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Sirkis conta como sequestrou o embaixador alemão Tags: Alfredo Sirkis Sirkis guerrilha embaixador alemão Ludwig Von Holleben Carlos Minc Bacuri ditadura militar comunistas VPR Lamarca

 

Sirkis conta como sequestrou o embaixador alemão

 

Sirkis durante a clandestinidade Embaixador alemão Von Holleben

 

Acredito que quase todos os brasileiros saibam quem é Alfredo Sirkis, um dos mais conhecidos políticos do Partido Verde – PV. Mas com certeza poucos conhecem seu passado como guerrilheiro durante a ditadura militar. Ele fazia parte do “aparelho” mais procurado do país. Graças a Sirkis e outros companheiros, 110 pessoas que estavam sendo torturadas foram salvas em troca do embaixador alemão e depois do suíço. Reproduzo aqui trecho de Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida. Livro no qual Sirkis narra de modo eletrizante como um estudante secundarista se torna guerrilheiro urbano; os dilemas de Lamarca e a crise e destruição da guerrilha.  

 

Gostaria sim é que nunca mais na história do Brasil se repetisse uma situação de opressão sangrenta, sufoco total e fechamento brabo que levasse uma geração de jovens a tomar as armas. 

Sirkis, prefácio de Os Carbonários

 

NA KOMBI DO TRANSBORDO

Me acomodei no chão da kombi, atrás, junto a um caixote de madeira, mesinha, umas cadeiras de armar e dois tapetinhos enrolados. Onório arrancou aos solavancos. Dirigia mal, nervoso. Ivan ao seu lado, não ligava prá isso, com o corpo voltado para trás dava as instruções.

Negro, baixo e sólido, tinha dentes alvos bem afilados, um cavanhaque pixaim, visível contra a tez escura e um par de olhos audazes. Era seco e lacônico nas dicas:

- Vai ser às seis em ponto. Ele sai da embaixada quinze minutos antes. É muito pontual. Quinze prás seis temos que estar no local do transbordo. Bacuri comanda a ação e vem com a gente e o homem pro aparelho. É hoje de qualquer maneira. Ou vai ou racha.

Hoje de qualquer maneiro. A excitação e o medo misturam-se sob o meu nervosismo controlado. Pensava nos companheiros presos e me sentia cem por cento decidido. Prá aliviar a tensão ficava gozando as barberagens do Onório.

Onório eu conhecia desde a época das assembléias de AMES. Era um dos secundaristas do PCBR com os quais tínhamos intermináveis polêmicas plenário adentro. Não perdera o jeito meio anal, nem aquela ânsia compulsiva de auto-afirmação, que tropeçava cruelmente na sua tão patente fragilidade.

Tinha, como eu, 19 anos. A mesma imaturidade e inexperiência, faltava-lhe aquele mínimo de formação intelectual, prá absorver e racionalizar melhor as coisas. Parecia não se fazer perguntas, nunca.

Politicamente era um desastre. Via o país em franca conflagração revolucionária, prestes a explodir. Fazer revolução era sair por aí queimando milicos na rua.

Entrara para a organização, há pouco, juntamente com outro companheiro, originário do PCBR, o Van. Desde o início tivemos um mau relacionamento e constantes atritos de tipo machista.

Fiquei alarmado com o fato dele ser o chofer da kombi do transbordo, missão vital da qual dependia a chegada segura e a entrada discreta no aparelho, com o peixão a bordo.

Reclamei com Ivan que comandava o transbordo, mas ele retrucou com evidência inquestionável:

- Os três motoristas bons que temos estão escalados para a ação lá embaixo. Você é o único que fala inglês, tem que ficar com o homem. Eu não dirijo.

Ivan vinha do antigo comando Lucas, agora integrado junto com o nosso na UC, Juarez de Brito. Originário da antiga VPR, de São Paulo, era filho de uma família operária de Osasco.

Valentão, arrojado e cheio de si, desprezava abertamente os quadros de origem pequeno-burguesa afirmando sua origem de classe. Embora tenha entrado prá organização do colégio secundário, sem passar pela produção, reivindicava orgulhoso a sua condição operária.

  Em termos de análise de conjuntura, abraçava sempre as teses mais voluntárias, revolução para ele era uma questão de culhões. Na onde de quedas de início de 69, em São Paulo ele foi preso através do irmão. Levou choque elétrico e porrada, mas acabou sendo solto, pois convenceu-os que mantinha apenas laços familiares com o mesmo e que este o declara transtornado pelas torturas. Como não houvesse nada mais a incriminá-lo foi solto.

Ficou assim com a auréola de bom comportamento na prisão e o status que isso comportava. Chefiava um dos GTAs do antigo comando Lucas. O outro era dirigido por Clarisse, companheira de Minc, antes de sua queda, a sua musa da  44. Ela assumiu o comando da nova UC Juarez de Brito.

Estávamos em junho, plena copa do mundo. A organização precariamente reestruturada. A crise financeira que levara alguns companheiros a “fazer” um depósito da Kibon no Lido, fora finalmente superada com uma vultosa ajuda proveniente de São Paulo.

O GTA combinado, integrado pelos remanescentes da VPR, pela ALN e pelo MRT tinha realizado uma aparatosa ação de banco, em pleno centro de São Paulo. Rendera 150 milhões velhos, dos quais 30 foram para o Rio, apoiar a nossa ação.

Com o providencial presente montamos várias infras, pagamos os aluguéis atrasados de tantos quartos e melhoramos nossa documentação periclitante.

Pretendíamos realizar o rapto “em frente” com a ALN. O velho Toledo, sucessor de Marighela, com quem Daniel tivera uma reunião em São Paulo, mandou para o Rio dois combatentes experimentados. Um era o Bacuri que deveria chefiar militarmente a operação, o outro Milton, era um antigo cabo do exército.

Bacuri era um dos mais façanhudos. Já se safara de várias situações incríveis, inclusive um bloqueio de rua da OBAN, abrindo caminho à bala. Vivia bolando golpes de guerra psicológica, gênero telefonar para o DOPS denunciando um assalto a banco por terroristas disfarçados de PM e depois ligar prá PM dando o alarme da ação promovida por falsos policiais à paisana. Mais de uma vez a coisa acabava em tremenda balaceira entre os homis de gatilho fácil. Bacuri tinha mais de uma morte nas costas e estava jurado pela repressão.

Até sua chegada no Rio nossos preparativos eram enbananados por constantes dificuldades. A operação do embaixador alemão fora descoberta pelos órgãos de segurança durante as nossas catastróficas quedas de abril. Caíra no aparelho de Juvenal, depois de sua morte o plano completo. /fora estourado, inclusive, o aparelho destinado a guardá-lo, a cargo do grupo do Cerveira.

A sua segurança, antes a cargo de apenas um guarda-costas, foi reforçada por mais dois que vinham numa Variant armados de INA. Sempre ligadões, pareciam muito treinados. Além disso, depois de certo tempo a repressão reforçou as rondas do trajeto da Mercedes, entre a embaixada em Laranjeiras e a residência em Santa Tereza, mas acabaram se convencendo que nunca iríamos fazer uma operação que já caíra e cujo plano original conheciam em detalhes.

Por isso mesmo decidimos tentar.

Na kombi, às cinco da tarde, ainda fazia calor, mas, vez ou outra, sentia uns calafrios. Ta chegando a hora. Por vezes um torpor gostoso aliviava a tensão. Minha primeira ação armada, logo qual...

Passamos por um posto de gasolina no Rio Comprido, e Onório mandou encher o tanque. Previdente, desci e fui procurar uma latrina limpinha. A coisa mais chata que pode acontecer é um sujeito entrar numa ação com vontade de cagar, pensei. Antecipei-me à natureza. Limpei o rabo, puxei as calças. Peguei o revólver do chão junto à privada e, pela enésima vez naquele dia, repeti o ritual: tirar as balas, rodar o tambor, dar uns tiros a seco, mirando prá maçaneta da porta, depois recolocar uma por uma.

Com o 38 de volta na cintura e o zipper do jaquetão verde puxado, voltei à kombi.

Partimos em direção ao local do transbordo, subindo. Atravessamos o curto túnel ao sopé da ladeira.

Bem junto à saída, do lado de Santa Teresa, a ruela de paralelepípedos. Tinha umas casas chiques bem espaçadas com altos muros brancos.

Depois de duas curvas acabava à bordo de um morro, perto de um despenhadeiro. Por ali transitavam apenas o poucos moradores e respectivos domésticos. Raramente aparecia alguma ronda, ainda que a estrada do túnel fosse bastante policiada. O beco não era fácil de reparar pros carros que entravam e saíam daquela caverna de ladrilho e luzes, a alta velocidade.

Onório foi até o fim da rua, fez o balão e voltou para o início estacionando antes da curva, junto à murada. A casa mais próxima, protegida por um paredão muito branco, ficava uns dez metros atrás de nós. Aruá estava deserta.

Na rádio o jogo Inglaterra e Tchecoslováquia, válido pras oitavas de final, na chave do Brasil.

Noventa milões em ação/ Prá frente Brasil/ Saaalve a Seleção/De repente é aquela corrente prá frente... o jingle da copa volta e meia interrompia o locutor e zanzava no ar, como o som da flauta do encantador de serpentes.

17,50 hs. Escurecia rapidamente e eu curtia um torpor agradável. Apaguei o cigarro no chão, junto ao caixote. Será que o homem cabia? Quanto mais eu olhava para aquilo menor parecia. As tábuas toscas pregadas com pequenos espaços, à guisa de respiradouro eram de um áspero amarelento e cheirava a madeira nova.

Cinco pras seis. Primeiro comentário de João Saldanha sobre o placar zero a zero.

A essa hora já fechou o esquema lá embaixo...

Êta joguinho chato. Dessas equipes nenhuma é páreo pro Brasil, passamos às oitavas de letra.

Tudo escuro. O que dava um estranho conforto. Acendi mais um cigarro, desatento ao jogo.

Seis horas...          

           

CAIXOTE DIPLOMÁTICO

Seis e cinco, e dez, e vinte.

Seis e meia. Partida no segundo tempo, sete guimbas na latinha à guisa do cinzeiro, ponteiro fosforescente subindo devagarzinho as marcas da paciência. Discussão besta com Onório.

Ele cismava que a metralhadora Thompson devia permanecer debaixo do banco do chofer, só ele podia usar.

- A bichinha fica comigo.

- E se der bode o que acontece? Você acelera a Kombi, simultaneamente mira com o olho do cú e aperta o gatilho com o dedão do pé? Essa porra é pra usar...

Onório me mandou à merda. Aquilo era como um totem para ele, um símbolo fálico. Ivan entrou cortante na discussão:

- Cala a boca os dois! Fico eu com ela até chegar o comandante da ação, aí passo para ele.

E a Thompson, 45, sem cabo, pivot daquele barulhento conflito de autoridade, andou uns trinta centímetros prá a direita, sob o assento da frente.

Ficamos em silêncio, ouvindo o locutor da rádio globo. Eu já não queria saber daquele jogo. A sensação boa de torpor tinha sumido, sentia apenas uma ansiedade tenebrosa. Tentei ficar pensando em Tânia, pois era a única coisa que podia aliviar um pouquinho. Mas não conseguia reter na mente sua imagem. Então analisava novamente a ação.

Ia dar certo, tinha que dar certo. Vai ou racha, no esquema lá embaixo eu confiava cabalmente. O transbordo é que era longo e o Onório imprevisível. A Kombi não podia ser vista naquele beco escuro e, depois, a entrada do caixote no aparelho tinha que ser muito discreta. Durante alguns dias tudo dependia da casa não ser localizada. Porque dali não haveria recuo...

Tratei de elevar o meu ânimo. Pensar na boa notícia que chegara na antevéspera: o reaparecimento de Lamarca e seu grupo. Tinham conseguido romper o cerco do Vale da Ribeira e chegar a São Paulo. Saíram na cara de pau através dos bloqueios, estritamente vigiados da rodovia, a bordo de um caminhão do Exército, vestindo as fardas de um sargento e quatro soldados rendidos numa silenciosa incursão.

Deixaram os militares incólumes, amarrados e amordaçados, no compartimento de trás, em pleno centro de São Paulo, enquanto saíam pela cidade, em busca de algum simpatizante que lhes desse guarida. A maioria dançara durante as quedas de abril e a primeira casa que tentaram estava queimada. O caminhão fora rapidamente localizado e a repressão vasculhava a cidade, em particular as casas de parentes e amigos conhecidos dos cinco fugitivos do Vale.

Assim, apenas se despediam do apavorado simpatizante, deram de cara, no hall do edifício, com uma equipe de oito agentes da OBAN, um dos quais colega de Lamarca, que o reconheceu imediatamente.

O encontro teve veia cômica. Os homis, pouco dispostos a um tiroteio naquelas condições, recuaram para a rua em busca de reforço enquanto os companheiros fugiam para o outro lado, escadas acima pro terraço e de lá, de telhado em telhado, até o outro quarteirão, onde desceram à rua, são e salvos, a busca do simpatizante seguinte.

Depois de variadas outras peripécias, terminaram arranjando guarida e conseguiram fazer contato com o MRT de Devanir. Este acolheu Lamarca no seu próprio aparelho e mandou emissário ao Rio. /veio trazendo mais dois nomes para o listão dos 40. O sargento Nóbrega e o Edmauro, ambos capturados no Vale da Ribeira.

Trouxe também dois presentinhos de Lamarca. Uma pistola 45 para Daniel e uma INA destinada a reforçar o grupo de cobertura, encarregado da Variant da escolta do diplomata.

18,50 hs. Já passaram cinco minutos da hora prevista para a desmobilização do esquema lá embaixo. Mais um adiamento?

Era a segunda vez que mobilizávamos tudo prá operação. A outra fora suspensa no último momento porque aparecera um camburão. Agora já passavam 50 minutos da hora prevista. Me assaltou repentina a convicção de que tinha entrado areia de novo.

- Vamos ficar mais meia hora. O Bacuri tinha que vir desmobilizar a gente. Ivan se antecipou à minha pergunta.

Merda, mais meia hora nessa Kombi, com as pernas doendo de ficar sentado. Tou ficando com claustrofobia.

Saco... Negócio é concentrar no jogo. Pensar na Copa. Noventa milhões em ação/Prá frente Brasil/Saaalve a Seleção...

Acendi mais um cigarro e me ergui pra esticar um pouco as pernas e olhar a rua escura. Ia sentando de novo quando estouraram na minha vista os faróis vindos de trás da curva. O Opala azul metálico, saído de um filme de ação americano encostou do nosso lado. A porta se abriu. Era o Bacuri de camisa aberta, blusão e cabelo esvoaçante, 38 na mão. Dentro do carro o chofer e dois vultos no banco de trás.

- Caixote!

Num piscar de olhos abrimos as portas laterais da Kombi e colocamos no chão. Daniel surgiu na minha frente trazendo pela mão um senhor muito comprido de terno cinza e olhos míopes assustados. Reconheci facilmente o embaixador da Alemanha, que já vira num noticiário de cinema, depositando flores no monumento dos Pracinhas. Peguei os óculos dele, que o companheiro me passou e apontei para o caixote aos seus pés.

- Inside please. Its Just a short trip, soon we’ll reach a house. You are going to be treated. (Para dentro, por favor. É uma viagem curta, logo chegaremos numa casa. O senhor será bem tratado.)

O inglês saiu cerimonioso, protocolar.

- Inside? Perguntou balbuciante. Depois, sem aguardar a confirmação, acomodou-se. Tinha quase um metro e noventa e eu temia que não coubesse, mas estava tão assustado que até em caixa de fósforos caberia.

Ajudou a fechar a tampa e suspendemos de novo o precioso cubo de madeira, para dentro da Kombi. Bacuri sentou à frente, junto a Ivan e deu as ordens enérgico:

- Vam’bora Onório! Guia com atenção rapaz, não precisa correr! Você aí, senta no chão direito, não olha pra fora e dá assistência ao homem!

Levantei um pouco a tampa com o propósito de tranqüilizá-lo. Saíamos do beco dobrando para o túnel cujo teto ladrilhado e luzes surgiram no vidro em cima, quando fui projetado contra o caixote por uma violenta freada.

Outros carros brecaram histéricos atrás de nós, fechados pela entrada precipitada da Kombi, suas buzinas estridentes como címbalos de desgraça  ecoavam túnel adentro junto com as imprecações dalgum chofer.

- Calma rapaz, calma... Era o Bacuri tentando serenar os nervos de Onório e prevenir as maiores cagadas.

Sumiram as luzes do túnel e senti que descíamos a sinuosa ladeira em direção ao Rio Comprido.

Onório acelerava bruscamente, arranhava as marchas, ia embalado pelo trânsito que até não parecia dos piores. Prá mim o mais chato era não poder olhar para o lado de fora, ver onde estávamos.

- Don’t be afraid. Soon we’ll reach a house. You’re gonna be OK. Como resposta apenas a nuca dele, impassível, pela fresta da tampa que eu mantinha suspense de uns centímetros. Imóvel, silencioso, nem parecia respirar. E se tivesse um enfarte? Nova preocupação me assaltou. Do levantamento constava uma robusta saúde germânica. Mas o coração nunca se sabe...

- Tudo tranqüilo, pessoal! O mais difícil já foi, agora é barbada! – Era o Bacuri com seu pensamento positivo, de olho constante na retaguarda.

Vinte minutos irreais. Trafegávamos agora por algures nos subúrbios, sem demasiados percalços, os sinais verdes a nosso favor. A noite era cortada regularmente pelo vai e vem de luminárias dalguma avenida. Eu prosseguia meu monólogo em inglês com a nuca do embaixador.

Deixamos as luzes da avenida por um caminho mal iluminado e estreito com os carros cruzando pela esquerda no sentido contrário. Ouvia-os passar do outro lado da lataria.

Onório acelerou bruscamente para ultrapassar um ônibus. No vidro sobre minha cabeça apareceu, repentina, a massa de ferro colorido, luzes e fumaça de óleo diesel, contra a qual chocamos num fragor metálico que vibrou tudo à volta.

A Kombi resvalou lado a lado no coletivo, enquanto soavam buzinas na contra-mão. Seus pneus da direita descolaram do asfalto por um apocalíptico átimo de segundo, enquanto o caixote andava sozinho pelo chão e do seu interior vinha um esgar de medo.

Mas a nossa lada de horrores não capotou e Onório ultrapassou o ônibus e seguiu em frente desabalado. Crispei o cabo do 38 e tentei pensar em Tânia, numa trepada na praia, prá afastar o medo intenso, desintegrar toda aquela tensão retesada, retorcida no peito. Aí não agüentei mais, ergui o corpo ligeiramente e dei uma espichada de olho prá fora.

Seguíamos pela Av. Automóvel Club perto da fábrica Nova América, das velhas panfletagens, a descoberta aliviou o pânico frio trincado entre-dentes.

- Don’t worry. Everything is OK. We’re almost there. Almost. (Não se preocupe. Está tudo OK. Estamos quase chegando. Quase.)      

 Notícia do sequestro do embaixador alemão - Jornal do Brasil 

Notícia do sequestro do embaixador alemão - Jornal do Brasil

 

TRÊS CÁPSULAS DEFLAGRADAS

Abria a tampa do caixote. Ele ficou imóvel, de cócoras, olhar arregalado para os estranhos vultos de capuz negro a sua volta.

A entrada foi perfeita: a Kombi encostou de lado no portão gradeado. A porta da casa no fundo do pequeno pátio se abriu e Manuel Henrique veio nos ajudar a trazer o caixote. Num abrir e fechar de olhos o depositamos na sala de entrada. Depois, rindo e falando alto, fomos cuidar do resto da mudança.

- Olha as cadeiras. Pegaí a mesa e o tapete, cuidado com o abajur! Não sei se algum vizinho presenciou o nosso teatro. O pequeno lampião da esquina projetava uma luz tênue, cúmplice, sobre a rua de terra batida, meio enlameada e deserta. Não vi ninguém nas janelas das casas vizinhas.

Ele continuava de cócoras no caixote, os olhos muito arregalados, a cara vermelha.

- You can get out of the Box and make yourself comfortable. Over there is your room, your bed. The worse is over. We are sorry for trip inside the box but it was the safest system. Soon I’ll explain you our demands. Everything depends on the brazilian dictatorship, we are shure that that they will release the prisoners, as in both previous case. (O senhor pode sair da caixa e se acomodar. Ali está o seu quarto, sua cama. O pior já passou. Pedimos desculpas pela viajem dentro do caixote, mas, era o sistema mais seguro. Logo vamos lhe explicar quais são nossas exigências. Tudo depende da ditadura brasileira, estamos seguros que vão soltar os prisioneiros, como nos dois casos precedentes.)

- Pergunta prá ele se eram da polícia os dois carros atrás. Era o Bacuri querendo a confirmação do óbvio, para puxar assunto. Ele confirmou e perguntou pelo seu chofer.

- Is Marinho OK?

- O motorista dele?

- O motorista ta legal, só susto, respondeu Bacuri.

Levei o diplomata para o quarto contíguo. Ele sentou na cama, tirou o paletó, pareceu mais tranqüilo. Um encapuçado bem educado, falando inglês, devia ser algo bizarro mas reconfortante naquelas circunstâncias. Era como o Dr. Levingston descobrindo que os canibais em volta do caldeirão falavam língua de cristão. Expliquei-lhes nossas intenções. Ele parecia razoavelmente seguro, consciente da própria importância.

- I’m shure my government Will act as necessary. As for the Brazilian authorities I hope they will do as in the Elbrick affair. (Estou seguro de que meu governo agirá como é necessário. Quanto às autoridades brasileiras, espero que ajam como no caso Elbrick.)

- That’s what we expect also. Look, we don’t like this kind of method but it’s only way to save our political prisoners… You know very well they suffering ali kinds of tortures and some of them are going to be murdered. It’s the only way to save them… (É também o que esperamos. Olhe nós não gostamos deste tipo de método, mas, é o único jeito de salvar nossos presos políticos... o senhor sabe muito bem que estão sofrendo toda a espécie de tortura, alguns deles vão ser assassinados. É a única maneira de salvá-los.)

- I don’t approve torture! I’ve wrote repports to my government about human rights in your country. I’ve even discussed the matter informally with your foreign minister Gibson. He admitted there had been some harsh treatments bur as isolated cases… (Não aprovo tortura! Já escrevi relatórios para o meu governo sobre direitos humanos.no seu país. Até discuti, informalmente, este assunto com o chanceler Gibson. Ele admitiu que houve maus tratos, mas apenas em casos isolados...)    

 - That’s a lie Torture is an institution in our country, not na isolated case. Do you want to see some letters whitten by political prisoners? (Isso é mentira! A tortura é uma instituição no nosso país, não um caso isolado. O senhor quer ver algumas cartas escritas por prisioneiros políticos?)

- No. I would like do go to the bathroom. (Não. Gostaria de ir ao banheiro.)

Coloquei o “documento de Linhares” que lhe havíamos preparado como leitura de volta sobre a mesa e levei-o ao banheiro. A porta ficou quase encostada enquanto ele sentava pra cagar. Pela fresta via-se apenas as canelas muito brancas e compridas, com as calças arriadas. Eu quis fechar a porta mas Bacuri não deixou. A janela do banheiro era baixa e ele podia querer fugir. O comandante muito agitado andava em círculo pelo quarto dos fundos.

- Avisa pra ele que a casa ta cercada e fica de olho nele. Cuidado com ele! É nazistão, no duro! Inscrito no partido nazista, lutou na guerra e tudo. Avisa prá ele que a casa ta cercada e que é melhor ele não tentar fugir.

- Porra deixa o cara cagar sossegado! Depois eu aviso!

O embaixador se limpou, suspendeu as calças e saiu de mangas de camisa do banheiro todo cerimonioso, ar ultrajado. Sentou na cama enquanto Helga, de capuz, servia-lhe chá, salgadinhos, revistas em inglês e Valium 5.

A janela do quarto dele, o maior da casa, dava para o pequeno pátio cercado pelo muro exterior. As venezianas eram cor laranja, com cortinas coloridas e um mosquiteiro protegendo a janela dos olhares lá de fora. Na sala de entrada, junto à porta, ficava o sentinela de turno com a Thompson e duas granadas caseiras, fabricadas pelos “proletas” que pareciam bombas anarquistas do início do século. No quartinho dos fundos atrás da cozinha e do banheiro, havia duas camas onde dormíamos nós, por turnos. Dos cinco, dois sempre estavam acordados de sentinela, no sofá da sala de entrada. De lá vigiávamos a janela do quarto do embaixador, único caminho possível de fuga e a porta.

- Como foi a ação? Deu algum problema?

- Deu. O da Mercedes tentou puxar a arma, meti bala nele. Três tiros. Um pegou na cabeça. Sangue prá todo lado...

Bacuri fez uma careta de desgosto.

- O pessoal da cobertura também atirou. Mandaram uma rajada de INA na escolta, acho que só feriram levemente os caras. Não deu tempo de verificar.

- Merda. Era melhor a ação ter saído limpa. Assim fazem uma tremenda exploração da coisa...

- Também preferia, respondeu. Mas eles quando botam a mão num da gente, não tem esses puridos, não. Matam no pau, devagarzinho, e acham formidável...

Helga irrompeu no quarto prá avisar que já estava dando a notícia no rádio. Corremos pra sala.

- “... terroristas fortemente armados acabam de seqüestrar, em Santa Teresa, o embaixador da República Federal Alemã, Erenfreid von Holleben. Um dos guarda-costas foi morto e outros dois feridos. Os órgãos de segurança já estão desencadeando, em toda a cidade, uma gigantesca operação de busca, para localizar os seqüestradores, que fugiram a bordo de um Opala azul e um Volkswagen vermelho. O ministério de justiça já anunciou para esta noite uma nota oficial sobre os acontecimentos.”

Nada sobre uma Kombi verde, clarinha... A principal pista estava borrada. A coisa não corria mal. Agora tudo dependia apenas de uma coisa: da ditadura ceder às exigências do comunicado que íamos enviar na manhã seguinte. Quarenta presos políticos e a publicação do manifesto.

pp.167-178

 

Assim como no caso do embaixador americano, os militares atenderam as exigências dos guerrilheiros e libertaram os prisioneiros que foram enviados para o exílio na Argélia. Sirkis conta como foi elaborada a lista: os militantes da ALN e VPR eram a maioria na lista mas foram pedidos também os companheiros do MR-8: Fernando Gabeira, Vera Silvia, Daniel e Cid. Por um lapso  não foi incluído Claudio Torres, que participara do sequestro de Elbrick. Do PCBR foi tirado Apolônio de Carvalho. Ângelo Pezzuti da COLINA e seus companheiros do GTA de Belo Horizonte. O nome de Carlos Minc foi colocado na lista para reparar uma injustiça cometida pela organização: Juvenal esqueceu de passar a limpo os bilhetinhos que Minc lhe mandava. Após a queda do aparelho os agentes da repressão compararam a caligrafia e chegaram a Minc. Ele, então, saiu da cela comum e passou a ser torturado correndo risco de ser morto. Como informou no ultimo bilhete que mandara pouco antes de ir para a solitária.  

 

  40 presos políticos libertados  

Os 40 militantes libertados, a moça sentada à direita é Vera Sílvia. Ela ficou temporariamente paralisada devido as torturas.

 

Carbonário. [Do it. carbonaro, ‘carvoeiro’] S. m. 1. Membro de uma sociedade secreta e revolucionária que atuou na Itália, França e Espanha no princípio do século XIX. 2. P. ext. Membro de qualquer sociedade secreta e revolucionária.

 

Sirkis, Alfredo. Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida. São Paulo: Editora Parma, 1981. 

 

Saiba mais sobre luta armada na Seção Guerrilha

Veja a entrevista com Vera Sílvia Magalhães, única mulher a participar do sequestro do embaixador americano.   

 

 

Eduardo Collen Leite, o Bacuri foi um dos homens mais torturados durante a ditadura militar, saiba mais sobre ele e outros guerrilheiros no Memorial Online das vítimas da ditadura 

 

 

 

Veja o filme baseado na História de Carlos Lamarca

Veja o documentário histórico e inédito feito pelos guerrilheiros libertados em troca do embaixador suiço: Brazil: A Report on Torture

Veja como foi o sequestro do embaixador americano no documentário Hércules 56: O Brasil Sob a Ditadura Militar

Veja a entrevista com o líder estudantil Vladimir Palmeira que foi um dos presos políticos libertados em troca do embaixador americano. 

Veja como a guerrilha matou o empresário dinamarquês que finaciava a tortura no Brasil no documentário Cidadão Boilesen

Veja a entrevista com o guerrilheiro Jacob Gorender

Veja a entrevista com o guerrilheiro Lungaretti 

Leia o post: Para o Exército, PT seria incubadora de terroristas 

Agradeço ao jornalista Paulo Henrique Amorim por ter publicado meu email sobre o vídeo em que a Globo exaltava o golpe militar

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