrosos, como o do Márcio Toledo mas foi pinto perto do que aconteceu na Argentina. A Argentina sempre em todos os níveis é over.

Se tivesse havido um fenômeno dessa magnitude e se nós tivéssemos atuado contra um governo democraticamente eleito, aqui no Brasil, acho que a imagem seria bem pior…. Porque… a gente pode pretender que apesar da nossa proposta ideológica, na época ser a da ditadura do proletariado, de uma ditadura revolucionária, não resta dúvida, que tenha sido uma resistência democrática.

Eu estava conversando com uma colega sua também que está fazendo tese sobre isso, ela discorda dessa tentativa de se apresentar aquilo lá, hoje, como uma resistência democrática à ditadura, na medida em que a nossa proposta era… o regime revolucionário…

Mário – Mas tinham organizações que não… que viam o foco [não entenda aqui como foquismo] como a libertação nacional, não como caminho para o Socialismo…

Sirkis – Não… era libertação nacional a caminho do Socialismo… Mas de qualquer jeito…todos pensavam numa ditadura revolucionária, com lideranças revolucionárias assumindo o governo ditatorial. Ninguém pensava: “Vamos derrubar a ditadura e, no dia seguinte, marcar eleições prá uma Constituinte”. Isso não passava pela cabeça de ninguém. Porém…! E aí eu faço a grande ressalva… o que desencadeou a luta armada foi o fechamento de todas as outras vias e uma situação de opressão muito forte. Se, naquele momento, nos anos de chumbo, a ditadura tivesse proposto prá guerrilha uma… negociação no seguinte sentido: “A gente restabelece a liberdade de imprensa, solta todos os presos e convoca eleições, livres e diretas”, eu tenho certeza que a gente teria aceito um cessar-fogo. Não que nós tenhamos discutido isso, mas, conhecendo as pessoas e a forma com que as coisas se davam dentro da guerrilha, eu tenho certeza que, a luta armada não teria prosseguido…

Mário – Todas as organizações?

Sirkis – Eu acho que sim.

"Meu desejo de voltar era gigantesco"

Mário – Como é que você e como é que você se vê na Anistia e na Abertura, no processo?

Sirkis – (risos) Eu me vejo muito bem. Porra, foi ótimo, uma maravilha! Ter voltado…

Mário – Teve gente que diz que não queria voltar.

Sirkis – Ah! Pelo amor de Deus…

Mário – Reinaldo Guarany…

Sirkis – Olha, eu… meu desejo de voltar era gigantesco! No dia que eu voltei, foi maravilhoso, duas horas depois eu já tava na Praia do Pepino pegando jacaré, com meus primos. E foi o momento mais feliz da minha vida… É que existe uma coisa mais forte que tudo, minha ligação é com a cidade do Rio de Janeiro. O Brasil é uma abstração. O concreto é a cidade. Eu tinha uma puta saudade do Rio.

Mário – É… Antes da sua volta, em Portugal você dá uma entrevista pro Movimento, em 79, você fala… você afirma sua opção pelo PTB, pelo Trabalhismo e… pelo Brizola. E, inclusive, isso gerou uma reação dos jornais de esquerda, aqui, dizendo que era uma opção conservadora, que você fala que você e mais 25 petebistas, estariam Lisboa, aguardando o retorno, na Abertura, prá se ligar ao Brizola e não ao PT, a um partido …

Sirkis – Olha, o PT tava começando a ser articulado…!


Paris, 1979, concluíndo Os Carbonários.

Mário – Como é que… como é que rola essa coisa, essa opção pelo Trabalhismo?

Sirkis – Basicamente é o seguinte: o Brizola foi expulso do Uruguai, o Carter recebeu ele nos Estados Unidos, umas semanas… depois ele foi prá Portugal; onde encontrou nosso grupo de pessoas que tinham sido da VPR, MR8, ALN. Tudo ex, ex, ex… Eu ja tinha feito a transição entre a extrema esquerda e a social-democracia, que, no… no… nosso caso se deu pelo ridículo, quando. A extrema esquerda deu aquele vexame em Portugal. A gente saiu do Brasil, querendo fazer a revolução e não conseguiu; foi pro Chile, tentou fazer a revolução e não conseguiu; foi prá Argentina, tentou a revolução, não conseguiu; chegou em Portugal, tentou fazer a revolução e não conseguiu… Só que a diferença das outras coisas, é que Portugal não foi uma tragédia, foi uma comédia! A atuação que nós brasileiros tivemos em Portugal naquele período, entre o 25 de setembro e o 11 de março – 25 de setembro de 74 e 11 de março de 75 – foi uma das coisas mais ridículas que eu já vi na minha vida. E, no entanto… e… e.. a gente tava convencido de que iam prender a gente e… fuzilar, deportar… E não aconteceu nada. Ficamos chafurdando no ridículo.

Mário – Por quê ridículo?

Sirkis – O que houve em Portugal? Um golpe de estado progressista, militar, contra o Colonialismo. Depois de uma situação de transição, restabelecida na democracia e a extrema esquerda achou que tinha implantar uma república dos soviets em Portugal de qualquer jeito! E começou desde o primeiro momento a conspirar contra a democracia. que estava sendo implantada em Portugal. E os brasileiros lá. nós todos participamos disso, metidos com aquelas organizações de extrema esquerda que haviam em Portugal, que eram basicamente o PRP, o MÊS e as ala ultra-esquerda do MFA [Movimento das Forças Armadas) chefiada pelo Otelo Saraiva de Carvalho, um lírico, e outros militares da extrema-esquerda com uma visão absurdamente golpista! Hoje sinto vergonha do que a gente fez lá. E aí depois, que aquilo foi derrotado, quando o Ramalho Eanes, chefe do Estado-Maior, e o Jaime Neves, comandante do Regimento de Comandos da Amadora, se mobilizaram, numa ação militar extremamente eficiente, incruenta, neutralizando todos os quartéis controlados pela extrema-esquerda. Eu fui prá casa, dizendo “Mais uma vez fomos derrotados”, eu tava tão deprimido que me deitei na cama, falei: “Vou ficar aqui esperando que venham me prender!” (risos) Aí eu passei um dia, dois dias, três dias, quatro dias, ninguém veio prender, nem a mim (risos)... e o Carlos Minc, que morava na mesma casa; ninguém veio nos prender, esqueceram da gente...E depois perdoaram a gente... O Partido Socialista, o Mário Soares daqui a pouco estavam fazendo campanha pela nossa Anistia no Brasil, perdoaram a gente pelas merdas aprontamos (risos) Então, aquilo foi... um choque altamente didático, porque não houve lá a tragédia a ser digerida... como no caso do Chile, na Argentina, a revolta, aquela coisa, “ oh, oh... como nós somos pobres mártires! Nossos companheiros torturados, massacrados!”... Não! Houve... a gente achou que ia ter uma ditadura militar... e porra nenhuma: convocaram eleições o PS ganhou. Governo foi democrático. O pessoal o pessoal que deu o contragolpe, era de uma esquerda moderada, o ... o ... Melo Antunes, sobretudo, que era o grande ideólogo dos oficiais... jovens oficiais portugueses --morreu há pouco tempo-- o Ramalho Eanes talvez fosse o mais de centro... então... porra...então a gente caiu em si! E viramos meio social democratas e com uma sensibilidade ambientalista, e passamos a trabalhar muito ligados ao Partido Socialista Português, do Mário Soares. E aí nessa hora, já , 78, pimba: o Brizola chega em Lisboa e vislumbra-se a possibilidade de usar a liderança do Brizola e a tradição histórica do Partido Trabalhista Brasileiro prá se criar um Partido Socialista, de cunho social-democrata, baseado numa história, com raízes históricas, no Brasil.

Apresentamos o Brizola ao Mário Soares; ele imediatamente seduziu o Mário Soares, foi apresentado numa reunião da Internacional Socialista ao Willy Brandt, pro Oläf Palm e, muito embora o Brizola fosse um biglota: só falava português e portunhol! (risos) ele seduziu os manda-chuvas da Social Democracia internacional de uma forma impressionante. O Willy Brandt passou a achar o Brizola o máximo! O Mário Soares passou a achar o Brizola o máximo! O Brizola seduziu os caras com aquele jeito dele de falar as coisas, com aquelas metáforas...

Mário – Um grande retórico, né?

Sirkis – ...Chegou pro Willy Brandt e falou: [imitando a voz de Brizola]”Willy Brandt! Os militares no Brasil estão na mesma situação que o Exército Americano no Vietnã! Eles tem a força, mas não conseguem mais usá-la!” (risos) Aí depois… foi feita a lá tradução pro Willy Brandt, aquela porra toda, o Willy Brandt achou aquilo tudo o máximo e o Brizola virou… uma grande referência da Internacional Socialista. E nós, achando que seríamos os luas-pretas do Brizola. Que uma vez, voltando pro Brasil, nós seríamos os dirigentes, de um grande Partido Socialista criado em volta do Brizola, poderia se chamar PTB, mas de fato era um Partido Socialista… é…[suspiro] Foi um erro de cálculo, porque quando o Brizola voltou pro Brasil, imediatamente foi cercado pela Turma da Maçaneta, pelos velhos puxa-sacos do Trabalhismo, estabeleceu aquela relação Caudilho – Massas, sem intermediação de uma elite política esclarecida, que nós julgávamos que éramos nós. E…então, fomos nos afastando dele, alguns mais rápidos que outros. Eu me afastei dele em 1980, sem nunca ter tido nenhuma briga com ele; mantive uma relação cordial e carinhosa com o Brizola, até o fim da vida dele. Chorei quando morreu. Gostava, dele, mas, sempre, à minha distância, né? (risos)

"O PT rejeitava aquelas bandeiras"

Mário – E por quê que o PT não se tornou uma opção? E aí sim a Ecologia e, posteriormente, o Partido Verde?

Sirkis – Porque o PT rejeitava exatamente aquelas bandeira que configuravam exatamente a parte moderna do que a gente queria acoplar a um partido socialista. O PT cagava e andava pro ambientalismo… Achava… logo nos seus primórdios… que negócio de Ecologia… era besteira, coisa de veado (risos) e…que… “Primeiro temos que resolver o problema da miséria, prá depois se preocupar com o Meio Ambiente…!” Tô… caricaturando um pouco mas era mais ou menos por aí… E, porra! Questão de… minorias, homossexuais, não-sei-o-quê… “O negócio é luta de classes! Trabalhadores contra Patrões, Revolução… de Massas… Movimentação de Massas! Grande Movimento Sindical, Comunidades de Bases!” etc… No Rio o PT nunca conseguiu se criar, em função, de um lado o PDT do Brizola, e em função do PV também. Eu em um breve momento eu me aproximei um pouco, mas percebi que não tinha espaço no PT prás nossas bandeiras. A gente durante cinco anos achou que era o “Verde em vários partidos” e não o Partido Verde, mas nos convencemos, nas alturas de 1985 de que, não havia muito espaço, no fundo, pro Verde em vários partidos e até prá que pudesse haver Verde em vários partidos, tínhamos que criar o Partido Verde. Aí os outros Partidos, até por necessidade concorrer com o PV, iriam prestar mais atenção para a questão ambiental. Foi o que aconteceu.

Mário – E esse Verde tá mantendo [trecho incompreensível] com os Verdes Europeus?

Sirkis – Naquele momento, eram os Verdes Europeus, sem dúvida. Os Verdes Alemães, sobretudo…

Mário – E… como é que surge a Ecologia, como plataforma política prá você?

Sirkis – Na última fase do exílio, a partir de 77, 78… Muito Movimento Ambientalista na Europa, Movimento Anti-Nuclear… Movimento Ambientalista, na Europa. A gente vendo aquelas coisas acontecendo e fomos nos aproximando e… conhecendo os dirigentes, sendo influenciados por eles, querendo fazer uma coisa similar no Brasil. No Brasil já havia um movimento ambientalista, no sul, sobretudo… o Lutzemberger, Magda Rener, um pessoal que começou antes da gente. Mas a Ecologia Política, foi introduzida no Brasil com a volta dos exilados.


De volta ao Rio, 1980, na época do lançamento de Os Carbonários.

Mário – Sirkis, prá finalizar… que o seu tempo… é…como é que você vê essa reapropriação da memória dos anos 60 em filmes, minisséries, você vê “Dois Córregos”, “Que bom te ver viva”, enfim: como é que você vê… “Ação entre amigos”…?

Sirkis – Não vi esses últimos. E… mas, possivelmente, até vou… vou ver. Aí novamente cai naquele problema que não ser uma estória que nesse momento me interesse, especialmente. Da leva anterior o único filme que eu achei que conseguiu reproduzir realmente o que a gente vivia, foi o “Nunca fomos tão felizes”, do Murilo Salles. Narra a estória do pai e do filho, e tal… Mas foi o filme que mais se aproximou, de conseguir mostrar a solidão, o isolamento social, os dilemas, as questões…Agora, eu não faço parte dos revoltados, contra esses filmes atitude muito comum, entre os antigos militantes daquela época, uma grande revolta, sobretudo no filme do Bruno Barreto… As pessoas vão pro cinema, com a expectativa de encontrar na tela a sua estória, ou alguma coisa similar que viveram. Isso aí é desconhecer os rudimentos do cinema, entende? O cinema não é a vida; o cinema é o cinema. Cinema é uma condensação dramática de 1h20min, 1h50, 2 horas… de uma situação tentando buscar… extrair dela… sentimentos mais extremos e símbolos e coisas. Sou roteirista, não tenho a menor ilusão de que você possa no cinema reproduzir a vida. E que a estória das pessoas possa ser contada de uma forma fidedigna, no cinema. Você pode, no máximo, ter uma fidelidade em relação a um tema, a uma narrativa, a cenas, a emoções, a momentos. E eu acho que isso alguns filmes conseguiram. Mas eu não fiquei nem um pouco… aborrecido com esse filme, que provocou um enorme frisson. Achei que tinha coisas interessantes, outras que eram completamente artificiais, não tinham nada a ver. A forma com que ele apresentava, por exemplo, a repressão era ridícula. Parecia que era um outro grupo, parecido com a gente, só que contrário. Não dava a dimensão de que aquilo era o Estado, o Exército Brasileiro, as instituições ali reunidas… do poderio daquilo… parecia que era um… (risos) um bando rival, né? Com outro comando, digamos assim. Dos personagens alguns eram frágeis, outros melhores o da Fernandinha [Fernanda Torres, que faz o papel de Vera Sílvia Magalhães, em “O que é isso, Companheiro?”], sem dúvida, era um personagem bem constituído. Mas… sabe, eu vejo esses filmes como um espectador. Sento, olho prá tela, julgo se o filme é bom ou é ruim exatamente pelos mesmos parâmetros que eu julgaria qualquer filmes que eu tivesse vendo sobre qualquer outro tema. Então, nesse sentido, eu sou platéia, completamente, despojado de qualquer tipo de outra expectativa. Posso dizer: “Gostei, não gostei, achei bom, achei ruim”, mas não vou dizer “Pô… um absurdo…esse filme… é uma traição, uma insulto à memória dos companheiros que trombaram…

Mário – A última: quarenta anos depois, o quê que significa o golpe prá você? As melhores e as piores lembranças; a esquerda no poder; os movimentos de esquerda hoje…

Sirkis –O golpe eu fui a favor na época… no dia em que ele aconteceu, 1º de abril de 1964…

Mário – Pois é… Você era lacerdista.

Sirkis – Eu fui dormir ouvindo marchas militares, no rádio de pilha… “Dobrado do Barão do Rio Branco” tocando… Eu, emocionadíssimo, achando que os militares tavam trazendo a redenção do Brasil. Tinham nos livrado do comunismo, tavam trazendo a redenção do Brasil. Aí, passados… três anos… já estava com os estudantes na passeata, descendo a Rio… a Avenida Rio Branco e gritando “O povo organizado derruba a ditadura”…. Foi o que aconteceu com a classe média do Rio de Janeiro, basicamente…

Fonte: http://josekuller.wordpress.com/42-entrevista-com-alfredo-sirkis/

 

Ditadura Militar - Romeu Tuma participou do combate a guerrilha do Araguaia Tags: torturador senador Romeu Tuma ditadura militar guerrilha luta armada Guerrilha do Araguaia repressão PCdoB tortura assassinato DOPS

 

EX-SOLDADOS DIZEM QUE ROMEU TUMA PARTICIPOU DO COMBATE À GUERRILHA

O ex-diretor do Dops teria sido visto várias vezes na região e na época em que aconteceu a repressão aos militantes do PCdoB

Os agentes da repressão que combatiam os guerrilheiros do PCdoB na região do Araguaia, na primeira metade dos anos 1970, eram conhecidos como “doutores” e, embora suas identidades verdadeiras fossem reveladas aos poucos, sempre se soube que eram militares. O tenente-coronel da reserva Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió, por exemplo, era chamado de doutor Luchini.

Algumas dessas identidades, no entanto, permanecem desconhecidas e podem esconder surpresas, como a participação de policiais civis de São Paulo na repressão do Araguaia. Esse seria o caso do doutor Silva ou Carlos, mais tarde identificado por ex-soldados e camponeses como o senador do PTB e ex-superintendente da Polícia Federal Romeu Tuma, falecido em 2010. Na época da Guerrilha do Araguaia (1972-1975), ele integrava o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo, órgão responsável pela repressão aos militantes de oposição à ditadura civil-militar instalada em 1964.

Pública entrevistou um ex-mateiro, três ex-soldados e um ex-funcionário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) – todos eles moradores da região do Araguaia – que afirmam que Tuma esteve na região no período entre 1972 e 1976. O ex-senador teria sido visto nas bases de Bacaba e Xambioá e na sede do DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem), locais onde guerrilheiros e camponeses eram torturados e mortos.

Abel Honorato de Jesus, o Abelinho, trabalhou como mateiro do Exército e, por isso, morou um tempo na base de Bacaba. Ele conta ter visto o “doutor Silva” muitas vezes. A primeira teria sido no segundo semestre de 1972, na própria base. “Ele vinha de helicóptero para todas as missões que aconteciam lá. Mas também vi ele no DNER”, diz. Na época, o DNER era conhecido como Casa Azul.

Abelinho acredita que a função do “doutor Silva” era “embalar e resgatar os corpos” dos guerrilheiros mortos nas operações. “Ele vinha para as operações das mortes”. Segundo o ex-mateiro, Tuma “mandava no pessoal do Dops que fazia a bravura, que batia. Era ele que mandava”, garante.

DESPACHANTES MORTOS
O ex-soldado Manoel Messias Guido Ribeiro servia na base de Xambioá e afirma ter visto o “doutor Silva” pela primeira vez em maio de 1974. “Ele chegou num avião Búfalo [da FAB]. O doutor Luchini [Curió] também estava lá. Ele e o Luchini não falavam com quase ninguém”. Guido diz que sempre que havia um prisioneiro na base, “Silva” aparecia. Ele também afirma ter visto o ex-delegado na sede do DNER e no Quartel 52 Bis “E a história que existia era que ele que preparava os corpos para dar despacho. Diziam assim: ‘O doutor Silva está despachando os mortos hoje’”.

Outro ex-soldado, Antonio Adalberto Fonseca, corrobora a afirmação do colega. Segundo ele, quando o “doutor Silva” aparecia em algum lugar, “era porque ia morrer ou já tinha morrido gente, ou na Bacaba, ou em Xambioá, São Geraldo ou Casa Azul”, sustenta. O ex-soldado Fonseca afirma que a primeira vez que viu Tuma foi em 1974, na base de Xambioá. “Ele usava roupa de civil, calça jeans, camiseta branca e camisa de linho por fora”.

Guido relata que a primeira vez que viu um guerrilheiro foi também em maio de 1974, quando Daniel Ribeiro Callado, o Doca, foi preso em Xambioá. “Eu cheguei lá e ele estava amarrado num pau, em frente ao comando. Ele estava machucado, tinha sido torturado. Estava calmo, falava baixo”. O ex-soldado conta que o guerrilheiro era um homem simpático, de cabelo liso, e que estava bronzeado. “Conversamos muito, perguntei a ele o que era ser guerrilheiro, e ele disse que estava atrás de liberdade”.

Guido garante que nessa ocasião Romeu Tuma esteve no local. “Chegaram, tiveram uma reunião no comando e voaram de novo para o lado de Marabá”. Depois, conta Guido, Daniel foi levado para a serra das Andorinhas, onde seria assassinado. Outros testemunhos que constam no processo do Araguaia confirmam a presença de Daniel em Xambioá mas o episódio de sua morte tem outra versão, apresentada por um militar à juíza Solange Salgado em sigilo. O guerrilheiro teria sido preso em Araguatins, após atravessar o rio Araguaia. Em seguida, teria sido levado para a base militar em Bacaba, onde morreria em julho de 1974.

ALGEMADO E BRANCO

Guido também teria visto Romeu Tuma no S2, Serviço de inteligência do Exército. “Entrei lá para levar um material para o sargento Cleiton. Quando entrei numa sala, tinha um cidadão algemado e branco numa cadeira e o Silva estava lá”.

Todos os entrevistados que afirmam ter visto Tuma na região do Araguaia na época da guerrilha descobriram seu nome e função  verdadeiros na década de 1980, quando o viram na televisão como chefe  da Polícia Federal. “Quando eu vi ele na tevê, pensei: ‘ah, olha o doutor Silva’”.

O livro “Habeas Corpus – Que se apresente o corpo”, da Secretaria dos Direitos Humanos, também faz referência à presença do ex-senador no local: “Segundo relatos recentes de moradores coligidos pela ouvidoria do GTT, existe a menção de que o conhecido delegado Romeu Tuma teria comandado uma equipe deslocada para o Araguaia para promover a remoção de cadáveres usando o nome de Delegado Silva”.

Em sua atuação na região do Araguaia, o pesquisador Paulo Fonteles Filho, do Grupo de Trabalho do Araguaia (GTA), ouviu o relato de Abelinho e outros ex-mateiros que identificaram o ex-senador Romeu Tuma como um dos ‘doutores’ que combatiam a guerrilha. Seu relatório consta do processo que investiga o desaparecimento dos guerrilheiros do Araguaia.

Em 2009, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil contra Romeu Tuma com a acusação de ocultação de cadáveres de militantes políticos durante a ditadura militar (1964-1985). Segundo o processo, desaparecidos políticos foram sepultados nos cemitérios de Perus e Vila Formosa, em São Paulo, de forma “ilegal” e “clandestina”, com a cumplicidade do Instituto Médico Legal (IML) e da prefeitura local.

A ação ressalta a participação nas operações de agentes do Dops paulista, comandado por Tuma entre 1977 e 1983. O MPF alegou a existência de documentos que comprovam a ocorrência de interrogatórios sob tortura na instituição e que demonstram que o ex-senador tinha conhecimento das várias mortes ocorridas sob a tutela de policiais comandados por ele mas não as comunicou aos familiares dos mortos.

AUTORIDADES

Quem também afirma ter conhecido o ex-delegado Romeu Tuma no Araguaia, mas com o nome de “doutor Carlos”, é o ex-militar e ex-motorista do Exército Valdim Pereira de Souza: “Eu dirigi bastante para ele e para o Curió. Os dois eram os chefões lá. A gente achava que eles eram autoridades porque quando eles chegaram no quartel, vinham de helicóptero, que pousava no meio do pátio”. Valdim teria conhecido Tuma em 1975, após o final da guerrilha. Ele conta que entre os soldados, “doutor Carlos” era conhecido como ‘cara de cavalo’, devido ao formato de seu rosto. “Ele tinha uma cara grandona”.

Os destinos de “doutores” eram os mais variados, e o objetivo era sempre buscar um prisioneiro para levar para o quartel do batalhão 52 bis ou para o DNER. “Não dava para ver se o preso era morador ou guerrilheiro, porque eles iam vendados, com capuz, e alguns algemados”.

Valdim também relata que na época da “Operação Limpeza”, em 1976, o“doutor Carlos” estava sempre por lá. “Mas ele não demorava muito. Aí sumia, passava um tempo e aparecia de novo”.

João Mendes Vilarins é mais um dos moradores da região do Araguaia que afirma ter conhecido Romeu Tuma como “doutor Carlos”. Ele trabalhava como pedreiro e carpinteiro do Incra quando teria visto Tuma pela primeira vez na sede do instituto, em 1975. Vilarins afirma que foi contratado para reformar uma casa no bairro do Novo Horizonte, em Marabá, onde a Polícia Federal se instalaria. “A casa era para ele trabalhar lá. Reformamos o prédio e ele foi para lá. Na casa, eles tinham umas argolas chumbadas no chão para prender gente”. No período da reforma, ‘doutor Carlos’ teria ido duas ou três vezes na casa. “Depois, não vi mais ele. Só muitos anos depois, na tevê, primeiro como chefe da Polícia Federal e depois como deputado federal”.

DIRETOR DO DOPS

Romeu Tuma ingressou em 1951 na Polícia Civil de São Paulo, e em 1967 tornou-se delegado. Dois anos depois, passou a trabalhar com no Serviço de Inteligência do Dops, que passou a dirigir em 1977. Exerceu o cargo até 1983. Apesar do órgão ter se notabilizado por ser um local de torturas, Tuma dizia desconhecer a existência de tais práticas na unidade, bem como de assassinatos e desaparecimentos.

Em 1983, com a extinção do Dops, assumiu o cargo de superintendente da Polícia Federal em São Paulo e levou consigo os arquivos do órgão de repressão. Em 1986, tornou-se diretor da Polícia Federal em Brasília. Anos depois, foi acusado de “arrumar” os arquivos do Dops antes se serem tornado públicos, retirando documentos importantes para o esclarecimento de crimes. As fraudes teriam ocorrido quando o ex-presidente Fernando Collor de Mello se propôs a entregar, ao governo de São Paulo, os arquivos do Dops. Na época, o arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, afirmou ter recebido denúncias de que os arquivos estavam sendo esvaziados, motivando uma vigília de vítimas e famililares de vítimas da ditadura em frente à sede da PF, em São Paulo. À época, alguns familiares como Suzana Lisbôa, constataram que havia arquivos inteiros esvaziados, entre eles o que mantinha a etiqueta “colaboradores” e “Araguaia

​Fonte: Pública

 

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