Maria Amélia Almeida Teles foi presa com o marido César no DOI-CODI, em São Paulo, nos anos 70. Os filhos de 5 e 4 anos de idade foram levados para ver os pais sob tortura. A família Teles foi a primeira a mover uma ação de responsabilidade civil bem sucedida contra o homem que comandou o centro de tortura durante 4 anos, o então major Carlos Alberto Brilhante Ustra. Amelinha, como é conhecida, hoje integra a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, que investiga os crimes da ditadura militar.
Na entrevista acima, Amelinha se refere a Danielli, Carlos Nicolau Danielli, morto sob tortura no DOI-CODI; e à sede da 36a. delegacia, que fica na rua Tutoia, em São Paulo, sede do mais conhecido centro de tortura do Brasil.
Nos primeiros anos do regime militar (1964-1985), os focos de insurgência armada haviam sido sufocados e a maioria dos líderes políticos de esquerda estava presa ou vivia no exílio. Nesse clima de aparente legalidade, a população se inclinava a apoiar os militares, instigada pelo discurso oficial de combate à ameaça subversiva. Um nome, contudo, era temido nos bastidores do poder: Leonel de Moura Brizola.
Enquanto respirava a brisa do Rio da Prata, no Uruguai, Brizola comandava operações, treinava guerrilheiros e recebia auxílio financeiro de Cuba e de ultranacionalistas brasileiros com objetivo de derrubar a ditadura. A versão sobre as atividades do trabalhista e o papel de Cuba no apoio de grupos extremistas na América Latina estão descritos em um calhamaço de papeis da CIA — a agência de inteligência americana — enviados ao governo brasileiro, ao qual ZH teve acesso.
Intitulado Intelligence Handbook, o dossiê da agência se detém em descrever em dezenas de páginas a ação dos grupos contrários ao regime, com foco sobre o Movimento Nacional Revolucionário (MNR) de Brizola, considerado como o mais “ativo” grupo de oposição ao regime. A documentação é datada de fevereiro de 1968.
A teia de relações de Brizola é descrita em minúcias, bem como os homens que formavam o seu establishment: Paulo Shilling — um dos fundadores do Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master), uma organização precursora do MST —, o ex-deputado Neiva Moreira e o coronel do Exército Dagoberto Rodrigues, ex-diretor do Departamento de Correios e Telégrafos no governo João Goulart.
Os tentáculos de Brizola se estenderiam pela Europa, onde seu contato era o ex-deputado Max da Costa Santos, que se encontrava exilado em Paris. Era ele quem viajava para Cuba através de uma conexão por Praga em busca de suporte para ações guerrilheiras.
Para a CIA, a indicação mais clara do envolvimento de Cuba é seu apoio ao grupo de exilados de Leonel Brizola. “Os couriers (mensageiros) cubanos contataram e financiaram insurgentes brasileiros no Uruguai e financiaram sua viagem a Cuba para treinamento em campos de guerrilha”, aponta o relatório.
Um estilo centralizador
Ainda segundo os documentos, Brizola arranjou um grau de proteção para ele próprio e sua organização no Uruguai desenvolvendo relações próximas com vários políticos e oficiais, bem como com grupos revolucionários daquele país, entre eles o Movimento Revolucionário Oriental e a Frente de Esquerda de Libertação (Fidel), ambos ligados ao regime cubano.
Àquela altura, Brizola já sofria com escassez de homens dispostos a “encarar os perigos e dificuldades encontradas pelas guerrilhas” e os relatos apontam o recrutamento de possíveis combatentes até no Paraguai.
Embora fosse financiado pelos revolucionários de Sierra Maestra e que membros do MNR eram constantemente treinados na ilha, Brizola se recusava a aceitar cubanos como integrantes do seu grupo, segundo a CIA, “provavelmente temendo perder o controle de sua organização”.
— Não resta dúvida que toda a pressão e carga era sobre o Brizola. Ele era o perigo — atesta Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, que considera fundamental que toda documentação venha à tona, mesmo que sob a ótica americana dos fatos.
Para a CIA, a “insistência” de Brizola em ser o único comandante de qualquer operação o teria colocado em desacordo com outros grupos brasileiros e contribuído para o seu “fracasso” em obter apoio unânime até entre os exilados no Uruguai.
Centralizador, o gaúcho em 1968 estaria cedendo espaço para outras agremiações guerrilheiras, como a Resistência Armada Nacionalista (RAN), sob a liderança do ex-almirante Cândido de Assis Aragão e que reunia antigos oficiais do Exército e da FAB.
O grupo contaria, conforme os dados da CIA, com uma rede de escape e uma base guerrilheira de apoio na Bolívia, onde foram encontrados contatos e nomes e endereços em Porto Alegre.
Até mesmo o suporte de Cuba Brizola estaria perdendo, em detrimento de outras lideranças como Carlos Marighella. Diante do suposto isolamento, o ex-governador estaria buscando outras fontes de financiamento através do governo da Argélia, onde Miguel Arraes estava exilado.
A atuação de Arraes é tida pela CIA como mais voltada para esfera política, sem ação “proeminente nos círculos revolucionários”. Já Brizola era mais temido, principalmente por, dois anos antes, ter posicionado um grupo paramilitar na serra do Caparaó, divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais, naquela que é tida como a primeira guerrilha da ditadura.
“O grupo foi recrutado, organizado, treinado, financiado e dirigido por Leonel Brizola”, enfatiza o relatório da CIA.
— Caparaó era a menina dos olhos do Brizola, mas foi um grande fracasso. Era um grupo muito bem preparado militarmente, mas que acabou se isolando da população e ficou sem condições psicológicas de resistir — relata o jornalista Flávio Tavares, que questiona a maioria dos informes da CIA já que eram baseados em dados do regime que nem sempre traduziam a verdade.
A documentação, contudo, não surpreende a família de Brizola. O filho João Otávio, 60 anos, afirma que se soube mais tarde que havia infiltrados da CIA no Uruguai monitorando seu pai e que foi a partir de 1968 que Brizola parou de arquitetar contra a ditadura.
— Antes disso, ele era uma máquina de conspirar e não tenho a menor dúvida de que tinha apoio de Cuba.
Uma descrição dos levantes
Ao longo das dezenas de páginas do relatório elaborado pela CIA há uma descrição de tentativas de levantes guerrilheiros ocorridos no país e da capacidade de as Forças Armadas sufocarem qualquer “esforço insurgente”.
Existia o temor de novos movimentos em Estados menos populosos como Mato Grosso, Goiás e Amazonas — o que de fato ocorreu no caso da Guerrilha do Araguaia. O dossiê destaca, contudo, que o Exército, precavido, começou a realizar manobras em áreas rurais e inóspitas e que a população estaria pronta a auxiliar na delação. “O Exército mantém uma boa reputação entre o povo por meio de programa de ação cívica.”
O foco embrionário de guerrilha tinha origem em Leonel Brizola. O mais sofisticado esforço teria ocorrido em 1966, na Serra do Caparaó, quando um grupo de cerca de 20 homens apoiados do exílio pelo gaúcho tentou recriar na região uma insurreição nos moldes cubanos.
Sem apoio dos camponeses enquanto aguardava instruções de Brizola, os guerrilheiros foram capturados no final de março de 1967. A unidade contava com apoio logístico de Bayard Demaria Boiteux, ex-presidente do PSB.
Junto aos guerrilheiros, a ponte de Boiteux era o ex-sargento Amadeu Rocha, a quem repassava dinheiro e remédios. “Amadeu depôs em interrogatório que Brizola gastou US$ 30 mil providenciado por Cuba no esforço em Caparaó”, aponta o dossiê da CIA.
Alguns integrantes dessa insurgência, segundo a CIA, teriam participado em 1965 de um incidente no Rio Grande do Sul em um destacamento militar em Três Passos.
Eles eram liderados por Jefferson Cardim, que fazia parte do grupo de exilados no Uruguai sob o guarda-chuva de Brizola. O relatório aponta que o levante teve inspiração brizolista, mas sua influência foi nula.
— Cardim estava brigado na época com Brizola. Ele agiu por conta própria quando cruzou a fronteira — assegura Jair Krischke, do MJDH.
A documentação também faz menção à prisão de um grupo de terroristas em Uberlândia (MG), em 1967, com “quantidades de explosivos químicos incendiários e armas”. O interrogatório dos presos incluiu o jornalista Flávio Tavares.
— O Grupo de Uberlândia nunca chegou a funcionar. Quis implantar um foco de guerrilha, mas foi infiltrado pela polícia. Se tornou apenas uma isca para levar à minha prisão — lembra Tavares, que nega que o grupo possuía armamentos.
Segundo o dossiê, Tavares teria sido recrutado por um membro do bando para contatar Brizola, com quem se encontrou duas vezes em janeiro daquele ano e teria intermediado para um instrutor de guerrilha viajar a Minas Gerais. O grupo foi desmantelado em julho.
— Na época, fiz um contato com Brizola, mas desconhecíamos que o grupo tinha se transformado em uma armadilha. Tudo o que o grupo fazia a polícia tomava conhecimento. O grupo não tinha relação com o Brizola — afirma o jornalista.
Preocupação com os “reacionários”
O relatório da CIA também tem um capítulo destinado à linha dura do regime, que representava uma “potencial ameaça” à estrutura política do país.
A preocupação com esses setores, classificados de “reacionários” pelo dossiê, envolvia não só oficiais aposentados, mas também militares da ativa — a maioria majores e coronéis — com ideias reformistas ligados ao ex-presidente Castelo Branco e que estariam exercendo certa pressão junto ao atual mandatário, Costa e Silva.
O temor se estendia a setores da sociedade como latifundiários (“abastados plantadores de café”) e industrialistas, que estariam descontentes com a reforma econômica e que, no passado, chegaram a se unir a nacionalistas em busca de uma legislação protecionista.
Nem mesmo o maior nome conservador da política escapou dos adjetivos da CIA. O ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda é tido como a figura política mais “perigosa” ao regime: “Ele é um oportunista esperto, com laços apertados com os conservadores, reacionários e oficiais militares linha dura”.
O relatório faz menção à Frente Ampla, movimento liderado por Lacerda e os ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek contra o regime, que pleiteava eleições diretas e a recuperação dos direitos cancelados com o golpe. O documento menciona que Lacerda estaria perdendo apoio entre os setores conservadores ao “cortejar” forças pré-revolucionárias.
A CIA e os grupos guerrilheiros
Zero Hora teve acesso a documentos da agência de inteligência norte-americana, a CIA, repassados pela ONG The National Security Archive ao governo brasileiro. Especializada na liberação de documentos secretos, a National é vinculada à Universidade George Washington. Ao todo, são 270 paginas, sendo 40 pertencentes ao “Livro de Inteligência” da CIA, de fevereiro de 1968.
A seguir, um resumo de como a CIA monitorava e analisava possíveis grupos exilados capazes de criar focos de “insurgência” no Brasil.
Movimento Nacional Revolucionário (MNR)
Grupo que concentrou sua organização no Uruguai após o golpe de 1964, o MNR era composto por militares contrários ao regime, porém também contava com civis. Segundo os documentos da CIA, era organizado por Leonel Brizola e recebia auxílio do governo cubano.
Trecho dos documentos: “Entre os vários grupos opostos ao governo existente, o MNR de Leonel Brizola é conhecido como o mais ativo”.
A Resistência Armada Nacionalista (RAN)
Concentrado em Montevidéu, era dominado por militares excluídos pelo regime, capitaneados pelo almirante Candido Aragão, mas também trazia antigas lideranças do Exército e da Força Aérea. O RAN se opunha às decisões do MRN e não reconhecia Brizola, um civil, como líder.
Trecho dos documentos: “O RAN tem sido mal sucedido em obter apoio significativo tanto dos comunistas cubanos quanto dos chineses.”
O Partido Comunista Brasileiro (PCB)
Fundado em 1922, defendia o marxismo, com forte atuação em sindicatos. Teve um curto período de legalidade. Luís Carlos Prestes e Carlos Marighella foram grandes lideranças, sendo que Marighella deixou a sigla. Segundo a CIA, o PCB recebia auxílio da União Soviética.
Trecho dos documentos: “O PCB segue a linha soviética e é o maior grupo revolucionário disciplinado no Brasil. Soma cerca de 13,2 mil de acordo com suas lideranças.”
O Partido Comunista do Brasil (PCB)
Articulado por dissidentes do PCB, na década de 1960, o partido vivia na clandestinidade. Era mais afinado com a doutrina chinesa da esquerda, na defesa de guerrilhas para insuflar a revolução armada. Por ser mais recente, ainda sofria com o número escasso de membros.
Trecho dos documentos: “Três ou quatro grupos do CPB receberam de três a seis meses de treinamento em insurgência urbana e rural na China comunista.”
Ação Popular (AP)
Formada por lideranças estudantis de esquerda, surgiu nos anos 1960, liderada por membros da Igreja Católica. Mais forte nos centros urbanos, conseguiu organizar manifestações estudantis e se ramificar pelo país. Conforme a CIA, teria inclinações pela insurgência armada.
Trecho dos documentos: “Se a AP iniciar a insurgência, ela provavelmente tomará a forma de terrorismo urbano. Muito sobre esta organização é especulativo.”
Polop
Criado nos anos 1960, congregava lideranças estudantis e de trabalhadores. Radical, incluindo dissidentes de partidos de esquerda, no futuro deu origem a outros movimentos que lutaram contra o regime. Em 1968, a CIA não acreditava na capacidade de insurgência do grupo.
Trecho dos documentos: “Intelectuais marxistas que acreditam que o Brasil pode ser salvo por uma revolução violenta baseada em uma aliança estudante-trabalhador.”
Grupos Trotskistas
Os movimentos trotskistas seguiam a doutrina do ucraniano Leon Trotsky, liderança que fez história na União Soviética. Os movimentos tinham diferentes grupos, como o Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT), envolvido em paralisações de trabalhadores.
Trecho dos documentos: “Orientado para preparar e liderar revoltas camponesas, eles têm sido culpados por tentativas de atos isolados de terrorismo e sabotagem.”
ENTREVISTA Peter Kornbluh
Diretor da The National Security Archive
“A história dos arquivos brasileiros deve ser revelada”
Pesquisador da ONG The National Security Archive, Peter Kornbluh é um especialista em obter documentos outrora secretos do governo dos Estados Unidos. Ele tem auxiliado o Brasil na obtenção destes relatórios, como o acervo de 270 páginas que Zero Hora teve acesso, informes entregues à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.
Em entrevista concedida por e-mail a ZH, o pesquisador avalia a importância da abertura de arquivos, o primeiro ano da Lei de Acesso à Informação brasileira e a influência norte-americana nos regimes militares da América Latina. A seguir, os principais trechos.
Zero Hora – Qual a importância de abrir arquivos secretos de países?
Peter Kornbluh – A abertura de arquivos governamentais é uma obrigação para a democracia. É o direito do cidadão saber, em qualquer país, o que seu governo tem feito em seu nome, mas sem seu conhecimento. Sem acesso à verdadeira história, pode não haver fundamento histórico para um debate público integral sobre o futuro. Particularmente, em países como o Brasil, onde existe um histórico de abusos de direitos humanos e repressão, as evidências nos arquivos são fundamentais para se chegar a um veredicto social, legal e histórico sobre o passado.
ZH – Como funciona o processo para abrir documentos secretos nos Estados Unidos?
Peter – Nos Estados Unidos há uma legislação clara sobre liberdade de informação, que garante o direito legal de requisitar e obter documentos. Existe também o sistema da biblioteca presidencial, supervisionado pelo governo, onde documentos-chave são coletados, revisados e eventualmente disponibilizados para pesquisas escolares.
ZH – O Brasil criou sua Lei de Acesso à Informação. O senhor a conhece?
Peter – O Brasil é uma das últimas grandes nações a aprovar uma lei de acesso à informação, algo muito importante. O aniversário da lei está chegando, e jornalistas e organizações devem avaliar como ela funcionou: quantos pedidos foram arquivados, quantos documentos foram liberados, quantos documentos foram retidos, e se a retenção foi legítima ou ilegítima. É indispensável uma auditoria do primeiro ano para ajudar a melhorar a implementação da lei nos anos que virão. A documentação brasileira não tem apenas o grande papel de fortalecer o fluxo de informação para os cidadãos brasileiros, mas também informar outros países sobre o papel que o Brasil desempenhou no Exterior.
ZH – Qual foi a influência dos Estados Unidos nas ditaduras militares da América do Sul?
Peter – Os Estados Unidos ajudaram secretamente a criar os mais famosos regimes militares na região – do sanguinário regime guatemalteco em 1954 às juntas brasileiras em 1964, até o regime Pinochet em 1973. Nos Estados Unidos e na América Latina nós sabemos muito sobre a intervenção secreta americana na região em virtude da nossa capacidade de usar a lei de acesso à informação para obter documentos com acesso liberado.
ZH – E Cuba financiou grupos armados na América do Sul?
Peter – Como não temos acesso aos arquivos cubanos, não sabemos a história completa sobre o apoio do país às insurgências latino-americanas. Depois que Che Guevara foi morto por tropas treinadas pelos americanos na Bolívia, o apoio cubano para insurgências foi significativamente reduzido até os anos 1980, quando Cuba apoiou alguns elementos revolucionários na América Central.
ZH – Como o senhor avalia o regime militar no Brasil?
Peter – O Brasil é uma superpotência regional. A ditadura brasileira possuía uma política exterior muito intervencionista no Cone Sul – auxiliando na derrubada de Salvador Allende (Chile), participando no enfraquecimento do governo da Bolívia, influenciando as eleições no Uruguai etc. A história dos arquivos brasileiros deve ser revelada para o benefício da região latino-americana, como também o direito de saber de todos os brasileiros.
Ivan Seixas era um jovem militante de esquerda quando foi preso pela ditadura, ao lado do pai, Joaquim Alencar de Seixas. No dia 16 de abril de 1971, os dois foram levados para o DOI-CODI/OBAN, em São Paulo, e barbaramente torturados.
Em 2009, quando a “Folha” publicou o famoso texto chamando a ditadura de “ditabranda”, Seixas enviou várias cartas ao jornal – jamais publicadas. Numa delas, fez referência ao passado do grupo “Folha”, jornal que “empregava carros para nos capturar e entregar para sessões de interrogatórios, como sofremos eu e meu pai.” E completou: ”Ninguém me contou, eu vi carro da “Folha” na porta da OBAN/DOI-CODI.” (Para saber mais, clique aqui)
Prestem atenção: a “Folha” jamais publicou as cartas de Ivan. Mas publicou, semana passada, a simpática cartinha de Aloisio Mercadante, em que o petista se revela “perplexo” com as notícias de que “seu Frias” (dono do jornal) era muito próximo do aparato repressivo e até daria apoio financeiro à “irmandade” que operava as torturas.
- (Escrevinhador) O ministro Aloisio Mercadante (que é do PT), enviou uma carta à Folha de S. Paulo declarando-se “perplexo” com a noticia de que Otavio Frias de Oliveira (o “seu” Frias, já falecido, pai dos atuais controladores do jornal) visitava frequentemente o centro de torturas do DOPS, além de ser amigo pessoal do delegado torturador Sergio Paranhos Fleury. O que achou da carta de Mercadante? Há motivo para se sentir “perplexo”?
(Ivan Seixas) Perplexos ficamos nós com essa carta. O proprietário do Grupo Folha tinha uma relação tão íntima com o sistema repressivo da ditadura que até cedeu um de seus jornais para o DOI/CODI fazer propaganda de seus assassinatos; chegou a emprestar os carros de distribuição desse mesmo jornal (Folha da Tarde) para os torturadores montarem emboscadas contra os militantes da resistência.
O ministro não deve ler muito as publicações do próprio Grupo Folha, pois o livro da série “Folha Explica”, da jornalista Ana Estela de Souza Pinto, conta tudo isso sem rodeios:
- Na página 51 está escrito que “na Folha da Tarde o endurecimento do regime pós-AI-5 trouxe mudanças radicais. Sem ter conseguido transformar a simpatia dos estudantes em aumento de vendas, o jornal amargou baixa circulação até ser entregue, em 1969, à chefia de Antônio Aggio Jr, jornalista que tinha ligações com órgãos de segurança e adotou uma linha editorial de apoio ao regime militar (…) Na redação, militantes de esquerda foram substituidos por jornalistas ligados à polícia, alguns com cargo de delegado ou patente de major ou capitão da PM“
- Na página 52, informa-se que que “A Folha de São Paulo se mantinha distante da linha policial da Folha da Tarde, mas não enfrentou a ditadura. Desde 1968, praticava a autocensura e acatava instruções repassadas diariamente pela repressão. (…)“
- Na página 56, a jornalista afirma que “do lado da Folha, a direção não nega a possiblidade de a ocorrido, mas sem o conhecimento da empresa. Em 2006, em depoimento para a biografia do empresário, o diretor de redação, Otávio Frias Filho, militante no movimento estudantil no final dos anos 1970, disse considerar possível que veículos da empresa tenham sido usados por policiais e que, ao questionar o pai sobre o episódio, ele sempre negou ter sido consultado sobre emprétimos deles. Frias Filho também não acredita em envolvimento do sócio de seu pai, Carlos Caldeira, que tinha afinidade com integrantes do regime militar e era amigo do Coronel Erasmo Dias.
Caldeira não era o único com conexões militares. Nas redações da empresa havia policiais civis e militares, tanto infiltrados como declarados – alguns até trabalhavam armados.“
O ministro da Educação não lê? Militante da resistência, como se diz, desconhece tudo isso?
- O ex-agente da repressão Claudio Guerra disse, em depoimento à Comissão da Verdade da Cãmara de Vereadores de São Paulo, que “seu” Frias colaborava com dinheiro para a “irmandade” dos torturadores, além de ser amigo pessoal de Fleury. As afirmações de Guerra merecem crédito? São compatíveis com as informações que você já conhecia?
(IS)A ser verdadeira a informação dada por agentes repressores ouvidos, de que a segurança pessoal do senhor Otávio de Oliveira Frias era feita pelo delegado Roberto Quass, do DEOPS/SP, chefiado pelo torturador Sérgio Fleury, podemos concluir que a ligação entre eles não era mera retórica. Como ninguém daria recibo de contribuição para o caixa da tortura, não é possível atestar a veracidade dessa informação do ex-delegado Cláudio Guerra. No entanto, até agora ninguém o desmentiu nem suas informações foram desmentidas pelos fatos.
- Qual o testemunho pessoal que você, ex-preso político que teve o pai morto sob tortura, pode dar sobre a Folha e a parceria do jornal com a ditadura?
(IS) O jornal Folha da Tarde estampou manchete comemorando a morte de meu pai quando ele ainda estava vivo. Todos os outros jornais publicaram apenas a nota oficial que o II Exército os obrigou publicar. Por outro lado, vi carros da Folha estacionados diante da sede do DOI-CODI em duas ocasiões. Como alí não havia bancas de jornal nem era estacionamento, conclui que eram os carros usados em esquemas para a montagem de emboscadas pra captura de militantes, que seriam depois torturados.
- A ALN chegou a explodir carros de entrega da Folha, nos anos 70? Por que isso ocorreu? A esquerda armada sabia, naquela época, da ação do jornal em apoio aos torturadores?
(IS) Sim. A resistência sabia que havia esse esquema de cessão de carros da Folha para a montagem de emboscadas. Por causa disso, a ALN queimou carros da Folha para avisar que já sabia disso e que não iria tolerar a continuação dessa prática.
- Há um brilhante documentário, chamado “Cidadão Boilesen”, que narra a história do empresário, diretor da Ultragaz, que financiava e participava das sessões de torturas (Boilesen acabou morto, em represália, pelos guerrilheiros de esquerda). Quais as semelhanças entre Boilesen e Frias? Não falta um documentário “Cidadão Frias”?
(IS) Nesse documentário o empresário José Papa Júnior afirma sem nenhuma cerimônia ou constrangimento que “todos nós empresários dávamos dinheiro para a OBAN e para o DOI-CODI”.
Creio que seria bem interessante a realização de um documentário “Cidadão Frias”. No Chile foi feito um documentário sobre o dono do jornal El Mercúrio, que tinha essa mesma relação com a ditadura Pinochet. O nome do filme chileno é “Diário de Miguel”.
- O ministro petista afirma em sua carta: “tive a oportunidade de testemunhar o papel desempenhado pelo jornal, sob comando de seu Frias, na luta pelas liberdades democráticas (…) Frias merece meu reconhecimento”. O que poderia explicar que o minstro Mercadante tenha escrito essa carta? O ministro faz alguma cálculo político? Está desinformado? Ou tomou uma atitude pura e simplesmente bajuladora?
(IS) Talvez seja uma mistura de um pouco de cada um desses ingredientes. Mas a bajulação aos donos da mídia, colaboradores e beneficiários da ditadura, é uma constante em nosso país. Do mesmo modo que a estreita relação com as grandes empreiteiras. Durante a ditadura, essas empresas se lambuzaram com as verbas para a construção de obras faraônicas ao mesmo tempo que davam dinheiro para as torturas. Hoje elas recebem verbas para obras grandiosas ao mesmo tempo que contribuem com TODOS os partidos.
Não por acaso, há anos que os familiares de desaparecidos insistem para que os currículos escolares oficiais incluam o ensino sobre a ditadura militar e nunca conseguiram sensibilizar os ministros da educação para isso. Acho que achamos agora a resposta para esse mistério.
- “Eles me torturaram na sexta-feira santa. Fui a única pessoa torturada na sexta-feira santa na PE e eles me disseram: você vai ser torturada como homem, como Jesus Cristo...”
Vera Sílvia Magalhães.
Hoje, sexta-feira santa, faz 43 anos que Vera Sílvia foi presa e torturada no Doi-Codi, no quartel da rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro.
O filme "A memória que me contam" é uma homenagem da diretora Lúcia Murat a Vera Sílvia Magalhães, que participou do sequestro do embaixador norte-americano no Brasil em 1969 e que se tornou um mito da esquerda brasileira, por sua inteligência e senso de humor.
No filme, Simone Spoladore interpreta a personagem Ana, livremente inspirada na história pessoal e política de Vera Silvia.
Durante a campanha eleitoral de 2010 a revista ÉPOCA publicou uma reportagem que deixou os militantes do PT com muita raiva. A revista exibiu uma reportagem sobre a trajetória de Dilma na luta armada contra a ditadura. Eu também fiquei revoltado tanto que escrevi o post: A Globo mostra sua verdadeira cara. Mas recentemente li no blog do ex-guerrilheiro Celso Lungaretti o seguinte post: "ÉPOCA" DESTACA TRAJETÓRIA DE DILMA NA RESISTÊNCIA À DITADURA. O autor que conheceu Dilma durante a luta armada achou que “a reportagem emsi é reconstituição histórica, a mais objetiva e neutra possível se considerarmos as limitações da grande imprensa”. Ou seja, não houve manipulação histórica. O problema foi a matéria ter sido publicada durante a disputa eleitoral para claramente favorecer o candidato Serra. O assunto é espinhoso para a Dilma, pois trata de um período obscuro em que no Brasil se travava uma guerra suja. Muitos atos heroicos tomados fora do contexto histórico seriam difíceis de explicar num programa eleitoral. No artigo de Lungaretti ele lembra que Dilma divulgou uma lamentável nota oficial à imprensa dizendo que “nunca participou de nenhuma ação armada”. Ora, isso dá a entender que outros companheiros que participaram de ações armadas (alguns, inclusive, até ocupam altos cargos do governo como o ministro Pimentel) deveriam ter vergonha disso. Agora que sei que a reportagem é séria resolvi reproduzi-la aqui no blog.
Dilma na luta armada
Por Leandro Loyola,
Eumano Silva e
Leonel Rocha
Entre 1967 e 1970, a estudante Dilma Rousseff combateu a ditadura militar. O que os processos da justiça militar revelam sobre a jovem que se tornou líder de uma das organizações que pegaram em armas contra o governo
Em outubro de 1968, o Serviço Nacional de Informações (SNI) produziu um documento de 140 páginas sobre o estado da “guerra revolucionária no país”. Quatro anos após o golpe que instalou a ditadura militar no Brasil, grupos de esquerda promoviam ações armadas contra o regime. O relatório lista assaltos a bancos, atentados e mortes. Em Minas Gerais, o SNI se preocupava com um grupo dissidente da organização chamada Polop (Política Operária). O texto afirma que reuniões do grupo ocorriam em um apartamento na Rua João Pinheiro, 82, em Belo Horizonte, onde vivia Cláudio Galeno Linhares. Entre os militantes aparece Dilma Vana Rousseff Linhares, descrita como “esposa de Cláudio Galeno de Magalhães Linhares (‘Lobato’). É estudante da Faculdade de Ciências Econômicas e seus antecedentes estão sendo levantados”. Dilma e a máquina repressiva da ditadura começavam a se conhecer.
Durante os cinco anos em que essa máquina funcionou com maior intensidade, de 1967 a 1972, a militante Dilma Vana Rousseff (ou Estela, ou Wanda, ou Luiza, ou Marina, ou Maria Lúcia) viveu mais experiências do que a maioria das pessoas terá em toda a vida. Ela se casou duas vezes, militou em duas organizações clandestinas que defendiam e praticavam a luta armada, mudou de casa frequentemente para fugir da perseguição da polícia e do Exército, esteve em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, adotou cinco nomes falsos, usou documentos falsos, manteve encontros secretos dignos de filmes de espionagem, transportou armas e dinheiro obtido em assaltos, aprendeu a atirar, deu aulas de marxismo, participou de discussões ideológicas trancada por dias a fio em “aparelhos”, foi presa, torturada, processada e encarou 28 meses de cadeia.
Hoje candidata do PT à Presidência da República, Dilma fala pouco sobre esse período. ÉPOCA pediu, em várias ocasiões nos últimos meses, uma entrevista a Dilma para esclarecer as dúvidas que ainda existem sobre o assunto (leia algumas delas no quadro da última página). Todos os pedidos foram negados. Na última sexta-feira, a assessoria de imprensa da campanha de Dilma enviou uma nota à revista em que diz que “a candidata do PT nunca participou de ação armada”. “Dilma não participou, não foi interrogada sobre o assunto e sequer denunciada por participação em qualquer ação armada, não sendo nem julgada e nem condenada por isso. Dilma foi presa, torturada e condenada a dois anos e um mês de prisão pela Lei de Segurança Nacional, por ‘subversão’, numa época em que fazer oposição aos governos militares era ser ‘subversivo’”, diz a nota.
Ficha de Dilma Rousseff feita na Operação Bandeirante. A Operação Bandeirante foi uma parceria entre empresários e militares para caçar militantes de organizações de esquerda armada. Dilma foi presa e levada para a Oban em 16 de janeiro de 1970.
Ficha de Carlos Franklin de Araújo. Conhecido como “Max”, Carlos Franklin se tornou o segundo marido de Dilma. Um dos líderes da VAR Palmares, ele ficou responsável por administrar metade dos US$ 2,5 milhões retirados do cofre do ex-governador Adhemar de Barros
Depoimento De Carlos Araújo, marido de Dilma
Dilma em família. No processo sobre o Colina, os militares coletaram esta foto. Dilma é a primeira da esquerda para a direita, rindo, ao lado do então marido, Cláudio Galeno. Ao lado de Galeno está um amigo do casal. A última da ponta seria a tia de Dilma. Os personagens foram identificados pela própria Dilma em depoimento aos militares
Arsenal da VAR. Com farto dinheiro em caixa após o roubo do cofre de Adhemar de Barros, a VAR Palmares pode investir em armas. À medida que seus militantes “caíam”, a polícia descobria os arsenais. Entre as armas estavam pistolas, fuzis FAL e metralhadoras
Explosivos encontrados em “aparelho” do Colina em 1968. Após a queda do militante Ângelo Pezzuti, a polícia mineira descobriu três aparelhos do Colina. Em um deles foram encontradas armas e explosivos. Na foto, uma caixa de papelão estava com 702 bananas de dinamite. De acordo com laudo pericial que consta no processo, parte dos explosivos era de má qualidade
Dilma foi denunciada por chefiar greves e assessorar assaltos a banco
A trajetória de Dilma na luta contra a ditadura pode ser conhecida pela leitura de mais de 5 mil páginas de três processos penais conduzidos pelo Superior Tribunal Militar nas décadas de 1960 e 1970. Eles estão no acervo do projeto Brasil: Nunca Mais, à disposição na sala Marco Aurélio Garcia (homenagem ao assessor internacional da Presidência) no arquivo Edgard Leuenroth, que funciona em um prédio no campus da Universidade de Campinas, em São Paulo, e em outros arquivos oficiais. A leitura de relatórios, depoimentos e recursos burocráticos permite conhecer um período da vida de uma pessoa que mergulhou no ritmo alucinante de um tempo intenso. O contexto internacional dos anos 1960, de um mundo dividido entre direita e esquerda, em blocos de países capitalistas e comunistas, propiciava opções radicais. O golpe militar de 1964 instaurou no Brasil um regime ditatorial que sufocou as liberdades no país e reprimiu oposições. Milhares de pessoas foram presas por se opor ao regime, centenas foram assassinadas após sessões de tortura promovidas por uma horda de agentes públicos mantidos ocultos ou fugiram para o exílio para escapar da repressão.
Dilma Rousseff foi um desses jovens marxistas que, influenciados pelo sucesso da revolução em Cuba liderada por Fidel Castro nos anos 50, se engajaram em organizações de luta armada com a convicção de que derrubariam a ditadura e instaurariam um regime socialista no Brasil. Dilma está entre os sobreviventes da guerra travada entre o regime militar e essas organizações. Filha de um búlgaro e uma brasileira, estudante do tradicional colégio Sion, de Belo Horizonte, a vida de classe média alta de Dilma mudou a partir do casamento com o jornalista Cláudio Galeno Magalhães Linhares, em 1967. “(Dilma) Ingressou nas atividades subversivas em 1967, levada por Galeno Magalhães Linhares, então seu noivo”, afirma um relatório de 1970 da 1a Auditoria Militar. As primeiras menções a Dilma em documentos oficiais a citam como integrante de uma dissidência da Polop. Esse grupo adotou o nome de Organização. Com novas adesões de militantes que abandonaram o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), a Organização se transformou em Colina (Comando de Libertação Nacional). Em seu documento básico, o Colina aderiu às ideias de Régis Debray, autor francês que, inspirado na experiência cubana de Fidel Castro, defendia a propagação de revoluções socialistas a partir de focos guerrilheiros. A doutrina de Debray ficou conhecida como “foquismo”.
Ex-contemporâneos de prisão citam o apartamento de Dilma da Rua João Pinheiro, em Belo Horizonte, como um dos principais pontos de reuniões da organização. Em depoimento prestado no dia 4 de março de 1969, o militante do Colina Ângelo Pezzutti afirma que “encontrou-se (com outro militante) algumas vezes no apartamento 1.001, Condomínio Solar, residência de Galeno e Dilma”. Dilma é citada como responsável por ministrar aulas de marxismo, comandar uma “célula” na universidade para atrair novos militantes para a causa. “Em princípios de 1968, o declarante, por recomendação de Carlos Alberto, coordenou uma célula política, na qual tomaram parte Dilma, estudante de economia, cujo nome de guerra é Estela, Erwin e Oscar (nomes de outros dois militantes)”, diz o depoimento de outro militante, Jorge Raimundo Nahas. “O objetivo principal dessa célula era trabalhar o meio estudantil.” Um dos universitários recrutados foi Fernando Damata Pimentel, de 17 anos. Ex-prefeito de Belo Horizonte, Pimentel é candidato ao Senado pelo PT e é um dos coordenadores da campanha de Dilma.
De acordo com os depoimentos, nas reuniões – muitas realizadas no apartamento de Dilma – o grupo decidia suas ações. Em seu depoimento, Nahas afirmou que parte do Colina, com o decorrer do tempo, passou a acreditar que a organização deveria ter um caráter mais militar. Foram criados setores de “ex-propriação, levantamento de áreas, sabotagem e inteligência e informações”. “Dilma e Oscar permaneceram no setor estudantil”, diz Nahas. Essa decisão marca um ponto de inflexão na curta história do Colina. O grupo passou a fazer ações armadas. O historiador Jacob Gorender, que esteve preso com Dilma no presídio Tiradentes, em São Paulo, é autor de Combate nas trevas, o mais completo relato da luta armada contra a ditadura militar. Ele afirma que o Colina foi uma das poucas organizações a fazer a “pregação explícita do terrorismo”.
De acordo com Gorender, em 1968, o Colina já aderira à luta armada. Segundo ele, no dia 1o de julho de 1968, o Colina matou por engano o oficial militar alemão Otto Maximilian von Westernhagen, que fazia um curso no Rio de Janeiro. A intenção do Colina era eliminar o militar boliviano Gary Prado, que estava no mesmo curso. Prado fora o responsável pela prisão de Che Guevara, o célebre líder da revolução cubana. O Colina ajudou a promover greves, assaltou bancos, roubou carros e matou policiais em confrontos em Minas e no Rio (leia o quadro na página ao lado). Na denúncia encaminhada à Justiça Militar em 1970, o juiz auditor José Paulo Paiva afirma que, no Colina, Dilma “chefiou greves e assessorou assaltos a bancos”. Não há registro de que Dilma tenha participado diretamente das ações armadas do Colina – algo que ela sempre negou.
A série de roubos a banco, no final de 1968, pôs a polícia no encalço dos militantes. Um deles, Pezzutti, foi preso – ou, no jargão da militância, “caiu” – no dia 14 de janeiro de 1969. Torturado, Pezzutti deu informações que levaram a polícia a três “aparelhos”, como eram chamados os locais onde viviam e se reuniam os militantes, do Colina. Na noite de 29 de janeiro de 1969, a polícia atacou três casas em Belo Horizonte: na Rua Itacarambu, na Rua Itaí e na Rua 34. Na Itacarambu houve confronto. Quando os policiais entraram na casa, Murilo Pinto da Silva, então com 22 anos, e outro militante reagiram com rajadas de metralhadora. Os tiros mataram o inspetor Cecildes Moreira de Faria e um guarda civil chamado José Antunes Ferreira e feriram outro policial. Na Rua Itaí, a polícia achou documentos. Na Rua 34, encontrou armas e bombas. Na Rua Itacarambu foram apreendidos pistolas, revólveres, um fuzil e metralhadoras Thompson e INA, explosivos e uniformes da polícia. Banido do país em 1971, Pezzutti passou pelo exílio no Chile e depois morreu em um acidente de moto na França, em 1975.
A partir das prisões, a situação do Colina ficou difícil. Dilma e Cláudio Galeno abandonaram o apartamento da Rua João Pinheiro. A Justiça Militar abriu um Inquérito Policial Militar (IPM), conduzido pelo então coronel Otávio Aguiar de Medeiros – uma década depois, promovido a general, Medeiros seria o poderoso chefe do SNI no governo João Figueiredo. No dia 11 de março de 1969, à frente do IPM que investigava o Colina, Medeiros assinou o despacho número três. O texto, de cinco linhas, ordena uma operação de busca e apreensão no apartamento de Dilma e Galeno. Eles só encontraram cadernos, documentos pessoais e livros como Revolução brasileira, de Caio Prado Júnior, e Revolução e o Estado, de Fidel Castro.
Dilma e Galeno já estavam na clandestinidade. Em depoimento prestado à Justiça Militar em 21 de outubro de 1970, Dilma afirma que o casal fugiu de Belo Horizonte com “Cr$ 6.500 (cruzeiros) mais ou menos e se mantinham com esse dinheiro”. Segundo o depoimento, eles passaram um mês no “Hotel Familiar Baia”, no Rio de Janeiro, depois foram para um apartamento na Rua Santa Clara, em Copacabana. O casal também passou alguns dias na casa de uma tia de Dilma, sob o pretexto de que estava de férias, segundo Dilma conta em depoimento. Com o dinheiro da organização, militantes como Dilma alugavam casas, dormiam no chão para não ter de comprar móveis, se sustentavam e compravam carros e armas.
Uniformes da polícia encontrados em “aparelho” do Colina. Em uma das ações, militantes do Colina praticaram um assalto usando uniformes da Polícia Militar do Distrito Federal
Uniforme da Polícia Militar de Minas Gerais apreendido em aparelho do Colina, em 1969. O grupo, do qual Dilma fez parte, usou os uniformes em suas operações
Três documentos falsos apreendidos com Dilma no momento de sua prisão. Segundo ela disse em depoimento às autoridades na ocasião, a VAR Palmares tinha meios de fabricar documentos falsos
O terceiro dos documentos falsos é este Título de Eleitor em nome de Marina Guimarães Garcia de Castro
Carteira de identidade em nome de Maria Lúcia Santos. Com ela, em São Paulo, em 1969, Dilma comprou um Fusca 66 por NCr$ 7.000
Um dos documentos falsos é esta carteirinha da Secretaria da Educação, em nome de Marina Guimarães Garcia
Com dinheiro fornecido pela VAR Palmares, Dilma comprou um Fusca 66
Em meados de 1969, os militantes do Colina começaram a discutir uma fusão com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Liderada pelo ex-capitão do Exército Carlos Lamarca, a VPR era uma das organizações mais importantes da luta armada. Lamarca abandonara o Exército ao fugir do quartel de Quitaúna, em Osasco, com um caminhão com armas e munições. Em abril de 1969, Colina e VPR realizaram um Congresso em Mongaguá, no Litoral Sul de São Paulo. Pela VPR estavam Carlos Lamarca, Antonio Espinosa, Cláudio de Souza Ribeiro, Fernando Mesquita Sampaio e Chizuo Ozawa, cujo codinome era Mário Japa. Pelo Colina estavam Dilma, seu segundo marido, Carlos Franklin de Araújo, Carlos Alberto de Freitas (codinome Breno), Maria do Carmo Brito e Herbert Eustáquio de Carvalho (ou Daniel). No meio das discussões, segundo Espinosa, Dilma e Carlos Alberto de Freitas lembraram que tinham de consultar “as bases” da Colina. As conversas foram interrompidas e retomadas em julho, no mesmo local. Ao final, as duas organizações se fundiram para formar a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR Palmares). “Dilma e Breno temiam que a VPR fosse excessivamente militarista”, afirma Antonio Espinosa. Ele veio da VPR e se tornou um dos comandantes da VAR Palmares. “Ao mesmo tempo, Lamarca e Cláudio temiam que o pessoal do Colina fosse muito assembleísta, estudantil.” A desconfiança era recíproca, mas não era discutida abertamente.
De acordo com os ex-militantes Espinosa e Darcy Rodrigues, a VAR Palmares teve cerca de 700 integrantes ativos em todo o Brasil. Cerca de 200 eram armados. No total, incluídos simpatizantes e apoiadores, a VAR Palmares reunia cerca de 2 mil pessoas espalhadas pelo país. A VAR Palmares durou apenas três meses, mas marcou época com a mais rumorosa ação do período. Em depoimento em abril de 1970, o militante Edmur Péricles de Camargo afirma que, um ano antes, soube da localização de um cofre com dinheiro do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros após uma conversa com um de seus contatos, Gustavo Buarque Schiller, sobrinho de Ana Capriglione, amante de Adhemar. Morto em março de 1969, Adhemar de Barros tinha a fama de ser um dos políticos mais corruptos do país. Em 18 de julho de 1969, 13 militantes da VAR Palmares, liderados por Darcy Rodrigues, invadiram a casa de Ana Capriglione e retiraram o cofre. Os US$ 2,5 milhões em dinheiro vivo, “expropriados” do “cofre do Adhemar”, garantiram tranquilidade financeira à VAR Palmares, que não precisou mais fazer assaltos para se sustentar. Na terminologia da esquerda dos anos 60, expropriação significava “roubo justificado”, como forma de “justiça social”. Metade do dinheiro de Adhemar ficou com o marido de Dilma, Carlos Franklin de Araújo. Não há registros de que Dilma tenha participado diretamente do assalto. Ela sempre disse que alusões a seu envolvimento na ação são “fantasiosas” – a nota que sua assessoria enviou a ÉPOCA repete isso.
Na VAR Palmares, a importância de Dilma cresceu. Em várias partes do processo, ela é elogiada por sua “capacidade intelectual”. “Ela tinha uma formação acima da maioria dos militantes”, afirma Espinosa. Uma das provas da importância de Dilma é sua presença constante nos depoimentos de colegas presos. Dilma é tão citada que, em dado momento do processo, o juiz afirma que “não há (necessidade) de especificar sua ação, pois tudo o que foi feito no setor teve a sua atuação direta”.
Dilma se destacava sobretudo na parte financeira da VAR Palmares. Em seu depoimento prestado ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em 26 de fevereiro de 1970, Dilma afirma que recebeu NCr$ 25.000 (cruzeiros novos) para “custeio das despesas iniciais da regional (da VAR) em São Paulo”. Em depoimento, a militante Sônia Lacerda Macedo diz que entregara Cr$ 8.000 (cruzeiros) a Dilma num encontro na Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo. Num relatório, o procurador Eudo Guedes Pereira afirma que Dilma teria recebido, no total, “Cr$ 49.000 da VAR Palmares” de seu marido, Carlos Franklin de Araújo, conhecido como Max. “Ela era do comando nacional. Era responsável por distribuir o dinheiro”, diz Espinosa. Com NCr$ 7.000 e um documento falso em nome de Maria Lúcia Santos, Dilma comprou um Fusca 1966 “bege”, segundo ela. Os valores citados nos depoimentos são confusos, devido à situação econômica do período. A inflação, em alta no final da década de 1960, fez com que o governo cortasse três zeros no cruzeiro em fevereiro de 1967. A moeda passou a se chamar cruzeiro novo. Em maio de 1970, a moeda voltou a se chamar cruzeiro. Os valores citados nos depoimentos são de operações feitas pelas organizações entre 1967 e 1970. Assim, todas são em cruzeiros novos. Como muitos depoimentos foram tomados depois de maio de 1970, os militares fizeram a conversão dos valores.
“A VAR Palmares dispunha de um setor de falsificações de documentos, pois até documentos falsos recebeu”, disse Dilma em depoimento ao Dops. Como ela não sabia dirigir, quem conduzia o carro eram colegas como Antonio de Pádua Perosa. Perosa foi preso com Dilma num bar no centro de São Paulo. Em seu depoimento, ele afirmou que “chegou a receber dinheiro roubado de Dilma”. Dilma afirma em depoimento que deu NCr$ 4.000 para Perosa “manter o setor de Imprensa”. O militante José Olavo Leite Ribeiro afirmou que viu Dilma entregar Cr$ 800 a um casal de militantes para pagar aluguel de um aparelho. Dilma disse ainda que entregou NCr$ 1.000 a Leite Ribeiro para “manutenção do setor de Inteligência” da VAR Palmares.
Revólveres, pistolas e munições da VAR Palmares apreendidas pela polícia no aparelho de João Batista de Souza, em Santo André (SP), em janeiro de 1970
Explosivos da VAR Palmares encontrados no aparelho de João Batista de Souza em Santo André (SP). Com o material, os militares acharam “papéis contendo instruções e croquis manuscritas (sic) para fabricação de explosivos”
Armas apreendidas no aparelho de João Batista de Souza
Bombas incendiárias e uma lata com pólvora, de acordo com laudo técnico da polícia de Minas, apreendidos em aparelho do Colina, em Belo Horizonte
Placas de carro “frias” encontradas pela polícia em um dos aparelhos do Colina. Elas seriam usadas em carros envolvidos em operações como roubos a banco
A VAR Palmares durou apenas três meses. Rachou por divergências de orientação
A aventura da VAR Palmares acabou rápido. Em setembro de 1969, a organização fez um congresso em Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Foi montada uma estrutura de segurança para o congresso, realizado no mesmo período em que a polícia procurava os sequestradores do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick. Segundo Espinosa, 36 delegados da organização, “procuradíssimos” pela polícia, se reuniram. Além deles, haveria 14 pessoas encarregadas da guarda na casa e cinco na cozinha. Na estrada de acesso, havia mais militantes em pontos com metralhadoras e radiocomunicadores. “A maioria nem sabia onde estava”, afirma Espinosa. Era praxe das organizações levar os militantes com óculos escuros vedados para manter em segredo a localização de aparelhos.
O esquema em Teresópolis foi mantido durante os 26 dias do congresso. “As discussões começavam às 8 horas da manhã e iam até a noite”, diz Espinosa. “Depois, os grupos de trabalho elaboravam textos.” As discordâncias entre os “foquistas”, que defendiam a luta armada, e os “massistas”, que defendiam a mobilização das massas, (grupo a que Dilma pertencia) levaram ao “racha”. Um grupo ligado a Lamarca preferiu sair e reativar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). A maioria ficou na nova organização, agora chamada apenas VAR (Vanguarda Armada Revolucionária). Na saída de Teresópolis, os remanescentes da VAR, cerca de 40 pessoas, foram para um apartamento no Leblon – “enorme, coisa da alta burguesia”, segundo Espinosa. Nesse apartamento, foi eleita a nova direção da VAR. “Éramos eu, Breno, a Dilma, o Max e o Loyola”, afirma Espinosa.
Espinosa “caiu” em novembro. Por pouco tempo, sua posição de liderança foi exercida por Dilma. Ela acabou presa dois meses depois, quando outro militante da VAR, José Olavo Leite Ribeiro, foi levado pelos militares para cumprir seus “pontos”. Um deles era com Dilma e Antonio de Pádua Perosa. Dilma foi presa com documentos falsos, Cr$ 200 na carteira e o Fusca. Ribeiro afirmou, em entrevista a Luiz Maklouf Carvalho, autor do livro Mulheres que foram à luta armada (Editora Globo), que Dilma estava armada. Seria natural que alguém em sua posição de liderança portasse uma arma – e Dilma sabia atirar. “Carregávamos cápsulas de cianeto para tomar em caso de prisão”, diz Espinosa. O auto de apreensão elaborado pelo delegado do Dops Fábio Lessa de Souza Camargo, em 26 de fevereiro de 1970, não menciona nenhuma arma entre o material apreendido com Dilma. Nenhum dos outros documentos do processo faz menção ao fato.
No depoimento prestado à Justiça Militar, Dilma afirma que foi torturada por 22 dias (leia mais na reportagem da página 44). Um depoimento mais extenso, de 19 páginas, foi prestado por Dilma em 26 de fevereiro de 1970, no Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Acuada pela tortura, Dilma deu informações que levaram à captura de quatro colegas: João Ruaro, Maria Joana Teles Cubas, Carlos Savério Ferrante e José Vicente Correa, conhecido como Miguel. Eles foram pegos quando os militares levaram Dilma a locais marcados para encontros (“pontos”). Dilma também foi levada pelos militares a aparelhos da VAR. “Dilma bateu à porta da residência do denunciado conhecido como Miguel”, diz o militar Waldevir Martins Ferreira em depoimento prestado em 9 de março de 1971. Quando Ferreira se identificou, Miguel tentou fechar a porta e atirou. Ferreira foi ferido no braço. Miguel e outro militante foram presos. Nos depoimentos posteriores prestados à Justiça Militar, após meses na prisão, Dilma negou a maior parte do que dissera no Dops após as sessões de tortura. Afirma que foi torturada por 22 dias e cita nominalmente o capitão Maurício Lopes Lima, da Operação Bandeirante, como um de seus algozes.
Perseguida, presa e condenada pelos militares há 40 anos, Dilma hoje goza de tratamento especial da Justiça Militar. Recentemente, seu ex-colega Antonio Espinosa foi ao Superior Tribunal Militar (STM), em Brasília. Devido a uma polêmica causada por uma entrevista, ele requereu acesso a seu processo por sua militância na VAR Palmares. Ele e Dilma fazem parte do mesmo processo. Por isso, a peça com milhares de páginas faz centenas de menções a Dilma. Espinosa pediu cópias de cerca de 400 páginas. “Elas vieram com o nome da Dilma coberto por tinta preta”, afirma Espinosa. De acordo com a lei, apenas os próprios réus, ou pessoas com uma procuração assinada por eles, podem ter acesso aos processos no STM. Mas apenas o nome de Dilma, entre os nomes de dezenas de outros militantes, foi ocultado das páginas copiadas a pedido de Espinosa. Recentemente, o processo de Dilma foi separado dos demais dentro do STM. Ele está guardado em um armário específico. Os funcionários têm ordens expressas para não fornecê-lo a ninguém.
É uma ironia. Aos olhos dos militares que governavam o Brasil na época, os militantes que optaram pela luta armada nas décadas de 1960 e 1970 podiam ser confundidos com bandidos comuns. Eles assaltaram bancos, lojas e quartéis para obter armas. Também executaram militares e civis. Derrotada na luta armada contra a ditadura, Dilma hoje lidera as pesquisas para as eleições presidenciais e pode ser considerada vencedora numa história difícil de avaliar. No final dos anos 60, a democracia ainda estava longe de ser um valor apreciado na América Latina. A revolução cubana exercia grande apelo entre a juventude – e a opção pela luta ar-mada soava legítima para alguns. “Lutei para ajudar o Brasil a mudar, e mudei com ele”, costuma dizer Dilma. Militantes que pegaram em armas hoje são políticos que exercem o jogo democrático em diversos partidos diferentes. Ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), outra organização de luta armada, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) é candidato ao Senado por São Paulo. Fernando Gabeira (PV), um dos sequestradores do embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick é candidato a governador do Rio. A vida de Dilma, deles e de muitos outros é uma prova de que o Brasil, depois de muito sofrimento, melhorou.
Fusca apreendido pela polícia. O carro teria sido usado em uma das operações do Colina em Minas
Corpo do inspetor Cecildes Moreira de Faria, morto por militantes do Colina em confronto durante a invasão de um aparelho na rua Itacarambu, em Belo Horizonte, na noite de 29 de janeiro de 1969. Meses depois, em depoimento à Justiça Militar, militantes do Colina afirmaram que Cecildes seria torturador
Aparelho da VAR Palmares onde vivia João Batista de Souza, em Santo André (SP). Na casa, a polícia encontrou armas e explosivos da VAR
Munição e explosivos da VAR Palmares encontrados no aparelho de João Batista, em Santo André (SP). De acordo com o Laudo de Análise Nº 4/70, as dez bombas eram de “fabricação muito aprimorada, de alto efeito moral, fabricadas em regime industrial pelas fabricações de fogos e se destinam ao uso pelas Polícias Militares para controle de tumulto”
Fusca apreendido em aparelho do Colina, em Minas Gerais, em 1969. O grupo roubava carros para ações como assaltos a banco