Homenagem aos militantes de esquerda mortos e desaparecidos durante a ditadura militar no Brasil

 

Se sobreviverdes a esta época, não vos esqueçais! Não vos esqueçais nem dos bons nem dos maus. Juntai com paciência as testemunhas daqueles que tombaram por eles e por vós.

Um belo dia hoje será passado, e falarão numa grande época e nos heróis anônimos que criaram a História.

Gostaria que todo mundo soubesse que não há heróis anônimos. Eles eram pessoas e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperanças e a dor do último de entre os últimos não era menor do que a dor do primeiro, cujo nome há de ficar. Queria que todos esses vos fossem tão próximos como pessoas que tivessem conhecido como membros de vossa família, como vós mesmos.

Testemunho sob a forca– Julio Fuchik – Edit. Brasil Debates, 1980

 

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         MULHERES

 

  As falas dessas mulheres  cumprem um duplo e significativo papel histórico: fazem justiça às brasileiras, dando ao seu papel na história do Brasil a relevância que efetivamente tem, e servem como um instrumento de luta pelo fortalecimento das liberdades democráticas. A simples leitura de seus relatos dá ao leitor a imediata certeza de que, pela democracia, nenhum filho ou filha deste país fugirá à luta.


NILCÉA FREIRE,
ministra da Secretaria Especial de Políticas
para as Mulheres da Presidência da República

 

 

 

 

 

         HOMENS

 

 

 

...Este livro é um livro de dor. Um memorial de melancolias. Um livro que fere e machuca mentes e corações. Um livro para fazer pensar e fazer mudar o que deve ainda ser mudado e pensado em favor da vida e da verdade...

 

D. PAULO EVARISTO ARNS.

 

 

 

 

 

 

    

 

 MORTES NO EXÍLIO

[...] Meu Brasil que sonha

com a volta do Henfil

com tanta gente que partiu

num rabo de foguete.

Chora a nossa pátria, mãe gentil

choram marias e clarices no solo do Brasil.

Mas sei que uma dor assim pungente

não há de ser inutilmente [...]

 

ALDIR BLANC E JOÃO BOSCO,

​Trecho da música O bêbado e o equilibrista

 

  DESAPARECIDOS

 

Antígona julgava que não haveria suplício maior do que aquele: ver os dois irmãos matarem um ao outro. Mas enganava-se. Um garrote de dor estrangulou seu peito já ferido ao ouvir do novo soberano, Creonte, que apenas um deles, Etéocles, seria enterrado com honras, enquanto Polinice deveria ficar onde caiu, para servir de banquete aos abutres. Desafiando a ordem real, quebrou as unhas e rasgou a pele dos dedos cavando a terra com as próprias mãos. Depois de sepultar o corpo, suspirou. A alma daquele que amara não seria mais obrigada a vagar impenitente durante um século às margens do Rio dos Mortos.

 

                             ANTÍGONA,

personagem de Sófocles, mestre da tragédia grega

 

 

 

          TORTURA

 

[A tortura] é a regressão do homem ao não-humano. A tortura é a negação do humano – e essa é a chave da sua eficácia. A prática da tortura contamina o torturador, destrói seu equilíbrio. O torturador está a todo o momento exercitando aquilo que há de pior nele. Com o tempo ele reforça sua não-humanidade, entroniza como valor seu lado mais podre. Não é possível mais pensar num burocrata que no fim do expediente volta para casa para encontrar sua mulher e seus filhos. Depois de certo tempo o torturador é torturador o tempo todo.

 

   RENATO TAPAJÓS,

Escritor e cineasta; foi militante da Ala Vermelha do PCdoB

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David Furman