Tagged with "luta armada"
A guerrilheira Dinaelza Santana Coqueiro, A Mariadina Tags: guerrilha Araguaia Brasil ditadura militar Dinaelza Santana Coqueiro comunistas brasileiros luta armada repressão guerrilha rural PCdoB

 

Dinaelza Santana Coqueiro,

A Mariadina (1949–1973)

 

DINAELZA SANTANA COQUEIRO

 

Reproduzo hoje, trecho do livro Direito à Memória e a Verdade sobre a guerrilheira Mariadina que lutou na guerrilha do Araguaia. Além de um vídeo com o depoimento de Maria da Paz, filha de camponeses, que tinha apenas dez anos quando conviveu com ela, mas lembra com detalhes a prisão e morte da guerrilheira, que lutou até o fim. 

 

Filiação: Junília Soares Santana e Antônio Pereira de Santana

Data e local de nascimento: 22/03/1949, Vitória da Conquista (BA)

Organização política ou atividade: PCdoB

Data do desaparecimento: 08/04/1974

 

Baiana de Vitória da Conquista, estudou em Jequié (BA), no Instituto Educacional Régis Pacheco, onde organizou o grêmio dos alunos. Em 1969, foi para Salvador cursar Geografia na Universidade Católica. Participou ativamente do Movimento Estudantil, sendo eleita para a Comissão Executiva do DCE. Nessa época, casou-se com Vandick, estudante de Economia, também desaparecido no Araguaia. Em 1970,

ela e o marido já integravam o comitê estudantil do PCdoB. Trabalhou na empresa aérea Sadia, depois Transbrasil, até 1971, quando pediu demissão e foi deslocada para a região do Gameleira, no Araguaia, onde se tornou mais conhecida como Mariadina.

No sul do Pará, integrou o Destacamento B da guerrilha. Dinaelza participou de vários enfrentamentos armados. Sinésio Martins Ribeiro, guia do Exército na época, afirmou em depoimento prestado em São Geraldo do Araguaia, em 19/07/01: “ficou sabendo pelo Pedro Galego e Iomar Galego que a Mariadina (Dinaelza) foi presa no rumo da OP-1, dentro da mata; que quem prendeu ela foi o mateiro Manoel Gomes e entregou para o Exército; que segundo soube o depoente, ela foi levada para a casa do Arlindo Piauí para contar onde estavam os outros e outras informações; que ela não falou nada; que lhe contaram que ela era muito bruta, porque ela não respondia nenhuma das perguntas e também cuspiu nos doutores; que por isso mataram ela um pouco adiante da casa do Arlindo Piauí, dentro da mata; (...)”.

No relatório do Ministério do Exército, apresentado em 1993 ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, consta que, “usava os codinomes Dinorá e Maria Dina e que sua carteira de identidade havia sido apreendida em um aparelho rural do PCdoB”. Já o relatório do Ministério da Marinha, do mesmo ano, registra que “Dinaelza foi morta em 8 de abril de 1974. (...) relacionada entre os que estiveram ligados à tentativa de implantação de guerrilha rural. Levada a efeito pelo Comitê Central do PCdoB, em Xambioá”. Segundo depoimento de moradores de Xambioá, Dinaelza foi capturada por forças do Exército.

No relatório apresentado pelos procuradores Marlon Weichert, Guilherme Schelb, Ubiratan Cazetta e Felício Pontes Jr., em 28/01/2002, também ficou registrado: “Mariadina: Dinaelza S. Coqueiro, foi presa por um mateiro e entregue ao Exército. Interrogada na casa de um camponês, teria cuspido em um dos oficiais e então executada”.

O livro de Elio Gaspari traz depoimento de José Veloso de Andrade, encarregado da lanchonete da Bacaba, informando ter visto seis guerrilheiros, vivos, naquele acampamento militar: Mariadina (Dinaelza), Chica (Suely Yumiko Kanayama), Edinho (Hélio Luiz Navarro de Magalhães), Beto (Lúcio Petit), Valdir (Uirassu de Assis Batista), Pedro Carretel (Pedro Matias de Oliveira) e Rosa (Maria Célia Corrêa).

No livro de Hugo Studart, consta: “Foi presa e executada pelos militares. A arma do militar falhou no momento da execução, de acordo com depoimento a esta pesquisa. Teria sido enterrada perto de São Geraldo, segundo camponeses”.

Taís Morais e Elmano Silva escreveram em Operação Araguaia sobre Dinaelza:  ““Presa pelo mateiro Manoel Gomes nas proximidades da OP-1, revoltou-se com o tratamento recebido do Exército. Meiga com os familiares, xingou o Major Curió de ‘chifrudo’ e cuspiu na cara de um oficial. Foi morta em 8 de abril de 1974, segundo os registros da Marinha”.

O número 208 de A Classe Operária, órgão oficial do PCdoB, trouxe trechos do depoimento prestado à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados por Cícero Pereira Gomes, posseiro no Araguaia que colaborou com o Exército no combate à guerrilha. Depois de descrever com detalhes as torturas aplicadas a guerrilheiros e moradores da região, informou que o corpo de Dinaelza Santana Coqueiro está enterrado na altura do quilômetro 114 da rodovia que liga São Geraldo a Marabá, indicando o local da cova, perto de uma casa de tábua.

Dinaelza era irmã de Diva Santana, que hoje dirige o Grupo Tortura Nunca Mais da Bahia e integra a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, responsável por este livro-relatório.

 

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRA.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

Guerrilha no Brasil - fusca modelo peneira Tags: guerrilha Brasil ditadura militar Carlos Eugênio Paz COMUNISTAS comunistas brasileiros luta armada repressão guerrilha urbana guerrilheiro

 

Guerrilha no Brasil - Fusca modelo peneira

guerrilha no Brasil - Carlos Eugênio Paz

Reproduzo hoje mais uma parte do livro Viagem à luta armada de Carlos Eugênio Paz: último comandante da ALN vivo. Nesse trecho ele relembra um de seus conflitos com a repressão. Através de suas memórias, podemos conhecer um pouco das histórias de luta desses brasileiros, que arriscaram suas vidas para tornar nosso país um lugar mais justo.

 

COM DIOGO morrem as possibilidades de lançamento imediato da guerrilha rural. Atônitos, recomeçamos a reunião, com a nova realidade a enfrentar, precisamos traçar novas diretrizes e assumir o comando da Organização. Aqui, a experiência de Tato mostra-se de grande valia.

— Temos que imprimir um documento dirigido à nação e espalhá-lo pelas ruas aproveitando a Campanha do Voto Nulo. Um documento interno deve conclamar os militantes a cerrarem fileiras em torno da Coordenação Nacional para que possamos, no mais breve tempo, retomar os planos de levar a luta ao campo. Devemos realizar ações para levantar o moral, mas não há mais sentido em desencadear a Quinzena Fabiano. Cada um de nós deve sair daqui com a firme convicção da necessidade de prosseguir a luta até que libertemos nosso povo da opressão. Se alguém não quiser assumir essas responsabilidades tem a obrigação de falar agora, outros podem realizar suas tarefas, diante do quadro, não seria vergonha um recuo. Vamos contatar as organizações da Frente e declarar nossas intenções de continuar a trabalhar no mesmo espírito de colaboração implantado por Diogo. Estando todos de acordo, nos resta seguir em frente, o trabalho será longo e penoso, e nós, como Coordenação Nacional, devemos dar o exemplo e demonstrar confiança em nossos propósitos. Não é hora de chorar nossos mortos, e sim de honrá-los.

Arregaçamos as mangas e começamos a reconstruir nossos esquemas. Continuo no comando militar de São Paulo, ajudado por Altino, Hélio volta ao Rio, Tato sai em busca de recontatar nossos esquemas na Área Estratégica Mário desaparece logo depois de sair do aparelho, deixando de cobrir os pontos com a Organização, sem dar nenhuma notícia. Não sabemos se caiu ou se fugiu do país, eu e Marcela abandonamos nosso apartamento e, enquanto procuramos alugar uma casa, dormimos em lugares inusitados, arriscando nossas vidas. Ora pegamos um ônibus até Aparecida do Norte, cidade de romeiros, acostumada a receber todo tipo de gente, o que nos dá certa tranqüilidade, ora dormimos no trem noturno até Bauru, onde descemos e pegamos outro de volta, dormindo mais algumas horas.

Hugo e Seishi nos oferecem solidariedade, mas nossa estrutura na cidade está incólume, o traidor não conseguiu penetrá-la. Resolvo começar a Campanha o mais rapidamente possível, temos que mostrar nossa disposição de luta. Saio às ruas para panfletar com Marcela e Seishi.

Eu ao volante com minhas armas pessoais e a indefectível metralhadora no freio de mão, Seishi no banco do carona, com outra matraca, Marcela atrás, pistola e revólver.

Vila Prudente, favela, passamos pela rua que a ladeia, paramos em cada viela de acesso, distribuímos o material e seguimos em frente. Já estivemos em três bairros sem problemas. Terminados os panfletos, acelero, precisamos sair da área. Algumas centenas de metros mais à frente, um caminhão manobra bloqueando a rua. Diminuo a velocidade e paro o carro controlando os retrovisores. Um táxi VW 1600 vem em nossa direção com os faróis acesos e as duas portas traseiras abertas. Sinal de perigo, dou o alarme.

— Polícia...

Meu faro instantâneo salva vidas, O táxi nos ultrapassa pelo meu lado e freia nos fechando em diagonal. No momento em que nos abaixamos, balas espatifam o pára-brisa e zunem acima de nossas cabeças. O cheiro acre me desperta para o combate. Abro minha porta para servir de escudo, disparo pela janela o primeiro pente de pistola, recarrego, recomeço os disparos e grito:

— Sai com a matraca, Seishi, dou cobertura...

Os policiais se retraem com meu ímpeto, Seishi aproveita e sai com a metralhadora já engatilhada, se protege atrás do capô e da roda dianteira direita, Marcela o segue e dá a volta pela traseira de nosso fusca com a pistola e o revólver nas mãos. Os tiras despejam outra salva, escorrego para fora, coloco outro pente e atiro uma saraivada ininterrupta, dando tempo a Seishi, o homem do poder de fogo, de levantar-se e disparar sua arma metodicamente, em curtas rajadas de três a quatro tiros, para manter os inimigos escondidos e não esvaziar o carregador, enquanto avança em direção ao táxi. Eu e Marcela aproveitamos para dar o bote, caindo em cima e atirando contra tudo o que se move dentro do carro. Seishi se junta a nós e, em breve, o combate termina. Corpos se amontoam no carro, não interessa saber se estão todos mortos, é hora de fugir. Uma voz nordestina grita da calçada, rompendo o momentâneo silêncio que se fizera após o cessar-fogo.

— Olha o faro este aí, gente...

Seishi dá cobertura, Marcela vigia o táxi. Volto a nosso bravo fusca modelo peneira, pego minha metralhadora, guardo a pistola no coldre, recolho os pentes usados, olho em volta à procura de outro veículo, acho um fusca zerinho logo atrás do caminhão e virado para a retirada.

— Meu amigo, vamos levar seu carro, não tenha medo, somos revolucionários, não faremos mal a você. Deixe ligado, por favor... Companheiros, já temos transporte.

Os dois se aproximam sem deixar de vigiar a rua, a essa altura cheia de curiosos. A porta dianteira esquerda do táxi começa a se abrir lentamente.

— Parado, não se mexa senão atiro. Devagar, saia com as mãos para cima... Minha nossa, é um menino.., está ferido, garoto?

— Não, dona, tudo bem...

— Por que você estava naquele carro?

— Fui buscar um táxi para levar minha mãe ao médico, quando os dois PMs pararam o carro e disseram que iam perseguir terroristas. Tentei descer, mas gritaram que não tinha tempo. Vim morrendo de medo e quando os tiros começaram segui os conselhos de meu pai e me abaixei. Depois o motorista caiu por cima de mim e fiquei quietinho embaixo dele... A senhora é terrorista, dona?

— Não acredite neles, sou guerrilheira, vai lá, volta para casa, devem estar preocupados.

Os passantes aplaudem o garoto, Marcela entra no carro, começamos uma nova fuga.

— Aquele entroncamento novo do viaduto que sai para o Ipiranga já está aberto, Seishi?

— Abriram ontem, pé na tábua, por lá evitaremos o trânsito.

Como é bom conhecer a cidade como a palma de nossas mãos, estamos vivos, livres e felizes porque a luta continua. Meia hora mais tarde já nos despedimos de Seishi e estamos num carro legal, as ruas vão fervilhar. Sempre há um silêncio entre nós, após os combates. Hoje é ela que o rompe.

— É a primeira vez que mato alguém, me sinto estranha... Acha que algum dia a gente se acostuma?

— Não somos assassinos, matamos porque estamos em guerra, eu não me acostumo, mas não me sinto mais como no início, acaba fazendo parte da rotina. Estou com pena é do motorista, não tinha nada a ver com isso.

— Quando penso que quase matei o garoto, olhe, estou tremendo toda. O que fizeram foi safadeza, podiam ter deixado o menino sair do carro.

— A tremedeira é um dos efeitos posteriores da adrenalina, chegue mais perto, me beije que passa.

Você ainda me ama?

— Vou te amar sempre, mas queria que tivéssemos mais momentos de paz, nos enfrentamos o tempo inteiro...

— Tinha razão no caso de Silvério, peço desculpas, lamento não ter acreditado em você.

— Não fale mais o nome desse traidor... De que me serve agora ter razão? Esqueça, não teve culpa, era difícil de acreditar, é que me tornei meio bicho, instinto puro. Mas não precisa ter medo, os bichos não são piores do que os homens, eles não torturam.

O motorista e um dos guardas morrem, o outro fica paralítico. O menino freqüenta os jornais e as televisões, herói do dia, terá uma história para contar. Em nossas fileiras todos comemoram, até na prisão. Diogo morreu, mas estamos vivos, o combate continua.

pp. 174-179

 

Paulo de Tarso CelestinoTato — Paulo de Tarso Celestino — Militante e dirigente nacional da ALN, treinou em Cuba e voltou em 1970, exercendo papel importante após o assassinato de Câmara Perreira, o Toledo. Preparado politicamente, ponderado, ajudou a manter a Organização unida naquele momento. Foi preso no Rio de Janeiro em julho de 1971 e torturado até a morte. Havia grande admiração e respeito entre nós.

 

 

 

 

 

Iuri Xavier PereiraAltino — Iuri Xavier Pereira — Militante carioca do movimento secundarista, ingressou no PCB desde cedo, seguindo os passos de seus pais, combatentes da mesma causa. Um dos fundadores da ALN no Rio de Janeiro, contava com a confiança de Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, que o indicou para a Coordenação Nacional da Organização após sua volta de Cuba, onde treinou guerrilha. Foi morto em 14 de junho de 1972, em uma emboscada no bairro da Mooca, junto a Ana Maria Nacinovic e Marcos Nonato da Fonseca, denunciado pelo dono de um restaurante em que almoçavam, posteriormente justiçado por um comando armado da ALN.

 

 

Joaquim Câmara FerreiraDiogo — Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo — Militante da Juventude Comunista desde 1931, companheiro de Marighella nas lutas do PCB contra Vargas. Estudante da Politécnica de São Paulo, abandonou uma carreira brilhante para lutar contra as injustiças sociais em nosso país. Preso pela Polícia Especial de Getúlio, no Rio, em 1939, foi torturado com uma violência inaudita na época, porque tinha informações importantes sobre o trabalho clandestino do PCB. Cortou os pulsos com cacos de vidro, preferindo a morte à possibilidade de abrir os segredos do Partido. Recuperado, guardou as marcas de seu ato, tendo os movimentos da mão direita prejudicados para sempre. Libertado com a anistia de 1945, foi dirigir o jornal Hoje, órgão do PCB em São Paulo. Liderou a resistência armada à invasão do Hoje em 1948, sendo preso mais uma vez. Em 1964 tomou a mesma posição de Marighella e ajudou a fundar a ALN, liderando a resistência armada de guerrilha à ditadura militar. Excelente quadro de organização interna, não teve a mesma expressão pública de seu companheiro, mas sua importância para o movimento não foi menor. Participou do seqüestro do embaixador norte-americano, tendo comandado a ação. Após a morte de Marighella, assumiu o comando da ALN até seu assassinato na tortura, em um sítio clandestino da polícia política paulista, na madrugada de 24 de outubro de 1970.

 

Carlos MarighellaFabiano — Carlos Marighella — Fundador, líder e dirigente máximo da Ação Libertadora Nacional (ALN), deu o sinal para o lançamento da luta armada de guerrilha contra a ditadura militar, ao comparecer à conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (Olas) em 1967. Militou desde a juventude no Partido Comunista Brasileiro (PCB), lutou contra a ditadura de Vargas. Preso e torturado pela polícia política, foi mandado para Fernando de Noronha e posteriormente para o presídio da Ilha Grande — RJ. Solto em 1945, elegeu-se deputado federal constituinte em 1946 com expressiva votação e teve atuação destacada na bancada do PCB. Em 1964, desiludido com a possibilidade do Partido frente ao golpe de estado militar, começou a defender a luta armada de resistência. Em 1965 foi preso em um cinema na Tijuca e, mesmo ferido a bala, lutou com os policiais, protestando contra a violência. Depois de ser libertado, escreveu o documento “Por que resisti à prisão”, defendendo uma tomada de posição combativa por parte dos opositores da ditadura. Seu pronunciamento na Rádio de Havana, durante a realização da Olas, foi usado como pretexto para seu desligamento da Comissão Executiva do Comitê Central e sua expulsão do PCB. O preparo político de Carlos Marighella, seu carisma e a coragem de viver o que pregava o transformaram no mais importante dirigente da esquerda brasileira. Foi morto em 4 de novembro de 1969, na alameda Casa Branca, em São Paulo.

 

Hélcio Pereira FortesHélio — Hélcio Pereira Fortes — Um dos maiores quadros políticos da ALN, deslocou-se de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, onde foi preso em janeiro de 1972 e torturado até a morte. Componente da primeira Coordenação Nacional, era uma das unanimidades da Organização. Sem ser um grande quadro militar, conseguiu ser admirado e respeitado por todos, quando os critérios de julgamento da época primavam pelo militarismo.

 

 

 

Ana Maria NacinovicMarcela — Ana Maria Nacinovic — Rebelde, artista, bela como poucas, valente, entrou na luta no Rio de Janeiro, transferindo-se para São Paulo, onde a organização tinha mais estrutura para absorver os quadros clandestinos. Guerrilheira de valor, combatente provada, foi dirigente da ALN em São Paulo, onde morreu no mesmo combate que Marcos e luri. Marcou minha vida profundamente, primeira mulher com quem dividi um teto. Até a morte, me lembrarei dela com carinho e amor.

 

 

 

 

Devanir José de CarvalhoHugo — Devanir José de Carvalho, o Henrique — Dirigente máximo do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), organização revolucionária paulista de extrema combatividade. Valente, solidário, um líder nato que sempre atuou visando à unidade da esquerda armada. Teve atuação importante na Frente Armada que formaram, em 1970, a Ação Libertadora Nacional — ALN, o Movimento Revolucionário Tiradentes — MRT, a Vanguarda Popular Revolucionária — VPR, o Movimento Revolucionário 8 de outubro — MR-8 (não confundir com o atual) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário — PCBR. Devanir foi morto em abril de 1971, deixando mulher e filhos. Como represália à sua morte, a ALN e o MRT justiçaram, em 15 de abril de 1971, Henning Albert Boilensen, presidente da ULTRAGAZ, financiador da repressão política e instrutor de torturas.

 

yopooame fujimoreSeishi — Yoshitane Fujimore — Combatente da Vanguarda Popular Revolucionária — VPR, liderada na época por Carlos Lamarca. Colaborou para a unidade da esquerda armada. Exímio atirador e companheiro provado em dezenas de ações armadas. Foi cercado na Vila Mariana, perto do Jabaquara, e morto. Populares que assistiram à cena contaram que os policiais atiraram em seu corpo de uma maneira selvagem, vários minutos após sua morte evidente.

 

 

 

 

PAZ, Carlos Eugênio. Viagem à Luta Armada: memórias da guerrilha. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008.

 

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRA.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

Ex-guerrilheiro Celso Lungaretti resgata a sua honra Tags: Celso Lungaretti VPR Lamarca luta armada guerrilha guerrilha no Brasil COMUNISTAS comunistas brasileiros ditadura militar tortura anistia

 

Ex-guerrilheiro Celso Lungaretti resgata a sua honra

 

Celso Lungaretti - Náufrago da UtopiaNáufrago da Utopia - Celso Lungaretti

Celso Lungaretti e seu livro Náufrago da Utopia: vencer ou morrer na guerrilha aos 18 anos

 

Reproduzo hoje artigo do Jornal O Rebate que traz uma entrevista com o ex-guerrilheiro da VPR, Celso Lungaretti. Depois de ser acusado por mais de 30 anos de ter sido o traidor da guerrilha ele finalmente conseguiu provar sua inocência.

 

 

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE CELSO LUNGARETTI

 

“Hoje, tenho certeza de que meus descendentes não se envergonharão de mim.”

Celso Lungaretti

 

Injustiçado por mais de 34 anos o ex-guerrilheiro Celso Lungaretti, conseguiu provar a sua inocência no final de 2004, com o lançamento do livro Náufrago da Utopia.

A história de Celso se confunde com a história de muitos guerrilheiros injustiçados pela esquerda armada dos anos 60/70. Podemos citar entre eles Paulo de Tarso Venceslau, Wellington Moreira Diniz e Cláudio Torres. O certo é que poucos militantes foram tão injustiçados como ele, que hoje nos concede essa entrevista à fim de esclarecer alguns fatos ainda obscuros por tantos anos e que vieram a tona com o lançamento desse livro.

Celso Lungaretti é paulistano, nascido em 06/10/1950, filho único de Reynaldo Lungaretti (contra-mestre de fiação e tecelagem) e Mafalda Vannucci Lungaretti (dona-de-casa). O seu livro foi lançado pela Geração Editorial, do Luiz Fernando Emediato, em 10/11/2005.

Em mais e 14 páginas de entrevista concedida a mim, ele fala sobre a sua militância no movimento estudantil no ano de 1968, como começou a se interessar pela guerrilha, como foi seu recrutamento na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), fala sobre as falsas acusações feitas por ex-companheiros de militância, e fala sobre sua reabilitação. A entrevista é longa, porém, extremamente esclarecedora, e pedimos aos amigos leitores, que a leiam com muita atenção, para que não haja dúvida alguma sobre o assunto.

Ele foi acusado por Lamarca e pela VPR, de ter sido o delator da área de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira, e por conta dessas falsas acusações ele ficou de fora da lista de militantes a serem trocados pelo embaixador alemão que foi seqüestrado em julho de 1970. Isso gerou na repressão uma grande repulsa por ele que ficou por vários meses incomunicável e sendo torturado, ainda com o peso nas costas da morte de Eremias Delizoicov (Eremias tinha 18 anos e foi morto com 35 tiros) e do bancário Roberto Macarini (este era bancário e simpatizante da VPR).

Agora, se vocês quiserem saber algo além do que ele disse aqui adquiram o seu livro, que contem uma riqueza muito maior de detalhes, sobre toda sua militância e vocês terão uma idéia também de como foi o sofrimento desse homem, suas tristezas, sua vida na clandestinidade, sua prisão, sua tortura, o desprezo dos companheiros que ainda hoje insistem em execrá-lo por algo que ele não cometeu.

 

Ciro Campelo - Celso, você era bem novo quando começou a militar no movimento estudantil. Com que idade você começou a militar, e o que te levou a ter essa consciência de militar no ME?

Celso Lungaretti:Eu tinha 16 anos e cursava o 2º ano do Científico de Engenharia numa escola da Mooca. Eu era muito tímido, e não ficava muito à vontade com as garotas do bairro, quase todas fãs da Jovem Guarda e dos Beatles, que eu detestava. O lugar dos meninos conhecerem as meninas eram os bailinhos, e eu era meio travado para dançar. Então, como qualquer adolescente, tinha muita vontade de chegar nas garotas, mas a falta de jeito me tolhia.

Ao mesmo tempo, lia livros de autores sérios como Dostoievski, Kafka, Camus, Sartre e Carlos Heitor Cony. Já começava a ver filmes de arte, como os do Godard e do Glauber Rocha.O Eremias, colega de escola desde criança, apresentou-me um dia a Maria das Graças, que estava na classe dele (começamos juntos, mas ele repetiu dois anos e foi ficando para trás, então estava na 4ª série ginasial). Ela era filha de um militante do PCB que teve de fugir da Bahia para São Paulo, ela estava mesmo é querendo formar uma base no nosso colégio, o MMDC.

A partir dessa amizade, minha vida foi mudando. Nas férias do meio de ano, troquei o Científico pelo Clássico. Caí na classe em que era feito o jornal do colégio e, por desinteresse dos responsáveis, acabei logo assumindo e virando o faz-tudo. Usei o jornal para começar um trabalho político entre os colegas. Aí, nas férias de fim de ano, a Maria propôs formalmente a criação de uma base comigo, o Eremias e dois irmãos do bairro do Belém. Fizemos um curso básico de marxismo e, no começo do ano letivo de 1968, já estávamos organizando o movimento secundarista em toda a zona Leste de São Paulo.

 

Ciro Campelo - O ano de 1968 foi decisivo para todos os que entraram na luta, principalmente em dezembro, com a decretação do AI-5. Esse ano mudou a vida de muita gente. Eu sei que você ainda era novo. Mais como você viu o ano de 1968?

Celso Lungaretti: Foi um ano que valeu por dez na vida das pessoas que mergulharam fundo nos acontecimentos. Tudo se passava com tal velocidade que não conseguíamos nem captar direito as conseqüências de cada uma de nossas atitudes. Só quando parei para refletir, na prisão, é que consegui avaliar bem as coisas. Mas, a sensação que ficou é de que éramos empurrados pela História, muito mais REAGINDO do que AGINDO.

A Frente Estudantil Secundarista, criada por nós, rachou. A Maria das Graças ficou com o pessoal da Zona Centro, e eu herdei todo o resto do pessoal e da estrutura da Zona Leste, tornando-me o líder do nosso grupo, que permaneceu independente.

Passamos o ano entre passeatas, assembléias, levando corridas dos policiais, agitando. Paramos o MMDC numa noite de sexta-feira, no final de junho, com o Deops chegando a invadir a escola; o saldo foi a transferência compulsória dos 4 líderes, a Maria das Graças, o Eremias, o Diego e eu.

A repressão ficou cada vez mais intensa ao longo do ano, assim como a violência dos grupos paramilitares que agiam impunemente.

O CCC matou um secundarista durante conflitos entre os estudantes direitistas do Mackenzie e os esquerdistas reunidos na Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia.

O Congresso da UNE em Ibiúna foi estourado pela repressão, com os participantes sendo todos presos.

No final do ano, percebíamos que o tempo do movimento de massas estava chegando ao fim. Antes mesmo do AI-5 ser promulgado, em dezembro, já chegáramos à conclusão de que a única forma de continuarmos lutando era engajando-nos a uma organização armada. O Marcos Vinícius nos colocou em contato com a ALN, o POC, o PCBR e a VPR. Fizemos reuniões separadas com os recrutadores de cada uma delas.

Comecei 1968 como um menino que nunca havia feito nada de realmente importante. Acabei o ano como adulto, responsável pelo destino de meus sete melhores amigos e companheiros, pronto para passar a um "estágio superior" da luta: o vencer ou morrer dos guerrilheiros.

 

Ciro Campelo - Porque vocês escolheram a VPR?

Celso Lungaretti:Éramos oito jovens dispostos a ingressar como militantes plenos numa organização armada, além de contarmos com alguns aliados e simpatizantes que, a critério dessa organização, poderiam ou não ser aproveitados.

Das aproximadamente cem pessoas que organizamos em nossos grupos de discussão e atuação no movimento secundarista, menos de 10 tinham esse perfil de aliados e simpatizantes. E só nós 8 estávamos dispostos a dedicarmo-nos integralmente à revolução: assumir os riscos da militância e, se necessário, abandonar a vida legal.

Os restantes deixamos organizados sob a liderança dos nossos pupilos mais promissores. Distanciamo-nos deles todos, pois representavam um grave risco de segurança para nós.

Nós 8 fizemos reuniões com militantes de quatro organizações.

O POC (Partido Operário Comunista) nos pareceu apenas uma organização de universitários, sem potencial para cumprir as tarefas armadas da revolução.

Avaliamos o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) e a ALN (Ação Libertadora Nacional), porém optamos pela VPR.

A VPR oferecia tudo que procurávamos. Era o resultado da junção de duas forças. Ex-militares brizolistas que, com certeza, saberiam nos instruir e comandar. E antigos quadros da Polop (Política Operária), responsáveis por um programa que, no papel, soava muito bem. O Antonio Roberto Espinoza e o José Ibrahim, ao manterem contato conosco, "esqueceram" de dizer que esses dois componentes viviam em brigas constantes: "militaristas" e "massistas" disputavam a supremacia dentro da VPR.

De quebra, a VPR contava com os líderes da greve de Osasco, o que também era motivo de admiração para nós. Decidimos entrar. Mas, o pessoal do movimento secundarista da Zona Sul, sem que soubéssemos, já nos antecedera. Em fevereiro de 1969, alguns deles participaram de um assalto a banco ou casa de armas. Nas quedas da VPR, o Marcos Vinícios foi arrastado. E, como ele conhecia a identidade real do Eremias, Diego, Edmauro e a minha, tivemos de cair os 4, precipitadamente, na clandestinidade.

Passamos duas semanas de grandes privações, até a chegada do "ponto" seguinte com o Espinoza, que nos socorreu.

 

Ciro Campelo – E como foi para você cair tão novo na clandestinidade?

Celso Lungaretti:Os sentimentos eram mais ou menos os mesmos para todos nós. Havíamos passado um ano sendo tratados como inferiores pelos universitários, que evitavam nos esnobar ostensivamente, mas não conseguiam esconder de todo sua presunção.

Então, quando a VPR aceitou receber-nos como militantes plenos, bateu aquela euforia de time do Amapá que finalmente consegue jogar no Maracanã. Um deslumbramento. Seis meses antes, distribuindo panfletos em escola. Agora, travando conhecimento com alguns dos principais revolucionários brasileiros. Que jovem não subiria às nuvens?

Misturado à euforia, o temor de não estarmos à altura das experiências que iríamos viver. Se um de nós falhasse numa passeata, podia fazer com que o companheiro "caísse", e levasse alguns cascudos da repressão. Agora, entretanto, se um de nós falhasse numa ação armada, o companheiro morreria ou sofreria torturas terríveis. Tínhamos essa noção de que, de repente, a responsabilidade nas nossas costas se tornara imensa.

E, por mais que tivéssemos aquela postura adolescente de achar que as coisas ruins não aconteceriam conosco, no fundo, no fundo, sabíamos que cada dia poderia ser o último. Talvez nem tanto num primeiro momento. Mas, a partir das quedas e mortes de companheiros que conhecíamos, era inevitável o pensamento: até quando durarei?

Ao longo de 1969, a luta foi se tornando tão desfavorável para os revolucionários que os militantes dificilmente ultrapassavam uns 6 meses de clandestinidade. Então, eu me lembro de ter fixado a meta de sobreviver pelo menos um ano, o que naquelas condições, já equivalia a ser um "veterano".

Cuidado com o que você deseja, pode se tornar realidade. Foi exatamente depois de militar um ano na VPR que o DOI-Codi me prendeu. Quando eu já me via como um veterano .

 

Ciro Campelo – Você ficou "queimado" muito rápido. Com muito pouco tempo de militância você já estava com o rosto estampado em cartazes de terroristas procurados. Como você ficou queimado tão rápido, e como foi pra você ser um procurado da justiça?

Celso Lungaretti:Foi, evidentemente, um companheiro que me conhecia, caiu e abriu minha identidade. Mas, deixa pra lá.

Só fiquei sabendo que a repressão já me conhecia quando foram lançados os cartazes de "procurados". Num deles eu aparecia.

Eu e o Moisés estávamos morando num apartamento da Barra Funda. Fomos os primeiros a locá-lo, cheirava a tinta. Nosso acerto com o locador era verbal, não havia nem contrato em nosso nome. A situação ideal para qualquer clandestino. Lamentamos muito perder um local tão bom.

Logo cedinho, vimos nos jornais do dia a imensa matéria sobre os cartazes. Corremos a fazer as malas, deixando um monte de utensílios e livros para trás. Depois o Moisés mandou uma carta para o português, com algum dinheiro e autorizando-o a vender nossos pertences. Explicou que éramos revolucionários perseguidos pela ditadura.

Mais tarde fiquei sabendo que a repressão esteve na casa dos meus pais, de madrugada. Depois de virarem tudo de cabeça pra baixo sem encontrar pista nenhuma, disseram pro meu pai recomendar-me que me entregasse, caso contrário acabaria morrendo. Com eles, eu estaria seguro. Meu pai respondeu, na lata: "E foi pra garantir a segurança dele que vocês vieram aqui com toda essa artilharia?". Ameaçaram levar o velho preso, mas acabaram deixando barato.

Estar sendo procurado me criou muitos problemas. Desde mudar a aparência, para ficar bem diferente da foto que eles haviam apanhado no Colégio MMDC, até ter eventualmente de ficar abrigado com outros companheiros, o que implicava ser transportado de cabeça baixa para entrar e sair do aparelho sem reconhecer o local, dependendo sempre dos horários de quem me abrigava, etc...

Cheguei a jantar num restaurante bem ao lado do cartaz com a minha foto. Ninguém deu a mínima. O cidadão comum nunca imagina que uma pessoa "respeitável" possa estar sendo procurada pela polícia.

Então, nós, os chamados "imortais da Oban", caprichávamos em manter a aparência mais inofensiva possível. Verdadeiros anjos, com um 38 na pasta "capanga".

 

Ciro Campelo – Faça um breve histórico de sua militância na VPR.

Celso Lungaretti:Nosso grupo de oito revolucionários, já havia se decidido pelo ingresso na VPR, porém essa escolha foi feita às vésperas do congresso da Organização.

Então, a VPR considerou que não poderia receber-nos nessa fase intermediária e propôs que indicássemos um representante para participar desse congresso, que foi realizado em abril de 1969 numa casa de praia de Mongaguá, litoral sul paulista. Fui o escolhido pelo grupo.

Curiosamente, faria mais sentido eu ir como observador, mas a VPR não pensou nisso. Participei como delegado, tendo tanto direito de voto quanto os outros (se bem me lembro, uns 10 ou 12).

Saímos de lá com a linha política definida (aliás, as propostas que meu grupo formulou para discussão acabaram prevalecendo no item "posição internacional", cuja redação final foi minha) e um novo comando nacional eleito. No final dos trabalhos, meu grupo foi formalmente aceito na organização.

De volta, todos nós estávamos escalados para participar de um duplo assalto de bancos na rua Piratininga (entre o Brás e a Mooca), pois a Organização precisava urgentemente de fundos.

Na véspera, quando deveria me integrar ao grupo de ação e discutir detalhes, o Antonio Roberto Espinoza me deu uma contra-ordem: eu havia sido designado para integrar o Comando Estadual da VPR em São Paulo, como responsável pelo setor de Inteligência, que me caberia criar. E, portanto, não deveria participar do assalto.

Os acasos da vida: durante essa ação, o Lamarca foi obrigado a matar um guarda de trânsito que irrefletidamente se colocou na porta de um dos bancos, com a arma engatilhada, esperando algum companheiro sair. Se eu estivesse lá, pegaria depois pena de prisão muito maior. Mas, naquele momento, ninguém pensava nisso. Acreditávamos que venceríamos. Quem julgaria o inimigo derrotado seríamos nós...

Fui erguendo um setor de Inteligência com aliados e informantes. Fazia principalmente análises sobre os bastidores do poder, a luta interna entre a linha dura militar e os partidários de uma gradual redemocratização. Era importante para nós sabermos para que lado iria o regime e qual a posição que prevaleceria em cada momento.

Vez por outra, tínhamos que lidar com alguma informação de interesse operacional mais direto. E começamos também a providenciar documentos falsos.

Mas, travava-se de uma Inteligência bem embrionária. Minha contribuição maior era como integrante do comando estadual, ao lado do Samuel Iavelberg (movimento de massas), João Domingues (grupos armados) e José Raimundo da Costa, o "Moisés" (contato com outras organizações e com grupos revolucionários do interior paulista).

Em meados de 1969, os comandos da VPR e do Colina decidiram fundir as organizações, formando a VAR-Palmares. Esta decisão, no entanto, deveria ser homologada pela militância, num congresso futuro.

De imediato, a nova Organização foi resolver o problema sempre premente: finanças. Com grande proporção de militantes clandestinos, que não podiam obter por si próprios recursos para seu sustento, precisava de muito dinheiro.

O roubo do cofre do Adhemar, executado com excelente planejamento e extrema perícia, nos livrou de preocupações por um bom tempo. Livres do sufoco, poderíamos nos dedicar aos verdadeiros objetivos.

O João Domingues foi ferido, preso e morto pela repressão, que o torturou antes de estar restabelecido dos ferimentos e provocou uma hemorragia. Com isto, a VPR de SP virou um pandemônio, pois ele centralizava muitas informações. Aparelhos e depósitos de armas que só ele conhecia "sumiram". Outros aparelhos se tornaram perigosos e tiveram de ser abandonados. Militantes se amontoavam nos restantes.

Em meio a esse caos, eu, o Moisés e o Samuel decidimos que não havia como organizar uma conferência em SP para indicar os representantes ao congresso nacional da VAR.

A luta entre "militaristas" e "massistas" recrudescera. A fusão com o Colina deu novo alento aos “massistas” da VPR, que haviam ficado em minoria. Recebendo reforços, voltaram a ter influência marcante na tomada de decisões, principalmente porque detinham uma posição chave.

Quatro comandantes nacionais cuidavam da Luta Principal, tratando de organizar a guerrilha no campo. E dois faziam a ligação com as cidades. Ora, esses dois (o Antonio Roberto Espinoza e o Carlos Franklin da Paixão Araújo) estavam mais próximos da posição massista, emperrando os encaminhamentos no campo e favorecendo o crescimento da organização nas cidades.

O Moisés e eu decidimos lutar para que a fusão fosse desfeita e a VPR voltasse à sua identidade original. Quando um militante sem muito prestígio na Organização, que acabava de voltar do exterior, lançou teses inovadoras sobre a luta armada, vimos que se tratava do complemento ideal para nossa proposta de recriação da VPR.

Com o pacote teórico do "Jamil" (Ladislau Dowbor) e a proposta de desfazer a fusão, fomos à luta. Indicamo-nos representantes de SP ao congresso. No entanto, o Samuel reagiu. Ele concordou que cabia ao comando paulista avocar essa decisão, escolhendo os 2 delegados. Mas queria que fosse um de cada posição: eu, ou o Moisés, do lado militarista; e ele, como “massista”.

Ao ser preterido, queixou-se ao Espinoza e ao Paixão Araújo, que denunciaram o que apresentaram como nosso "golpe" aos outros 4 comandantes. Resultado: nossa delegação foi cassada e nossos inimigos organizaram às pressas uma precária conferência paulista, em que eu e o Moisés saímos vencidos. O Samuel, que havia vacilado entre um lado e outro, também acabou na berlinda, muito criticado.

No entanto, por conhecermos o local do congresso nacional (Teresópolis, RJ), eu e o Moisés fomos obrigados a voltar e servir de seguranças até o final dos trabalhos. Sem que eu soubesse (ele era cheio de segredos), o Moisés acertou com o Bacuri que nós dois iríamos para a REDE (Resistência Democrática)...

... caso fossemos expulsos ou ficássemos "sem clima" na VAR.

As posições militaristas foram derrotadas em toda a linha, sem que o Lamarca se preocupasse muito em defendê-las. Acreditava que, detendo as rédeas do comando, ele encaminharia a organização na direção certa, pouco importando as definições que estivessem no papel.

O último item foi a definição do novo comando. Quando o Lamarca percebeu que não teria o poder real, ficando como uma espécie de figura de proa, decidiu virar a mesa. Comandou um racha que seguiu, exatamente, a linha que o Moisés e eu propúnhamos: voltarmos a ser VPR, assumindo as posições teóricas do Jamil.

Fomos sete os que rachamos em Teresópolis, em outubro/1969: Lamarca, Darcy Rodrigues, o marinheiro Cláudio ("Matos"), o Nóbrega, o Mário Japa, o Moisés e eu. O casal Juarez e Maria do Carmo Brito ficou de pensar melhor e decidir depois. A VAR manteve dois terços dos quadros da Organização.

Aí, estressado pela luta política e cansado de tantas discussões e tão pouca ação, decidi não comparecer ao pequeno congresso em que se definiram as bases da VPR. Logo estava no campo, integrando a equipe precursora para a montagem de uma escola de guerrilha na região de Registro, ao lado de Lamarca, Fujimori, Massafumi e o velho Lavecchia.

Passei quase dois meses lá. A área tinha vários inconvenientes e foi abandonada. O Massafumi aproveitou para pedir o desligamento da VPR. E eu, não suportando estar no isolamento do campo enquanto meus companheiros morriam na cidade (o Eremias Delizoicov, amigo meu desde a infância e por quem me sentia responsável, acabava de ser assassinado com 35 tiros), pedi uma designação urbana.

Assim, eu e o Massafumi voltamos para SP, enquanto os outros 3 seguiram para a nova área de treinamento guerrilheiro. Pelos papos, dava a impressão de que se localizaria a grande distância, provavelmente no Paraná.

Incumbido de criar um setor de Inteligência no RJ, lá atuei de janeiro a abril de 1970, quando fui preso pelo DOI-Codi.

 

Ciro Campelo – Celso, como a área de registro que você conhecia foi desativada, como o Lamarca acusou você de ter delatado a área de nº 2?

Celso Lungaretti: Ciro, vou relatar os fatos a partir de uma visão retrospectiva, incorporando aquilo de que só tomei conhecimento depois.

Quando eu e o Massafumi nos despedimos do Lamarca, na área de treinamento guerrilheiro que estava sendo abandonada por inadequação aos nossos propósitos, ele nos disse que, embora aquele sítio não tivesse mais utilidade para a VPR, não deveria ser aberto para a repressão.

E fui preso pelo DOI-Codi no dia 16 de abril de 1970, uma 5ª feira, às 6h45.

Sabendo que os aparelhos que o militante preso conhecia estavam sendo abandonados pelos companheiros, os pontos desmarcados, etc., a repressão desenvolveu um método de torturas violentíssimas nas primeiras horas. Para os dois lados, era uma corrida contra o tempo. No final da tarde, muito abalado pelas torturas e mobilizando minhas últimas forças para não dar à repressão o "fio da meada" (companheiros que, presos, poderiam delatar outros companheiros, levando às "quedas em cascata" que tanto temíamos), abri a área abandonada.

Entregar o que não tinha mais utilidade ou o que a repressão já sabia era a forma de fingirmos estar colaborando, enquanto preservávamos o que realmente importava. Mas, claro, esse era sempre um jogo arriscado.

A repressão do RJ não deu muita importância a essa informação, tanto que a repassou à Oban de SP só no dia seguinte. Então, na 6ª feira a Oban enviou duas patrulhas a Registro, para fazerem averiguações no local. Ambas voltaram no sábado (18) com a informação de que a área estava mesmo desativada, até então, o Lamarca não ordenara a evacuação da área ativa, que, na verdade, distava apenas 16 quilômetros da área abandonada. Mas o fez a partir do momento em que tomou conhecimento das novas prisões efetuadas pela repressão naquele sábado (ele tinha um ou mais espiões no próprio aparelho repressivo, provavelmente ex-colegas de farda, informando-o de tudo que acontecia).

Naquele sábado, segundo consta de um relatório de operações secreto do II Exército, a repressão tomou conhecimento da localização da área ativa, a partir de "outras informações" decorrentes das novas prisões.

O cerco da área 2 começou a ser montado. Aliados da VPR que moravam na região foram presos na semana seguinte, e em junho de 1970, no entanto, o Lamarca já me atribuía a culpa pela queda da área de treinamento (sem nunca fazer referência à existência das duas áreas, uma ativa e a outra abandonada) e a VPR me deixava de fora da lista de presos trocados pelo embaixador alemão.

 

Ciro Campelo – Então você foi usado como um simples bode expiatório, talvez para não revelar que um companheiro mais importante tenha revelado a área, é isso mesmo?

Celso Lungaretti:Quem reconstituir a seqüência de quedas da VPR em abril, quando a Organização foi quase aniquilada tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, verificará que nada de significativo pode me ser atribuído (tanto que a VPR nunca me acusou disso).

O Lamarca não havia considerado que minha prisão colocava a área ativa em risco, mas a abandonou quando outros militantes caíram, o que comprova que ele sabia muito bem onde morava o perigo. Então, a decisão de me erigir em bode expiatório pela queda da área ativa, inclusive me deixando em poder da repressão quando deveria ser incluído na lista de troca se obedecidos os critérios vigentes na VPR, não tem uma explicação fácil.

O Ivan Seixas lembrou o ambiente de grande tensão em que eram tomadas as decisões, em meio a quedas, mortes e informações desencontradas. Mas, só o Lamarca poderia dar a última palavra num assunto tão importante, contrariando um compromisso que a VPR assumira comigo (enquanto eu sofria o diabo para cumprir da melhor maneira possível os compromissos que assumira com a VPR) e ele (Lamarca), mais do que ninguém, sabia da verdade.

Haveria vários inconvenientes para a imagem da VPR e da guerrilha se fosse amplamente conhecido o nome da pessoa que realmente abriu a área ativa, e eu, jovem secundarista de uma família sem passado revolucionário nem prestígio social, era sacrificável, e foi o que aconteceu.

Homem que nunca deixou de ter mentalidade militar, talvez o Lamarca tenha decidido me punir por haver desrespeitado sua voz de comando. Ao me alertar de que não deveria abrir a área 1, ele levou em conta que a área 2 fora conseguida com os préstimos da mesma pessoa, um ex-prefeito de Jacupiranga. Realmente, ao abrir a área 1 eu coloquei, sem saber, a área 2 em risco. Mas, para minha sorte, os militares não chegaram a ela por esse caminho.

O Lamarca, ao implantar dessa forma a área 2, umbilicalmente ligada à área abandonada pela figura do ex-prefeito Manelão, passara por cima das mais sagradas regras de segurança da VPR. Em liberdade na Argélia, eu poderia apontar à VPR os erros cometidos pelo Lamarca. Talvez ele tenha decidido que era mais conveniente me deixar onde eu não pudesse apresentar minha versão dos acontecimentos. A VPR ainda cometeu duas outras terríveis injustiças, ao acusar também o Massafumi de responsabilidade na queda da área, quando ele nada teve a ver com essa história e ao não incluir na lista de troca do embaixador alemão o heróico Wellington Moreira Diniz, que havia resistido aos torturadores não as 24 horas que a Organização exigia, mas pelo menos 72 horas, antes de entregar um insignificante aliado (ligado, entretanto, ao principal fornecedor de simpatizantes para preencher nossas necessidades infra-estruturais).

A minha impressão é que a decisão de me tornar bode expiatório foi tomada pelo Lamarca. Depois, quanto mais o tempo passava, mais os envolvidos com as quedas em cascata de abril de 1970 foram percebendo a conveniência de que eu passasse à História como o grande vilão daquele período, de forma que não ocorresse a ninguém perguntar como, afinal, foram presos e mortos tantos quadros importantes em tão pouco tempo. Com a minha reabilitação, muitas outras biografias poderiam sair manchadas. Então, houve uma espécie de pacto para que sempre fosse apresentada a versão conveniente a historiadores e jornalistas.

Até que a verdade acabou falando mais alto.

 

Ciro Campelo – Celso, e como você conseguiu que a “verdade falasse mais alto”, e você pôde provar realmente a sua inocência?

Celso Lungaretti: Em seu livro "Combate nas Trevas", lançado em 1979, o Jacob Gorender estranhou que a VPR tivesse me mantido no trabalho de inteligência no Rio de Janeiro, embora "soubesse" a localização da área de treinamento, quando o certo teria sido me mandar para o exterior. Realmente, as regras de segurança rezavam que o local da área não podia ser conhecido por nenhum militante urbano, mas apenas pelos que estivessem associados à sua implantação, como o Mário Japa (preso por uma infelicidade, ao vir cumprir qualquer tarefa em SP).

Com sua experiência de ex-combatente, o Gorender já em 1979 chegou perto da verdade.

Eu e o Massafumi, teoricamente, não representávamos perigo para a área 2, já que tínhamos estado somente na área 1. Mas o Lamarca, claro, sabia que as coisas não eram tão simples assim. Em vez de encontrar uma verdadeira solução para o problema, preferiu o caminho fácil de ordenar a mim e ao Massafumi que não abríssemos a área 1 e deixou de informar à Organização que sabíamos o suficiente para constituirmos uma ameaça à área 2. Ou seja, ele considerava que sua autoridade de comandante lhe permitia desconsiderar as regras de segurança, e, pior ainda, não comunicar aos demais companheiros o que fizera.

Em 1994, o Marcelo Paiva me acusou, nas páginas da Folha de S. Paulo, de delator da área de treinamento do Lamarca. Exigi espaço para resposta e, pela primeira vez, pude apresentar o meu lado da história. Foi a primeira referência à existência das 2 áreas. O Marcelo recuou da acusação de que eu entregara a área ativa e respondeu com uma versão alternativa: a de que, abrindo a área 1, eu provocara a prisão de aliados que conheciam a localização da área 2. Com isto, eu passaria de delator pleno a delator involuntário. Mas, a cronologia dos acontecimentos, conforme eu descobri e provei em novembro de 2004, foi bem diferente.

E foi colocando meu nome num site de busca para acompanhar a repercussão da minha luta por anistia que encontrei, em outubro de 2004, o relatório de operações do II Exército que comprovava minha inocência em relação às acusações que me faziam e a veracidade de tudo que eu dissera a esse respeito na minha polêmica com o Marcelo Paiva.

Contatei vários jornalistas e historiadores que tinham afinidade com o tema, mas só o Jacob Gorender se dispôs a examinar minhas provas, confrontando-as com outros documentos secretos da repressão que ele disse possuir. Duas semanas depois, ele me telefonou para informar sua conclusão: eu estava certo, não tinha mesmo responsabilidade nenhuma pela queda da área 2, mas, apenas, pela descoberta da área 1, que, objetivamente, não teve maiores conseqüências.

A publicação da carta do Gorender na Folha de S. Paulo foi decisiva para que eu passasse a ser visto de outra maneira pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e para eu receber cada vez mais apoio de ONGs, parlamentares, estudantes e pessoas não-dogmáticas de esquerda.

Quem conhece meus textos e pronunciamentos a esse respeito, sabe que jamais revelei publicamente o nome da pessoa que entregou a área e dos companheiros que foram coniventes com essa mentira. Questão de princípios.

Mas, como revolucionários, eles é que deveriam ter tomado a iniciativa de fazer autocríticas, inclusive das entrevistas tendenciosas que deram e de algum livro mentiroso que algum deles haja escrito. Mesmo porque os historiadores chegarão à verdade, da mesma forma como eu cheguei.

Na verdade, seu comportamento diante dos torturadores foi compreensível e justificável. O ser humano jamais deveria ser levado ao sofrimento extremo e é terrivelmente injusto recriminar alguém por não haver conseguido portar-se como super-homem.

Pior, muito pior, foi o que fizeram depois: livres, calmamente decidiram deixar que outro militante carregasse suas culpas por 34 anos. Isto sim foi uma falha de caráter inadmissível em revolucionários.

 

Ciro Campelo - Celso, então você sabe realmente quem foi que entregou a área dois?

Celso Lungaretti:É claro que sei! Desde 1970 eu considerava possível que tal pessoa fosse responsável. No entanto, quando eu tomei conhecimento daquele relatório secreto militar, todas as peças do quebra-cabeça se juntaram na minha mente. E, afora ser uma questão de princípios não acusar alguém para inocentar-me, avaliei que a melhor resposta a dar àquela pessoa que me deixou sofrer injustamente por 34 anos era mesmo não denunciá-la publicamente.

Se ela tivesse dignidade, procuraria a imprensa para admitir sua culpa. Não o fazendo, acrescentou mais uma mancha em sua biografia. Jamais serei eu a dizer seu nome, mas, com as luzes que eu trouxe para a compreensão desse episódio, os historiadores podem facilmente chegar à conclusão correta.

 

Ciro Campelo - Você saberia dizer também quem foi o militante responsável pelas quedas em cascata?

Celso Lungaretti:Quanto às quedas em cascata, não tiveram, obviamente, um único responsável. Mas, uma organização não é desbaratada daquela forma se vários militantes não fraquejarem. A minha tese é a de que, a partir de que fiquei malvisto externamente, alguns companheiros que tinham pesos na consciência perceberam que a existência de um vilão maior tiraria da alça de mira os vilões menores. Então, passaram a favorecer essa versão, de duas formas: referindo-se sempre a mim como culpado pela queda da área e jamais reconhecendo o papel importante que eu tivera até então na Organização.

Nas entrevistas que deram ao Jacob Gorender, chegaram ao cúmulo de me tirar da lista dos sete militantes que recriaram a VPR no congresso de Teresópolis, colocando outro companheiro no meu lugar!

Essas mesmas pessoas também deram referências as mais negativas sobre mim à Judith Patarra, quando ela escreveu "Iara". Também lá, eu caio de pára-quedas para desempenhar um mau papel, sem que nada fosse citado da minha militância anterior. E não é qualquer um que inicia um racha numa organização da importância da VPR aos 18 anos!

Logo que saiu o "Combate nas Trevas", eu escrevi e telefonei ao Gorender para contestar a lista dos 7 que ele publicara. Nunca deixei de me orgulhar da trajetória que tivera como militante até aquele fatídico abril de 1970. Então, ficava indignado com essa prática stalinista de reescrever o passado para roubar a glória de quem já não estava nas boas graças dos dirigentes supremos.

 

Ciro Campelo - Celso estamos em 2006, e você começou a militar em 1968. Passaram-se 38 anos. Você poderia nos falar, nesses 38 anos qual foi o pior momento que você viveu?

Celso Lungaretti:Meu pior momento, obviamente, foi ter participado daquela farsa de arrependimento. Eu tinha todas as desculpas: fiquei incomunicável por mais de dois meses e sob torturas; encontrava-me tão debilitado que, do meu peso anterior de 85 quilos, perdera uns 25 desde a prisão; estava arrasado por causa das mortes do Eremias Delizoicov e do Roberto Macarini; a VPR cometera uma terrível injustiça comigo, não me colocando na lista de troca do embaixador alemão, o que teve o efeito colateral de encarniçar a repressão contra mim, fazendo-me passar por uma fase de torturas de intensidade idêntica à inicial e provocando a ruptura do meu tímpano; e, como resultado de tudo isso, minha capacidade de resistência chegou ao fim.

Como um zumbi, fui até a televisão e falei o que queriam que falasse. Cheguei até a pensar que nada daquilo acontecera, fora só um pesadelo. E levei alguns meses para voltar a me sentir totalmente normal, em termos de sanidade mental. Mas, quando recompus as forças, amaldiçoei ter deixado que me reduzissem à prostração.

 

Ciro Campelo - Você pode nos contar com detalhes como foi que eles te fizeram ir até a televisão e posar de "terrorista arrependido"?

Celso Lungaretti: Quando o embaixador alemão foi seqüestrado, até a repressão acreditou que eu entraria na lista de troca. Apressadamente, eles colheram meu depoimento para o encerramento do inquérito (tratava-se do procedimento adotado no caso dos que viajavam). Haver ficado no Brasil foi péssimo.

Depois que o seqüestro terminou eu passei a ser espancado até quando não tinham nada para perguntar. Mas, aproveitei bem uma chance que surgiu.

O coronel que presidia um inquérito de outra organização veio ao DOI-Codi me perguntar qualquer insignificância. E um major torturador, passava pelo local, não se conteve e me deu um soco na nuca, que me atirou longe. O coronel ficou indignado pelo que considerou um desrespeito à sua patente superior. Ambos trocaram ofensas. Quando o coronel voltou, eu lhe disse que, se continuasse no DOI-Codi, acabaria morrendo.

Funcionou. Na manhã seguinte fui transferido para a PE da Vila Militar, cuja equipe deveria apenas encerrar o inquérito policial-militar, sistematizando as informações obtidas na fase das torturas.

No entanto, tratava-se de rapinantes que haviam sido privados do "privilégio" de capturar militantes revolucionários. Sem o que tomavam de nós e as recompensas dos empresários fascistas, estavam em dificuldades financeiras, pois haviam se desacostumado a viver apenas com o soldo.

Alguém, provavelmente o ten. Ailton Joaquim, teve a brilhante idéia de arrancar informações novas dos presos da VPR (eu e alguns aliados que também foram deixados para trás), como forma de provar ao Exército que a PE da Vila Militar deveria participar de novo do esquema de capturas e torturas.

Eu já estava lá há cinco dias, só de cueca numa solitária imunda (e bem fria à noite), quando o ten. Ailton percebeu que não iria me dobrar com intimidações. Ordenou torturas. Levei choques e porradas. No caminho de volta à solitária, o descomunal cabo Povorelli me deu um tapa na cabeça, estourando o tímpano de meu ouvido direito.

O tenente deu-me papel e mandou que escrevesse sobre minha militância. No dia seguinte, uma quarta-feira, havia festividades no quartel. Ele apareceu em uniforme de gala, jogou as folhas na minha cara e disse que não havia nada de novo nelas. Eu respondi que não tinha mesmo nada para dizer que eles já não soubessem. Então, ele falou que eu entraria no pau de novo. Eu fiz uma pergunta desastrada: "O que eu posso fazer para convencê-lo de que não tenho mesmo nada para contar?". De bate-pronto, o tenente respondeu: "Faça como o Massafumi". E foi embora.

Nas tardes de quartas-feiras os recrutas eram dispensados, ficavam só os sentinelas. Aproveitando o meio-expediente, o tenente mandou torturarem uma companheira, de codinome "Enéia". Sentado a uma mesa, bem ao lado da sala onde Enéia era torturada, recebi uma folha de papel almaço e caneta. O tenente disse para colocar no papel algo que o convencesse de que

eu não voltaria a militar na guerrilha. "Se eu não ficar convencido, hoje você volta para o pau-de-arara!".

Torturadores entravam e saíam da sala a todo momento; de passagem, davam-me socos e faziam ameaças: "Você é o próximo!". E da sala vinham os gritos da Enéia ao levar choques, ruídos de pancadas, a trilha sonora medonha da crueldade do ser humano contra o ser humano.

O que acabei escrevendo foi uma mensagem aos jovens, de que não valia a pena entrarem na guerrilha naquele momento, pois a luta estava perdida e eles acabariam sofrendo.

Jamais escreveria aquela carta por decisão própria, mas não menti. Sabia que as pessoas experientes já não tinham ilusões, mas os mais novos eram bem capazes de pegar em armas sem perceber que marchavam para o matadouro.

O tenente leu a carta e disse que, daquele momento em diante, eu ficaria tranqüilo. Deram-me uma cela, com cama, manta e chuveiro. Tirei a sujeira e o sangue pisado do corpo, sentindo o bem-estar de quem volta à civilização, depois de passar vários dias sendo tratado como um animal. Mergulhei em sono profundo.

Numa madrugada, acordaram-me e disseram que me vestisse, pois me levariam para ser executado. Na viatura, depois de fazerem muito jogo de nervos, explicaram: estava sendo levado a uma TV e deveria falar a mesma coisa que escrevera na carta, caso contrário entraria no pau até morrer e depois jogariam meu cadáver debaixo da ponte.

Já sem forças para resistir, acabei fazendo o que pediram: de forma sonambúlica, com a fala arrastada, respondi as perguntas, voltei para a cela e dormi. Quando acordei, não sabia nem se aquilo tinha ocorrido mesmo ou fora um pesadelo.

 

Ciro Campelo - Como foi o seu convívio com a sociedade quando você saiu da prisão?

Celso Lungaretti:Virei tabu. Todos falavam de mim pelas costas. Quando entrei na ECA/USP, houve até reunião para decidirem como me receberiam. Cheguei a ser aprovado em testes para repórteres e, mesmo assim, não me chamaram depois. Acabei tendo de iniciar minha carreira em assessorias de imprensa (comunicação empresarial), levando quase 15 anos para chegar à grande imprensa.

O Massafumi, submetido à mesma pressão, enlouqueceu e se matou. O que me fez perseverar foi à convicção íntima de que sofrera uma grande injustiça e poderia esclarecer tudo algum dia.

Desde a meninice eu enfrentava situações em que todos ficavam contra mim; aprendera a sobreviver a isso e, com o tempo, a reagir à altura. Isso fez a diferença. Nunca me vi pelos olhos dos outros, como o Massafumi. A discriminação só reforçava minha determinação de provar que todos estavam errados.

 

Ciro Campelo – Mesmo tendo sofrido toda essa injustiça, e tendo sido acusado por tantos anos por algo que não fez. Qual foi o melhor momento que você viveu em todos esses anos?

Celso Lungaretti:O melhor momento foi esse mágico final de 2004. Primeiramente, o relator do meu processo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Márcio Gontijo (ex-presidente da seção brasileira da Anistia Internacional), reconheceu que eu havia sido “duplamente atingido” pelo arbítrio ditatorial, já que sofrera torturas, uma lesão definitiva e um período de prisão, como muitos outros também haviam sofrido, acrescidos de danos morais gravíssimos por haver sido forçado a uma exposição negativo que me marcou durante décadas. Logo em seguida, descobri o relatório secreto militar que comprovou minha inocência no episódio de Registro.

Estava desempregado há 11 meses, passando privações e ciente de que a virada na minha vida não iria materializar-se imediatamente. Mas, naquele momento, tive a certeza de que a partida estava ganha. Dali em diante, seria só questão de tempo.

 

Ciro Campelo - Celso, hoje você ainda tem contato ou é amigo de algum militante da VPR ou de outra organização?

Celso Lungaretti: Dos velhos companheiros, a Maria das Graças, que agora é socióloga respeitada com o nome de Maria Palácios; o Diego e o Gílson. Também troco e-mails com o Mané. E já me correspondi com o José Ibrahim, o Mário Japa e o Antônio Roberto Spinoza.

Também houve aproximações com pessoas que não conheci no passado, mas se tornaram simpáticas a mim. Mas, não seria elegante citá-las, sem a devida autorização.

 

Ciro Campelo - Hoje, com todos os fatos verdadeiros expostos, e a sua inocência realmente comprovada. O que você tem a dizer sobre tudo o que viveu nesse período?

Celso Lungaretti:Soa como uma heresia materialista dizer algo assim, mas, às vezes, parece haver algum desígnio obscuro naquilo por que passei. Tive um imenso azar em 1970, quando tudo concorreu para que eu fosse injustamente colocado na berlinda. E a minha vida inteira me preparou para a luta travada em 2004/2005, quando recuperei o que haviam me tomado.

A sensação que tenho hoje é de alívio. Nos piores momentos, temi que a verdade só fosse restabelecida após minha morte. Hoje, tenho certeza de que meus descendentes não se envergonharão de mim. E ainda me resta tempo para dar minha contribuição ao processo revolucionário brasileiro. Tentarei não desperdiçá-lo.

 

Entrevista concedida à Ciro Campelo, entre os dias 01 e 12 de outubro de 2006.

Ciro Campelo Oliveira tem 25 anos, reside em Vitória no Espírito Santo.

Contato: ciro_campelo@hotmail.com

 

Fonte: http://www.jornalorebate.com/colunistas2/cir6.htm

 

Visite o Blog Náufrago da Utopia de Celso Lungaretti

 

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRA.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

O Martirio do guerrilheiro Eduardo Colem Leite, o Bacuri Tags: guerrilha Brasil ditadura militar Eduardo Collen Leite Bacuri COMUNISTAS comunistas brasileiros luta armada DOICODI guerrilha urbana

 

O Martírio do Guerrilheiro

Eduardo Colem Leite, o Bacuri

 

 

Bacuri (codinome Rafael) era um dos guerrilheiros mais “façanhudos”, chegando inclusive à passar por um barreira policial abrindo caminho à bala. Foi um dos militantes que participaram do sequestro do embaixador alemão. Sua morte na tortura foi uma das mais cruéis e se tornou símbolo do terror da repressão militar. Nesse trecho do livro Viagem à Luta Armada Carlos Eugênio Paz conta como Bacuri, através de telefonemas ameaçadores para o DOICODI, conseguiu libertar sua mulher Letícia, que estava grávida. Que as novas gerações conheçam a história de Eduardo Colem Leite, o Bacuri.

 

AS TAREFAS de implantar Altino, preparar a Quinzena e conseguir dinheiro caminham a contento, mas recebemos um golpe irreparável, a queda de Rafael no Rio de Janeiro. Um capitão do serviço secreto do Exército, infiltrado na FL (Frente de Libertação Nacional), pequena organização dirigida pelo ex-major Cerqueira, entrega nosso combatente, durante levantamento do embaixador inglês, à equipe de busca e tortura do deIegado do DOPS-SP, responsável pelo assassinato de Fabiano. Começa o martírio de um militante inestimável e nossa luta desesperada para salvá-lo das garras de seus algozes.

 
Por que tudo aconteceu com Rafael? Penso nisso do meu túnel, minhas seringas, meus espelhos e meus sonhos, Às vezes julgo encontrar a resposta, de repente as imagens se obscurecem e a certeza se esvai. Rafael era um grande quadro de ação e sabemos o tratamento que eles recebiam nas mãos dos torturadores, mas o caso dele foi ímpar, pelos requintes de crueldade. Torturado semanas a fio, com algumas pausas para recuperar as forças e voltar ao sofrimento, até a morte. Não abriu pontos, mas continuou a apanhar como se ainda pudesse fazê-lo. Não conhecia aparelhos, mas os choques não paravam. A Organização sabia de sua prisão, mas o famigerado delegado disputava Rafael com o DOl-CODI, se aliando ao CENIMAR, escondendo-o em delegacias do subúrbio de São Paulo, somente para ter o prazer de comandar sua destruição. Podiam ter matado Rafael na rua, estava desarmado graças a um ardil do traidor, mas fizeram questão de prendê-lo vivo. As informações que tinha se tornaram obsoletas e seguiam torturando-o como se disso dependesse o fim da luta armada no Brasil. Já falei de seu olhar e de seu sorriso, mas é dificil descrever a luminosidade que transmitia sua presença. Sua dedicação era emocionante, não perdia tempo, agia e pensava os destinos da luta, incentivando os companheiros a fazerem o mesmo. Estive presente em dois momentos terríveis de sua vida: a morte trágica de Alberto e a prisão de Letícia, sua companheira, grávida de poucos meses.


EU E MARCELA vivemos em um quarto isolado na casa de Rafael, onde morreu Alberto, reservado para futuros seqüestros e situações de emergência, enquanto procuramos um imóvel adequado para montar um aparelho. Uma tarde, voltamos de olhos fechados para não conhecermos a localização, quando Rafael, nervoso, ordena: - Abram os olhos, deu merda.
Engatilho a matraca, pronto para o combate, e olho na direção que meu companheiro aponta. Letícia está sendo presa e não podemos fazer nada, são muitos, os homens do DOl-CODI, morreríamos todos.
— Filhos-da-puta, prenderam Letícia e ela está grávida, vão matá-la e ao bebê para saber onde estou. Vou ligar para o vizinho tentando um contato, talvez sabendo que estou informado da queda ela tenha uma chance. Vamos sair da área, está muito perigoso por aqui.
Rodamos até uma padaria tranqüila nas cercanias do Ibirapuera, pedimos cafés e ocupamos o telefone, costas guardadas por Marcela. Rafael liga para o vizinho e pede que chame Letícia, eles impedem o contato. Resolvemos telefonar para o comandante do II Exército, ele não atende, Rafael fala com o ajudante-de-ordens, um tenente-coronel.
— Aqui é Rafael, guerrilheiro da ALN. O DOl-CODI acabou de prender minha mulher e vão torturá-la para me entregar. Não há necessidade disso, assistimos a sua prisão, não tem mais informações a dar. Seu comandante responde pela vida dela e a do bebê e, se algo acontecer, não descansaremos enquanto não matá-lo. Transmita a mensagem imediatamente, senão será você o responsável. Volto a chamar para saber o que o general decidiu.
Ainda não estamos satisfeitos, ligo para o DOl-CODI.
— Quem é o comandante da equipe de serviço?
A melhor maneira de fazer um militar se mexer é dar voz de comando.
— Capitão Maurício... quem quer falar com ele?
— Diga que é Clamart,* comandante militar da ALN. (Carlos Eugênio usava o nome de guerra “Clemente’ mas também ocultava a sua identidade como “Clamart”.)
Alguns minutos se passam, percebo o alvoroço que meu telefonema causa, pelas imprecações proferidas sem o cuidado de bloquear o fone.
— Alô, é você mesmo, seu terrorista filho-da-puta... quer se entregar ou agora se diverte em passar trote?
— Filho-da-puta é você que tortura prisioneiros, não tenho tempo para brincar e não sou homem de me entregar, mas tenho uma proposta. Eu e Rafael voltávamos para casa e presenciamos a prisão de Letícia. Não adianta torturá-la, não pode entregar ninguém e não conhece nenhum esquema, estava afastada da miitância direta porque espera um filho de Rafael. Trocamos a vida dela e a do bebê pela vida do general- comandante do II Exército. Exigimos sua apresentação à imprensa para que todos saibam que está presa.
— Está blefando, Clamart, não tem condições de cumprir essa ameaça.
— Ando atrás dele há algum tempo e localizei o fusca vermelho que usa para visitar a amante, incógnito e sem segurança. Podem mudar o esquema que descubro o novo, só o deixo em paz se aceitar nosso trato, Letícia e o bebê devem viver.
— Seu terrorista de merda, eu te pego mais dia menos dia e terei o prazer de te encher de porrada e de choque nos culhões, vou fazer picadinho, te matar bem devagar... Comunico a proposta a meus superiores, infelizmente não decido nada, senão te mandava à puta- que-o-pariu.
— Não adianta bater o pé... mudo de bairro e volto a ligar dentro de meia hora, torturador covarde, pau-mandado...
Pego o volante e escolho Perdizes, fazendo um pouco de hora no Sumaré. Calados e sérios, torcemos por Letícia e seu rebento. Esse trato não evitará sofrimentos, mas pode ajudar a salvar duas vidas. De um botequim da rua Turiassu, tentamos o contato. O telefone do general está ocupado, ligo para a Tutóia.
— Chame o Maurício, é o Clamart... Nos tornamos inimigos íntimos. Novo alvoroço, gritos, passos apressados.
— Alô, Clamart, o trato foi aceito, apresentaremos Letícia à imprensa, e o bebê vai nascer. Em troca vocês esquecem o general e não divulgam a história do fusca e da amante.
— Fechado, mas saiba que você não está incluído nisso, se o encontro, mando bala, criminoso demente.
Rafael está aliviado, mas triste como na noite de Alberto. Dois golpes terríveis em tão pouco tempo... Temo por ele, sofro com ele, olho Marcela, penso no meu sonho de ter um filho, e entendo o que ele sofre.
Letícia é apresentada à imprensa, aproveitam para dizer que é uma prova da inexistência de torturas, sai da prisão, escapa do país e parte para o exílio. Reconstrói a vida ao lado de Leto, meigo e solidário, tenta recuperar suas lembranças. Rafaela nasce e cresce como mesmo rosto e o olhar translúcido de meu amigo. Espero que o peso da ausência de um pai tão extraordinário não a impeça de ser feliz como ele queria que fosse, afinal deu a vida por isso. Sou testemunha do amor de Rafael por todas as crianças e em especial pela linda criança dele, que amou sem conhecer. Tenho certeza de que os últimos pensamentos dele foram para Letícia e Rafaela.

Rafael acompanhou de perto o início de nosso romance, foi em sua casa que nosso amor se consumou.
— Vamos fazer amor, vou conseguir...
Esperei tanto esse convite... Amei Marcela em segredo, não tinha o direito de interferir em sua relação com Assad. Declarei-me com o olhar na segunda vez que a vi, quando veio para São Paulo após a queda de seu companheiro. Perdemos Alberto juntos, ela me deu carinho e ternura. Nos víamos todos os dias, a atração crescia, mas dormimos várias semanas na mesma cama sem nos tocarmos, a lembrança de Assad na tortura nos impedia. Quando seqüestramos o embaixador alemão no Rio, com a participação de Célio e o comando de Rafael, em frente com a VR, incluímos Assad na lista. Os companheiros chegaram sãos e salvos à Argélia e nos sentimos livres para viver nossa febre.
Noite plena de prazer, as peles suadas, as mãos ávidas, nos amamos sem sombras e sem pesadelos. Compartilhamos um orgasmo inesquecível e nem nos lembramos de que Alberto morrera naquela cama.


Tentamos arrancar Rafael das mãos da polícia duas vezes, uma da delegacia de Vila Rica — SP, ações frustradas no último momento pela interferência funesta de um infiltrado no MT, que tempos depois foi responsável pela queda e morte de companheiros dessa organização. Aceleramos os preparativos da Quinzena, escolhendo dois nomes quentes para seqüestrar e trocar por Rafael e outros combatentes presos. Sabendo do ódio que tinham pelo companheiro, estávamos dispostos a trocá-lo mano a mano por um deles. Fizemos o possível, mas não foi o bastante. Os órgãos de repressão forjaram uma fuga de Rafael e, quando o MR seqüestrou o embaixador suíço no Rio de Janeiro, sabendo que Rafael seria um dos nomes de qualquer lista, o executaram a sangue-frio. E, cinicamente, declararam que havia sido localizado na Baixada Santista, reagira à prisão e morrera em tiroteio com as forças da ordem. Crime bárbaro. Será, espero, conhecido e reprovado por toda a nação. Rafael foi trucidado, tentaram manchá-lo com mentiras, mas só conseguiram matá-lo. Na memória daqueles tempos, quando a História der a palavra final, ele será lembrado como exemplo para as futuras gerações, aquelas que saberão que nem todos se calaram. Enfim entendo o que aconteceu a Rafael, ele era forte demais para ser quebrado, digno demais para tempos tão sujos, puro demais para sobreviver à infâmia. Ele tinha um pouco do que cada um de nós tinha de melhor. Matando-o, tiveram a ilusão de nos matar a todos.

p. 151-157

PAZ, Carlos Eugênio. Viagem à Luta Armada: memórias da guerrilha. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008.

 

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRA.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

Sirkis conta como entrou na Luta Armada contra a Ditadura Tags: Sirkis Alfredo Sirkis carbonários luta armada guerrilha ditadura militar COMUNISTAS comunismo comunistas brasileiros socialismo OBAN VPR


Sirkis conta como entrou na

Luta Armada contra a Ditadura

 

Alfredo Sirkis treinando na clandestinidade - luta armada - guerrilha

Sirkis treinando na clandestinidade

 

Alfredo Sirkis pode ser considerado um homem de muita sorte. Pois, foi um dos poucos militantes das organizações de Esquerda armada que lutaram contra a ditadura que não foi ferido, torturado ou preso. Sirkis participou de um dos grupos de Esquerda mais procurados do país, a VPR, de Carlos Lamarca. Seu livro, Os Carbonários, é ótimo para quem gostaria de entender como funcionavam as organizações clandestinas daquele período. No trecho abaixo ele conta como foi sua entrada para a guerrilha; a dor ao saber da morte dos companheiros e como escapou de uma blitz da OBAN. 

 

JUVENAL E AS FERRAMENTAS

Tinha quase um metro e noventa. Desengonçado, braços muito compridos, magro, com uma discreta barriguinha que lhe estufava a camisa à frente. Meio curvado, tinha uma cara como que talhada em madeira: nariz reto e pontiagudo, maçãs e queixo salientes, olhos escuros e um bigode negro, elegante, da mesma cor do cabelo, onde já apareciam, aqui e ali uns fios prateados. Tinha uns quarenta anos.

Mineiro, muito tímido, jeito de filho de pastor protestante, que realmente era. Tratava todo mundo de professor e tinha um fino senso de humor, às vezes pouco perceptível, Nada poderia corresponder menos à imagem que tínhamos do famoso Juvenal-grande-quadro-da-organização. Passada a primeira decepção de quem esperava um atlético Che Guevara, terminamos nos afeiçoando muito ao bom mineirão.

Era muito procurado pela polícia, mas tinha o ar menos suspeito desse mundo, Rodava pela cidade, de ponto em ponto, com seu volks bege clarinho, e sempre nos recebia, naquele posto de comando ambulante, com o mais terno dos sorrisos:

— Como vai professor, tudo bem?

Alex se ligou a ele de tal maneira, que passou a tratar todo mundo de professor, a cometer os mesmos erros de dicção — pobrema em vez de problema, e outros — e a usar algumas das suas expressões, particularmente aquela com a qual, candidamente, evitava todos os palavrões: “é fogo, velho”.

Juvenal, junto com a companheira, Lia, tinha organizado a COLINA no Rio e acompanhara os sargentos Lucas e Viana nas suas primeiras ações. Tinha sido da direção da VAR, mas declinara de participar do comando nacional da VPR, que na época era composto apenas de três pessoas: Lamarca, Jamil e Lia. Preferiu assumir a formação da segunda unidade de combate da organização no Rio. A primeira, o Comando Lucas, formado dos veteranos dos GTAs da velha VPR e da COLINA, operava freqüentemente. Naqueles dias tomara um posto da Aeronáutica, perto da Av. Brasil, capturando três fuzis M-1 e algumas fardas.

Para formar o Comando Viana, ou “a Vianinha” como ficou conhecido, éramos uns dez remanescentes da COSEC. Mesmo depois dos efeitos do racha e dos desbundamentos na velha OPP, ainda tínhamos o controle de uma estrutura de mais de trinta contatos em variados colégios, muitos organizados em grupos de estudo da COSEC. A pá de cal nessa saudosa organização secundarista, foi assentada pela própria VPR.

Que fazer com todos aqueles secundas, que não se dispunham, ou não tinham condições de entrar prum GTA, ou assumir tarefas de apoio direto à luta armada?

Eu defendia que devíamos conservar um mínimo de trabalho de massas nas escolas. Apesar do ME, tanto a nível universitário quanto secundarista, estar morto e enterrado, de não existirem mais condições, não só para passeatas, como também para quaisquer movimentações nas escolas — a repressão era implacável e todo mundo tinha medo — eu achava que devíamos conservar aqueles grupos. Afinal custara tanto trabalho organizá-los...

Foi numa viagem de carro pela barra da Tijuca que discutimos essa questão. Juvenal e, sobretudo um outro companheiro, que conheci naquele dia, se opuseram à idéia.

— Quantos secundaristas estão preparados para entrar num GTA?

— Contando comigo e com o Bartô (Alex), são uns dez, no máximo.

— Ok, então pegamos esses dez e o resto deixa prá lá. Na nossa organização não há lugar prá estruturas de trabalho de massas. São muito vulneráveis, pouco clandestinas. Além disso podem acabar virando uma espécie de polo reformista dentro da organização. Lembre o que aconteceu com a VAR. Esse negócio de organismo, prá trabalho de massas, é um pobrema danado. Nós queremos é construir uma organização de grande poder de fogo, ultra-clandestina que faça as grandes ações destinadas a sacudir o país e ter um grande impacto sobre o povo.

— Sim, sacudir o país, sacudir o país, repetia o outro, o tal de Lourenço. Ainda mais que o Juvenal, ele tinha a voragem das grandes-ações-desacudir-o-país. O desprezo pelo reles trabalho de massas, que considerava reformista.

Juvenal me apresentou naquele dia. Era o responsável pelo setor de inteligência da organização.

Figura esquisita. Boca torta e flácida, dentes de coelho meio retorcidos. Quando falava juntava uma babinha no canto dos lábios. O nariz muito fino e delicado, os olhos inquietos, escondidos por um enorme par de óculos verdes, de lentes retangulares. Cabelo curto aloirado, meio sujo.

Tinha um ar de pouco banho e não fosse pela indumentária: sempre o mesmo terno e gravata verde e uma maleta James Bond, seria um dos percussores do jeitão punk, com quase dez anos de antecipação.

Sua silhueta era inconfundível: bunda grande, quadris muito mais largos que os ombros delgados, andar incerto.

Desde o primeiro encontro, senti uma certa antipatia por ele, mas reagi contra isso. Sectarismo estético, mania de higiene, pensei.

Fiquei com esse contato com o setor de inteligência, pois íamos fazer alguns levantamentos para ir adestrando o pessoal, e ele devia, me passar umas dicas que tinha arquivadas, de sentinelas com metralhadoras. Íamos começar pegando a INA dum guarda dos bombeiros numa guarita em Humaitá.

Ao me despedir de Lourenço marquei um ponto para alguns dias mais tarde. Ele abriu uma imensa cadernetona e foi anotar.

— Nâo companheiro. Ponto se guarda na cabecinha.

O que? Você não confia em mim? Estou anotando em código.

Insisti que nâo dava pé. Eu não ia em ponto anotado. Ele acabou concordando.

Foi com tristeza que instrui aos nossos companheiros, que ainda tinham contatos nas escolas de zona norte e subúrbios, a passar tudo para o MR-8., que tinha uma política um pouco menos avessa às estruturas daquele tipo. Nossa ligação com eles era o Cesinha que, desde os tempos da COSEC, já se vinculara mais à organização do seu irmão. Assim, pelo menos, alguém vai ficar com os contatos, pensei.

Dia seguinte, fui encontrar o Juvenal, em Ipanema. Levantei o problema do cadernetão de Lourenço que me parecia uma afronta aos mais elementares critérios de segurança e ele prometeu tratar do caso. Mudamos de assunto e ele revelou que a “encomenda” já chegara.

— As ferramentas, professor, disse risonho.

No chão do fusca, havia cinco envelopes grandes. Dentro uns volumes grossos e pesados. Examinei um por um. Eram quatro Taurus 38, cano longo e um curto. Gostei desse último, bem macio no engatilhar e fui logo me apropriando. Eu queria mesmo uma Luger ou uma Walter, mas a organização não tinha essas vistosas pistolas e considerava mais seguros os revólveres, menos sujeitos a grimpagens.

De volta ao meu aparelho, fiquei namorando a arma nova que vinha substituir o 32 cano curto, que eu costumava levar dentro de um grosso livro de história da filosofia, cujas páginas, de Kant a Platão, estavam coladas com um buraco no meio, na forma do revólver.

Comprei, numa casa de armas, uma coronha anatômica de madeira, prá substituir a de plástico, muito escorregadia. Ficou uma beleza e eu passava horas treinando a seco, ganhando mais confiança e familiaridade com a máquina, que brevemente poderia entrar em ação.

Naqueles dias, aluguei um quarto em Botafogo. Era uma casa de dois andares, numa vila da rua Paulo Barreto, transversal da General Polidoro, perto do cemitério São João Baptista.

Ironias à parte, era uma região muito calma. A casa parecia segura. A dona me alugou o quartinho estreito de cama, armário e uma cadeira, sem pedir documentos, sem perguntas. Dei o nome de Hélio e disse que era professor particular de inglês e francês, para justificar a ausência de horários regulares.

Criei uma relação cortês, porém distante com a família e evitava os olhares da filha de 16 anos. Nada de intimidades que pudessem devassar os segredos daquele cubículo de cama estreita manchada de angústias e solidão e aquele armário, povoado por deveras estranhos objetos.

 

CHAEL E ZÉ ROBERTO

Chael Charles SchreierJOSÉ ROBERTO SPIEGNER

Chael Charles Schreier e José Roberto Spiegner

Dia brabo. As ruas ainda mais policiadas que de hábito, de cinco em cinco minutos, passava alguma viatura com os homis ligados, de olho em tudo.

O fusquinha bege de Juvenal despontou ao abrir o sinal da Voluntários, a um quarteirão dali. Foi até o ponto de ônibus onde eu estava, freou e fizemos a encenação do encontro casual:

— Professor? Você por aqui? Não quer uma carona?

Entrei e bati a porta. Juvenal seguiu em frente. Trazia notícias sobre os acontecimentos da véspera, Um dos nossos companheiros assistira, de longe, a um estouro de aparelho na região de Olaria, que acabara em tremendo tiroteio. O próprio Juvenal ouvira de manhã comentários de populares a respeito de outro, na Lapa. Alguma organização estava caindo.

Acabava de ter um contato com o MR-8. Foram eles. Tinham conseguido evacuar, in extremis, um aparelho no subúrbio, em meio à farta balaceira. Uma vizinha tinha denunciado à polícia a casa onde estavam o Cid, a Vera Sílvia, o Zilio e o Zé Roberto.

Os três primeiros tinham conseguido abrir caminho à bala, antes da repressão fechar o cerco, O quarto sumira. Há pouco tinham recebido a confirmação da sua morte, noutro ponto da cidade, na Lapa.

Zá Roberto... Uma onda de dor me pegou em cheio. Zé Roberto... Veio a imagem dele trepado num poste, discursando, metido em todas passeatas, quebrando com o pé o vidro fumê de uma sucursal do Chase Manhattan na última, contra o Rockfeller. Fazendo piadas nas reuniões conjuntas UME-COSEC daquela época. Depois, a última lembrança que tinha dele. Numa festa na casa da Maria Helena, meio de porre, todo alegre, namorando uma menina vagamente conhecida do Instituto de Ciências Sociais, Vivíssimo, transbordando vida por todos os poros.

Zé Roberto morreu. A notícia escrota, nojenta, sangrenta de dor e náusea latejava na minha cabeça.

— Era amigo seu?

— Era conhecido. . . mas é como se fosse irmão.

Muitos já tinham caído e eu sabia do nome de quase todos. De como tinha sido. Lucas agonizante numa cela, morto a chute e porrada. Viana mesma coisa. O velho Mariga cercado por todos os lados, crivado de balas dentro dum volks, enquanto os afoitos homens do Fleury continuavam atirando, atirando, contra tudo que mexia até matar um dentista que não tinha nada a ver com o peixe, uma das suas investigadoras que o próprio “herói” alvejou por engano e ferir na bunda um delegado do DOPS. Sede de morte.

Carlos Marighella morto - assassinado pela repressão militar

Carlos Marighella assassinado pela repressão militar

 

Antônio Raymundo Lucena

Há poucas semanas tínhamos perdido o velho Lucena, num aparelho emSão Paulo. Cego de um olho ele escondia nos muros da sua casa a maioria dos FAL subtraídos pelo Lamarca no quartel de Quitaúna. Um único, ele guardava no armário e quando chegou a repressão, o velho Lucena a recebeu condignamente. Antes de morrer deixou vários feridos entre os atacantes.

Outro episódio recente era a morte de Chael Charles Shreier. Um caso tão escandaloso de tortura, que até a imprensa servil registrara. Num aparelho da VAR-PALMARES tinham caído o Espinoza, a Maria Auxiliadora e o Chael. Preparavam, na época, o seqüestro do ministro Delfim Neto.

A imprensa e a rádio tinham anunciado a prisão dos três, incólumes, com grande cobertura e abundância de detalhes. Passados dois dias o Chael apareceu morto.

Antônio Raymundo Lucena

Na notícia que saiu no JB, falando da morte, tiveram o desplante de inventar que, ao ser preso, ele apresentava uma mancha de sangue nas costas, insinuando que a sua morte fora em conseqüência do suposto ferimento. Isso quando o próprio jornal noticiara, dias antes, a prisão dos três, incólumes.

No mesmo dia havia um pronunciamento do ministro da Justiça, o escrotíssimo Alfredo Buzaid, enfatizando que não havia tortura no Brasil. As alegações neste sentido eram calúnias do comunismo internacional e de maus brasileiros que denegriam o país no exterior.

A Veja, porém, na sua reportagem de capa alusiva a morte de Chael, deixava transparecer claramente o que ocorrera, a partir de depoimentos de um familiar, que vira o corpo todo arrebentado.

Logo soubemos, por informe de dentro da cadeia, o que tinha acontecido. Depois de horas e horas de tortura nas mãos da conhecida equipe da PE da Vila Militar, o companheiro teve o azar de cair nas mãos de um novato naquela matéria, o capitão Lauria. Ficou tão entusiasmado que pulou na barriga do Chael, com os dois pés, rompendo-lhe os intestinos.

Eram muitos os casos. Mas o Zé Roberto era diferente: não era um nome em jornal, nem a foto de um desconhecido, nem um caso contado por outra pessoa.

Estava lá, cravado na minha mente, em carne e osso, transbordando vida, fazendo agitação num poste, chutando a vidraça do banco, fazendo graça nas reuniões, beijando a namorada pelos cantos da festa. Não podia estar morto.

Mas estava.

 

A RATOEIRA

Prédio do DOPS de São Paulo

Prédio onde funcionava o DOPS de São Paulo. Hoje é um museu.

Acordei quando o ônibus da Cometa entrava em São Paulo. O sol nascia e os seus tons alaranjados filtravam entre as nuvens e a poluição. A sucessão de avenidas, viadutos e prédios desconhecidos, que iam se descortinando atrás do vidro frio e meio embaçado, transmitia uma sensação agradável.

Era bom chegar num lugar desconhecido, por avenidas nunca d’antes transitadas. A aurora dum laranja esfumaceado dava um toque meio surrealista àquela entrada na megalópole.

Conhecia muito mal São Paulo. Tinha estado lá, muitos anos antes, quando costuma passar as férias com meus tios, na base aérea de Cumbica. De lá tinha vindo uma ou outra vez até a cidade, mas não o suficiente para reconhecer.

Juvenal me incumbira de levar a São Paulo, uns documentos e uma metralhadora INA, desmontada.

Calmo, eu dormira toda viagem, sozinho no assento. O ônibus estava bem vazio. No chão, debaixo das pernas ia a sacola de mão. Dentro, umas roupas, cobrindo toscamente o envelope com os documentos e as peças da INA embrulhadas em papel pardo.

O ônibus parou na rodoviária e desci assoviando. Caminhei rumo à saída. Enquanto cruzava o saguão senti voltar a tensão velha de guerra. Tudo infestado. Aqui um grupo de quatro tiras de azul escuro com um japonês à frente, na mão uma Winchester 44. Mais adiante, nos bancos de espera uns caras inconfundíveis, à paisana, de walkie-talkie. Pelas paredes os cartazes de “terroristas procurados”, “assaltaram-saquearam-mataram pais de família”.

Passei rente a um deles. Muitos dos retratos, entre os quais o do Marighela, já estavam riscados com uma cruz. Mas a foto do Jamil parecia olhar-me maliciosamente. Será que era ele quem vinha ao ponto?

Na saída o aparato era ainda maior. Camburões de várias cores, uns fuscões pretos e vermelhos dum tipo que não havia no Rio, todos parados junto à calçada. Os homis atentos percrustavam a multidão. Passei lentamente por eles.

Filho da mãe olhando pra minha sacola. Na espinha o calafrio, no estômago o vácuo. Olhou, olhou mas não fez nada, ufa.

Atravessei a praça e dei de cara nada menos que com o prédio do DOPS, de tijolos avermelhados com as sentinelas ligadões, mão na metranca.

Êta cidadezinha braba, sô! Peguei um táxi e fui à casa de uns parentes. Meu ponto era à tarde, em Tatuapé, longe do centro, Chegara a São Paulo num mau momento. Uma semana antes a VPR junto com a ALN e dois outros grupos a REDE (Resistência Democrática) e o MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), tinham seqüestrado o cônsul japonês a quem trocaram por cinco presos.

Sequestro do Cônsul Japonês

Notícia do Jornal do Brasil sobre o sequestro do Cônsul japonês

A ação fora improvisada às pressas. Um quadro muito importante da nossa organização o Mário Japa, tinha caído por acaso, num desastre de carro besta. Estava sendo torturadíssimo no DOPS e detinha informações vitais, como a localização da escola de guerrilha rural, chefiada por Lamarca.

O cônsul foi levado no grito, para um aparelho improvisado. A ditadura, seguindo o precedente aberto com o americano, decidiu soltar os presos e assim trocamos um japonês pelo outro, com mais quatro de lambuja. Mário Japa foi parar no México, quase morto, mas com a língua bem presa nos dentes.

Eu chegava logo depois do desfecho do caso, em plena rebordosa. A repressão centralizada por um novo organismo recém-criado, que unificava todas as forças militares e policiais no combate à guerrilha, a Operação Bandeirantes (OBAN), vasculhava a cidade.

Era pior que o Rio, mais assustador, porque desconhecido.

De tarde tomei um ônibus e depois outro até Tatuapé, às voltas e voltas por aquela cidade sem fim. Desci no bairro indicado, encontrei a rua e, como ainda era cedo, fui fazer hora num bar.

Na parede, pregado com fita durex o tal cartaz dos “terroristas procurados”. Nos bares do Rio não tem disso não, pensei. Chegada a hora, paguei e saí com a minha sacola cada vez mais pesada.

O companheiro apareceu pontualmente caminhando em minha direção, entre os números cem e cento e vinte da rua, com a revista Mecânica Popular na mão, conforme combinado. Ao meu — que horas são, por favor? — respondeu dando uma hora mais cedo. Conferia.

Aperto de mãos, troca de cordialidades. Gentil, aliviou-me do peso da sacola. Explicou, porém que não tinha trazido ainda os documentos que eu devia levar de volta para o Rio. Muita repressão nas ruas, precauções redobradas, atrasou tudo.

Pegamos um táxi de volta para o centro. Eu ia ficar esperando num bar perto da rodoviária ele ia buscar os documentos e voltaria em menos de uma hora. Eu poderia voltar no ônibus das oito.

O táxi foi progredindo devagar pelas ruas congestionadas, enquanto eu ia conversando com ele sobre a situação da firma.

— Como vai a filial daqui?

Bem. Recuperamos uma séria perda de capital, fizemos uns investimentos com risco, mas valeu a pena. Vamos agora multiplicar as lojas e as equipes de venda e há boas perspectivas de fusão com outras empresas do ramo.

O carro entrou numa rua sinuosa. À esquerda um enorme terreno baldio. À certa distância uns montes de lixo, pontilhados de urubus esvoaçantes e, mais ao longe, a quase um quilômetro, os primeiros edifícios altos do centro. À direita um muro alto. À frente, junto à curva fechada, um camburão parado, à margem do descampado. O táxi passou por ele, virou e teve que parar atrás de uma comprida fila de carros.

Era uma ratoeira. Perfeita. Mortal.

À frente da fila, uns trinta metros dali, um tremendo aparato policial: camburões, fuscas-patrulha, jipes do exército atravessados na pista, deixando apenas uma estreita passagem para um carro de cada vez. Os veículos eram minuciosamente revistados, um a um. Entre PM’s, agentes da OBAN, e tiras à paisana, eram mais de quarenta. Brandiam um impressionante arsenal de FALs, lNAs, Winchesters, rádios de campanha e mesmo umas .30, instalada na traseira de um dos jipes.

Uma ratoeira...

Pular do táxi correr prá direita? O muro. Prá esquerda? O terreno baldio, um quilômetro de descampado, campo de fogo perfeito pros canos escuros que brilhavam nas mãos dos homís de azul e negro. Fazer o motorista dar meia volta? A lotação do cambura, da curva lá atrás, cortava qualquer possibilidade de retirada. Eram cinco policiais atentos, com armas longas, que nos vigiavam a menos de 15 metros. Nenhuma chance.

A revista era minuciosa, prolixa: faziam os passageiros sair. Mandavam encostar as mãos no carro, apalpavam dos pés à cabeça, viam os documentos, fuçavam tudo dentro dos veículos, mala, motor, porta-luvas, debaixo dos bancos, tiravam até os tapetes de borracha. Não tinham a.menor pressa.

O suor frio escorria pelas costas. Eu estava completamente apavorado, com o cú na mão.

Desta vez não escapo. Não tem como. A terrível certeza mesclada ao terror, preso no peito, dominava tudo, grudava meu corpo imóvel e impotente ao assento do táxi. Maldita sacola, maldita, ali às mostras do mundo, entulhada de documentos da organização e dum quebra-cabeça de peças de metralhadora envoltas em papel pardo. . . Queria pulverizá-la com os olhos. O companheiro ao meu lado estava lívido e silencioso.

Queria acordar do pesadelo, despertar, ver que aquilo não era verdade. Mas os segundos implacáveis me levavam direto aos homis de azul e negro.

Cada vez mais perto: agora revistavam a kombi que ia na nossa frente.

—Saco! Todo dia a mesma coisa! E eu que tenho que entregar o carro às seis.

Era o chofer reclamando.

— É isso mesmo seu moço. Eu também. Tou atrasadíssimo, tou com bilhete pra voltar hoje pro Rio e vou chegar atrasado lá na Rodoviária. Vê se não dá pra aliviar a barra com os homis...

Era a minha voz, saindo sozinha.

O de azul, balançando uma 44, já ia abordando o chofer, quando este acelerou devagarzinho, deixando-o para trás. O grupinho de cinco, mais na frente, hesitou e imperceptivamente o táxi foi passando pelo enxame de fardas e canos, até que.

_Altooo! Encostaí!

O táxi parou no meio de uma floresta de vultos armados, suas vozes duras, ecoavam de todos os lados. Não tinha mais safa.

— Ô seu guarda. Tenho que entregar o táxi, o passageiro tá atrasado prá Congonhas. Vê se dá um jeitinho...

O tenente da PM olhou prá dentro. Quarentão de duras feições talhadas em pedra, olhos fundos e inexpressivos, boina escura. Na mão uma INA...

— É táxi? Então pode seguir.

Muito lentamente, o pé levinho no acelerador, o nosso anjo da guarda passou os últimos homis armados, deu um teloguinho prá eles e seguiu em frente, enquanto nós ressuscitávamos no banco de trás.

pp. 134-143

 

Carbonário. [Do it. carbonaro, ‘carvoeiro’] S. m. 1. Membro de uma sociedade secreta e revolucionária que atuou na Itália, França e Espanha no princípio do século XIX. 2. P. ext. Membro de qualquer sociedade secreta e revolucionária.

Sirkis, Alfredo. Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida. São Paulo: Editora Parma, 1981.

 

Leia também os posts:

Sirkis conta como sequestrou o embaixador alemão

Movimento estudantil quebra as vidraças do imperialismo

Luta armada, camburão e um tal de periquito

 

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRA.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suíço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

RSS
Enquete
Qual tema você mais quer ver no Blog Comunistas?
Rússia/União Soviética
Ditadura militar e guerrilha
Vietnã
Cuba
China

Em Memória de Douglas Prima
membros online
Blog Categories
No categories created.
Recent Comments
"Obrigado, dessa eu não sabia."
In: Mapas estereotipados mostram o mundo na visão dos americanos
by: eduardolm17

This website is powered by Spruz

David Furman