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Comunistas Vlog - Bibliografia sobre a Guerrilha no Brasil Tags: guerrilha Brasil História luta armada ditadura militar sirkis lungaretti carlos eugênio paz Lucas Figueiredo comunistas comunismo ALN PT
 
Comunistas Vlog
Bibliografia sobre a Guerrilha no Brasil
 
 
 
 
ERREI: Em 05:34 eu digo que ALN foi criada por Lamarca, mas ela foi criada por Marighella. 
(OBS: Eu não tive tempo de editar esse vídeo muito bem, desculpem pelas vezes que eu me enrolo para falar).
 
 
1) Os Carbonários: Memórias da guerrilha perdida de Alfredo Sirkis
 
Sirkis conta como sequestrou o embaixador alemão
 
Guerrilha no Brasil - O Sequestro do Embaixador Suíço
 
 
2) Viagem à luta armada - Carlos Eugênio Paz
 
O justiçamento do guerrilheiro Marcio Leite de Toledo
 
Guerrilha no Brasil - fusca modelo peneira
 
O Martírio do guerrilheiro Eduardo Colem Leite, o Bacuri
 
Guerrilheiro Carlos Eugênio: Aprendi a sobreviver, não me serve de nada, não sei viver
 
Guerrilheiro Carlos Eugênio: O ódio tem contra-indicações
 
 
3) Náufrago da Utopia: Viver ou morrer na guerrilha. Aos 18 anos. - Celso Lungaretti
 
Blog do Celso Lungaretti
 
Julio vive e morre -- A prisão do guerrilheiro Celso Lungaretti
 
 
4) Ministério do Silêncio: a história do serviço secreto brasileiro de Washington Luís a Lula - Lucas Figueiredo
 
Blog do Lucas Figueiredo
 
Deu a louca no Serviço Secreto Brasileiro
 
Entenda o que foi o Atentado do Riocentro
 
 
5) Olho por olho: os livros secretos da ditadura - Lucas Figueiredo
 
Para o Exército, PT seria incubadora de terroristas
 

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Sirkis relembra a guerrilha perdida Tags: sirkis alfredo sirkis guerrilha ditadura militar luta armada Esquerda golpe 64 movimento estudantil repressão OBAN guerrilha urbana VPR

 

Sirkis relembra a guerrilha perdida

O livro Carbonários: memórias da guerrilha perdida de Alfredo Sirkis foi um dos melhores livros sofre a luta armada contra a ditadura que já li. Numa narrativa empolgante, Sirkis conta sua luta contra a repressão política desde o movimento estudantil, passando pelo sequestro do embaixador alemão e suíço até sua fuga para o exílio. A impressão que ficou em mim logo após a leitura do livro é que terminei de ler uma obra de ficção, ou vi um filme de ação. É difícil acreditar que aquele jovem que correu tantos perigos numa luta suicida contra o regime militar e o pacato deputado federal do PV sejam a mesma pessoa. Posto abaixo uma entrevista do blog Arquivo 68 em que ele fala sobre o livro e seu passado revolucionário.

 

Os Carbonários, ano 25.

Entrevista com Alfredo Sirkis sobre o livro Os Carbonários e os “anos de chumbo”. A vinte cinco anos de seu lançamento o best seller continua despertando interesse.

Mario Augusto Resende, pesquisador da UNICAMP.


Lisboa, 1978, iniciando Os Carbonários numa máquina Olympia, no terraço com vista para o Tejo.

Mário – Sirkis, eu queria saber qual, quais que você acha que são as influências teóricas principais da sua geração ? Marxismo? Existencialismo? Prá entrar na esquerda armada?

Sirkis – É difícil falar de influências dominantes. É uma geração literária, não é ?…Liamos muito …mas não acho que a maior parte das pessoas da minha geração que se envolveram no movimento político tenham lido Sartre, antes. A primeira instância de captação por parte das organizações eram os grupos de estudo onde se estudava marxismo. Em geral o primeiro livro a se ler era A História da Riqueza do Homem, do Leo Huberman, depois se passava para o Manifesto Comunista, Trabalho Assalariado e Capital, Salário, Preço e Lucro e logo depois, Guerra de Guerrilhas, do Che Guevara, Revolução na Revolução, do Régis Debray. Não acho que tenha havido na minha fase pré-militante alguma corrente filosófica dominante ou que o Existencialismo tenha jogado um grande papel nisso… As pessoas de uma forma geral, todos vieram a ler o Sartre e a Simone de Beauvoir depois, quando já estava na sua fase militante, no meu caso, no exílio. Em termos de leituras o marxismo era o pensamento com o qual se armou teoricamente aquela geração.

Mário – Mas é que….n’ Os Carbonários, dá a sensação que a sua entrada no movimento de esquerda foi também por uma opção existencial. Você fala que existia uma espécie de carência de amizades, necessidade de um respeito intelectual maior , que isso você foi buscar e acabou encontrando nos seus colegas do Colégio de Aplicação…

Sirkis – É verdade, mas isso não tem nada a ver com Existencialismo… De fato, eu acho que as pessoas se movem basicamente por suas razões existenciais. Ninguém se move por uma consciência teórica pura. A teoria ela chega depois, até para racionalizar as opções que são feitas. Acho que o motor História é o Desejo, não é ? As necessidades humanas de variada índole se apresentam a cada momento e, naquele momento, a maior parte das pessoas que se aproximou da militância de esquerda o fez por uma busca de companheirismo, um sentimento de revolta contra a opressão, contra a ditadura, busca de aventura … uma certa vontade de fazer grandes coisas, praticar atos heróicos, pôr a prova a si mesmo… enfim… há um coquetel psicológico que leva as pessoas a se motivarem nesse ou naquele sentido. Ele é complexo…mas eu acho ele que parte do seu íntimo, do seu desejo não de uma reflexão teórica anterior.


1970, clandestino

Mário – N’ Os Carbonários, em vários momentos, você deixa entender que essa opção por entrar na esquerda armada naquele momento parece algo como uma traição de classe ou de origem quando você…por exemplo fala das suas sessões de autocrítica na organização, até mesmo nas discussões que você tem com seus pais, nas sessões de análise – que é algo interessantíssimo : como é que alguém que está participando da esquerda, tá vivendo em aparelhos, faz análise kleiniana… Queria que você falasse um pouco sobre isso.

Sirkis – Na minha cabeça, naquela época, eu absorvia aquele pensamento, aquela base teórica que me era incutida pelo processo de formação teórica e também, pelos dos mecanismos de controle psicológico que se estabeleciam. Na nossa cabeça, naquele momento, considerávamos isso um controle ideológico, mas era, de fato, um controle psicológico. Claramente as sessões de crítica e autocrítica se integram nessa perspectiva e se a gente for olhar um pouco prá trás, percebe realmente que a esquerda tem muito em comum com a Igreja, não é? Há uma série de técnicas de doutrinação que através dos séculos foram usadas pelas Igrejas. Por outro lado, uma série de fenômenos que ocorreram nas Igrejas como as cisões, os anátemas, as lutas em torno da interpretação das Santas Escrituras tudo isso se reproduz na esquerda. Então, é claro que naquele momento, dentro de um raciocínio muito mecanicista, eu como pequeno-burguês, achava que estava de certa forma e sadiamente traindo a minha classe e optando pela classe proletária. A dificuldade é que, na verdade, a resistência à ditadura militar no Brasil foi um ato profundamente identificado com a classe média brasileira daquele momento e –salvo pequeníssimo bolsões, como os operários de Contagem e de Osasco– a classe operária foi completamente indiferente à nossa luta. A classe trabalhadora não tava nem aí pra resistência armada contra a ditadura. Então, de fato agora percebemos que uma coisa é a realidade vivida e outra coisa é como você olha as coisas num determinado momento, sobretudo num momento de extrema exaltação de paroxismo como foi aquele. Eram tempos excepcionais, sem dúvida.

"não é um tema que me fascina"

Mário – Você leu o livros dos outros memorialistas? Fernando Gabeira… Renato Tapajós… Reinaldo Guarany…?

Sirkis – Li… li o livro do Renato Tapajós, foi o primeiro que eu li, saiu antes do nosso. Li os livros todos do Fernando Gabeira. Mas, confesso que não li todos os livros sobre o tema. Não é uma literatura que particularmente me interesse… Na verdade, quando eu escrevi Os Carbonários … –isso é uma coisa que eu coloco no prefácio: eu escrevi Os Carbonários porque eu vinha contando no exílio aquelas histórias repetidas vezes e teve um momento que eu senti necessidade de botar aquilo no papel até prá não precisar mais ficar contando aquelas histórias… (Risos) Elas já estariam lá num… no livro. Por outro lado, sobretudo à medida em que o tempo foi avançando, a questão da luta armada, daquela geração, do que eu fiz ou deixei de fazer, o que nós fizemos ou deixamos de fazer não é mais um tema que me fascine ou me interesse particularmente, te confesso… É claro, havendo um livro de grande qualidade literária, eu sem dúvida, leria! E alguns livros eu li por curiosidade. Recentemente saiu um do Pedro Viegas, que até fez uma menção super gentil à minha pessoa. Fiquei muito emocionado porque não vejo o Pedro Viegas há muito tempo e …é um amigo. Li assim… meio na diagonal o do Carlos Eugênio… Olhei assim… folhei um pouco na diagonal alguns outros, mas, sinceramente, não é um assunto que do ponto de vista de leituras, me atraia muito.

Mário – Por que você acha que você e os seus pares …hã… resolveram romancear as suas memórias …ou… por quê usar a forma do romance na maioria das…?

Sirkis – Não…! Os Carbonários não é um romance. Tudo o que aconteceu lá é verdade… até onde eu me lembro… claro que a memória prega peças prá gente mas… tentei fazer um livro que contivesse a verdade. Não absolutamente toda a verdade, mas que contivesse essencialmente a verdade sob uma forma de memorialismo … O Em Câmara Lenta é um romance, sem dúvida, muito influenciado pela linguagem cinematográfica…Outros livros…o do Frei Betto, o Álvaro Caldas são livros de depoimentos também. O livro do Gabeira também é, embora com aquele estilo peculiar dele. O que eu acho que você evoca é outra coisa: são livros que muita gente lia como quem lê romance. Romances foram livros sobre a mesma temática mas escritos anteriormente por alguns escritores como o Ivan Ângelo, o próprio Antônio Calado… Romances eram esses. O que nossa geração escreveu foram depoimentos.

Mário – Ainda nessa linha… hã… quando os críticos… ou as pessoas lêem seus livros, de vocês… têm controvérsias em maior ou menor grau. No seu caso …pelo menos do que eu li sobre o assunto, é sempre apontada a questão da sua juventude na participação da luta armada, e aí alguns críticos tomam isso como uma reflexão um pouco adolescente das suas memórias… Algo pejorativo inclusive. Eh…E acentuam-se, inclusive, as críticas por conta do seu humor, que você emprega… Embora eu tenha lido uma entrevista que você fala que Os Carbonários não é um livro engraçado, muito pelo contrário… Hã… Como é que você vê essas críticas?

Sirkis – Olha, em matéria de crítica, eu não me queixo muito porque comparado com que o Gabeira sofreu eu fui muito bem tratado pela crítica literária … quase toda… só o falecido… Zé Carlos Oliveira escreveu na crítica que o livro era bom mas eu escrevia mal (Risos)… De qualquer jeito… Os Carbonários não teve o mesmo grau de polêmica que O que é isso, Companheiro? Aliás, a polêmica não nem com O que é isso, Companheiro? Foi a estória da tanga de crochê e do Gabeira ter dito que era bissexual…que criou um verdadeiro (Risos)… uma verdadeira.. um verdadeiro…

Mário – Frisson.

Sirkis – …frisson, é… uma grande rejeição por parte de um grande contingente da esquerda inclusive o Ziraldo que era o editor dele, ficou horrorizado… O mais engraçado dessa estória é que, na verdade, quem conhece o Gabeira de longa data, como eu, no caso há mais de 30 anos, sabe que não é bem assim. Quer dizer: só se sabe de estórias do Gabeira com mulher! Nenhum dos melhores amigos do Gabeira jamais soube de um caso do Gabeira com homem! (Risos) Então, se ele teve alguma experiência, foi uma coisa tão escondida, mas tão escondida que ele nem conta (Risos) Prá quem quer realmente assumir uma suposta bissexualidade, convenhamos… O que acontecia naquela época era que… estava na moda ser bissexual! Inclusive, dava prestígio entre as mulheres você dizer que era bissexual. Eu me lembro, até conto isso nesse novo prefácio dos Carbonários, que uma namorada que eu tinha lá em Paris uma vez me perguntou se eu tinha transado alguma vez com outro homem. Eu falei que não. E ela me perguntou “Mas por quê?!” Eu falei “Porra! O corpo masculino não me atrai!” Aí ela olhou prá mim, com um ar de profunda reprovação e disse: “Meu Deus do Céu…! Como você é reprimido!” (Risos).

Mário – (Risos).

Sirkis – Então o fato é o seguinte: você efetivamente tinha melhores chances prá se aproximar de algumas das mulheres mais sofisticadas se você criasse essa auréola em torno de você, entende?! (Risos) Eu nunca eu nunca tive coragem de fazer… acho que o Gabeira fez sem muito problema o que… lhe trouxe algum sucesso entre as mulheres mais sofisticadas mas criou uma verdadeira rejeição, entre o conservadorismo de esquerda. No caso dele, há um outro problema completamente diferente que eu não tive. Sou um dos pouquíssimos… sobreviventes das duas equipes de guarda dos aparelhos das ações de seqüestro, tanto do suíço quanto do alemão. O outro é o Manuel Henrique, que participou do alemão. Dxo suíço não tem mais ninguém–não sei se a Teresa Angelo, afinal, sobreviveu ou não– Enquanto que no caso da turma do MR8, que seqüestrou o embaixador americano, eles estão todos vivos… O Gabeira teve um papel secundário na operação, era um militante de importância menor dentro do MR8, nunca foi da direção e, no caso, vários foram de sucessivas direções… Então… há… um certo incômodo por parte daqueles que se acham muito mais importantes na guerrilha do que o Gabeira, mas foi ele que contou a história e ficou com a notoriedade, ficou como referência daquele geração com idéias que não correpondem às deles. No meu caso não me associei a nenhum choque comportamental …dentro do próprio prefácio dos Carbonários eu digo que “prá início de conversa eu quero ser apenas um contador de estórias” … meu objetivo ali era só contar uma estória bem contada…


Treinando, em 1969.

A questão do humor eu acho fundamental… não só porque alguma das coisas que a gente passou realmente foram engraçadas (Risos) e… depois que um livro sem humor é muito chato… Quanto a adolescente, sim.. Eu era praticamente um adolescente…Era… eu comecei como teen. Se adolescente é a mesma coisa que teenager , eu comecei com nineteen, né? Dezenove anos… então…

"Eliminei muitas gírias"

Mário – Tudo bem, mas você escreveu com 30…

Sirkis – Na época em que eu comecei a escrever, eu optei por uma narrativa extremamente simples e despojada de qualquer tipo de maneirismo estilístico. Uma coisa seca, jornalística e… e… um pouco influenciada por um tom do Pasquim… que dava o tom da escrita naquela época, com muita gíria, coisa que em edições posteriores, sobretudo nessa 13ª edição da Record eu revi. Eliminei muitas gírias. Isso foi uma coisa que depois o Otto Lara Resende, que gostava muito do livro, me deu um toque. Ele e alguns outros escritores veteranos me disseram: “Olha, tudo bem você usar gírias mas… o problema é que você tem que entender que gíria é perecível …então daqui a vinte anos …”

Mário – Ninguém vai entender. 

… as pessoas não vão entender, então acho que você devia colocar num português mais castiço”. Foi o que eu fiz, na última edição… Por que tinha aquelas gírias dos anos 60,70: “ Fulana de tal estava na fossa”… é… “A minha cuca estava cheia de idéias”… entende? Coisas que se falavam na época que hoje já não se fala mais.. Hoje são outras gírias.. Meu filho diz “Sinistro!” Aí você fica assustado com que coisa sinistra foi essa que aconteceu, mas, na verdade, sinistro é “legal”, é insólito é diferente. Se uma pessoa quer que suas obras literárias perdurem no tempo ela tem que recorrer a um português mais convencional.

Mário – Como é que foi o processo de publicar, buscar editora… Houve recusas…?

Sirkis – Houve, houve uma recusa… A primeira editora que eu publiquei foi a CODECRI. E o Ziraldo…(pausa) me esnobou! Muito tempo depois, o Ziraldo me procurou e disse que uma das coisas que ele mais se arrependia na vida era ele ter recusado o meu livro… Sem ler, só foi numa abordagem preliminar… é… ele não tinha lido. E que o livro era melhor do que o do Gabeira! (risos) Ele falou isso porque devia tá pau da vida com o Gabeira por causa da estória da tanga de crochê…

Mário – Se sentiu traído….

Sirkis – É… e … e que, na verdade (risos)… ele falou uma coisa engraçada: que ele tinha desconfiado de mim porque tinha me achado muito bonitão e um cara boa pinta desse não podia ser bom escritor! (Risos)

Mário – (Risos)

Sirkis – … Aí eu fiquei olhando prá cara do Ziraldo, não disse mais pensei: “Porra, Ziraldo! Vai tomá no cu, antes que eu me esqueça!” O que não impediu que a gente tenha sempre mantido depois relações extremamente afetuosas e cordiais, né? Acho que a forma dele ter confessado isso prá mim até revelou uma grande candura da pessoa despojada que ele é. Mas de fato aconteceu isso. Então foi publicado pela Editora Global, que era do Zé Carlos, um português de Angola que… realmente soube do livro, leu, resolveu publicar, a primeira edição saiu com muito erro e… assim de revisão mas teve uma resenha boa na Veja, do Augusto Nunes, e o livro… pau! Estourou! (…)

Mário – Foi um best-seller.

Sirkis – Foi best-seller… depois eu escrevi o Roleta Chilena que é um pouco a continuação.

Mário – Por quê que você altera a estrutura narrativa dos Carbonários pro Roleta Chilena? Quer dizer… Os Carbonários é algo linear, de 66 a 71… E no Roleta, Roleta Chilena você vai narrando o exílio, mas de maneira fragmentada, quer dizer, uma hora aparece…

Sirkis – Porque eu tava encantado com os livros do Jorge Semprún e queria fazer uma coisa parecida… E eu comecei a questionar o meu despojamento estilístico e também fiquei puto porque o José Carlos Oliveira e outras pessoas começaram a dizer que eu o livro era bom mas eu escrevia mal (risos) E eu quis mostrar que eu escrevia bem (risos)!

Mário – Tá… É… e… você acha que… pegando essa coisa do Semprún, você acha que os seus livros estariam numa linhagem… tipo Literatura de Testemunho, como o Semprún, como Primo Levi… Ou não?

Sirkis – Tenho os Carbonários e Roleta Chilena, livros memorialísticos; Corredor Polonês que é semi-memorialístico… Um romance baseado em fatos reais… conta a estória da minha mãe e do meu pai na Polônia e das minhas duas viagens à Polônia, um pouco ficcionalizado, quase nada… e também muita influência do Semprún, ainda nesse livro, que levou uma cacetada do Washington Noaves, que eu saí catando cavaco até hoje… mas hoje acho que teve toda razão na crítica dele de que realmente na última parte do livro há uma perda de substância grande…

Mário – Você tinha projeto de ser escritor ou não?

Sirkis – Tinha.. Meu primeiro livro não foi Os Carbonários mas a A Guerra da Argentina. Foi bem modificado daquela versão delirante que eu fiz em 78 em Portugal…. que parecia o porta-voz do ERP [Exército Revolucionário Do Povo] (risos) Aí passados uns anos.

Depois eu fiz uma tentativa de roman noir futurista influenciado pelo Blade Runner, que é o Silicone 21, que é o livro que foi atacado com ferocidade pela crítica de São Paulo… O falecido Leminski e o Luís Felipe Moisés fizeram duas críticas muito agressivas… na verdade, mais ataques a mim que propriamente ao livro, isso inibiu os livreiros de São Paulo de comprar, a crítica saiu quinze dias antes do livro estar disponível. Foi o caso, o caso clássico da crítica matar o livro, porque a Siciliano… desistiu de fazer a Promoção Carro-Chefe, que a editora Record costuma sempre fazer com aqueles livros que ela tem expectativa de serem best-sellers… e… me ferrei, né? Só vendi uma edição do Silicone 21…. Depois saiu uma outra pelo Círculo do Livro… mas só vendeu essas duas edições. Eu acho o livro engraçado. A grande acusação era de que era um clichê, mas o meu propósito era justamente trabalhar em cima de todos os clichês possíveis e imagináveis do roman noir futurista e um livro que o sujeito comprasse na rodoviária prá ler num ônibus.

Mário – Você tava com Burroughs na cabeça?

Sirkis – Nessa época eu tava lendo muito Burroughs, tava lendo o… [Charles] Bukowski… tava lendo o pessoal…os beat [beatniks], On the road [de Jack Kerouac]… mas na verdade eu tava mais com Blade Runner na cabeça… do que qualquer outra coisa. Blade Runner filme, não o livro.

Mário – Mas é um livro dele [de William Burroughs] também, né?

Sirkis – É do Phillip [K.] Dick, é…mas é diferente, a estrutura, tudo… Então eu imaginei o Rio de Janeiro, no ano 2019, que é o mesmo ano do Blalde Runner… e por incrível que pareça quase tudo que eu previ tá acontecendo…

Mário – Tá lá…

Sirkis – Tanto a nível geopolítico, econômico quanto de coisas, de objetos que na época não existiam e hoje existem. Mas, de qualquer jeito era uma coisa também puxando muito pelo lado do humor, e o Calife, por exemplo, que é um escritor, realmente, muito mais renomado e competente de ficção científica, fez uma crítica legal: não me lembro se foi no Globo ou no Jornal do Bra[sil]… mas ele falou justamente isso. Basicamente ele via como um livro de uma pessoa que estava trabalhando explicitamente em cima de clichês e buscando humor. Há série de alusões políticas, tem um personagem, o “Estrôncio Luz”, claramente uma coisa baseada no Newton Cruz, General Newton Cruz, que na época, era o fodão mor da Ditadura, no final do Governo Figueiredo.

Então, eu fiz esses livros…Agora, quando chegou nessa altura, meados dos anos 80 – não sei se eu já tô me adiantando às suas perguntas – mas quando chegou a essa altura, de repente foi me dando um certo cansaço… de ser escritor… de livros.


Paris, 1973

Mário – Por quê?

Sirkis – Porra! Porque…. são seis meses solitários que você passa você – na época ainda era máquina de escrever, bom, o Silicone XXI, já foi computador. ..Era máquina de escrever, depois computador, um exercício solidário, solitário – os adiantamentos que as editoras pagam são muito pequenos…. Eu consegui viver dois anos de direito autoral. Dois anos. 81 e 82. O que é uma coisa excepcional no Brasil. Você tem pouquíssimos escritores no Brasil que vivem de direitos autorais… Deve ter, sei lá… Rubem Fonseca, Patrícia Melo….deve ter uns dez, umas dez pessoas hoje no Brasil que vivem… bom (risos) Ah, tem o Paulo Coelho, evidentemente, né? Mas é difícil você ser escritor no Brasil… Por outro lado, é um exercício muito solitário e… o negócio do Silicone 21 me deixou muito amargurado. Pensei: você passa seis meses da tua vida… escrevendo um negócio, ali, fazendo… e aí, chega um sujeito, em dez minutos, demole o seu livro, influencia o mercado, você não vende e…

Bom, basicamente não tava mais dando dinheiro, os adiantamentos que eu estava conseguindo eram pequenos e, de repente, eu comecei a me encantar com negócio roteiro. Comecei a escrever roteiros prá TV Globo e para a Embrafilme, era mais legal, porque você escrevia um negócio e daqui a pouco você puxava um monte de gente prá dentro do seu barato: você tinha um diretor, aí você tinha os atores, você conversava com eles sobre os personagens, seus personagens eram mutantes, a sua estória era aperfeiçoada… então, me pareceu uma coisa muito menos solitária mas não quer dizer que eu não volte a escrever livros. Depois, eu entrei na política, fiquei sem tempo escrever livros…Escrevi um ensaio: Ecologia Urbana e Poder Local…

Mário – Saiu em 99…

Sirkis – Também publiquei uma coletânea de artigos … O Verde Carioca… mas livro, livro mesmo, como deve ser – sentar a bundinha na cadeira e passar aí seis meses, oito meses, um ano escrevendo — não tenho tempo atualmente. Não tenho condições na atual fase da minha vida, mas voltarei lá, com certeza, um dia.

"Qualquer dia desses alguém vai fazer o filme"

Mário – Em março de 82, a Veja disse que tinha um projeto… seu, com o Geraldo Sarno, de sair um filme d’ Os Carbonários. Não saiu?

Sirkis – Não, não saiu aquele…Eles compraram uma opção por dezoito meses… e ele e o falecido Nei Sroulevich não conseguiram reunir a produção, depois o Luís Carlos Barreto ficou me enrolando durante dois anos … até que eu descobri que na verdade ele tava me segurando prá não vender prá mais ninguém, para ele poder filmar O que é isso, Companheiro? sem concorrência… Os Carbonários tá aí, qualquer dia desses alguém vai fazer o filme. O que eu não me disponho é escrever o roteiro, eu quero que uma outra pessoa roteirize…. Decididamente, não quero fazer o roteiro d’ Os Carbonários.

Mário – Mas Os Carbonários serviu de base pra…Anos Dourados, da Globo, né?

Sirkis – É… pouquinha coisa. Eles realmente me pagaram US$ 5.000,00 [cinco mil dólares], na época, prá poder usar algumas passagens do meu livro, como a estória do táxi em São Paulo, como algumas outras estórias, usaram o personagem do João Alfredo, a mãe dele modista, situações próximas do livro, mas eu acho que o Gilberto Braga criou uma história dele. Gostei, achei legal, não tão bom quanto Anos Dourados… Emocionante particularmente aquela abertura com Alegria, Alegria , do Caetano Veloso. Achei legal a série.

Mário – Sirkis, de que maneira você acha que o exílio influenciou a sua maneira de narrar a tua experiência… Ou teve influência a questão exílio? Ter saído do país, vivido coisas diferentes…

Sirkis – Com certeza… Você imagina: Até os 20 anos, que é o que eu nunca tinha saído do Brasil. O fato de você morar em outros países é uma coisa te que abre a cabeça de uma forma absolutamente fabulosa… então, claro que oito anos morando fora do Brasil, tendo contato com… dezenas de países diferentes tem grande influencia. Viajei muito, culturas, línguas, pessoas, experiências…

Mário – Tinha… discussões no exílio, culturais, comportamentais…? No Roleta Chilena você chega a falar de uma coisa complicada, que é a “Campanha de Moralização do s Militantes Drogados em Paris”… Como é que foi isso?

Sirkis – É, isso foi uma conversa que eu tive com o nosso chefe do MR8,(…) que era uma pessoa muito moralista e conservadora em aspectos comportamentais. Ele achava que devia se fazer uma Campanha de Moralização da Colônia Brasileira, nos moldes que a Frente de Libertação Nacional da Argélia tinha feito com os bêbados da Casbah…Jogando batatas com gilete na cara dos bêbados.

Mário – Exatamente…

Sirkis – Combatendo o alcoolismo dos bêbados da Casbah… Mas isso nunca chegou a acontecer…! Isso foi uma conversa que eu narro no Roleta Chilena mais a título de folclore. Sei que ele depois ficou puto comigo… (risos) dizem que não me perdoa até hoje e… embora eu não tenha colocado o nome dele, coloquei então o nome de guerra dele, que era ”Miguel”…(risos).

Quem era do grupo daquela época sabe perfeitamente de quem eu estava falando e sabe perfeitamente que é a pura verdade! Mas isso foi apenas um momento da vida dele e de maneira nenhuma esse tipo de coisa foi praticado… O máximo que havia em relação ao fato das pessoas fumarem maconha era… tomarem LSD… era uma reprovação assim ideológica… (risos) O que nunca inibiu ninguém que tinha vontade de fazer, de fazer.

Mário – É…Quê que você acha que seriam as suas influências literárias para escrever esses livros? Você falou que tava com Burroughs, os beatniks, Bukowski na cabeça mas… o que mais?

Sirkis – Entre os brasileiros: Jorge Amado, claro! Érico Veríssimo, muito… É…Graciliano Ramos. Os Carbonários há… uma forte influência estilística do Graciliano…É… Entre os estrangeiros: Jorge Semprún, numa fase mais avançada, o Norman Mailler, com certeza… Vargas Llosa…

"Como é que o Graciliano escreveria isso?"

Mário – Conversa na Catedral? [livro de Mário Vargas Llosa]

Sirkis – Basicamente esses assim… Influências assim que eu teria tentado me espelhar um pouco, em algumas passagens, alguns momentos pode dizer… “Porra! Mas como é que o Graciliano escreveria isso?Como é que o Semprún faria essa transição… de época?”, “Como é que… Vargas Llosa descreveria isso? A gente sempre pensa. Qualquer escritor tá sempre povoado de outros escritores, inclusive com uma… propensão de cometer… imitações às vezes completamente inconscientes… mas eu acho que… qualquer escritor, ele tem dentro de si todos os outros escritores que ele leu, daí que é tão importante, para você escrever bem, você ler muito.

Mário – Qual que é a sua leitura dos outros memorialistas… que você… leu? Você já falou do Gabeira…

Sirkis – Eu acho que o Gabeira foi menos um memorialista, foi mais um ensaísta, de um debate… de uma narrativa de geração, de um choque de cultura. O Renato Tapajós, escreveu um livro muito bom, numa linguagem de cinema, que é o que ele faz… Alex Polari, que… durante muito tempo eu achei que poderia ser um grande escritor da nossa geração, a grande contribuição dele foi a poesia… Câmara para Prisioneiros e Inventário de Cicatrizes, são livros de poesias excepcionais! O Herbert Daniel… o Herbert era o melhor texto de todos nós, assim, em termos de estilo, de escrever bem prá cacete! Ninguém escrevia como Herbert Daniel… Mas não tinha… não fazia concessões, à estrutura narrativa nem a uma certa técnica que você tem que aplicar se você quer realmente cativar a atenção do leitor e manter ele junto com você ao longo do livro. Então, os livros do Herbert Daniel… Passagem para o próximo sonho é um livro difícil! De ler… embora maravilhosamente bem escrito, ele era o melhor de todos. Em termos de escritura… Em termos de história, eu, modéstia à parte, acho que Os Carbonários é a melhor história. Não é o melhor estilo literário, também não era a minha preocupação… Acho que nesse sentido os livros do Gabeira são melhores, Mas a minha estória é a que estabelece uma interlocução mais duradoura com a juventude de sucessivas gerações

Agora, eu não li muitos dos outros livros, realmente por falta de interesse … de continuar revisitando aquele universo… 

"O segundo momento da História é quando ela é escrita"

Mário – Você acha que essas memórias… elas seriam formas de você e os outros, se colocarem nos anos 80 com aqueles novos atores, aqueles novos movimentos sociais? Seria uma forma de autocrítica prá poder entrar na política. Entrar numa nova temporalidade?

Sirkis – Inclusive foi muito mais bem sucedida do que a tentativa anterior, né? Porque é o que eu digo, justamente, nesse prefácio d’ Os Carbonários: História acontece duas vezes, uma vez quando acontece mesmo… e aí é uma coisa fulminante, um suceder de… momentos presentes completamente caóticos e desconexos, uma história cheia de ruído e fúria, significando nada, como dizia o Shakeaspeare…

Depois, o segundo momento da História é quando ela é escrita… Então… na primeira, que fomos fragorosamente derrotados… na Segunda a gente ganhou! Ao contrário do que aconteceu em outros países da América Latina, a nossa narrativa acabou sendo socialmente predominante, sobre a narrativa dos militares. Prevaleceu a nossa…


Em Buenos Aires, 1974

Mário – O Jarbas Passarinho fala isso…

Sirkis – Prevaleceu a nossa narrativa, que é um consolo. Mas, por outro lado, isso se deve, modéstia à parte, ao tom e à abordagem, ao foco, que o Gabeira e depois, eu, adotamos nos nossos livros. Porque se o primeiro livro que tivesse saído, tivesse sido um livro absolutamente de: “Vejam como fomos… heróicos!” ” Como fomos… fantásticos!”, “Como sempre estivéramos certos!” etc. etc. … acho que não seria um sucesso.

Por outro, também se deveu ao fato que há uma diferença entre a guerrilha no Brasil e a guerrilha na Argentina onde uma boa parte da sociedade não perdoa ao ERP [Exército Revolucionário Do Povo] e aos Montoneros terem continuado com a luta armada, no momento da efêmera redemocratização do Héctor Campora. Os Montoneros, continuaram fazendo ataques aos quartéis do Exército Argentino e os Montoneros sua luta interna contra os setores mais à direita do peronismo, matando dirigentes como o que eles definiam como “La Burocrácia Sindical”. Ambos, tanto o ERP, como os Montoneros, continuaram fazendo seqüestros de executivos de multinacionais, para conseguir um tesouro de guerra. Então isso minou profundamente aquela experiência do Héctor Campora…

A palavra de ordem dos Montoneros era: “Com las urnas, al gobierno; com las armas, al poder!” Muito explícito, né? No caso do Brasil, nós nunca atuamos contra um governo eleito. Os Montoneros podem até dizer: “Nós não fazemos ações armadas CONTRA o Governo do Héctor Campora. A gente fez ações armadas DURANTE o Governo do Hector Campora” Mas evidentemente isso minou, desde o início, aquela experiência de democratização, da mesma forma… que minou o Governo do Perón. No Governo da Isabelita [Péron], a direita já se organizou em grupos para – policiais e, durante todo esse tempo, os militares se preparam e deram o golpe em 76. Depois foi um massacre 30 vezes pior que do Brasil. Aqui morreram 1.000 pessoas, nos anos de chumbo; na Argentina, foi 30.000… Então há um ressentimento muito grande na classe média argentina, contra as organizações guerrilheiras. Tanto que o Firmenich, chefe dos Montoneros, foi preso aqui no Brasil, extraditado, passou um tempão na cadeia e ninguém nem deu bola prá ele. Fora o pessoal mais ligado aos Montoneros, ninguém fez campanha pela Anistia do [nome incompreendido pela transcrição] As pessoas tinham horror deles. Depois eles tinham uma característica muito extremista bem mais acentuada em alguns aspectos, embora aqui também tenha havido episódios escabrosos, como o do Márcio Toledo mas foi pinto perto do que aconteceu na Argentina. A Argentina sempre em todos os níveis é over.

Se tivesse havido um fenômeno dessa magnitude e se nós tivéssemos atuado contra um governo democraticamente eleito, aqui no Brasil, acho que a imagem seria bem pior…. Porque… a gente pode pretender que apesar da nossa proposta ideológica, na época ser a da ditadura do proletariado, de uma ditadura revolucionária, não resta dúvida, que tenha sido uma resistência democrática.

Eu estava conversando com uma colega sua também que está fazendo tese sobre isso, ela discorda dessa tentativa de se apresentar aquilo lá, hoje, como uma resistência democrática à ditadura, na medida em que a nossa proposta era… o regime revolucionário…

Mário – Mas tinham organizações que não… que viam o foco [não entenda aqui como foquismo] como a libertação nacional, não como caminho para o Socialismo…

Sirkis – Não… era libertação nacional a caminho do Socialismo… Mas de qualquer jeito…todos pensavam numa ditadura revolucionária, com lideranças revolucionárias assumindo o governo ditatorial. Ninguém pensava: “Vamos derrubar a ditadura e, no dia seguinte, marcar eleições prá uma Constituinte”. Isso não passava pela cabeça de ninguém. Porém…! E aí eu faço a grande ressalva… o que desencadeou a luta armada foi o fechamento de todas as outras vias e uma situação de opressão muito forte. Se, naquele momento, nos anos de chumbo, a ditadura tivesse proposto prá guerrilha uma… negociação no seguinte sentido: “A gente restabelece a liberdade de imprensa, solta todos os presos e convoca eleições, livres e diretas”, eu tenho certeza que a gente teria aceito um cessar-fogo. Não que nós tenhamos discutido isso, mas, conhecendo as pessoas e a forma com que as coisas se davam dentro da guerrilha, eu tenho certeza que, a luta armada não teria prosseguido…

Mário – Todas as organizações?

Sirkis – Eu acho que sim.

"Meu desejo de voltar era gigantesco"

Mário – Como é que você e como é que você se vê na Anistia e na Abertura, no processo?

Sirkis – (risos) Eu me vejo muito bem. Porra, foi ótimo, uma maravilha! Ter voltado…

Mário – Teve gente que diz que não queria voltar.

Sirkis – Ah! Pelo amor de Deus…

Mário – Reinaldo Guarany…

Sirkis – Olha, eu… meu desejo de voltar era gigantesco! No dia que eu voltei, foi maravilhoso, duas horas depois eu já tava na Praia do Pepino pegando jacaré, com meus primos. E foi o momento mais feliz da minha vida… É que existe uma coisa mais forte que tudo, minha ligação é com a cidade do Rio de Janeiro. O Brasil é uma abstração. O concreto é a cidade. Eu tinha uma puta saudade do Rio.

Mário – É… Antes da sua volta, em Portugal você dá uma entrevista pro Movimento, em 79, você fala… você afirma sua opção pelo PTB, pelo Trabalhismo e… pelo Brizola. E, inclusive, isso gerou uma reação dos jornais de esquerda, aqui, dizendo que era uma opção conservadora, que você fala que você e mais 25 petebistas, estariam Lisboa, aguardando o retorno, na Abertura, prá se ligar ao Brizola e não ao PT, a um partido …

Sirkis – Olha, o PT tava começando a ser articulado…!


Paris, 1979, concluíndo Os Carbonários.

Mário – Como é que… como é que rola essa coisa, essa opção pelo Trabalhismo?

Sirkis – Basicamente é o seguinte: o Brizola foi expulso do Uruguai, o Carter recebeu ele nos Estados Unidos, umas semanas… depois ele foi prá Portugal; onde encontrou nosso grupo de pessoas que tinham sido da VPR, MR8, ALN. Tudo ex, ex, ex… Eu ja tinha feito a transição entre a extrema esquerda e a social-democracia, que, no… no… nosso caso se deu pelo ridículo, quando. A extrema esquerda deu aquele vexame em Portugal. A gente saiu do Brasil, querendo fazer a revolução e não conseguiu; foi pro Chile, tentou fazer a revolução e não conseguiu; foi prá Argentina, tentou a revolução, não conseguiu; chegou em Portugal, tentou fazer a revolução e não conseguiu… Só que a diferença das outras coisas, é que Portugal não foi uma tragédia, foi uma comédia! A atuação que nós brasileiros tivemos em Portugal naquele período, entre o 25 de setembro e o 11 de março – 25 de setembro de 74 e 11 de março de 75 – foi uma das coisas mais ridículas que eu já vi na minha vida. E, no entanto… e… e.. a gente tava convencido de que iam prender a gente e… fuzilar, deportar… E não aconteceu nada. Ficamos chafurdando no ridículo.

Mário – Por quê ridículo?

Sirkis – O que houve em Portugal? Um golpe de estado progressista, militar, contra o Colonialismo. Depois de uma situação de transição, restabelecida na democracia e a extrema esquerda achou que tinha implantar uma república dos soviets em Portugal de qualquer jeito! E começou desde o primeiro momento a conspirar contra a democracia. que estava sendo implantada em Portugal. E os brasileiros lá. nós todos participamos disso, metidos com aquelas organizações de extrema esquerda que haviam em Portugal, que eram basicamente o PRP, o MÊS e as ala ultra-esquerda do MFA [Movimento das Forças Armadas) chefiada pelo Otelo Saraiva de Carvalho, um lírico, e outros militares da extrema-esquerda com uma visão absurdamente golpista! Hoje sinto vergonha do que a gente fez lá. E aí depois, que aquilo foi derrotado, quando o Ramalho Eanes, chefe do Estado-Maior, e o Jaime Neves, comandante do Regimento de Comandos da Amadora, se mobilizaram, numa ação militar extremamente eficiente, incruenta, neutralizando todos os quartéis controlados pela extrema-esquerda. Eu fui prá casa, dizendo “Mais uma vez fomos derrotados”, eu tava tão deprimido que me deitei na cama, falei: “Vou ficar aqui esperando que venham me prender!” (risos) Aí eu passei um dia, dois dias, três dias, quatro dias, ninguém veio prender, nem a mim (risos)... e o Carlos Minc, que morava na mesma casa; ninguém veio nos prender, esqueceram da gente...E depois perdoaram a gente... O Partido Socialista, o Mário Soares daqui a pouco estavam fazendo campanha pela nossa Anistia no Brasil, perdoaram a gente pelas merdas aprontamos (risos) Então, aquilo foi... um choque altamente didático, porque não houve lá a tragédia a ser digerida... como no caso do Chile, na Argentina, a revolta, aquela coisa, “ oh, oh... como nós somos pobres mártires! Nossos companheiros torturados, massacrados!”... Não! Houve... a gente achou que ia ter uma ditadura militar... e porra nenhuma: convocaram eleições o PS ganhou. Governo foi democrático. O pessoal o pessoal que deu o contragolpe, era de uma esquerda moderada, o ... o ... Melo Antunes, sobretudo, que era o grande ideólogo dos oficiais... jovens oficiais portugueses --morreu há pouco tempo-- o Ramalho Eanes talvez fosse o mais de centro... então... porra...então a gente caiu em si! E viramos meio social democratas e com uma sensibilidade ambientalista, e passamos a trabalhar muito ligados ao Partido Socialista Português, do Mário Soares. E aí nessa hora, já , 78, pimba: o Brizola chega em Lisboa e vislumbra-se a possibilidade de usar a liderança do Brizola e a tradição histórica do Partido Trabalhista Brasileiro prá se criar um Partido Socialista, de cunho social-democrata, baseado numa história, com raízes históricas, no Brasil.

Apresentamos o Brizola ao Mário Soares; ele imediatamente seduziu o Mário Soares, foi apresentado numa reunião da Internacional Socialista ao Willy Brandt, pro Oläf Palm e, muito embora o Brizola fosse um biglota: só falava português e portunhol! (risos) ele seduziu os manda-chuvas da Social Democracia internacional de uma forma impressionante. O Willy Brandt passou a achar o Brizola o máximo! O Mário Soares passou a achar o Brizola o máximo! O Brizola seduziu os caras com aquele jeito dele de falar as coisas, com aquelas metáforas...

Mário – Um grande retórico, né?

Sirkis – ...Chegou pro Willy Brandt e falou: [imitando a voz de Brizola]”Willy Brandt! Os militares no Brasil estão na mesma situação que o Exército Americano no Vietnã! Eles tem a força, mas não conseguem mais usá-la!” (risos) Aí depois… foi feita a lá tradução pro Willy Brandt, aquela porra toda, o Willy Brandt achou aquilo tudo o máximo e o Brizola virou… uma grande referência da Internacional Socialista. E nós, achando que seríamos os luas-pretas do Brizola. Que uma vez, voltando pro Brasil, nós seríamos os dirigentes, de um grande Partido Socialista criado em volta do Brizola, poderia se chamar PTB, mas de fato era um Partido Socialista… é…[suspiro] Foi um erro de cálculo, porque quando o Brizola voltou pro Brasil, imediatamente foi cercado pela Turma da Maçaneta, pelos velhos puxa-sacos do Trabalhismo, estabeleceu aquela relação Caudilho – Massas, sem intermediação de uma elite política esclarecida, que nós julgávamos que éramos nós. E…então, fomos nos afastando dele, alguns mais rápidos que outros. Eu me afastei dele em 1980, sem nunca ter tido nenhuma briga com ele; mantive uma relação cordial e carinhosa com o Brizola, até o fim da vida dele. Chorei quando morreu. Gostava, dele, mas, sempre, à minha distância, né? (risos)

"O PT rejeitava aquelas bandeiras"

Mário – E por quê que o PT não se tornou uma opção? E aí sim a Ecologia e, posteriormente, o Partido Verde?

Sirkis – Porque o PT rejeitava exatamente aquelas bandeira que configuravam exatamente a parte moderna do que a gente queria acoplar a um partido socialista. O PT cagava e andava pro ambientalismo… Achava… logo nos seus primórdios… que negócio de Ecologia… era besteira, coisa de veado (risos) e…que… “Primeiro temos que resolver o problema da miséria, prá depois se preocupar com o Meio Ambiente…!” Tô… caricaturando um pouco mas era mais ou menos por aí… E, porra! Questão de… minorias, homossexuais, não-sei-o-quê… “O negócio é luta de classes! Trabalhadores contra Patrões, Revolução… de Massas… Movimentação de Massas! Grande Movimento Sindical, Comunidades de Bases!” etc… No Rio o PT nunca conseguiu se criar, em função, de um lado o PDT do Brizola, e em função do PV também. Eu em um breve momento eu me aproximei um pouco, mas percebi que não tinha espaço no PT prás nossas bandeiras. A gente durante cinco anos achou que era o “Verde em vários partidos” e não o Partido Verde, mas nos convencemos, nas alturas de 1985 de que, não havia muito espaço, no fundo, pro Verde em vários partidos e até prá que pudesse haver Verde em vários partidos, tínhamos que criar o Partido Verde. Aí os outros Partidos, até por necessidade concorrer com o PV, iriam prestar mais atenção para a questão ambiental. Foi o que aconteceu.

Mário – E esse Verde tá mantendo [trecho incompreensível] com os Verdes Europeus?

Sirkis – Naquele momento, eram os Verdes Europeus, sem dúvida. Os Verdes Alemães, sobretudo…

Mário – E… como é que surge a Ecologia, como plataforma política prá você?

Sirkis – Na última fase do exílio, a partir de 77, 78… Muito Movimento Ambientalista na Europa, Movimento Anti-Nuclear… Movimento Ambientalista, na Europa. A gente vendo aquelas coisas acontecendo e fomos nos aproximando e… conhecendo os dirigentes, sendo influenciados por eles, querendo fazer uma coisa similar no Brasil. No Brasil já havia um movimento ambientalista, no sul, sobretudo… o Lutzemberger, Magda Rener, um pessoal que começou antes da gente. Mas a Ecologia Política, foi introduzida no Brasil com a volta dos exilados.


De volta ao Rio, 1980, na época do lançamento de Os Carbonários.

Mário – Sirkis, prá finalizar… que o seu tempo… é…como é que você vê essa reapropriação da memória dos anos 60 em filmes, minisséries, você vê “Dois Córregos”, “Que bom te ver viva”, enfim: como é que você vê… “Ação entre amigos”…?

Sirkis – Não vi esses últimos. E… mas, possivelmente, até vou… vou ver. Aí novamente cai naquele problema que não ser uma estória que nesse momento me interesse, especialmente. Da leva anterior o único filme que eu achei que conseguiu reproduzir realmente o que a gente vivia, foi o “Nunca fomos tão felizes”, do Murilo Salles. Narra a estória do pai e do filho, e tal… Mas foi o filme que mais se aproximou, de conseguir mostrar a solidão, o isolamento social, os dilemas, as questões…Agora, eu não faço parte dos revoltados, contra esses filmes atitude muito comum, entre os antigos militantes daquela época, uma grande revolta, sobretudo no filme do Bruno Barreto… As pessoas vão pro cinema, com a expectativa de encontrar na tela a sua estória, ou alguma coisa similar que viveram. Isso aí é desconhecer os rudimentos do cinema, entende? O cinema não é a vida; o cinema é o cinema. Cinema é uma condensação dramática de 1h20min, 1h50, 2 horas… de uma situação tentando buscar… extrair dela… sentimentos mais extremos e símbolos e coisas. Sou roteirista, não tenho a menor ilusão de que você possa no cinema reproduzir a vida. E que a estória das pessoas possa ser contada de uma forma fidedigna, no cinema. Você pode, no máximo, ter uma fidelidade em relação a um tema, a uma narrativa, a cenas, a emoções, a momentos. E eu acho que isso alguns filmes conseguiram. Mas eu não fiquei nem um pouco… aborrecido com esse filme, que provocou um enorme frisson. Achei que tinha coisas interessantes, outras que eram completamente artificiais, não tinham nada a ver. A forma com que ele apresentava, por exemplo, a repressão era ridícula. Parecia que era um outro grupo, parecido com a gente, só que contrário. Não dava a dimensão de que aquilo era o Estado, o Exército Brasileiro, as instituições ali reunidas… do poderio daquilo… parecia que era um… (risos) um bando rival, né? Com outro comando, digamos assim. Dos personagens alguns eram frágeis, outros melhores o da Fernandinha [Fernanda Torres, que faz o papel de Vera Sílvia Magalhães, em “O que é isso, Companheiro?”], sem dúvida, era um personagem bem constituído. Mas… sabe, eu vejo esses filmes como um espectador. Sento, olho prá tela, julgo se o filme é bom ou é ruim exatamente pelos mesmos parâmetros que eu julgaria qualquer filmes que eu tivesse vendo sobre qualquer outro tema. Então, nesse sentido, eu sou platéia, completamente, despojado de qualquer tipo de outra expectativa. Posso dizer: “Gostei, não gostei, achei bom, achei ruim”, mas não vou dizer “Pô… um absurdo…esse filme… é uma traição, uma insulto à memória dos companheiros que trombaram…

Mário – A última: quarenta anos depois, o quê que significa o golpe prá você? As melhores e as piores lembranças; a esquerda no poder; os movimentos de esquerda hoje…

Sirkis –O golpe eu fui a favor na época… no dia em que ele aconteceu, 1º de abril de 1964…

Mário – Pois é… Você era lacerdista.

Sirkis – Eu fui dormir ouvindo marchas militares, no rádio de pilha… “Dobrado do Barão do Rio Branco” tocando… Eu, emocionadíssimo, achando que os militares tavam trazendo a redenção do Brasil. Tinham nos livrado do comunismo, tavam trazendo a redenção do Brasil. Aí, passados… três anos… já estava com os estudantes na passeata, descendo a Rio… a Avenida Rio Branco e gritando “O povo organizado derruba a ditadura”…. Foi o que aconteceu com a classe média do Rio de Janeiro, basicamente…

Fonte: http://josekuller.wordpress.com/42-entrevista-com-alfredo-sirkis/

 

Guerrilha no Brasil – O Sequestro do Embaixador Suico Tags: Alfredo Sirkis Lamarca Iara Iavelberg luta armada guerrilha ditadura militar COMUNISTAS sequestro embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher

 

Guerrilha no Brasil

O Sequestro do Embaixador Suíço
 

Carlos Lamarca e o embaixador Giovanni Enrico Bucher

 

Na História do Brasil existem acontecimentos surpreendentes, mas infelizmente pouco conhecidos do grande público. Um deles é o sequestro do Embaixador Suíço, que foi trocado por 70 prisioneiros que estavam sendo torturados nos porões da ditadura militar. Esta ação foi liderada por Carlos Lamarca da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Durante 40 dias angustiantes os guerrilheiros mantiveram o embaixador Giovanni Enrico Bucher em cativeiro, aguardando a resposta dos militares. Dentro do “aparelho” clandestino também estava Alfredo Sirkis. É ele quem narra essa emocionante história no livro Os Carbonários.

 

O GRANDE ENGARRAFAMENTO

Guerrilha no Brasil - O sequestro do embaixador suíço

Curiosos e policiais olham o local do sequestro


Surgiram no espelho às 9,15 hs., em ponto.
Abri a porta do Volks bege para os três que chegaram a passo apressado, vindos do outro lado do muro. A rua do transbordo era serpenteada  de paralelepípedos, uma das curvas à volta de um muro fortificado,
O fuscão turqueza, que instantes antes os deixara do outro lado dessa curva, passou apressado ladeira acima. Nisso Ivan já segurava 1 porta e fazia sinal pro embaixador entrar. Paulista mão no Smith & Wesson, dava a cobertura.
Me deparei com ele, de terno e gravata, rosto carnudo, avermelhado, um nariz grosso, robusto jeitão europeu bem nutrido. Um par de olhos assustados.
— You will be well treated. (Você vai ser bem tratado.)
Assumi de novo minhas funções de intérprete oficial da VPR.

— Porrra. - . Eu não sou americano, sou suíço! Não tenho nada com isso. Rapazes vocês, certamente cometeram um engano! Falava um português excelente, com leve sotaque.
— É o senhor mesmo que queremos. Imperialismo ianque já pagou
quinze presos, Japão cinco, Alemanha quarenta. Tá na hora dos bancos suíços comprarem a vida dalguns companheiros torturados. A Suíça é a quarta investidora na miséria do nosso povo.
Subimos as ruas serpenteadas, ultrapassando um bonde que apareceu pela frente. Pequeno trecho de Santa Teresa e toca pro Rio Comprido, ladeiras abaixo. Depois Tijuca.
São Francisco Xavier, trânsito desimpedido, sinais verdes a favor. Nenhum cambura visível.
9.25 hs. Já devem ter dado o alarme, pensei.
— Teve tiro na ação?
Ivan diz que sim.
— Paulista teve que ferir o guarda-costas que reagiu e quase acertou um tiro no Daniel. Puxou uma tremenda PPK. Depois apareceram dois guardas de trânsito. Tinha um desastre perto dali. Botei a INA prá fora do carro, eles voaram pro chão, um bateu até com a cabeça no poste. A saída foi incrível, pela calçada. O sinal em frente o Fluminense tava fechado, perdemos mais de um minuto.
Pensei no esquema de contra-informação que já devia ter sido acionado naqueles instantes pelos simpas na equipe de inteligência. Tocavam telefones de delegacias e redações de jornais com a deduragem de “uma Kombi verdinha com uns elementos estranhos, pinta de terroristas e um senhor de mais idade”, alhures na floresta da Tijuca. Ou “uma Rural Wlllys estranha”, com rapazes barbudos e um caixote esquisito, na subida do Cosme Velho prá Santa Tereza.
Enquanto isso, nos distanciávamos pelos subúrbios da Central. Na altura de Engenho Novo, o primeiro camburão da jornada. Sirene ligada e manobrava no calcadão, em frente à delegacia. Cruzamos por baixo dos trilhos da Central e seguindo a rota prevista, por um emaranhado de ruas secundárias, rápidas passagens por algumas artérias. Em Cascadura, parei uns instantes numa rua deserta prá Ivan tirar as mar-tarochas.
9,30 hs. Do transbordo até ali o carro viera com um par de chapas “frias”, cobrindo as legais. Estavam atarrachadas naqueles acessórios que o VW fornece aos fusquinhas mais chiques, uma armação de metal cromaido. Punha-se uma tira forte de elástico prá prender a armação sobre a placa legal.

Em menos de três segundos se calçava ou descalçava. Por que Marta Rocha? Até hoje é mistério.
lvan voltou com elas e jogou debaixo do banco. Paulista papeava animadamente com o embaixador, agora mais calmo. Prosseguimos a viagem rumo a Madureira. Paulista cuidava do enxoval do diplomata para a crucial entrada na infra do rapto.
Guarda-pó de pinor, boné claro e os óculos escuros de ceguim.
Era mais simpático o disfarce que o caixote da vez anterior. Além do que a infra da Tacaratú era muito mais devassável do que a do von Holleben.
Madureira, estrada do Sape, Portela querida. Orações a todos os deuses e santos de todas as crenças prá que a ladeira da Tacaratú estivesse vazia, vazia, naquela abafada manhã de 7 de dezembro.
Evitamos o quartel da PM e chegamos pela transversal que cortava rua mais acima. Rua deserta, saravá!
9.45 hs. Fiz meia volta frente a casa e colei no portão, sobre a calçada. Ivan saiu ligeiro seguido de seu Giovanni, o pintor de paredes e Paulista,. sempre na cobertura.
— O seu João, vem cá ver a parede que tá precisando duma mão.
Num segundo tinham cruzado o portão e a varanda. A porta que se abriu e sumiram, enquanto eu tirava o carro da calçada, estacionava pouco 1 mais abaixo. Antes de entrar, dei uma panorâmica na rua. O dia era muito quente e preguiçoso, trinavam insetos e não se via ninguém, nem nas calçadas, nem nas janelas. Um rádio tocava alto na casa dos vizinhos, às voltas com a louça do almoço, as roupas do tanque, os cheiros matinais.
O embaixador da Suíca, Giovanni Enrico Bucher, já estava instalado nas poltronas da sala do meio, quando cheguei. Em mangas de camisa, vermelho e transpirando, fumava seu Benson & Hedges. Paulista lhe explicava algo, Helga fazia um suco de maracujá e lvan revistava sua pasta.
Estavam todos de capuz negro, mas, faziam o possível para atenuar a imagem um tanto tenebrosa.
Bucher mais sossegado, ar até meio cúmplice, pediu-nos que queimássemos um documento que trazia na pasta. Um informe reservado de Berna para a embaixada na qual vinham tratados vários temas, inclusive a situação brasileira. Havia algumas observacões críticas sobre questões da direitos humanos, nada muito duro, mas, o suficiente para que temesse um problema diplomático como o ocorrido com Elbrick.
— Nunca se sabe o que pode acontecer, argumentou.

Paulista concordou com o pedido de Bucher prá criar um ambiente colaboração mútua, agora que estávamos todos na mesma canoa.
Deixamos que ele próprio queimasse o memorando. Helga trouxe um balde com álcool no fundo e acendeu, enquanto Bucher picava um monte de vezes o documento, deixando cair um por um os pedaços que iam sendo consumidos pela chama, dançando alto.
Parecia se divertir com a ocupação.
Mais tarde chegou Daniel com um sorriso excitado. Já estávamos preocupados com a sua demora.
— Pô, cês não imaginam como tá a cidade! Eles fecharam tudo, tudo! Pararam o trânsito prá nos pegar. Não sei como vocês passaram, vim de ônibus no Engenho Novo e pelo Meier já estava o trânsito parado, os homis revistando todos os carros.
O rádio, onde a notícia já tinha estourado há mais de meia hora, confirmava a situação. O trânsito em toda cidade foi bloqueado, para que centenas de milhares de veículos fossem revistados, em busca do embaixador suíço.
No centro da cidade, regiões extensas das zonas sul, norte e subúrbios, o enorme dispositivo policial-militar, desencadeado, menos de cinco minutos após os acontecimentos da rua Conde de Baependi, paralisava as gigantescas filas de automóveis e coletivos.
As forças da ordem e da lei filtravam os veículos. Dezenas de suspeitos já estavam detidos e esperavam o desvendar do caso rapidamente — segundo fonte dos órgãos de segurança nacional, precisava o locutor.
E passamos o resto da tarde ouvindo, de meia em meia hora, as notícias do maior engarrafamento da história do Rio de Janeiro.

 

 

O SUÍÇO

Guerrilha no Brasil

Casa onde o embaixador suíço ficou "guardado" por 40 dias


— Compreendo que vocês queiram de alguma maneira salvar seus companheiros. A situação dos presos políticos desse continente, e desse país, — porque não dizê-lo francamente? — é péssima. Mas, não posso deixar de estranhar (e de protestar), por que diabos, logo eu? Eu não tenho nada a ver com essa situação. Como embaixador intercedi pelo Jean Marc, presidente da UNE, tentei valer sua dupla cidadania. Sua condição de suíço. Não houve nada a fazer neste caso. O chanceler Gibson Barbosa me respondeu: na dupla nacionalidade, prevalecia a do país onde se encontra o cidadão. Ele tinha razão, pelas leis internacionais.
Suspirou, remexeu na poltrona e continuou a argumentar para os capuzes negros.
— Levantei até com o vosso, quer dizer. . . o deles, chanceler Gibson, que é um homem ponderado, devo dizer-lhes — o problema das torturas que, segundo fui informado pela família, o rapaz sofrera. O chanceler me respondeu que realmente tinha havido alguns casos escassos de responsabilidade de alguns policiais comuns. Que o exército já tinha coibido essas práticas por interferência direta do próprio presidente Médici. De resto, que este era um assunto interno brasileiro e que estranhava um pouco a minha insistência. À saída, já menos irritado, me garantiu que os excessos já haviam sido totalmente sanados, graças a Deus.
— Pô, e o senhor acredita nisso?
Minha voz se fez céptica sob o capuz.
— O ministro é um homem distinto. Mas, aí existe naturalmente Ia raison d’état. Se vocês me disserem que as torturas continuam não vou deixar de acreditar.
Disse acrreditar, com sotaque no crê.
— Conheço bem o país de vocês, estou aqui há cinco anos. Conheço os empresários, mas, também já freqüentei favelas. Acho a miséria espantosa. Mais espantosa a causa do luxo da pequena parcela rica, riquíssima.
— isso aí. O capitalismo. Por isso que a soluçâó é o socialismo. A revolução.
Eu preparava-me prá nova esgrima, com novo embaixador.
— Às vezes é a única saída, em países atrasados. Talvez alguma forma de socialismo seja a solução pro Brasil. Mas acho difícil vocês conseguirem isso. Talvez impossível. São poucos e o povo não os conhece. É analfabeto
e trabalha para comer todos os dias. Não liga para política e parece contente como Carnaval e o Tricampeonato.
— Podemos tentar, né? Os bancos suíços com certeza é que não vão
Ele se remexeu novamente, enxugou o suor da testa e reclamou do calor dos diabos. Realmente, fazia quase 40º naquele dia.
— Eu sou o representante do governo suíço, os bancos têm outros canais próprios. Sou um simples diplomata de carreira. Represento meu país nos vários continentes. Minha interferência pelo Jean Marc von der Weid, teve seu custo. Gibson passou a me tratar friamente nas recepções. Sei que o ministro Buzaid não gosta de mim. Homem estranho, tem uma cara horrorosa.

Ele agora estava com toda a corda.
— Bem, diríamos, então, que o senhor está praticamente do nosso lado?

Levantou as duas mãos num gesto de não-me-comprometa, e sentenciou com a voz ligeiramente empostada e sotaque um pouco mais perceptível:
— Não, porque sou contra uma violência que sofri. Além disso estou com receio que aconteça algum problema. ---  O que vai acontecer se descobrirem a casa?
— A segurança da casa é perfeita. Ninguém nos viu entrar, a repressão perdeu completamente o traço. Agora se descobrirem resistimos até o fim e morremos todos.
— Não é uma boa perspectiva. Espero que não descubram.
— Descobrem não. A única questão é o governo ceder e não vemos porque não cederia. Há três precedentes favoráveis. Estamos seguros que tudo correrá bem em breve nossos companheiros, bem como o senhor, estarão todos em liberdade, numa boa.
Ele ficou muito sério, pensou e depois disse, preocupado:
— Meu governo fará, tenho certeza, muitos esforços. Mas, os senhores devem saber que eu não sou o von Hoileben. O von Holieben — repetiu, batendo as sílabas do nome do colega — é muito, muito importante. Também não sou ambasador Elbrick. Nixon pessoalmente, intercedeu por ele. Richard Nixon em pessoa.
— I want to talk with the man in charge of this fucking country (Quero falar com o homem que manda nesta porra deste país). Foi o que Dirty Dicky disse pelo telefone aos próceres da Junta Militar, queria saber qual deles era o “fucking man”.
Ele não ria da graça e preocupado repetiu:
Como dizia, não sou nem o von Hoileben, nem o Elbrick, sou muito menos importante. A Suíça é um pequeno país.
— Um pequeno país, mas, um grande banco, Ivan entrou de sola.
Prosseguiu impassível mostrando porque os outros embaixadores linham sido melhor escolhidos que ele. Revelou que era amigo do chanceler Graber e que este certamente moveria os canais competentes temia que o governo brasileiro não se sensibilizasse pela sua sorte.
— Acho que eles não gostam de mim.
Daniel que assistia a conversa silencioso detrás do capuz, quis animá-lo:
Mais importante que o cônsul japonês você é.
Rimos todos, diplomaticamente.
Já era tarde da noite quando me instalei à mesa da cozinha, guarita da minha primeira ronda, enquanto Ivan e Helga deitavam no sofá-cama da sala de entrada e Paulista e Dan se acomodavam no quartinho dos fundos.
Fiquei jogando paciência junto a M-1 sobre a mesa. Ouvindo rádio à espera de alguma notícia, quem sabe a leitura do nosso comunicado nº. 1, com as exigências, que seguira logo após a acão. Mas, nada de comunicado e nenhuma resposta oficial do governo. Só notícias sobre buscas frenéticas, em toda cidade. Fora isso, as condenações de variados círculos e autoridades públicas e privadas da indústria e do comércio.
Sentia-me preocupado e angustiado, os minutos passavam lentos, muito lentos e quanto mais analisava os dados, mais crescia dentro de mim o receio de que a coisa corresse mal. E se não cedessem? Se desta vez se recusassem a negociar?
Acabei minha ronda mergulhado numa poça viscosa de grilos e incertezas, o M-1 sobre a mesa no a dar respostas, o rádio emudecera em estática e as cartas não revelavam nada do futuro, apenas estavam lá todas misturadas no jogo de paciência, que eu tinha desfeito, impaciente.
Fui acordar o Paulista. Levantou silencioso e fomos cruzando de volta na ponta dos pés, a sala do meio, escura, onde dormia o embaixador. Esbarrei no pé de uma cadeira e da cama veio um esgar de susto.
— Calma, tudo bem, somos nós.
Murmurou algo e virou nos lençóis, entre sonhos agitados. Fechamos a porta para a saleta de entrada e fomos prá cozinha. Paulista fez um café e ficamos algum tempo comentando os lances do dia. Me animei um pouco com o seu aparente otimismo e só aí comecei a me sentir cansado, muito cansado. Voltei ao quarto dos fundos pela janela da área e me atirei na cama. Fui expulsando lentamente a angústia que voltou, quando me lembrei de que dia era aquele.
Eram as 3 da manhã do dia 8 de dezembro. Naquela data eu completava 20 anos. Restava saber se chegaria inteiro aos 21, se iam me dar os 70 presos de aniversário e se o astral estava ou náo prá Sagitário. 

 

"ROUBARAM O CONSUL!"

‘Levanta cedo e trata de se preparar
Vamo prá Porte/a, que o reino do samba é lá
Levanta cedo.”

Soou às sete o clarim carnavalesco. Emergi dum sono inquieto, de sonhos confusos. Tinha dez anos e queria uma bicicleta. Levantei lépido de ansiedade. Notícias?
Paulista ouvia o rádio na cozinha, não tinha dormido, mas parecia impávido.
— Ói Felipe, dormiu legal?
Helga preparava-se para sair. Daniel, sem sono depois da última onda, lia um livro em castelhano, encostada na porta de entrada, vigiando de rabo de olho a porta do banheiro onde Bucher fazia a sua toilete. lvan saíra prá comprar os jornais e dar uma urubusservada geral nas redondezas.
Voltou logo, trazendo o JB que dava o rapto na manchete e lhe dedicava um furibundo editorial de apoio total ao governo Médici, seja qual fosse a política que este viesse a adotar. Algumas notas e comentários conduziam à idéia de que desta vez o governo mudaria sua atitude.
Ao folhear melhor o matutino, nos deparamos com uma notícia que no primeiro momento passara despercebida. Era um comunicado da repressão de São Paulo, anunciando a morte de Eduardo Leite, o Bacuri, num tiroteio perto de Santos.
Pairou na casa um silêncio glacial.
A notícia era das mais calhordas. Lembrava a “fuga” dele, várias semanas antes e comentava lances do tiroteio no qual tinha sido morto, ao “resistir à prisão”.
Sabíamos que Bacuri nunca fugira. Na época da prisão e morte do velho Toledo, fora retirado, uma noite, da sua cela no DOPS de SP, por Fleury e sua equipe. Os demais presos promoveram um escarcéu, gritando e batendo com as canecas nas grades das celas, em protesto pelo seqüestro. Não adiantou nada.
Ele foi transferido para um dos sítios clandestinos e lá começaram a matá-lo aos pouquinhos. Segundo uma informação que tínhamos recebido, estava cego e tinham lhe quebrado as pernas. Era torturado todos os dias.
A única esperança — remota — de salvá-lo, era aquela ação. O nome de Bacuri encabeçava a lista. O anúncio da sua morte, no dia seguinte ao seqüestro, ensombreceu o ambiente. Depois ficaríamos sabendo que o companheiro, barbarizado durante semanas a fio e já totalmente irreconhecível, foi executado com uma machadada logo que chegou a notícia da operação. Antes cortaram-lhe a orelha.
Os jornais da manhã, bem como o rádio, diziam que o governo não tinha recebido nenhum comunicado dos raptores do embaixador suíço. Ficamos tentando interpretar o significado daquela contra-informação. O comunicado n.º1 seguira minutos depois da ação, há quase 24 horas. Mais de cinco cópias tinham sido enviadas a diferentes órgãos de informação. Já era uma indicação do grau de controle que a repressão tinha sobre a imprensa. Para o mundo não existia nenhum comunicado.
As buscas continuavam em todo o Rio. Felizmente os estrategas deles estavam convencidos da infalibilidade da sua operação-engarrafamento, que em menos de dez minutos tinha interrompido o trânsito de toda a cidade e mantido os carros parados durante sete, oito horas, em muitos casos. Estavam absolutamente certos de que não podíamos ter ido muito longe e vasculhavam, minuciosamente, bairros próximos ao local da ação. Especialmente Cosme Velho, Santa Teresa, Catumbi e também Floresta da Tijuca. Nosso esquema de contra-informação telefônica buscava reforçar essa convicção apontando casas suspeitas nestas regiões.
De meia em meia hora o rádio dava os telefones prás deduragens anônimas. Insistiam para que a população ficasse atenta a vizinhos recentes de atividade furtiva, que mantivessem as janelas fechadas.
Debochávamos daquela babaquice. As janelas da casinha, com suas cortinas coloridas estavam abertas, escancaradas. Ivan, Helga e secundariamente Daniel tinham um excelente contato com os vizinhos, moravam no local há mais de seis meses.
“Fazer fachada” era uma arte e Paulista se revelava um virtuoso na matéria. Assim como eu estava “fechado”, não podia aparecer para o mundo exterior do afastado subúrbio. Mas constantemente dava autênticos cursos daquela arte de camuflagem social e existencial.
— Temos que partir do conhecimento do povo dos arredores, dos seus hábitos. um bairro pobre, mas, não miserável. As cortinas sâo fundamentais. Têm que ser bonitas e coloridas. São o orgulho da casa do pobre.
Também sugeriu que Helga levasse uma bandeja de doces pros vizinhos do lado — “sobrou ontem à noite, trouxe prá vocês experimentarem”
— ao dar a idéia ele garaniu que no dia seguinte a bandeja ia voltar cheia de doces da vizinha.

Dito e feito. A “fachada” era tanto mais sólida que Ivan e Helga já tinham feito
muitas amizades na rua. Ele entrava nas peladas, ela nas rodas de comadres.
Era necessário, porém, evitar que as boas relações acarretassem demasiada familiaridade. Criou-se o hábito de receber os vizinhos sempre na varanda e de manter, por trás do trato amistoso, aquele recato próprio da gente humilde.
Do quartel da PM, embaixo da ladeira, saiam constantemente choques e jipões para operações em áreas suburbanas, mais próximas ao centro. Em Cascadura e Madureira havia bfitzen esporádicas mas o bairro parecia outro planeta. Apesar do intenso noticiário de rádio e TV, o povão da Tacaratú estava a muitos anos-luz de tudo aquilo.
O único comentário que Ivan conseguiu captar nas suas rondas exploratórias pelos bares da região, foi um crioulinho muito invocado, reclamando do policiamento no Meier, por onde passara na véspera.
— Os homis tava tudo oriçado! Diz que roubaram o cônsul!
Ivan voltou prá casa alardeando:
— Roubaram O cônsul! Roubaram O cônsul!
Tudo isso tinha graça, mas, enquanto as horas passavam lentamente, e os noticiários continuavam a anunciar que o governo não recebera nenhum comunicado, a angústia pairava densa. O ambiente foi ficando sombrio e todos concordavam em achar que o governo estava armando alguma maneira sutil de recusar as negociações
Eu temia as conseqüências O que aconteceria com o embaixador? A resposta a uma recusa era a morte. Tal era o postulado inerente à natureza daquele tipo de ação. ‘Se não se está disposto a levar até o fim, não se faz”. Era o refrão da firmeza revolucionária
No íntimo me era ainda mais difícil aceitar a lógica deste esquema, do que da outra vez. Era demasiada abstração frente ao ser humano, de carne e osso ali na minha frente. Não era um torturador, um responsável pela repressão ao nosso povo. Era apenas um sujeito boa praça, meio boêmio, que não tinha nada a ver com aquilo e até nutria sentimentos contrários ao regime, por trás da etiqueta diplomática.
— O que vocês vão fazer comigo, se o governo não soltar os presos? Foi lhe explicado que nesse caso ele seria transferido para outro aparelho mais confortável, onde ficaria preso indefinidamerte. Que seria um outro “caso Gomide”. Era uma alusão ao seqüestro do cônsul brasileiro em Montevidéo, que naquela época estava, já fazia meses, nas mãos dos Tupamaros, numa ação que, para nós no Brasil, foi péssima, pois, transformou o cônsul, um membro importante da TFP, num mártir.
Mas eu não estava certo desta explicação. Sabia que tínhamos um aparelho de recuo, onde funcionava o esquema médico e que ficava na zona rural. Nenhuma decisão fora tomada, mas, conhecendo a organização, eu achava que a tendência, em caso de recusa, era a sua “transferência”, mas não de aparelho.
A engrenagem era aterradora. Uma coisa era enfrentar a repressão a tiro, matar prá não morrer, durante uma ação ou uma fuga. Era concebível, também, o justicamento de torturadores e mesmo um episódio do tipo Dan Mitrione, o professor de interrogatórios da CIA, que ensinara a sua triste arte à polícia brasileira e uruguaia, antes de ser eliminado pelos Tupamaros depois que o governo de Montevidéo se tinha recusado a libertar os presos.
Mas, o caso do embaixador suíço, era totalmente diferente e a sua “transferência” seria uma tragédia de conseqüências incalculáveis, política e humanamente. Seria de certa forma, nos nivelarmos com os que matavam a sangue frio nossos companheiros.
Durante todo o dia, o governo continuou a negar ter recebido qualquer comunicado. Eu não tinha estômago para conversar com Bucher. Passei o dia do meu vigésimo aniversário, tentando me concentrar num livro de Wilfred Burchett sobre o Vietnã, fumando um cigarro atrás do outro e trocando monossílabos com os companheiros.
Ivan parecia muito calmo e eu sentia que ele me observava, tentando perscrutar por trás do meu silêncio tenso, alguma vàcilacão de índole pequeno burguesa Helga cuidava dos afazeres do lar, com ar de rotina. Daniel lia, lia, impassível.
Paulista rabiscava umas notas no papel. Ele tinha o hábito de escondê-las numa pasta. Naquele dia, porém, ele deixou o papel em cima da mesa, quando foi fazer o café na cozinha. Curioso, mas, autoreprimido, pelas regras de segurança, passei perto e dei uma vista d’olhos em diagonal nas anotações. Não retive o conteúdo, mesmo porque o que me chamou a atenção foi a caligrafia. Redondinha, bem desenhada, muito regular, parecia letra de menina-moça, bem comportada.
Eu conhecia aquela letra. Era a mesma dos bilhetes do comando nacional pro setor de inteligência, assinadas Cláudio. Agora tudo encaixava: o Smith & Wesson 38, cano longo, o “conheço esse cara de algum lugar”, a caligrafia. Paulista era Cláudio, isto é: Carlos Lamarca.

 

NEURA DE APARELHO

aparelho clandestino - O sequestro do embaixador suíço


Dia 9. Alívio pela manhã. Declaração do governo admitindo ter tecebido um comunicado dos terroristas e enunciando seu propósito de salvaguardar a integridade de S. Excia., o embaixador helvético, sem, no entanto, se sujeitar a exigências de natureza a interferir na ordem pública. Pedia a lista dos 70 presos exigidos pelos seqüestradores.
Os jornais davam a entender que o governo Médici soltaria 70 presos sem atender, porém, às demais exigências que se supunham ser, por fontes dos órgãos de segurança, a difusão de um profuso comunicado, repetidas vezes e passagem gratuita nos trens da Central, Leopoldina e Linha Auxiliar, hipótese que segundo os jornais já fora descartada de véspera.
No mais, diatribes e editoriais inflamados contra os “terroristas apátridas”, pedindo mais repressão à subversão de inspiração forânea.
O governo suíço mal abriu a boca. Parecia cauteloso, muito cauteloso.
Reunião geral de nossa cédula político-militar, prá avaliar a situação. O governo não tinha aceito as exigências de cunho político e não tinha dito, ao certo, se libertava ou não, os 70 presos que íamos pedir. Solicitava apenas a lista dos companheiros.
Ivan insistia que não podíamos recuar em nada. Exigir todas as condições. Minha avaliação era diferente:
— Esse negócio de manifesto pela TV, de 4 em 4 horas, e passagem de trens grátis são exigências demasiado elevadas pro equilíbrio de forças que existe. As condições prá ditadura são diferentes da época do alemão. Suíça não tem tanta força e tá com uma posição um bocado mole. O governo Médici tá mais forte, que antes da copa. Tão todos cagando prá vida do embaixador e fazendo o possível prá localizar o aparelho. Querem uma lista. Pode ser uma indicação que eles aceitam soltar os presos. Prá nos tá grandioso, perfeito. Mais que isso, meu chapa, só com outro exército, mais forte que o deles!

Daniel concordou que seria muito difícil que aceitassem as demais exigências, e que devíamos limitar nossas ambições aos presos, e depois dar ainda uma insistida nas outras condições. Que em todo caso, porém, devía- mos mandar outro comunicado, cobrando as outras exigências formalmente e querendo a explicitacão, se iam realmente soltar todos os 70 que pedíssemos. Ivan reviu a sua posição e fechou com ele. Lamarca ouviu muito atentamente e lhe deu razão. Eu próprio terminei concordando, apesar de achar que ia ser um desperdício de tempo.
Mas, tinha a vantagem de mostrar ao inimigo que não estávamos ansiosos, nem amedrontados. Távamos aí, firmes, no aparelho mais procurado do Brasil.
Helga voltou da rua. Seguindo instruções detalhadas de Lamarca, tinha feito compras fora do bairro. Naquela manhã, já fizera as diárias para a trinca oficial da casa, na venda habitual do fim da ladeira. Mas, as
despesas a mais, devia ser enrustidas. Num bairro pobre, qualquer gasto maior chama atenção. Mesmo em comida.
Inda mais que as despesas que trazia eram de natureza especial. Quase luxo.
A caixa pesada continha um ventilador, que instalamos na sala de Bucher. Helga trazia igualmente uma bermuda bege, duas camisas e um par de chinelos. Para os cigarros, ela tivera um ponto com o pessoal da logística da UC. Alguém foi ao Copacabana Palace comprar um pacote de Bensori & Hedges, longos, que ele consumia a razão de 4 por dia.
— Na verdade fumo Bensons curtos, sem filtro — explicava.

Provou as bermudas e os chinelos e instalou-se frente ao ventilador.

— Vocês são uns caras muito amáveis, vejo que fazem o possível para minorar minhas privações, agora que já me seqüestraram. Os jovens são sempre idealistas, pensam em fazer revoluções, salvar o mundo. Depois é que um se convence de que é tudo um jogo de cartas marcadas, impossível de mudar, a não ser aos pouquinhos. Gostaria de tê-los conhecido noutras circunstâncias, lá na embaixada.
— Tá legal. Depois que tudo isso acabar, o senhor nos convida prum Chivas Regal na Embaixada, prá retribuir a hospitalidade, mas não pretendemos pedir asilo. Uisque puro com gelo.
— E como vou apresentá-los à minha governanta?
Risos gerais no aparelho, capuzes negros sacudindo em gargalhadas.

Tinha governanta. Era solteirão, segundo alguns, bicha. Mas, lá na Infra, ele não desmunhecava e só se queixava da falta de presença feminina.
Prresença feminina dizia, carregando no pre. Helga, com sua carinha japonesa e jeitão interior paulista, meio sem sal — e ainda por cima dentro do capuz — não entrava nos cômputos.
Bucher foi contando casos da sua vida de diplomata. Negociações secretas franco-argelinas, na Suíça, que ajudara a organizar, em 61, entre os representantes de De Gaulie e da FNL argentina. Viagens de barco, pelo mar Vermelho, num calor de 60º. Aventuras com Lady Hunt, antes dela ser mulher do embaixador britânico.
Depois acompanhava Lamarca, lvan e eu numa biriba a 2 mil, em parceria com o primeiro. Mais metódicos batiam a nossa dupla com inesperadas canastras e finalizações. Depois a janta e as primeiras rondas
A noite na Tacaratu era calma e poucos veículos passavem pela lodeira. Era dominada pelos trinados dos insetos e pelo latir dos cães. Até o cantar dos galos, no meio da penúltima ronda, de 2 às 6.
Engrenamos um cotidiano a infra da Tacaratu e se passaram uns três dias inconclusivos, feitos de espera, atenção nos noticiários, longas conversas e jogos de cartas com o embaixador, reuniões da célula, críticas e autocríticas, agressividade e angústia, dominando o astral. O governo Médici negava ter recebido qualquer comunicado.
Era tudo espera, muita espera, os minutos perpétuos, uns atrás dos outros, feito lesmas.
As manhãs, porém, eram boas. Na Tacaratu o sol brilhava preguiçoso. As lavadeiras atiravam as roupas aos tanques, a criançada e os desocupados jogavam pelada na rua, seus cantos e gritos chegavam ao aparelho, que pela manhã ficava mais descontraído. O sol fazia uma curta trajetória, entre as sombras do telhado e do muro externo. Era a hora do banho de sol democrático, em turnos de dois a dois, turno duplo e exclusivo pro hóspede, noblesse oblige.
Bucher, já vermelho por natureza, ficava um pimentão. Era um ritual divertido, sua ida ao banho de sol.
Primeiro ele se preparava. Ficava de bermuda e chinelos. Aí passávamos uma cadeira pela janela do quartinho dos fundos e ele dava a volta pelo outro lado, pela saleta da frente e cozinha. Disfarçávamos cada vez menos a cara. Os capuzes eram incômodos prá respirar e falar e os furos estavam ficando cada vez maiores. Na hora da sua passagem matinal pela cozinha, ninguém tinha saco de vestí-los. Simplesmente se virava a cara. Ele muito aéreo, fingia não olhar.

De manhã, Helga, Ivan e Daniel, costumavam sair, em horas diferentes, para compras e contatos. O espaço vital da casinha crescia um pouco. Lamarca, eu e o embaixador, permanecíamos “fechados” na casa. Quase sempre, porém, ficava um dos outros três para atender a eventualidades.
Era freqüente a presença de vizinhos ao portão, às vezes na varanda. Eram todos muito respeitosos da intimidade daquele lar de pobre. Um pequeno senão. A filha da vizinha, uma negrinha de 15 anos, vivia cercando a casa, curiosa. Vinha até a varanda sorrateira, espichando o olho, quando a porta se abria e Helga saía para atendê-la.
Depois ficava de papo furado, sempre muito curiosa. Será que tinha desconfiado de alguma coisa?
Muitas horas foram consumidas na elaboração de uma política prá pretinha curiosa. Era engraçado, porque nem eu, nem Lamarca a tínhamos visto, só os residentes oficiais a conheciam. Vivíamos numa brincadeira de esconde-esconde com ela.
Lamarca gostava muito de escrever na mesinha que ficava sob a  janela da entrada. Por ali entrava mais luz e era mais agradável, que a mesa da cozinha ou o quartinho dos fundos. Era obrigado a interromper, cada vez que a menina aparecia, prá pedir um ovo ou um espremedor de laranja, prá mãe que tinha mandado.
A arte era procurar os ângulos cegos da porta entreaberta e evitar as frestas entre as dobradicas. Ficamos exímios, mas, nesta reunião foram decididas medidas mais severas para a situação provocada pela abelhuda. Nossa circulação ficou restrita às outras peças, até a noite. Enquanto durasse a insistência da filha do vizinho. Assim a infra da Tacaratu, ficou ainda mais apertada.

 


RASGANDO CAPUZ
 

Os órgãos de informação sustentaram até o fim a inexistência de qualquer comunicado n.° 2. O governo, através de Buzaid, negava sua autenticidade e, segundo a imprensa, dezenas de outros comunicados falsos tinham sido recebidos.
Não íamos nessa conversa, pois, junto ao nosso, ia um bilhete de Bucher, em francês, para o chanceler Graber. A repressão tinha se antecipado à imprensa na recolha da maioria das cópias, deixadas em vários Pontos da zona sul e a mesma ficou proibida de falar no assunto. Era a censura, e mais: a mobilização de todos os midia pelo regime.
Decidimos mandar o comunicado n.° 3, cobrando apenas a garantia da soltura dos 70 presos.
Passaram mais dois ou três dias e o poder com seus midias amestrados, seguiu no mesmo jogo. Não recebia nenhum comunicado. Ao mesmo tempo, o tom do vídeo, emissoras e jornais passou a patético. Por trás do “silêncio desumano”dos seqüestradores, descortinavam-se as mais negras suspeitas. Estaria ainda vivo o diplomata do país amigo? ou já teria sido vitimado pela sanha sangüiriária dos agentes de Havana?
Nestas alturas, era evidente que havia, por parte do governo, um jogo maquiavélico, muito competente. Para o mundo — que tirava suas informações dos midia, ou dos canais oficiais — parecia solícito, disposto a negociar, de acordo com os padrões consagrados nos precedentes anteriores. De fato, tentava ganhar tempo, para localizar e estourar o aparelho.
As buscas continuavam. Centenas de casas e edifícios eram vasculhados, mas, na sua maioria, as operações se concentravam nas regiões mais próximas ao local do seqüestro, e nos altos da Tijuca. Os bloqueios se multiplicavam pelas ruas e o dispositivo parecia extenuado e nervoso. Surgiam as primeiras vítimas. Na rua Alice, um casal foi alvejado e morto, num Corcel, ao se atrapalhar frente uma blitz. O rapaz estava sem carteira. Numa rua próxima, em Santa Teresa, foi metralhado o pacato habitante de um falso aparelho, “estourado” a partir duma suspeita ou denúncia. Pensou que fosse assalto e reagiu.
Pelos jornais alimentavam constantemente o clima de que o aparelho onde estava escondido o embaixador suíço, estava pra cair — já fora localizado, já tinha a luz e o gás cortados — garantiam certas versões.
Ficou claro que não receberiam nem o 2 nem o 3, mandássemos quantos mandássemos. Depois de muitas discussões e reuniões, foi decidido enviarmos a lista dos 70 nomes que a ditadura dissera aguardar “no firme propósito de salvaguardar a vida ea integridade de S. Excia., o embaixador da Suíça”.
O listão já estava pronto antes da ação. Dera muita briga, panos prás mangas. Como da outra vez, pedíamos quadros e aliados da VPR — em maior número — e companheiros de outras organizações armadas. Havia poucos dados vindos da cadeia, muitas listas propostas, muitas versões contraditórias, sobre comportamento na prisão, muitas simpatias e antipatias.

O único grupo de presos, com o qual mantínhamos um canal, era com a Ilha das Flores, e nesse caso, o critério dos próprios prisioneiros foi respeitado
Para tentar varar o bloqueio de informações, fizemos chegar uma das listas diretamente à Agência France Presse, ao mesmo tempo que remetíamos outras para os jornais cariocas.
A lista da AFP seguiu com o carimbo vermelho VPR e uma carta do embaixador e as demais cópias com bilhetes de Bucker anexos, autenticando, mas, não o fizemos rubricar a própria. No meio da tarde, pintou um comunicado do Ministério da Justiça, negando a autenticidade à lista de presos, recebida por várias redações cariocas e por uma agência internacional.
Nem por isso deixou de prender e expulsar do país o diretor da mesma, François Pelou, por ter passado no telex a notícia.
O jornalista francês ficou um dia detido no DOPS, numa cela cheia de merda. Depois foi levado ao Galeão e metido no primeiro voo prá Paris.
O ministro Buzaid fez divulgar uma nota precisando que só seria considerada oficial a lista que: 1) tosse rubricada pelo embaixador; 2) fosse endereçada ao seu ministério.
No dia seguinte mandamos outra cópia nessas condições. À noite, o governo admitiu tê-la recebido. Anunciou que seria estudada. Sem mais precisões. Os midia começaram a colocar a perspectiva de um desfecho favorável, pela primeira vez.
A tensão foi cedendo lugar ao tédio. Os minutos sempre compridos. As repetidas esperas do dia. Espera do noticiário do meio-dia. Do noticiário das oito. À espera da volta de Daniel, cujo teto era às sete. Era quem fazia o contato da tarde com a organização.
Foi depois de uma destas saídas, que trouxe um informe alarmante. Tinha caído o aparelho alternativo, na zona rural. Mais precisamente, o esquema médico em Jacarepaguá. Era alugado por um quadro legal, transferido de Porto Alegre, em contato com Inês. Tinha sumido há dias e agora ela descobrira, por vias travessas, sua prisão, lá para o dia 9. Não tinha relação com a nossa operação, mas com outras quedas no sul do país. Em todo caso, era uma pista que levaria à VPR, não tivessem eles matado o gaúcho no pau, logo nos primeiros dias.
A espera dos companheiros que saíam era angustiante. Com todos em casa era difícil o aparelho cair, porque a fachada legal estava muito boa e a repressão, perdida pela imensidão da Guanabara e do grande Rio, não dava bola praquele pacato subúrbio.

Mas, quem tinha pontos com as estruturas da organização, lá fora, podia cair nesses pontos e, com o grau de tortura que se abateria sobre um suposto membro da guarda do esconderijo, eu não botava minha mão no fogo por ninguém.
Ivan tinha contatos com os coordenadores de GTA da U. C. Juarez de Brito e Daniel, com várias áreas de simpatizantes e com as organizações da frente armada. Esses contatos eram limitados ao máximo, mas cada vez que demoravam mais, as paredes começavam a suar de angústia e.apertar ao redor.
Era semana e meia trancado naquela casa e começava a sentir uma certa claustrofobia. Os müsculos das pernas doíam de falta de andar, os cigarros queimavam a garganta.
As discussões tolas viravam rotina. Descuidei muito das tarefas de arrumação e fui duramente criticado, em sucessivas sessões de crítica e autocrítica da célula político-militar.
Além disso as picuinhas eram imensas.
Helga resmunava o tempo todo, com ou sem razão. Uma vez me acusou de pequeno-burguês, por ter fritado um ovo na manteiga.
— Gastar manteiga à toa. mesmo coisa de pequeno-burguês’
As relações com Ivan eram as costumeiras, mas quando o assunto eram quartos bagunçados e garfos sem lavar na pia, meu comportamento individualista era unanimemente fustigado. Lamarca garantia nunca ter visto nada igual na vida.
provável que tivesse razão.
Mas, a causa da minha punição formal e orgânica, aplicada nesses dias, foi outra.
Uma das terapias ocupacionais que eu tinha inventado, para aliviar o tédio daquelas horas intermináveis, era ficar limpando as armas. Gostava de desmontar a Colt 45, percrustá-la por dentro, parafuso por parafuso. Também passava tempos tirando e pondo as balas verdes-douradas no pente.
Alguém levantou objeção àquela válvula de escape. Lamarca concordou. As armas eram prá estar prontas todo o tempo. Só sair dos seus lugares de sempre, em caso de necessidade, ou então para treinamento a seco — só os revólveres — em horários preestabelecidos, no quartinho dos fundos e não ali na entrada. Isso de ficar bundando com arma pela casa, era convite prum acidente.
Ferido no orgulho — pô mexo com arma desde criança — concordei e passeis uns dias refreando os ímpetos. Mas certa ocasião sentei, inquieto no sofá da entrada e instintivamente meti a mão embaixo do travesseiro, peguei a 45 e pus uma bala na câmara, com um dique metálico que ecoou pela casa.
Nem o palavrão que soltei, ao lembrar, nem a prova cabal que a arma estava travada me pouparam do monumental estouro, da descompustura que nos seus tempos de capitão, Lamarca devia passar nos recos recalcitrantes.
Humildemente fiz minha autocrítica, só faltei bater continência e fui me isolar no quartinho dos fundos. Quando Daniel regressou, reuniram- se ambos e, ouvido brevemente Ivan, decidiram, em nome do comando nacional, punir-me com a suspenso de duas reuniões da célula políticomilitar.
Pedi asilo na sala do embaixadór e ficamos jogando uma biriba a 4 mil. Ele estava bem disposto sob a permanente fumaça do seu Benson & Hedges, ao lado do cinzeiro, transbordando guimbas. Lembrei dele, boquiaberto, quando lhe informamos o número de presos a serem pedidos.
—Setenta... Setenta???
Tinha ficado repetindo com os olhos muito arregalados e as duas mãos nos ouvidos. Achou graça quando alguém lhe disse que era o mais valioso de todos embaixadores. A Suíca, quem diria.
À medida em que jogávamos longas partidas de alternadas vitórias, eu sentia o rosto coçar cada vez mais, sob a fazenda suada do capuz. No início eram três furinhos. Um prá cada olho e um prá respirar. Foram crescendo até se transformar num único, grande. Meu rosto, já praticamente aparecia, mas o pano negro continuava a esquentar terrivelmente e penicar as partes cobertas.
Libertei-as de um último rasgâo. Pouco depois, entraram na sala os outros e fiquei meio inquieto de estar com a cara destapada. Mais uma crítica?
Lamarca já estava de bom humor e teve um acesso de riso. Ivan também, se divertiu com aquele capuz desfeito e minha cara de fora.
Bucher já vira praticamente todo mundo e decidimos, naquela hora,. abolir os capuzes. Não acreditávamos que uma vez em liberdade, ele aceitasse colaborar com a polícia na nossa identificação.
Ao contrário do alemão, que pedira para o Bacuri pôr o capuz — “I dont want to see faces” — Bucher ficou contente com os rostos descobertos.
— Dava-lhes uma aparência muito sinistra. Prefiro ver as caras. Imaginava-os mais velhos. Que idade têm vocês?

O mais velho era Lamarca, com 32 anos. Daniel andava pelos 24, Ivan 21 e eu 20, revelamôs-lhe.
Ele ficou matutando e mais tarde, quando estávamos sozinhos de novo na peça, me perguntou:
— Será que vale a pena entrar nessa, com vinte anos? Arriscar a vida por uma causa política? Você realmente está convencido que pode mudar is coisas? Está realmente, convencido disto?
Eu estava.

 

Ao contrário dos outros sequestros, o do embaixador suiço foi o mais dramático. Pois o governo demorou a atender as exigências e se recusou a libertar muitos prisioneiros que foram pedidos na primeira lista mandada pelos guerrilheiros. Após mandarem outra lista, com mudança de algus nomes, o governo militar cedeu às exigências e aceitou libertar os 70 presos políticos que foram banidos do país e exilados no Chile.

Lá eles gravaram o documentário BRAZIL: A REPORT ON TORTURE – Brasil: Um relatório sobre a tortura, denunciando as torturas praticadas pelo regime militar.

Durante a soltura do embaixador suíço aconteceu algo inusitado. Ele seguiu as instruções dos guerrilheiros de pegar um táxi e ir até a casa de seu Auxiliar mais próximo. De lá ele foi de carro oficial até a sua casa onde aguardavam jornalistas e um grupo de homens da repressão fortemente armados esperando um táxi e, talvez, um guerrilheiro que porventura estivesse com Bucher. De tanto esperarem um táxi ninguém notou a cara risonha do embaixador no vidro aberto da limusine, passando por eles, e entrando tranquilamente na casa. Os jornalistas e os policiais somente viram o embaixador quando ele, já de banho tomado, apareceu para entrevistas ao lado de sua governanta como podemos ver na foto abaixo.  

O Embaixador Bucher ao lado da governanta - Guerrilha no Brasil – O Sequestro do Embaixador Suico

Com isso surgiu até uma lenda de que Giovanni Enrico Bucher nunca foi sequestrado. Mas, na verdade, havia ficado escondido em sua mansão por 40 dias, pegando sol na varanda, até ser descoberto pelos jornalistas. Há quem acredite.

 

Reportagem da Globo sobre o Sequestro do Embaixador Suíço

 

Carbonário. [Do it. carbonaro, ‘carvoeiro’] S. m. 1. Membro de uma sociedade secreta e revolucionária que atuou na Itália, França e Espanha no princípio do século XIX. 2. P. ext. Membro de qualquer sociedade secreta e revolucionária.

 

Sirkis, Alfredo. Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida. São Paulo: Editora Parma, 1981.

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRA.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

Sirkis conta como entrou na Luta Armada contra a Ditadura Tags: Sirkis Alfredo Sirkis carbonários luta armada guerrilha ditadura militar COMUNISTAS comunismo comunistas brasileiros socialismo OBAN VPR


Sirkis conta como entrou na

Luta Armada contra a Ditadura

 

Alfredo Sirkis treinando na clandestinidade - luta armada - guerrilha

Sirkis treinando na clandestinidade

 

Alfredo Sirkis pode ser considerado um homem de muita sorte. Pois, foi um dos poucos militantes das organizações de Esquerda armada que lutaram contra a ditadura que não foi ferido, torturado ou preso. Sirkis participou de um dos grupos de Esquerda mais procurados do país, a VPR, de Carlos Lamarca. Seu livro, Os Carbonários, é ótimo para quem gostaria de entender como funcionavam as organizações clandestinas daquele período. No trecho abaixo ele conta como foi sua entrada para a guerrilha; a dor ao saber da morte dos companheiros e como escapou de uma blitz da OBAN. 

 

JUVENAL E AS FERRAMENTAS

Tinha quase um metro e noventa. Desengonçado, braços muito compridos, magro, com uma discreta barriguinha que lhe estufava a camisa à frente. Meio curvado, tinha uma cara como que talhada em madeira: nariz reto e pontiagudo, maçãs e queixo salientes, olhos escuros e um bigode negro, elegante, da mesma cor do cabelo, onde já apareciam, aqui e ali uns fios prateados. Tinha uns quarenta anos.

Mineiro, muito tímido, jeito de filho de pastor protestante, que realmente era. Tratava todo mundo de professor e tinha um fino senso de humor, às vezes pouco perceptível, Nada poderia corresponder menos à imagem que tínhamos do famoso Juvenal-grande-quadro-da-organização. Passada a primeira decepção de quem esperava um atlético Che Guevara, terminamos nos afeiçoando muito ao bom mineirão.

Era muito procurado pela polícia, mas tinha o ar menos suspeito desse mundo, Rodava pela cidade, de ponto em ponto, com seu volks bege clarinho, e sempre nos recebia, naquele posto de comando ambulante, com o mais terno dos sorrisos:

— Como vai professor, tudo bem?

Alex se ligou a ele de tal maneira, que passou a tratar todo mundo de professor, a cometer os mesmos erros de dicção — pobrema em vez de problema, e outros — e a usar algumas das suas expressões, particularmente aquela com a qual, candidamente, evitava todos os palavrões: “é fogo, velho”.

Juvenal, junto com a companheira, Lia, tinha organizado a COLINA no Rio e acompanhara os sargentos Lucas e Viana nas suas primeiras ações. Tinha sido da direção da VAR, mas declinara de participar do comando nacional da VPR, que na época era composto apenas de três pessoas: Lamarca, Jamil e Lia. Preferiu assumir a formação da segunda unidade de combate da organização no Rio. A primeira, o Comando Lucas, formado dos veteranos dos GTAs da velha VPR e da COLINA, operava freqüentemente. Naqueles dias tomara um posto da Aeronáutica, perto da Av. Brasil, capturando três fuzis M-1 e algumas fardas.

Para formar o Comando Viana, ou “a Vianinha” como ficou conhecido, éramos uns dez remanescentes da COSEC. Mesmo depois dos efeitos do racha e dos desbundamentos na velha OPP, ainda tínhamos o controle de uma estrutura de mais de trinta contatos em variados colégios, muitos organizados em grupos de estudo da COSEC. A pá de cal nessa saudosa organização secundarista, foi assentada pela própria VPR.

Que fazer com todos aqueles secundas, que não se dispunham, ou não tinham condições de entrar prum GTA, ou assumir tarefas de apoio direto à luta armada?

Eu defendia que devíamos conservar um mínimo de trabalho de massas nas escolas. Apesar do ME, tanto a nível universitário quanto secundarista, estar morto e enterrado, de não existirem mais condições, não só para passeatas, como também para quaisquer movimentações nas escolas — a repressão era implacável e todo mundo tinha medo — eu achava que devíamos conservar aqueles grupos. Afinal custara tanto trabalho organizá-los...

Foi numa viagem de carro pela barra da Tijuca que discutimos essa questão. Juvenal e, sobretudo um outro companheiro, que conheci naquele dia, se opuseram à idéia.

— Quantos secundaristas estão preparados para entrar num GTA?

— Contando comigo e com o Bartô (Alex), são uns dez, no máximo.

— Ok, então pegamos esses dez e o resto deixa prá lá. Na nossa organização não há lugar prá estruturas de trabalho de massas. São muito vulneráveis, pouco clandestinas. Além disso podem acabar virando uma espécie de polo reformista dentro da organização. Lembre o que aconteceu com a VAR. Esse negócio de organismo, prá trabalho de massas, é um pobrema danado. Nós queremos é construir uma organização de grande poder de fogo, ultra-clandestina que faça as grandes ações destinadas a sacudir o país e ter um grande impacto sobre o povo.

— Sim, sacudir o país, sacudir o país, repetia o outro, o tal de Lourenço. Ainda mais que o Juvenal, ele tinha a voragem das grandes-ações-desacudir-o-país. O desprezo pelo reles trabalho de massas, que considerava reformista.

Juvenal me apresentou naquele dia. Era o responsável pelo setor de inteligência da organização.

Figura esquisita. Boca torta e flácida, dentes de coelho meio retorcidos. Quando falava juntava uma babinha no canto dos lábios. O nariz muito fino e delicado, os olhos inquietos, escondidos por um enorme par de óculos verdes, de lentes retangulares. Cabelo curto aloirado, meio sujo.

Tinha um ar de pouco banho e não fosse pela indumentária: sempre o mesmo terno e gravata verde e uma maleta James Bond, seria um dos percussores do jeitão punk, com quase dez anos de antecipação.

Sua silhueta era inconfundível: bunda grande, quadris muito mais largos que os ombros delgados, andar incerto.

Desde o primeiro encontro, senti uma certa antipatia por ele, mas reagi contra isso. Sectarismo estético, mania de higiene, pensei.

Fiquei com esse contato com o setor de inteligência, pois íamos fazer alguns levantamentos para ir adestrando o pessoal, e ele devia, me passar umas dicas que tinha arquivadas, de sentinelas com metralhadoras. Íamos começar pegando a INA dum guarda dos bombeiros numa guarita em Humaitá.

Ao me despedir de Lourenço marquei um ponto para alguns dias mais tarde. Ele abriu uma imensa cadernetona e foi anotar.

— Nâo companheiro. Ponto se guarda na cabecinha.

O que? Você não confia em mim? Estou anotando em código.

Insisti que nâo dava pé. Eu não ia em ponto anotado. Ele acabou concordando.

Foi com tristeza que instrui aos nossos companheiros, que ainda tinham contatos nas escolas de zona norte e subúrbios, a passar tudo para o MR-8., que tinha uma política um pouco menos avessa às estruturas daquele tipo. Nossa ligação com eles era o Cesinha que, desde os tempos da COSEC, já se vinculara mais à organização do seu irmão. Assim, pelo menos, alguém vai ficar com os contatos, pensei.

Dia seguinte, fui encontrar o Juvenal, em Ipanema. Levantei o problema do cadernetão de Lourenço que me parecia uma afronta aos mais elementares critérios de segurança e ele prometeu tratar do caso. Mudamos de assunto e ele revelou que a “encomenda” já chegara.

— As ferramentas, professor, disse risonho.

No chão do fusca, havia cinco envelopes grandes. Dentro uns volumes grossos e pesados. Examinei um por um. Eram quatro Taurus 38, cano longo e um curto. Gostei desse último, bem macio no engatilhar e fui logo me apropriando. Eu queria mesmo uma Luger ou uma Walter, mas a organização não tinha essas vistosas pistolas e considerava mais seguros os revólveres, menos sujeitos a grimpagens.

De volta ao meu aparelho, fiquei namorando a arma nova que vinha substituir o 32 cano curto, que eu costumava levar dentro de um grosso livro de história da filosofia, cujas páginas, de Kant a Platão, estavam coladas com um buraco no meio, na forma do revólver.

Comprei, numa casa de armas, uma coronha anatômica de madeira, prá substituir a de plástico, muito escorregadia. Ficou uma beleza e eu passava horas treinando a seco, ganhando mais confiança e familiaridade com a máquina, que brevemente poderia entrar em ação.

Naqueles dias, aluguei um quarto em Botafogo. Era uma casa de dois andares, numa vila da rua Paulo Barreto, transversal da General Polidoro, perto do cemitério São João Baptista.

Ironias à parte, era uma região muito calma. A casa parecia segura. A dona me alugou o quartinho estreito de cama, armário e uma cadeira, sem pedir documentos, sem perguntas. Dei o nome de Hélio e disse que era professor particular de inglês e francês, para justificar a ausência de horários regulares.

Criei uma relação cortês, porém distante com a família e evitava os olhares da filha de 16 anos. Nada de intimidades que pudessem devassar os segredos daquele cubículo de cama estreita manchada de angústias e solidão e aquele armário, povoado por deveras estranhos objetos.

 

CHAEL E ZÉ ROBERTO

Chael Charles SchreierJOSÉ ROBERTO SPIEGNER

Chael Charles Schreier e José Roberto Spiegner

Dia brabo. As ruas ainda mais policiadas que de hábito, de cinco em cinco minutos, passava alguma viatura com os homis ligados, de olho em tudo.

O fusquinha bege de Juvenal despontou ao abrir o sinal da Voluntários, a um quarteirão dali. Foi até o ponto de ônibus onde eu estava, freou e fizemos a encenação do encontro casual:

— Professor? Você por aqui? Não quer uma carona?

Entrei e bati a porta. Juvenal seguiu em frente. Trazia notícias sobre os acontecimentos da véspera, Um dos nossos companheiros assistira, de longe, a um estouro de aparelho na região de Olaria, que acabara em tremendo tiroteio. O próprio Juvenal ouvira de manhã comentários de populares a respeito de outro, na Lapa. Alguma organização estava caindo.

Acabava de ter um contato com o MR-8. Foram eles. Tinham conseguido evacuar, in extremis, um aparelho no subúrbio, em meio à farta balaceira. Uma vizinha tinha denunciado à polícia a casa onde estavam o Cid, a Vera Sílvia, o Zilio e o Zé Roberto.

Os três primeiros tinham conseguido abrir caminho à bala, antes da repressão fechar o cerco, O quarto sumira. Há pouco tinham recebido a confirmação da sua morte, noutro ponto da cidade, na Lapa.

Zá Roberto... Uma onda de dor me pegou em cheio. Zé Roberto... Veio a imagem dele trepado num poste, discursando, metido em todas passeatas, quebrando com o pé o vidro fumê de uma sucursal do Chase Manhattan na última, contra o Rockfeller. Fazendo piadas nas reuniões conjuntas UME-COSEC daquela época. Depois, a última lembrança que tinha dele. Numa festa na casa da Maria Helena, meio de porre, todo alegre, namorando uma menina vagamente conhecida do Instituto de Ciências Sociais, Vivíssimo, transbordando vida por todos os poros.

Zé Roberto morreu. A notícia escrota, nojenta, sangrenta de dor e náusea latejava na minha cabeça.

— Era amigo seu?

— Era conhecido. . . mas é como se fosse irmão.

Muitos já tinham caído e eu sabia do nome de quase todos. De como tinha sido. Lucas agonizante numa cela, morto a chute e porrada. Viana mesma coisa. O velho Mariga cercado por todos os lados, crivado de balas dentro dum volks, enquanto os afoitos homens do Fleury continuavam atirando, atirando, contra tudo que mexia até matar um dentista que não tinha nada a ver com o peixe, uma das suas investigadoras que o próprio “herói” alvejou por engano e ferir na bunda um delegado do DOPS. Sede de morte.

Carlos Marighella morto - assassinado pela repressão militar

Carlos Marighella assassinado pela repressão militar

 

Antônio Raymundo Lucena

Há poucas semanas tínhamos perdido o velho Lucena, num aparelho emSão Paulo. Cego de um olho ele escondia nos muros da sua casa a maioria dos FAL subtraídos pelo Lamarca no quartel de Quitaúna. Um único, ele guardava no armário e quando chegou a repressão, o velho Lucena a recebeu condignamente. Antes de morrer deixou vários feridos entre os atacantes.

Outro episódio recente era a morte de Chael Charles Shreier. Um caso tão escandaloso de tortura, que até a imprensa servil registrara. Num aparelho da VAR-PALMARES tinham caído o Espinoza, a Maria Auxiliadora e o Chael. Preparavam, na época, o seqüestro do ministro Delfim Neto.

A imprensa e a rádio tinham anunciado a prisão dos três, incólumes, com grande cobertura e abundância de detalhes. Passados dois dias o Chael apareceu morto.

Antônio Raymundo Lucena

Na notícia que saiu no JB, falando da morte, tiveram o desplante de inventar que, ao ser preso, ele apresentava uma mancha de sangue nas costas, insinuando que a sua morte fora em conseqüência do suposto ferimento. Isso quando o próprio jornal noticiara, dias antes, a prisão dos três, incólumes.

No mesmo dia havia um pronunciamento do ministro da Justiça, o escrotíssimo Alfredo Buzaid, enfatizando que não havia tortura no Brasil. As alegações neste sentido eram calúnias do comunismo internacional e de maus brasileiros que denegriam o país no exterior.

A Veja, porém, na sua reportagem de capa alusiva a morte de Chael, deixava transparecer claramente o que ocorrera, a partir de depoimentos de um familiar, que vira o corpo todo arrebentado.

Logo soubemos, por informe de dentro da cadeia, o que tinha acontecido. Depois de horas e horas de tortura nas mãos da conhecida equipe da PE da Vila Militar, o companheiro teve o azar de cair nas mãos de um novato naquela matéria, o capitão Lauria. Ficou tão entusiasmado que pulou na barriga do Chael, com os dois pés, rompendo-lhe os intestinos.

Eram muitos os casos. Mas o Zé Roberto era diferente: não era um nome em jornal, nem a foto de um desconhecido, nem um caso contado por outra pessoa.

Estava lá, cravado na minha mente, em carne e osso, transbordando vida, fazendo agitação num poste, chutando a vidraça do banco, fazendo graça nas reuniões, beijando a namorada pelos cantos da festa. Não podia estar morto.

Mas estava.

 

A RATOEIRA

Prédio do DOPS de São Paulo

Prédio onde funcionava o DOPS de São Paulo. Hoje é um museu.

Acordei quando o ônibus da Cometa entrava em São Paulo. O sol nascia e os seus tons alaranjados filtravam entre as nuvens e a poluição. A sucessão de avenidas, viadutos e prédios desconhecidos, que iam se descortinando atrás do vidro frio e meio embaçado, transmitia uma sensação agradável.

Era bom chegar num lugar desconhecido, por avenidas nunca d’antes transitadas. A aurora dum laranja esfumaceado dava um toque meio surrealista àquela entrada na megalópole.

Conhecia muito mal São Paulo. Tinha estado lá, muitos anos antes, quando costuma passar as férias com meus tios, na base aérea de Cumbica. De lá tinha vindo uma ou outra vez até a cidade, mas não o suficiente para reconhecer.

Juvenal me incumbira de levar a São Paulo, uns documentos e uma metralhadora INA, desmontada.

Calmo, eu dormira toda viagem, sozinho no assento. O ônibus estava bem vazio. No chão, debaixo das pernas ia a sacola de mão. Dentro, umas roupas, cobrindo toscamente o envelope com os documentos e as peças da INA embrulhadas em papel pardo.

O ônibus parou na rodoviária e desci assoviando. Caminhei rumo à saída. Enquanto cruzava o saguão senti voltar a tensão velha de guerra. Tudo infestado. Aqui um grupo de quatro tiras de azul escuro com um japonês à frente, na mão uma Winchester 44. Mais adiante, nos bancos de espera uns caras inconfundíveis, à paisana, de walkie-talkie. Pelas paredes os cartazes de “terroristas procurados”, “assaltaram-saquearam-mataram pais de família”.

Passei rente a um deles. Muitos dos retratos, entre os quais o do Marighela, já estavam riscados com uma cruz. Mas a foto do Jamil parecia olhar-me maliciosamente. Será que era ele quem vinha ao ponto?

Na saída o aparato era ainda maior. Camburões de várias cores, uns fuscões pretos e vermelhos dum tipo que não havia no Rio, todos parados junto à calçada. Os homis atentos percrustavam a multidão. Passei lentamente por eles.

Filho da mãe olhando pra minha sacola. Na espinha o calafrio, no estômago o vácuo. Olhou, olhou mas não fez nada, ufa.

Atravessei a praça e dei de cara nada menos que com o prédio do DOPS, de tijolos avermelhados com as sentinelas ligadões, mão na metranca.

Êta cidadezinha braba, sô! Peguei um táxi e fui à casa de uns parentes. Meu ponto era à tarde, em Tatuapé, longe do centro, Chegara a São Paulo num mau momento. Uma semana antes a VPR junto com a ALN e dois outros grupos a REDE (Resistência Democrática) e o MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), tinham seqüestrado o cônsul japonês a quem trocaram por cinco presos.

Sequestro do Cônsul Japonês

Notícia do Jornal do Brasil sobre o sequestro do Cônsul japonês

A ação fora improvisada às pressas. Um quadro muito importante da nossa organização o Mário Japa, tinha caído por acaso, num desastre de carro besta. Estava sendo torturadíssimo no DOPS e detinha informações vitais, como a localização da escola de guerrilha rural, chefiada por Lamarca.

O cônsul foi levado no grito, para um aparelho improvisado. A ditadura, seguindo o precedente aberto com o americano, decidiu soltar os presos e assim trocamos um japonês pelo outro, com mais quatro de lambuja. Mário Japa foi parar no México, quase morto, mas com a língua bem presa nos dentes.

Eu chegava logo depois do desfecho do caso, em plena rebordosa. A repressão centralizada por um novo organismo recém-criado, que unificava todas as forças militares e policiais no combate à guerrilha, a Operação Bandeirantes (OBAN), vasculhava a cidade.

Era pior que o Rio, mais assustador, porque desconhecido.

De tarde tomei um ônibus e depois outro até Tatuapé, às voltas e voltas por aquela cidade sem fim. Desci no bairro indicado, encontrei a rua e, como ainda era cedo, fui fazer hora num bar.

Na parede, pregado com fita durex o tal cartaz dos “terroristas procurados”. Nos bares do Rio não tem disso não, pensei. Chegada a hora, paguei e saí com a minha sacola cada vez mais pesada.

O companheiro apareceu pontualmente caminhando em minha direção, entre os números cem e cento e vinte da rua, com a revista Mecânica Popular na mão, conforme combinado. Ao meu — que horas são, por favor? — respondeu dando uma hora mais cedo. Conferia.

Aperto de mãos, troca de cordialidades. Gentil, aliviou-me do peso da sacola. Explicou, porém que não tinha trazido ainda os documentos que eu devia levar de volta para o Rio. Muita repressão nas ruas, precauções redobradas, atrasou tudo.

Pegamos um táxi de volta para o centro. Eu ia ficar esperando num bar perto da rodoviária ele ia buscar os documentos e voltaria em menos de uma hora. Eu poderia voltar no ônibus das oito.

O táxi foi progredindo devagar pelas ruas congestionadas, enquanto eu ia conversando com ele sobre a situação da firma.

— Como vai a filial daqui?

Bem. Recuperamos uma séria perda de capital, fizemos uns investimentos com risco, mas valeu a pena. Vamos agora multiplicar as lojas e as equipes de venda e há boas perspectivas de fusão com outras empresas do ramo.

O carro entrou numa rua sinuosa. À esquerda um enorme terreno baldio. À certa distância uns montes de lixo, pontilhados de urubus esvoaçantes e, mais ao longe, a quase um quilômetro, os primeiros edifícios altos do centro. À direita um muro alto. À frente, junto à curva fechada, um camburão parado, à margem do descampado. O táxi passou por ele, virou e teve que parar atrás de uma comprida fila de carros.

Era uma ratoeira. Perfeita. Mortal.

À frente da fila, uns trinta metros dali, um tremendo aparato policial: camburões, fuscas-patrulha, jipes do exército atravessados na pista, deixando apenas uma estreita passagem para um carro de cada vez. Os veículos eram minuciosamente revistados, um a um. Entre PM’s, agentes da OBAN, e tiras à paisana, eram mais de quarenta. Brandiam um impressionante arsenal de FALs, lNAs, Winchesters, rádios de campanha e mesmo umas .30, instalada na traseira de um dos jipes.

Uma ratoeira...

Pular do táxi correr prá direita? O muro. Prá esquerda? O terreno baldio, um quilômetro de descampado, campo de fogo perfeito pros canos escuros que brilhavam nas mãos dos homís de azul e negro. Fazer o motorista dar meia volta? A lotação do cambura, da curva lá atrás, cortava qualquer possibilidade de retirada. Eram cinco policiais atentos, com armas longas, que nos vigiavam a menos de 15 metros. Nenhuma chance.

A revista era minuciosa, prolixa: faziam os passageiros sair. Mandavam encostar as mãos no carro, apalpavam dos pés à cabeça, viam os documentos, fuçavam tudo dentro dos veículos, mala, motor, porta-luvas, debaixo dos bancos, tiravam até os tapetes de borracha. Não tinham a.menor pressa.

O suor frio escorria pelas costas. Eu estava completamente apavorado, com o cú na mão.

Desta vez não escapo. Não tem como. A terrível certeza mesclada ao terror, preso no peito, dominava tudo, grudava meu corpo imóvel e impotente ao assento do táxi. Maldita sacola, maldita, ali às mostras do mundo, entulhada de documentos da organização e dum quebra-cabeça de peças de metralhadora envoltas em papel pardo. . . Queria pulverizá-la com os olhos. O companheiro ao meu lado estava lívido e silencioso.

Queria acordar do pesadelo, despertar, ver que aquilo não era verdade. Mas os segundos implacáveis me levavam direto aos homis de azul e negro.

Cada vez mais perto: agora revistavam a kombi que ia na nossa frente.

—Saco! Todo dia a mesma coisa! E eu que tenho que entregar o carro às seis.

Era o chofer reclamando.

— É isso mesmo seu moço. Eu também. Tou atrasadíssimo, tou com bilhete pra voltar hoje pro Rio e vou chegar atrasado lá na Rodoviária. Vê se não dá pra aliviar a barra com os homis...

Era a minha voz, saindo sozinha.

O de azul, balançando uma 44, já ia abordando o chofer, quando este acelerou devagarzinho, deixando-o para trás. O grupinho de cinco, mais na frente, hesitou e imperceptivamente o táxi foi passando pelo enxame de fardas e canos, até que.

_Altooo! Encostaí!

O táxi parou no meio de uma floresta de vultos armados, suas vozes duras, ecoavam de todos os lados. Não tinha mais safa.

— Ô seu guarda. Tenho que entregar o táxi, o passageiro tá atrasado prá Congonhas. Vê se dá um jeitinho...

O tenente da PM olhou prá dentro. Quarentão de duras feições talhadas em pedra, olhos fundos e inexpressivos, boina escura. Na mão uma INA...

— É táxi? Então pode seguir.

Muito lentamente, o pé levinho no acelerador, o nosso anjo da guarda passou os últimos homis armados, deu um teloguinho prá eles e seguiu em frente, enquanto nós ressuscitávamos no banco de trás.

pp. 134-143

 

Carbonário. [Do it. carbonaro, ‘carvoeiro’] S. m. 1. Membro de uma sociedade secreta e revolucionária que atuou na Itália, França e Espanha no princípio do século XIX. 2. P. ext. Membro de qualquer sociedade secreta e revolucionária.

Sirkis, Alfredo. Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida. São Paulo: Editora Parma, 1981.

 

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Luta armada, camburão e um tal de periquito Tags: Sirkis Alfredo Sirkis Carlos Minc carbonários luta armada guerrilha ditadura militar COMUNISTAS comunismo comunistas brasileiros socialismo

 

Luta armada, camburão

e um tal de periquito

capa do livro Os carbonários de Alfredo Sirkis

Estou bastante impressionado com o livro Os carbonários de Alfredo Sirkis. Sempre ouvi falar que o deputado do PV havia sido guerrilheiro, mas não sabia que tinha participado de ações armadas tão importantes. Nesse trecho do livro ele conta como foi um dos seus primeiros conflitos com a polícia e a vontade de entrar para um grupo revolucionário.  

 

O CAMBURÃO

Saímos do colégio às 11 da noite. Chovia uma garoa pegajosa, enquanto Etelvino, Amâncio e eu esperávamos, inutilmente, o Cesinha no ponto final do ônibus da Vila da Penha.
Naquela noite, íamos pichar os muros do Cortume Carioca e adjacências, contra a visita ao Brasil de Nelson Rockfeller, enviado especial de Nixon que já tinha sido recepcionado na Venezuela, Colômbia, Argentina e Uruguai com manifestações e bombas.
Em Montevidéo, os Tupamaros tinham estourado a General Motors. Em Buenos Aires um grupo guerrilehiro incendiara 16 supermercados Minirnax, pertencentes ao Chase Manhattan Bank, de Rocky.
Não sabíamos se as organizações estavam preparando alguma coisa, corria à boca pequena, que o Marighela ia explodir a embaixada americana. A nível estudantil formamos uma coordenação única com a UME e planejamos minuciosamente a “Semana Rockefeller”: passeatas “fechadas”, comícios-relâmpagos, pichações e panfletagens.

Na véspera,  em plena Av. Copacabana, fizemos a última passeata daquele período. Os quinhentos derradeiros gatos-pingados do ME, liderados pelo Jean Marc e pelo Muniz, irromperam entre os carros, na hora do rush.
Caminhamos alguns quarteirões coreando FORA ROQUI-FELER e pichando os costados dos ônibus. O grupo de choque do SPM secundarista ia à frente da passeata. Alex, Cesinha e eu, de 32 na cintura, seguidos de Bia e Carlinhos com duas bolsas cheia de cocktéismolotov, cujo fedor de gasolina e ácido era perceptível à distância. Havia outro grupo armado, de universitários, encarregado da proteção dos oradores.
A manifestação durou meia hora e dispersou sem contratempos. Mas a reação das calçadas já não era a mesma de 68. Ninguém aplaudia, nada de papel picado. Alguns olhavam assustados, outros fingiatn que não viam e passavam apressados prá sair das imediações.
No ponto de ônibus da Penha, na noite seguinte, eu trazia dois sprays, duas garrafinhas de acetona pra limpar as mãos e dois revólveres 32. No levantamento tinhamos detectado a presença, nas redondezas, de um guarda noturno. Calculei que dois companheiros armados seriam o suficiente para neutralizá-lo e faturar uma arma e um apito, se aparecesse. O Cesinha devia vir segurar o outro gatilho.
Mas houve uma confusão de pontos de ônibus e o Cesinha Kid não apareceu no local onde o aguardamós até às onze e meia. Etelvino e Amâncio nunca tinham atirado na vida.
Passei uma das armas, dentro do saco plástico, pro Etelvino com instruções de esconder, se houvesse confusãO. Fiquei com o outro 32, mais novo.
Fomos aos muros. Eu na segurança, a mão no cabo do Taurus, Arnâncio do outro lado de olheiro e Etelvino no shik-shik, blém, blérn.
Assim fomos subvertendo as paredes brancas e amareladas das chuvosas ruas da Penha. Pichamos uns dez muros e estávams nos aproximando do Curtume carioca, quando, movido pelo cheirinho sensual da tinta e pela veia artística, peguei o spray com Etelvino prá pintar o sete também. Pegamos uma transversal que ia dar nas imediações da Av. Brasil, uns dez quarteirões mais abaixo.
Chovia mais forte e as lâmpadas das casas da rua arborizada estavam todas apagadas. Apenas um poste na esquina projetava uma luz desfalecida sobre o muro onde as letras iam tormando forma.
Eu pichava perto da esquina, eles de olheiros na transversal. Num certo momento tive a impressão de que passou um veículo qualquer na rua de cima. Amâncio veio todo agitado:
— Po. . .lícia..
Fração de segundo seguinte, descíamos a rua na direção oposta. Amâncio e eu à frente, Etelvino um pouco atrás. Mandei ele esconder o saco plástico atrás de uma árvore. Andávamos rápido e, a um quarteirão dali, senti a tensão começar a relaxar.
— O que que a gente faz? Amâncio tinha a voz desfalecida.
Tentando manter a calma respondi:
— Agora tá tudo bem. Fica tranqüilo negão que tá tudo.
Batendo pinos e cantando pneus surgiu da esquina à nossa frente o camburão. Dera a volta no quarteirão e agora freiava em cima de nós.
Pularam os homis. Vulto de japona azul marinha, boina, cara chapada de assassino e um 38 engatilhado.
— Encosta aí ô malandro!
Putaquepariu, vou cair, vou c-a-i-r.
Não vou cair porra nenhuma, pernas prá que te quero! Os primeiros dois passos foram hesitantes mas, no segundo seguinte, eu voava.
— Pára seu safado!
Queima o filhodaputa!
Passei a três metros e ele mandou bala — pá! pá! pá! — cheiro de pólvora no ar. Estava muito perto mas errou. Eu dobrei a esquina e ele perdeu o campo de fogo.
Quando recuperou eu já ia a mais de vinte metros e a essa distância você não me pega, seu tira filho da égua. A rua de casas baixas e árvores era mal iluminada, a barriga deles já passava dos trinta e eu corria pela vida. Tiros.
O medo enorme tapava a garganta, mas as pernas compridas e fortes me jogavam rumo à salvação. Mais tiros.
Olhei prá trás para ver onde estavam. Virei a cabeça em pleno pique...
Vi o chão subindo, num tombo cinematográfico. Dor aguda no joelho e no antebraço. E lá vinham de novo os homis.
Levantei o 32. Minha mão tremia.
Curvados e lépidos os dois tiras foram se cobrir atrás duma árvore e eu não puxei o gatilho. la errar, não queria desperdiçar munição e o cagaço não estava lá pra esses faroestes. Corri de novo.
Dobrei uma esquina, outra, eles ficaram prá trás. Pulei o muro de uma casa e me enfiei debaixo de uma Kombi. Raciocinar, manter a cabeça fria. Eles passaram pela rua e não me viram.
E se o dono da casa aparecer? Senti a disposição necessária para rendê-lo se fosse o caso. O mêdo diminuia, mas o corpo parecia soltar fagulhas de adrenalina.
Dei um tempo, pulei o muro de volta e sai andando na direção da Av. Brasil.
E Amáncio? Amâncio caiu, vi de rabo de olho, numa fração de tempo- Na hora em que o cambura freiou e os homis saltaram pelas duas portas, ele jogou fora o spray dentro de uma casa fazendo um escarcéu dos diabos. Ficou paralizado, grudado à calçada quando corri.
Etelvino? Estava mais em cima, mas deve ter caído também.
A passos rápidos e silenciosos continuei pela rua que acabou no muro da Companhia de Águas e Esgotos à margem da avenida e que tem aquele negócio curioso no meio, parecido com uma roda gigante de parque de diversões. Diz que é pra tratar a merda. .
A rua paralela era precisamente a do trágico encontro com os homis. Raspando os muros fui até lá e olhei. Ao longe ouviam-se ainda as vozes deles, o motor da Ford F-100, parada. As luzinhas vermelhas da traseira, olhinhos de sangue brilhando no fundo da rua escura.
Será que chamaram reforço pelo rádio? Imaginei a zona cercada por tremendo aparato, as ruas passadas a pente fino. Tinha que sair dali, rápido, pegar um ânibus na Av. Brasil.
O portão da companhia estadual da merda estava entreaberto. De 32 em punho — se o vigia aparecer, rendo ele — atravessei um enorme pátio de terra. Estava tudo escuro e me senti melhor. Cheguei ao muro junto à avenida.
Era baixo, uns dois metros apenas. Pulei prá Av. Brasil e fui correndo até o ponto de ônibus onde acabava de parar o Rodoviária-Caxias, abençoado.
Subi e sentei no banco de trás, olho atento na retaguarda. Afinal parece que não caí.
O coletivo parou na Rodoviária Novo Rio. Desci e fui prá fila dos táxis. Chegou a minha vez, e entrei mandando seguir pro Flamengo, quando uma mão segurou o meu ombro pela janela. Era um enorme soldado da PM...
Me entregou, ato contínuo, uma papeleta onde indicava telefones para “quaisquer queixas do serviço de táxis”.

Nenhuma queixa não seu guarda, o táxi é maravilhoso, o motorista simpaticíssimo.
Tinha que limpar a casa, de novo. Depois da minha volta tinha trazido só o material indispensável. Era pouca coisa, mas tinha que ser tirada. Rascunho de panfletos que fizer prá “semana”, uns números da revista clandestina da COLINA, América Latina Rebelde e uma apostila de medidas de segurança.
Nem Etelvino, nem Arnâncio sabiam o meu nome completo ou endereço, mas estes dados figuravam nas fichas de colégio. De manhã já poderiam descobrir.
Cheguei em casa, arrumei as coisas e telefonei para o aparelho da vó do Carlinhos.
Eram quase quatro da matina quando cheguei. Ele me esperava na portaria, muito excitado com o revólver da guerra do Paraguai na cintura, não sei bem por que.
Contei-lhe os detalhes do drama, já antecipado pelo telefone, ele ouviu de olhos arregalados. Ficamos o resto da noite conversando e bolando uma maneira de recuperar a outra arma.
Dormi angustiado e acorei umas horas depois. Fui procurar os demais companheiros da OPP. A aventura impressionou todo mundo, era o nosso primeiro quase-tiroteio com a repressão. Mas com dois companheiros presos e uma arma perdida, eu era passível de severa crítica.
Carlinhos, cheio de idéias, mandou um casal secundarista do grupo de estudo que dava assistência, procurar o saco de plástico branco debaixo de uma árvore, na rua que eu tinha indicado sobre o mapa.
Não acharam.
Decidimos ligar pro trabalho de Amâncio para ver se lá já sabiam de alguma coisa. Ele discou, chamou pelo companheiro. Foram ver se estava...

— Alô?

— Amâncio??? Pô, é você?!

 

UM TAL DE PERIQUITO

Era o próprio e sussurrava pelo telefone:
— Tudo bem, mais tarde a gente se vê e te conto tudo.

Fim de tarde nos encontramos no centro. Tomei algumas precauções temendo uma cilada. Olhei bem o bar, de longe. Lá estava ele aparentemente bem, tomando o seu café ao balcão. Em volta pouca gente, ninguém suspeito. Ninguém nos carros estacionados, nem nas esquinas.
Entrei e nos abraçamos efusivamente. Sentamos à mesa, eu impaciente pra ouvir a sua estória.
— Quando você correu dois saíram, mandando chumbo atrás e o terceiro me ganhou. Encostou a máquina e me pós de mãos ao alto contra o muro. Ainda vi quando o chofer saiu com o cambura atrás do Etelvino que conseguiu sumir. Me deram umas porradas, algemaram e jogaram prá dentro. Os homis eram da Invernada de Olaria, tudo do esquadrão. Me puseram numa sala. Veio o delegado:
— Ó seu filho da puta, tou sabendo que malando da sua espécie num gosta de dar o serviço. Mas aqui com a gente não tem essa. Só vou perguntá uma vez, só umazinha. Se não contá tudinho pro papai te penduro aí rnesmo. Depois tu vira presunto. Só vou te perguntar uma vez, umazinha:
CADÊ A BOCA DE FUMO, SEU FILHO DA PUTA???
Não se haviam dado conta, os homis, dos verdadeiros móveis daquele corre-corre, apesar das pichações mais do que visíveis e dos sprays que havíamos jogado fora nas suas barbas! É bem verdade que estavam envoltos em algodão e fita isolante, mas ainda assim o desligamento dos bravos detetives foi impressionante. Estavam convencidos que o louro que fugira era uro notório marginal e traficante das redondezas, um tal de Per quito.
— Foi o Periquito que escapou de novo! Desgraçado! Daonde tu conhece ele, fala senão te rebento.
— Num conhecia não, seu delegado. Veio com mais uro amigo pedir um cigarro. Batemos um papinho. Aí os senhores apareceram e ele saiu correndo. Eu nem mexi. Tenho nada com isso, não. Tou empregado. Trabalho. Olha a carteira profissional, assinadinha da silva, seu doutor.
O delega revistou os seus bolsos e achou a garrafinha de acetona. Cheirou.
— Ahan.. . Tomando pico, né filho da mãe?
— Ó. . . O seu delegado, nenhuma marca — mostrou os antebraços — não sou disso não. Vou contar a verdade pro senhor porque tou vendo que é homem justo. Que ele ofereceu, ofereceu. Era só um baseado de maconha. Não aceitei porque não sou dessas coisas. Mas fiquei batendo papo, pra ver se arranjava companhia. E quanto ao vidrinho, isso aí é acetona, é pra tirar o esmalte das unhas.

E fixou no delega os seus olhos amendoados.
— Ô Geraldão, registra esse aí. Pega o endereço, depois manda embora. É bicha mas trabalha e tá dentro da lei. E você, não se meta mais nisso, viu? Não é hora de estar na rua, lugar de rapaz trabalhador de noite é cama. Rua é lugar de malandro. Vê se não esquece.
— Não seu doutor, pode deixar que não esqueço.
Foi assim que se safou e eu fiquei sabendo que quase levo um tiro nos cornes por conta de um tal Periquito.
Dias mais tarde contei a história ao Minc, num banco de praia do Leme.
— Você tá correndo demasiados riscos. Tem que se preservar pra coisas mais importantes.
Nos encontrávamos esporadicamente e nessas ocasiões eu ficava sabendo de coisas das “outras instâncias”. Coisas importantes.
A “fusão histórica” se concretizara. O Núcleo e a DDD tinham entrado para a COLINA e essa estava em processo de integração com a VPR de São Paulo. A VPR era a organização à qual pertencia o capitão Lamarca, um campeão de tiro e perito de anti-guerrilha que desertara do quartel de Quitaúna levando 72 fuzis FAL.
Ambas organizações tinham sofrido quedas importantes em dezembro e janeiro mas, segundo o Minc, mantinham o seu poderio.
— Temos os melhores quadros militares, as melhores liderariças operárias de São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul, muito dinheiro e muitas ar mas.
Eu vibrava com a notícia da união de todas aquelas organizações. A divisão na esquerda sempre me incomodora. Quanto mais unidos, melhor. Vibrei mais ainda quando me disse o nome escolhido pra organização: VAR (Vanguarda Armada Revolucionária) — PALMARES.
Pegava na mais linda das raízes históricas da luta do nosso povo, a epopéia do Quilombo dos Palmares, dos escravos livres de Zumbi. Com esse nome ia longe, pensei.
Eu não sabia exatamente quais as “outras tarefas” que o Minc fazia mas seus olhos brilhavam quando falava das ações armadas. Contou que há semanas a organização tomara de assalto um quartel da PM em São Caetano do Sul, levando dezenas de fuzis e metralhadoras. Ele não afirmava, mas dava a entender que os assaltos a bancos que se multiplicavam no Rio, nas últimas semanas eram “nossos”.
— E o campo? Era a minha grande preocupação.

Ia bem, obrigado. Já estavam montando a primeira escola de guerrilha rural e já fora escolhida a “área estratégica”, a região onde estouraria o fogo guerrilheiro, onde começariam a ser escritas as páginas de glória do exército revolucionário.
As atuais dificuldades eram passageiras e o sacrifício dos companheiros não seria em vão.
Já eram mais de dez os que tinham dado a vida. Marquito metralhado. Zanirato, o soldado que desertara com Lamarca, se atirara debaixo de um caminhão num “ponto frio” ao qual conduzira os homis que o torturavam. Escoteiro, executado dentro do aparelho. Fernando Ruivo e Domingos da Silva em tiroteio.
A COLINA tivera seus dois sargentos mártires. João Lucas Alves e Severino Viana Colon. O primeiro torturado até à morte no DOPS de Minas. O segundo preso no Estado do Rio e morto no pau na l Companhia da PE na Vila Militar.
Recentemente uma nova vítima: Reinaldo Pimenta, o rapaz que se atirara do alto de um edifício em Copacabana prá não ser preso. Fazia parte do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro) um grupo quase inteiramente destruído naqueles dias, conforme alardeavam as vitoriosas manchetes dos jornais e os ufanistas comunicados da repressão.
Segundo o Minc nós não corríamos esse risco de desaparecer do mapa. A organização já crescera tanto, que era virtualmente indestrutível. Tínhamos tido quedas no começo, quando o pessoal ainda era inexperiente, mas agora as lições tinham sido assimiladas e a estrutura estava muito bem estanquizada. Quedas e mortes sempre haveria, Importava era reduzí-las ao máximo e crescer a um ritmo mais rápido que elas.
Eu, apesar de não pertencer à organização, já me sentia parte daquele excitante mundo de esperança e combate. Ouvia as estórias entusiasmado
Depois dos papos políticos passamos pros existenciais. Ele me contou que estava apaixonado. Uma companheira de São Paulo. Linda. Trepava maravilhosamente e atirava que era um prodigio. Capaz de acertar o olho esquerdo dum mosquito, com uma 44...
— Pô, num vem me contando lorotas. Essa nem o tal de Lamarca!
Me despedi do amigo e subi sozinho o calçadão em obras, pensando que um dia também eu me incorporaria à luta noutros níveis, mais elevados. Naquele momento, porém, eu estava contente com o trabalho da COSEC. A partir do França Junior eu obtivera contatos em outros colégios. Os mais promissores eram da favela da Parada de Lucas. Dois estudantes e um alfaiate que conheciam vários operários.
As subversões do Alex no Pedro II Internato também se desenvolviam. Ele estava entusiasmado e achava que São Cristóvão era como Vbierod, o bairro mais vermelho de Petrogrado.
Carlinhos, Rui e os outros deslocados do nosso grupo de trabalho, zona norte-subúrbios, também estavam otimistas.
Na zona sul, o trabalho igualmente crescia nos nossos bastiões tradicionais e em vários novos colégios.
As ações de propaganda da “Semana Rockfeller” haviam forjado vários novos companheiros. Entre mais de uma dezena de comícios relâmpago, pichações e panfletagens realizados pelos secundaristas da COSEC, dois casos eram particularmente curtidos nos nossos papos de bar.
Um foi a ocupacão do CAp feita por dez companheiros do André Maurois que irromperam pela porta dos fundos, no recreio e fizeram um comício no pátio aberto, junto à cantina- A operação foi conduzida pelo Vic, que discursou pros capianos reunidos no pátio. Uma das companheiras pichou um enorme ABAIXO A DITADURA no muro tantas vezes recoberto de branco e preparavam-se para a retirada quando um dos inspetores tentou segurar o Vic.
Foi Mará, um rapaz tímido e assustado que virou leão e partiu prá cima dele. Deu uma porrada na testa do sujeito com uma barra de ferro deixando-o pelo chão.
Outro feito d’armas, esse mais familiar, ocorreu no viaduto de Botafogo, entre os carros. Um grupo secundarista panfletava os veículos e pichava os ônibus quando um coronel retido no engarrafamento, saiu do carro e tentou prender um dos companheiros. Levou umas porradas e acabou afinando. O ruim da estória é que reconheceu o namorado da filha entre os subversivos e várias pessoas tiveram que sair de casa.
Saímos incólumes da “Semana Rockfeller”, a moral altíssima. Subiu aos píncaros do Himalaia tempos mais tarde, quando, uma bela manhã, soube pelas garrafais das manchetes que haviam raptado o embaixador americano.

p. 104 e 112

 

Carbonário. [Do it. carbonaro, ‘carvoeiro’] S. m. 1. Membro de uma sociedade secreta e revolucionária que atuou na Itália, França e Espanha no princípio do século XIX. 2. P. ext. Membro de qualquer sociedade secreta e revolucionária.

Sirkis, Alfredo. Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida. São Paulo: Editora Parma, 1981.

 

Leia também o post Sirkis conta como sequestrou o embaixador alemão

 

 

Veja entrevistas com ex-guerrilheiros:

IVAN SEIXASCELSO LUNGARETTIFRANKLIN MARTINSFLÁVIO TAVARESÁUREA MORETIVERA SILVIA MAGALHÃESJACOB GORENDERVLADIMIR PALMEIRAAMÉLIA TELLESCRIMÉIA ALMEIDACLÁUDIO TORRESJOSÉ DIRCEUCLARA SHARFJOSÉ ROBERTO REZENDEALFREDO SIRKISFERNANDO GABEIRA.

 

Veja documentários sobre a guerrilha no Brasil:

Documentário Tempo de Resistência: é o mais completo sobre a luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Documentário Hércules 56: sobre o sequestro do embaixador americano

Documentário Brasil: um relatório sobre tortura: feito pelos guerrilheiros trocados pelo embaixador suiço. 

Reportagem sobre a Guerrilha do Araguaia

Veja o documentário 15 filhos de guerrilheiros: Eles falam de suas vidas no meio da ditadura.

Veja o grupo da Revista Subversivos - Histórias em quadrinhos baseada na luta armada.

 

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