Dia 4 de novembro foi celebrado o aniversário da morte de Carlos Marighella. Líder da ALN, Marighella foi assassinado na Alameda Casa Branca em São Paulo. Abaixo eu reproduzo um trecho do livro Olho por olho do jornalista Lucas Figueiredo. Ele comenta partes do ORVIL, livro secreto do Exército descoberto em 2007 (mais detalhes no post Para o Exército PT seria incubadora de terroristas) em que a morte do guerrilheiro é descrita com detalhes.
Nas prisões, sustentava o Orvil, o que havia eram confissões espontâneas. “Com exceção de militantes com formação ideológica mais sólida, a abertura de todo o conhecimento passou a ser uma conduta comum aos presos”, dizia o livro secreto. Dessa forma, 90% ds prisões efetuadas pela repressão seriam fruto da traição de “militantes despreparados e sem convicção’ Dezenas de episódios envolvendo supostos atos de perfídia foram descritos no Orvil— entre eles, um que envolvia nada menos que a morte de Carlos Marighella. Pela versão do Orvil, na caça ao líder máximo da guerrilha urbana país, a repressão foi comendo pelas beiradas até que, em outubro de 1969, pôs as mãos em Paulo de Tarso Venceslau, importante dirigente da ALN. Levado para a sede da Oban - a Operação Bandeirante, organismo antissubversão de São Paulo que serviu de modelo para os DOI—Codi em todo o país—,Venceslau de início teria negado no interrogatório qualquer ligação com a ALN. Mas por fim, contava o livro secreto, “pressionado insistentemente” com uma pergunta (“Como faria contato com a organização caso fosse colocado em liberdade?”), o guerrilheiro acabou confessando que discaria o número 62.2324, do Convento dos Dominicanos, no bairro Perdizes, e falaria com certo frei Ivo. (A história real é bem diferente: Venceslau foi triturado na Oban, entrou em coma e por pouco não morreu. Apesar de ter o número do telefone do convento anotado no talão de cheques, a pista passou desapercebida pelos agentes da Oban.) No dia seguinte à prisão de Venceslau, frei Ivo (Yves do Amaral Lesbaupin) foi detido junto com frei Fernando de Brito, outro dominicano que rezava pela bíblia de Marighella. Na descrição do Orvil, os religiosos “fraquejaram diante da realidade da prisão e do desmascaramento” e terminaram por abrir boa parte da estrutura clandestina da ALN. Confessaram que, quando desejava fazer contato, Marighella ligava para a livraria Duas Cidades, onde trabalhava um dos frades. “Colaborando” com a repressão, segundo o Orvil, dois dias depois de ser preso o contato de Marighella foi levado para a livraria. Na hora marcada, o frade atendeu o telefonema do guerrilheiro e, utilizando códigos, combinou um encontro.
No horário combinado, sob a mira dos agentes da Oban, frei Fernando e frei Ivo pararam o Fusca no local acertado com Marighella - o número 806 da alameda Casa Branca, nos Jardins —, servindo de isca viva na armadilha montada para agarrar o veterano comunista, de 57 anos. Quando Marighella entrou no carro e tomou assento no banco traseiro, os religiosos saíram correndo, abrindo espaço para a fuzilaria que matou o líder da ALN. (É fato que Fernando e Ivo forneceram as informações sobre o sistema de segurança de Marighella e participaram do teatro na livraria Duas Cidades e na alameda Casa Branca. Mas classificar o ato puramente como fruto de uma “fraqueza” não exprime tudo o que aconteceu. Fernando e Ivo falaram numa sessão de tortura comandada pessoalmente pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, no quinto andar do Ministério da Marinha, onde funcionava o Cenimar. No início do interrogatório, os religiosos ainda tentaram resistir, dando informações falsas. Mas, como estavam em câmaras de tortura separadas, era fácil para Fleury descobrir que estavam mentindo, pelas contradições existentes entre um depoimento e outro. O que os fez “fraquejar” foram o pau de arara, os choques e espancamentos. Fernando teve o maxilar deslocado, e enfiaram uma espécie de arame na sua uretra. Ivo foi surrrado com um cano de borracha, levou chutes e murros. Ao omitir as “técnicas” de investigação empregadas, os agentes-pesquisadores do CIE jogaram toda a responsabilidade sobre os ombros dos frades. O título do capítulo aliás foi feito sob medida para a trapaça: “Os dominicanos levam Marighella à morte”.
O delegado que martirizou os frades e comandou a execução de Marighella recebeu do Orvil tratamento de herói. Fleury - líder do esquadrão da morte de São Paulo no início da década de 1960, requisitado pelos militares para atuar no DOl-Codi justamente por causa de sua eficiência em caçar e matar seres humanos - foi retratado no livro secreto como “incansável lutador contra o terrorismo no Brasil”. A exemplo do delegado Octavinho, Fleury foi chamado de “doutor”.
Figueiredo, Lucas, 1968
Olho por olho: os livros secretos da ditadura / Lucas Figueiredo. - Rio de Janeiro: Record, 2009.
A MORTE DE MARIGHELLA: FILME BATISMO DE SANGUE
Cena do filme "Batismo de Sangue" (2007), de Helvécio Ratton, baseado no livro homônimo de Frei Betto, em que Carlos Mariguella é assassinado pelos agentes do DEOPS paulista.
HOMENAGEM A MARIGHELLA
Ex-companheiros de Carlos Marighella (ALN) prestam homenagem no dia 4 de novembro, em memória ao seu assassinato em 1969 pelas forças militares. Além das flores diante de uma pedra que marca o local exato da morte, militantes fizeram uma troca simbólica das placas da Alameda Casa Branca para Alameda Carlos Marighella, em São Paulo.
POESIAS DE MARIGHELLA
Liberdade
Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.
Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.
Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”
São Paulo, Presídio Especial, 1939
O país de uma nota só
Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a idéia que puseram no cárcere.
A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.
Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó...
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...
de uma nota só...
Rondó da Liberdade
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre