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Videla: o que há para lamentar na morte do genocida Tags: ditadura militar Argentina genocídio Videla ditador desaparecidos mortos

 

Videla: o que há para lamentar na morte do genocida
Videla se foi e, para mim, restou um consolo e uma humilhação. O consolo: ele morreu numa cela comum, depois de ter sido julgado – com o direito à defesa que ele não concedeu a ninguém – e condenado. Morreu preso, querendo chegar ao banheiro. A humilhação: nós, brasileiros, continuamos vendo os êmulos do genocida perambulando livres por aí. Outro dia, um desses seres covardes, Carlos Brilhante Ustra, apareceu defendendo o que fez. O artigo é de Eric Nepomuceno
 
Há uma única coisa a lamentar na morte do general Jorge Rafael Videla: seu silêncio. 
 
Ele foi-se embora sozinho, abandonado por quase todos os seus pares e execrado pelos argentinos, e levando segredos que, se revelados, mudariam a vida de milhares de pessoas. Pessoas que saberiam como foram mortos os desaparecidos, e o que foi feito com seus restos, e saberiam da trama obscura e perversa do roubo de bebês, e as avós achariam seus netos roubados, e as mães saberiam de seus filhos mortos. 
 
Essa a única coisa a lamentar na morte do verdugo: os segredos que ele, covarde vil, levou para o inferno.
 
Morreu de forma justa: sua saúde vinha se deteriorando pouco a pouco, e na noite da quinta-feira, dia 16 de maio, teve aquilo que as boas famílias chamam de ‘indisposição gástrica’. Um problema, digamos, intestinal. E foi assim que ao amanhecer da sexta-feira tentou chegar ao banheiro. Não conseguiu: caiu duro no chão. 
 
Foi encontrado com as pupilas dilatadas e um esgar marcando seu rosto tenebroso, a boca cerrada para sempre. Aquela boca de gente ruim, sempre tensa, mesmo quando proferia absurdos. A boca que nunca se abriu para fazer nada que valesse a pena.
 
Morreu numa cela comum, num presídio militar a escassos 50 quilômetros de Buenos Aires. Uma cela com algum conforto: cama, mesinha de luz, relógio despertador, o inevitável crucifixo. Sim, porque Videla era um católico radical, um fundamentalista de comungar dia sim e o outro também, e que viveu ao amparo da Igreja Católica até o último suspiro. Apesar do que fez e mandou fazer, apesar de tudo, nunca foi excomungado.
 
Sim, sim: levou para a tumba um segredo perverso: onde estão os bebês que nasceram em campos clandestinos de concentração e foram dados de presente para policiais e militares? Onde estão os corpos dos desaparecidos? E por quê continuar chamando de desaparecidos os que a ditadura que ele impôs, dirigiu e orientou, assassinou?
 
Lembro bem de Videla chegando ao poder, integrando uma junta militar que no dia 24 de março de 1976 mergulhou a Argentina num oceano de breu e sangue. Eu morava em Buenos Aires, e trago recordações permanentes do turbilhão de violência e desmando que foi o país a partir da morte de Juan Domingo Perón. 
 
Assim que María Estela Martínez de Perón, a ex bailarina de cabaré no Panamá que se fazia chamar de Isabelita Perón, assumiu a presidência, começou o horror. 
 
Uma das figuras mais nefastas e bizarras da história argentina, o ex cabo de polícia José López Rega, assumiu, de fato, o poder. Isabelita era apenas uma idiota cercada de pompa e circunstância. O país passou a navegar à deriva, e o pesadelo rapidamente foi tomando forma: um grupo de extrema-direita, a Triple A – Aliança Anticomunista Argentina – desandou a matar a granel. E nas sombras, sorrateiro, o general Videla foi cimentando os alicerces do que viria depois. 
 
Sim, sim: lembro bem de Videla chegando ao poder, de seu ar prepotente e gelado, prometendo – ao lado do opaco brigadeiro Orlando Agosti e do mefistofélico almirante Emilio Massera – reorganizar o país. E de como logo de saída começaram as mortes, as torturas trucidando homens e mulheres, os desaparecimentos. Institucionalizando o pavor. As pessoas sumiam, tragadas pelo ar, e nunca mais de ouviu falar delas. 
 
E tudo isso, diga-se de passagem – é importante lembrar – com o apoio ou a omissão cúmplice de boa parte da sociedade, principalmente a portenha. Naqueles primeiros meses, quando se comentava que alguém tinha sumido, era comum ouvir como resposta um seco ‘por algo será’. E assim, muito rapidamente, o medo foi se impondo, assumindo o lugar da omissão, e o silêncio se instalou no país. 
 
O medo e o silêncio foram a terra abonada para que se instaurasse o horror que durou sete infindáveis anos e deixou marcas permanentes nos argentinos que vieram antes, nos que viveram aqueles tempos e se calaram, nos que viveram aqueles tempos e conseguiram sobreviver. 
 
Videla se tornou, sim, e com razão, o rosto abjeto de uma era de breu. Mas foi apenas o rosto visível, não o único rosto. 
 
Quando ele encabeçou o golpe, as organizações de esquerda, tanto as armadas quanto as desarmadas, estavam desmanteladas. O golpe militar e a implantação da ditadura mais sanguinária tiveram um único objetivo: impor uma política econômica determinada a fazer com que uns poucos ganhassem mais que nunca e uns muitos perdessem mais que nunca. 
 
Os efeitos dessa política econômica se fazem sentir até hoje. Aliás, já em democracia, um ex preso político, uma figurinha tão bizarra como sinistra chamada Carlos Menem, redobrou as aberrações da economia. Não por acaso, foi esse Menem quem ditou uma lei de indulto para os genocidas, entre eles Jorge Rafael Videla.
 
Sim, sim: lembro de Videla como lembro meus anos jovens naquela Argentina desvairada. E lembro de meus amigos que ele mandou matar, e de meus amigos que tiveram de se exilar, e de tanta coisa e tanta gente que sumiu na longa noite de trevas que durou curtos e tão permanentes sete anos. 
 
Videla caiu em 1981, e vieram outros generais bizarros. Ele não caiu pelos horrores que fez, mas pelos desvarios da economia que cometeu. Incrível, isso: o genocida caiu não por genocida, mas por ter esgotado uma política econômica que afundou a Argentina enquanto beneficiava alucinadamente uma meia dúzia de grupos empresariais.
 
Resta, disso tudo, um consolo e uma humilhação. 
 
O consolo: essa besta fera morreu numa cela comum, depois de ter sido julgado – com o direito à defesa que ele não concedeu a ninguém – e condenado. Morreu preso, querendo chegar ao banheiro. 
 
A humilhação: nós, brasileiros, continuamos vendo os êmulos do genocida perambulando livres, leves e soltos por aí. 
 
Outro dia, um desses seres covardes, brilhantemente desprezíveis, apareceu defendendo o que fez. E o que fez foi torturar, trucidar, pessoas. 
 
O imundo em questão tem nome e sobrenome: Carlos Brilhante Ustra.
 
Videla teve e tinha a mesma empáfia, quando comparecia a tribunais. A diferença que nos humilha é simples e clara. Videla teve e tinha a mesma empáfia enquanto declarava vindo e voltando para uma cela de preso comum. 
 
Brilhante Ustra teve e tem a mesma empáfia vindo e voltando para casa. 
 
Imunda casa. Imunda história. 
 
Fonte: Carta Maior
 
Documentário: Do Horror à Memória

 

Ditadura Militar - A farsa na morte de Marighella Tags: Ditadura Militar assassinato de Marighella Marighella morto guerrilha luta armada guerrilha urbana comunistas brasileiros OBAN Fleury ALN

 

A farsa na morte de Marighella

Por Alan Rodrigues

A primeira foto acima, à esquerda, correu o mundo depois da noite de 4 de novembro de 1969. Ela era vista como prova da iminente vitória do governo contra a oposição armada à ditadura militar brasileira. Carlos Marighella, 58 anos, o terrorista mais caçado do País, líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização responsável por dezenas de assaltos a bancos e explosões de bombas, estava morto. Amigo de Fidel Castro, celebrado pela Europa como principal comandante da guerra revolucionária na América do Sul, Marighella tinha levado quatro tiros numa emboscada policial na alameda Casa Branca, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Segundo a versão dos militares, o guerrilheiro fora atraído para um “ponto” com religiosos dominicanos simpatizantes da ALN e trocara tiros com os agentes que varejavam o local do encontro. Um conceituado fotógrafo da revista “Manchete”, Sérgio Vital Tafner Jorge, então com 33 anos, fez o clique da câmara rolleiflex que registrou Marighella estirado no banco traseiro do fusca dos dominicanos. Barriga à mostra, calça aberta, dois filetes de sangue escorrendo pelo rosto.

“Foi tudo uma farsa”, revela agora à ISTOÉ Sérgio Jorge, que está com 75 anos. “Eu vi os policiais colocando o Marighella no banco de trás do carro”. Naquela noite, Jorge estava no Estádio do Pacaembu à espera dos melhores ângulos de um Corinthians x Santos quando ficou sabendo da morte do guerrilheiro. Ele abandonou o estádio antes mesmo de a notícia ser confirmada pelos alto-falantes do Pacaembu e recebida com um urro de comemoração pela torcida. Acompanhado de outros quatro fotógrafos, Jorge chegou à alameda Casa Branca pouco depois das 20 horas. O que ele viu ali – e foi proibido de documentar – era diferente do que aparece na famosa foto estampada depois nas páginas da “Manchete” e em dezenas de outras publicações. Jorge está decidido a contar para a Comissão da Verdade, que o governo federal vai instalar no próximo mês, a armação que testemunhou. Já foi pensando nisso que, no mês passado, com a ajuda de um amigo que serviu de modelo e um fusquinha emprestado, Jorge procurou reproduzir numa nova foto exatamente o que presenciou no dia 4 de novembro de 1969. O resultado é a segunda cena da página anteior, à direita: o amigo de Jorge, representando Marighella, ocupa o banco da frente do carro, numa posição distinta daquela que a polícia fez questão de espalhar. Eram os anos de chumbo e havia muita coisa para ser escondida.

 

Os mais famosos retratos da ditadura começam a contar suas verdadeiras histórias. Sérgio Jorge ganhou coragem de revelar a farsa da morte de Marighella depois que o fotógrafo-perito Silvaldo Leung Vieira contou, no dia 5 de janeiro, ao jornal “Folha de S. Paulo” que sua foto do jornalista Vladimir Herzog morto nas dependências do DOI-Codi, em 1975, era – como já se sabia – uma encenação criada pelos militares. Vieira está atrás de uma indenização do Estado brasileiro, pois julga que teve prejudicada sua carreira de funcionário público. Já Sérgio Jorge quer apenas acertar contas com o passado. “Vi que tinha chegado a hora de contar. O Brasil mudou”, diz ele. Durante mais de 40 anos, Jorge remoeu os fatos daquela noite, que é capaz de reconstituir em detalhes. Ele e os outros fotógrafos, logo que chegaram à alameda Casa Branca, foram recebidos aos gritos pelo temido delegado do Dops, Sérgio Paranhos Fleury, o homem que comandou o cerco a Marighella. “Não quero ouvir um clique! Todos encostados no muro, com as máquinas no chão!”, ordenou Fleury. Ninguém ousou desobedecer. “Era uma loucura, ficamos vendo tudo aquilo acontecer sem poder registrar nada”, diz Jorge. Marighella estava no banco da frente, com uma perna para dentro do carro e outra para fora, os dois braços caídos e quase nada de sangue na roupa. Três policiais retiraram o corpo do fusca (veja reconstituição acima) e o deitaram na calçada. Abriram a calça de Marighella e revistaram seus bolsos. Tentaram, então, recolocá-lo no banco de trás. “Mas não conseguiam e foi preciso que um dos policiais desse a volta no automóvel e puxasse o corpo para dentro.” A ação durou cerca de 40 minutos até que os fotógrafos foram autorizados a fotografar. Chegando perto do carro, Sérgio Jorge pôde ver que havia uma pasta atrás do banco dianteiro e, sobre o assento de trás, uma peruca e uma capa.

Na presença de Sérgio Jorge e dos demais fotógrafos, os policiais, sem nenhum constrangimento, encenavam um número que viria a se tornar corriqueiro naqueles tempos: o teatro do confronto entre guerrilheiros urbanos e as forças da repressão. A ditadura no Brasil deixou um saldo macabro de 475 adversários mortos, 163 deles ainda desaparecidos. Foi a partir de 1969, o ano da morte de Marighella, que o regime militar ingressou em seu período mais duro e a eliminação de inimigos passou a ser regra. As execuções de militantes de esquerda, sem chance de prisão, tornaram-se tão comuns quanto os laudos fantasiosos de inquéritos policiais destinados apenas a escamotear uma política oficial de extermínio. No caso de Carlos Marighella, o esclarecimento de sua morte é especialmente problemático, pois existem pelo menos três versões conflitantes para ela. Primeiro há a versão dos militares, segundo a qual ele foi varado por uma rajada de metralhadora quando, do banco de trás do fusca dos dominicanos, reagiu a tiros a uma ordem de prisão do delegado Fleury. A perícia, entretanto, acabou concluindo que não saíra um tiro sequer da arma de Marighella. Desse modo, a tese da polícia parece não ser mais que um esforço para esconder a provável execução sumária do guerrilheiro, além de uma tentativa de driblar uma complicação extra do episódio: a suspeita de que, naquela noite, foi o fogo amigo que matou também uma jovem policial e um dentista alemão que casualmente passava pelo local no momento do tiroteio (outro delegado, um desafeto de Fleury, acabou baleado na virilha). A segunda versão é a dos dois frades dominicanos que a polícia usou como isca para Marighella. Em seu julgamento, os religiosos sustentaram que o guerrilheiro foi executado no meio da rua, longe do fusca em que eles estavam. Por fim, o Grupo Tortura Nunca Mais, em 1996, adotou as conclusões de um laudo em que legistas garantem que Marighella foi morto com um tiro no peito à queima-roupa, que seccionou-lhe a aorta, e alvejado ainda por outros três disparos.

Carlos Marighella era autor do “Manual do Guerrilheiro Urbano”, um confuso texto de 50 páginas que jovens esquerdistas de todo o mundo liam como uma bíblia. Figura principal dos cartazes amarelos que a ditadura espalhava com retratos de terroristas, vinha sendo caçado pelo Dops e monitorado pela máquina de informações dos Estados Unidos. Um ano antes de sua morte, o consulado americano em São Paulo já informara seu governo sobre as relações de Marighella com os dominicanos. Agora, o depoimento exclusivo de Sérgio Jorge à ISTOÉ – e que ele se dispõe a prestar também à Comissão da Verdade, instituída pelo governo para esclarecer as mortes ocorridas durante a ditadura – poderá jogar uma nova luz sobre os fatos, embora ainda seja difícil fazer conjecturas sobre as intenções específicas dos policiais que transferiram o corpo de Marighella para o banco de trás do carro.

Sérgio Jorge foi o primeiro fotógrafo do País a ganhar o Prêmio Esso de Jornalismo. Ele conta que, quando chegou à redação da “Manchete” com a foto do cadáver de Marighella, teve o cuidado de relatar a seu chefe a armação que tinha visto. Ouviu como resposta que a versão de Fleury seria a definitiva e, sempre avesso à política, resolveu se calar. “Todo mundo me dizia para não me meter com essas coisas que era muito perigoso”, diz ele. O caso só voltou a perturbá-lo cinco anos atrás, no momento em que começou a selecionar fotografias para um livro em seu arquivo pessoal, com mais de 60 mil imagens. As fotos de Marighella não estão com ele: foram parar num arquivo da revista “Manchete”, recentemente leiloado. “Dos fotógrafos que estavam comigo naquele dia, só eu estou vivo. Cheguei à conclusão de que não posso levar para o túmulo a história verdadeira”, diz Sérgio Jorge. “Sempre tive muito medo, mas com a Comissão da Verdade acho que chegou a hora.”

Nilmário Miranda, um dos representantes da comissão do Ministério da Justiça que, em 1996, responsabilizou o Estado brasileiro pela morte de Marighella, considera importante o depoimento de Sérgio Jorge. “Isso vai ajudar a Comissão da Verdade a regatar os fatos históricos”, diz ele. “Ao invés de suicídios, assassinatos cruéis. Ao invés de fugas da prisão, desaparecimentos forçados. Ao invés de tiroteios simulados, execuções à queima-roupa.” O advogado de presos políticos Mário Simas, que foi a primeira voz a afrontar a versão oficial da morte de Marighella, quando fazia a defesa dos frades dominicanos, espera que o depoimento de Jorge possa, finalmente, contribuir para o esclarecimento do caso. “No processo, lancei dez dúvidas sobre a versão oficial que nunca foram respondidas pelo Estado”, diz ele. Simas, que presidiu a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, não tem dúvidas sobre o modo de ação da polícia: “O delegado Fleury era um caçador sem escrúpulos, que não respeitava nada para chegar a seus objetivos.”

Aos 86 anos, a mulher de Marighella, Clara Charf, se espanta ao saber das revelações de Sérgio Jorge. Ela estranha que seu marido, que não sabia dirigir, estivesse ocupando o banco do motorista do fusca. Mas acredita que este depoimento possa enterrar de vez a versão “mentirosa” da polícia. “É um impulso muito grande para a revisão da história”, diz ela. É uma expectativa idêntica à do ex-militante Otávio Ângelo, certamente um dos últimos companheiros que viram Marighella vivo. Membro do Grupo Tático Armado da ALN, Otávio Ângelo estava no derradeiro “ponto” que Marighella cumpriu no fim da tarde do dia 4 de novembro de 1969, antes de ir para a alameda Casa Branca. Eles se encontraram no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo e, segundo Otávio Ângelo, Marighella se mostrava muito preocupado com a segurança da organização por causa da prisão de vários militantes. “Ele parecia nervoso, apreensivo”, relembra. “Falava que estávamos no cerco e que, se não conseguíssemos sair desse cerco, não sobreviveríamos.” A previsão de Marighella, como se vê, acabaria cumprida em poucas horas.

Fonte: Escrevinhador

 

Foto de Dilma no tribunal: a estetica de Deus Tags: Dilma Rousseff guerrilha foto inédita Dilma tribunal militar Comissão da Verdade luta armada mortos desaparecidos ditadura militar tortura

 

Foto de Dilma no tribunal: 

a estética de Deus

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Quando vi esta foto pela primeira vez eu tive muita vontade de escrever sobre ela, mas encontrei textos tão bons como esse abaixo que achei melhor apenas reproduzi-los. É um texto do Paulo Ghiraldelli, conhecido como o filósofo da cidade de São Paulo. Ele tem excelentes vídeos no youtube sobre assuntos da atualidade abordados com uma visão filosófica.

 

A ESTÉTICA DE DEUS

Por Paulo Ghiraldelli

The human body is the best picture of the human soul.

Ludwig Wittgenstein

O autor da foto fez o registro que tinha de fazer. Provavelmente, tirava dezenas dessas por dia. Uma garota que havia estado até então presa, estava ali, na cadeira, seríssima – fazendo força para parecer inteira após vinte e dois dias de tortura. No fundo da cena, não homens com roupas comuns, mas homens com o uniforme das nossas Forças Armadas.

Aqueles homens ali do fundo eram sustentados, na época, pelos pais de Dilma Roussef, a garota da foto, bem como pelos meus pais e avós. Sim, como brasileiros trabalhadores que pagavam certinho os impostos, os pais de Dilma e os meus e de muitos outros brasileiros, queriam que o Exército Brasileiro funcionasse e nos protegesse. Aqueles homens ali, imponentes com suas fardas e coturnos, eram o exemplo de coragem do Brasil. Por isso mesmo, de tanta coragem que tinham no rosto, resolveram na hora da foto se esconderem com as mãos. Dilma, olhando para a frente, mostra completo desconhecimento em relação  ao que fazem os borra-botas que estão ali ao lado dela.

Por que esconder a face? Por causa da possível vingança dos “truculentos guerrilheiros comunistas”? Dá bem para ver o “físico” da guerrilheira! E vingança de quem? Meia dúzia de garotos universitários, alguns completamente ingênuos, iriam vingar o que? Estavam caindo presos um a um, não tinham nenhuma medida das forças que estavam se propondo a enfrentar. No entanto, rostos sérios, focados, honestíssimos como o de Dilma, deveriam chocar os militares. Cobriam o rosto não só pelo medo, mas também pela vergonha. E mais que isso: cobriam o rosto porque sabiam muito bem que tudo aquilo, apesar de parecer legal, não era legal, muito menos legítimo.

O mais fantástico dessa foto é que os militares que tamparam o rosto sabiam, também, que nenhuma foto seria publicada. Não só o país estava sob censura como também aquelas fotos, tiradas ali, não iriam sair do controle dos arquivos militares – tanto é que, por vias oficiais, ainda não vieram a público até hoje. Mas a covardia e a vergonha eram tamanhas que eles não podiam mostrar os olhos. Eles estavam ali, no ambiente de um tribunal militar, tudo arrumado formalmente para que a atividade se parece, ao menos para eles mesmos, como algo moralmente correto e legalmente justo. Mas, o circo estava com a lona rasgada e o picadeiro, se não aparecia para cidade, ao menos era visto por eles mesmos.

O contraste dos rostos cobertos pelas mãos se faz presente nas sobrancelhas da garota Dilma. Marcadas como até hoje são, essas sobrancelhas cuidavam de dois olhos felinos, aríetes negros de uma alma inquebrantável. Qualquer um que jamais tenha um pingo de conhecimento do Brasil, ao olhar essa foto, não consegue não ver esse contraste entre o rosto da moça, no pedestal da altivez, e o rosto fugidio dos militares, encolhidos na baba que deveria estar-lhes escapando da boca.

Quando um brasileiro entender que o Brasil pode fazer bom cinema porque não só tem boas histórias, mas heróis de verdade em narrativas verdadeiras, não haverá festival mundial de filmes que não ganharemos. Daí então começaremos e ensinar história para a nossa juventude, para o nosso Brasil, como já fizeram os americanos e outros povos em relação às suas nações.

Essa foto transcende a política. É uma imagem que está além das disputas do passado e das divergências partidárias do presente. É uma foto para que o jovem brasileiro, de qualquer orientação teórica e ideológica, ou mesmo sem nenhuma, possa pensar no que a estética lhe diz. E essa estética está dizendo tudo que nenhum conceito parece apreender: há ali mocinhos e bandidos, e seja quem for que olhe, ele saberá quem é quem. Estranho destino de uma foto, a de falar pelo maniqueísmo, sempre tão longe da verdade, o que há de mais verdadeiro entre nós. E o que há de mais verdadeiro entre nós é isso: houve um tempo que a juventude fez alguns adultos se sentirem exatamente o que eles eram: ratos de esgoto uniformizados.

Paulo Ghiraldelli Jr, filóso, escritor e professor da UFRRJ

Fonte: Blog do Filósofo

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRAALOÍZIO PALMAR.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

 

A verdade não esconde o rosto: ​por Brizola Neto Tags: Dilma Rousseff guerrilha foto inédita Dilma tribunal militar Comissão da Verdade luta armada mortos desaparecidos ditadura militar tortura

 

A verdade não esconde o rosto

​Por Brizola Neto

 

Dilma no tribunal militar

A foto ao lado, que ilustra o livro “A vida quer coragem”, de Ricardo Amaral, a ser lançado nos próximos dias, foi publicada pela revista Época, uma biografia de Dilma Rousseff. Não conheço o livro, para que dele possa falar.

Mas a foto, como tantas vezes acontece, diz em silêncio tantas coisas que, escritas, obrigariam a longos raciocínios.

As mãos que encobrem o rosto dos oficiais que se sentavam no tribunal militar que julgaria e condenaria a “subversiva” tinham todo o poder, todo o mando, mas tampavam suas faces.

Não, não era medo de ataques da guerrilha, porque seus nomes eram sabidos e pouco ou nada lhes adiantaria esta “máscara” manual.

Era, talvez, o gesto inconsciente da vergonha que o olhar e a expressão altiva de uma moça de pouco mais de 20 anos tinha ao enfrentar aquele abuso, mesmo depois de dias e dias de tortura e maus-tratos.

A foto deveria ser o inverso, os olhares reprovadores e duros dos juízes, o rosto enterrado entre as mãos do desespero de quem agiu como sua consciência mandava e que, agora, tinha de enfrentar o cárcere na fase mais luminosa da vida.

Mas a história tem seus caprichos e ironias, mesmo demorados e dolorosos.

Aqueles rostos escondidos perderam-se no tempo. As mãos que os encobrem também os expõem, às suas consciências, hoje.

Mas não são as mãos dos rostos que a Comissão da Verdade deve tirar, porque os homens das fotos estavam, dentro do arbítrio, presos aos limites “legais” da própria ditadura.

Foram cúmplices daquele período que não pode mostrar o rosto, como eles.

O que é preciso tirar, sim, são os capuzes dos que humilharam, torturaram, abusaram e mataram centenas de jovens como a da foto e outros, nem tão jovens, como Rubens Paiva.

É para isso, para lhes tirar os capuzes e deixar que, como todos, tenham de enfrentar o julgamento público pelo que fizeram.

Os nossos juízes, civis, que recusam o óbvio e negam o compromisso do Brasil ante o mundo de considerar tortura e assassinato político imprescritíveis, muito mais razões têm que aqueles oficiais para encobrirem seus rostos.

Porque condenam não uma pessoa, mas o direito desta Nação de  nunca mais haja capuzes para acobertar a violência e a brutalidade neste país.

Fonte: Tijolaço

 

Ditadura Militar: O assassinato de Marighella Tags: Ditadura Militar assassinato de Marighella Marighella morto guerrilha luta armada guerrilha urbana comunistas brasileiros OBAN Fleury ALN

 

O assassinato de Carlos Marighella

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Marighella (direita) junto com sua família

 

Dia 4 de novembro foi celebrado o aniversário da morte de Carlos Marighella. Líder da ALN, Marighella foi assassinado na Alameda Casa Branca em São Paulo. Abaixo eu reproduzo um trecho do livro Olho por olho do jornalista Lucas Figueiredo. Ele comenta partes do ORVIL, livro secreto do Exército descoberto em 2007 (mais detalhes no post Para o Exército PT seria  incubadora de terroristas) em que a morte do guerrilheiro é descrita com detalhes.

 

Nas prisões, sustentava o Orvil, o que havia eram confissões espontâneas. “Com exceção de militantes com formação ideológica mais sólida, a abertura de todo o conhecimento passou a ser uma conduta comum aos presos”, dizia o livro secreto. Dessa forma, 90% ds prisões efetuadas pela repressão seriam fruto da traição de “militantes despreparados e sem convicção’ Dezenas de episódios envolvendo supostos atos de perfídia foram descritos no Orvil— entre eles, um que envolvia nada menos que a morte de Carlos Marighella. Pela versão do Orvil, na caça ao líder máximo da guerrilha urbana país, a repressão foi comendo pelas beiradas até que, em outubro de 1969, pôs as mãos em Paulo de Tarso Venceslau, importante dirigente da ALN. Levado para a sede da Oban - a Operação Bandeirante, organismo antissubversão de São Paulo que serviu de modelo para os DOI—Codi em todo o país—,Venceslau de início teria negado no interrogatório qualquer ligação com a ALN. Mas por fim, contava o livro secreto, “pressionado insistentemente” com uma pergunta (“Como faria contato com a organização caso fosse colocado em liberdade?”), o guerrilheiro acabou confessando que discaria o número 62.2324, do Convento dos Dominicanos, no bairro Perdizes, e falaria com certo frei Ivo. (A história real é bem diferente: Venceslau foi triturado na Oban, entrou em coma e por pouco não morreu. Apesar de ter o número do telefone do convento anotado no talão de cheques, a pista passou desapercebida pelos agentes da Oban.) No dia seguinte à prisão de Venceslau, frei Ivo (Yves do Amaral Lesbaupin) foi detido junto com frei Fernando de Brito, outro dominicano que rezava pela bíblia de Marighella. Na descrição do Orvil, os religiosos “fraquejaram diante da realidade da prisão e do desmascaramento” e terminaram por abrir boa parte da estrutura clandestina da ALN. Confessaram que, quando desejava fazer contato, Marighella ligava para a livraria Duas Cidades, onde trabalhava um dos frades. “Colaborando” com a repressão, segundo o Orvil, dois dias depois de ser preso o contato de Marighella foi levado para a livraria. Na hora marcada, o frade atendeu o telefonema do guerrilheiro e, utilizando códigos, combinou um encontro.

No horário combinado, sob a mira dos agentes da Oban, frei Fernando e frei Ivo pararam o Fusca no local acertado com Marighella -  o número 806 da alameda Casa Branca, nos Jardins —, servindo de isca viva na armadilha montada para agarrar o veterano comunista, de 57 anos. Quando Marighella entrou no carro e tomou assento no banco traseiro, os religiosos saíram correndo, abrindo espaço para a fuzilaria que matou o líder da ALN. (É fato que Fernando e Ivo forneceram as informações sobre o sistema de segurança de Marighella e participaram do teatro na livraria Duas Cidades e na alameda Casa Branca. Mas classificar o ato puramente como fruto de uma “fraqueza” não exprime tudo o que aconteceu. Fernando e Ivo falaram numa sessão de tortura comandada pessoalmente pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, no quinto andar do Ministério da Marinha, onde funcionava o Cenimar. No início do interrogatório, os religiosos ainda tentaram resistir, dando informações falsas. Mas, como estavam em câmaras de tortura separadas, era fácil para Fleury descobrir que estavam mentindo, pelas contradições existentes entre um depoimento e outro. O que os fez “fraquejar” foram o pau de arara, os choques e espancamentos. Fernando teve o maxilar deslocado, e enfiaram uma espécie de arame na sua uretra. Ivo foi surrrado com um cano de borracha, levou chutes e murros. Ao omitir as “técnicas” de investigação empregadas, os agentes-pesquisadores do CIE jogaram toda a responsabilidade sobre os ombros dos frades. O título do capítulo aliás foi feito sob medida para a trapaça: “Os dominicanos levam Marighella à morte”.

O delegado que martirizou os frades e comandou a execução de Marighella recebeu do Orvil tratamento de herói. Fleury -  líder do esquadrão da morte de São Paulo no início da década de 1960, requisitado pelos militares para atuar no DOl-Codi justamente por causa de sua eficiência em caçar e matar seres humanos -  foi retratado no livro secreto como “incansável lutador contra o terrorismo no Brasil”. A exemplo do delegado Octavinho, Fleury foi chamado de “doutor”.

Figueiredo, Lucas, 1968

   Olho por olho: os livros secretos da ditadura / Lucas Figueiredo. - Rio de Janeiro: Record, 2009.

 

A MORTE DE MARIGHELLA: FILME BATISMO DE SANGUE

Cena do filme "Batismo de Sangue" (2007), de Helvécio Ratton, baseado no livro homônimo de Frei Betto, em que Carlos Mariguella é assassinado pelos agentes do DEOPS paulista.

 

HOMENAGEM A MARIGHELLA

Ex-companheiros de Carlos Marighella (ALN) prestam homenagem no dia 4 de novembro, em memória ao seu assassinato em 1969 pelas forças militares. Além das flores diante de uma pedra que marca o local exato da morte, militantes fizeram uma troca simbólica das placas da Alameda Casa Branca para Alameda Carlos Marighella, em São Paulo.

 

POESIAS DE MARIGHELLA

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,

e, ânimo firme, sobranceiro e forte,

tudo farei por ti para exaltar-te,

serenamente, alheio à própria sorte.

 

Para que eu possa um dia contemplar-te

dominadora, em férvido transporte,

direi que és bela e pura em toda parte,

por maior risco em que essa audácia importe.

 

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,

que não exista força humana alguma

que esta paixão embriagadora dome.

 

E que eu por ti, se torturado for,

possa feliz, indiferente à dor,

morrer sorrindo a murmurar teu nome”

São Paulo, Presídio Especial, 1939

 

 

O país de uma nota só

Não pretendo nada,

nem flores, louvores, triunfos.

nada de nada.

Somente um protesto,

uma brecha no muro,

e fazer ecoar,

com voz surda que seja,

e sem outro valor,

o que se esconde no peito,

no fundo da alma

de milhões de sufocados.

Algo por onde possa filtrar o pensamento,

a idéia que puseram no cárcere.

 

A passagem subiu,

o leite acabou,

a criança morreu,

a carne sumiu,

o IPM prendeu,

o DOPS torturou,

o deputado cedeu,

a linha dura vetou,

a censura proibiu,

o governo entregou,

o desemprego cresceu,

a carestia aumentou,

o Nordeste encolheu,

o país resvalou.

 

Tudo dó,

tudo dó,

tudo dó...

E em todo o país

repercute o tom

de uma nota só...

de uma nota só...

 

 

Rondó da Liberdade

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

 

Há os que têm vocação para escravo,

mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

 

Não ficar de joelhos,

que não é racional renunciar a ser livre.

Mesmo os escravos por vocação

devem ser obrigados a ser livres,

quando as algemas forem quebradas.

 

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

 

O homem deve ser livre...

O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,

e pode mesmo existir quando não se é livre.

E no entanto ele é em si mesmo

a expressão mais elevada do que houver de mais livre

em todas as gamas do humano sentimento.

 

É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.

Fonte: http://www.carlos.marighella.nom.br/

 

MÚSICA DE MANO BROWN EM HOMENAGEM A MARIGHELLA

 

DEPOIMENTO DO FILHO DE MARIGHELLA

 

Veja o documentário Marighella: retrato falado do guerrilheiro

Veja o filme Batismo de Sangue sobre a participação dos frades dominicanos na guerrilha 

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRAALOÍZIO PALMAR.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

 

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